Adriano Dias

Chacina da Baixada ainda provoca medo e insegurança 20 anos depois

Duas décadas se passaram desde um dos episódios mais brutais de violência policial no Brasil, a chamada Chacina da Baixada, mas o trauma e o medo ainda assombram as cidades de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense. Em memória das vítimas, a ComCausa — organização que atua na promoção e defesa dos direitos humanos na região — está contribuindo na mobilização de atividades nos dias 30 e 31 de março. O objetivo é lembrar aqueles que foram brutalmente assassinados, destacar a luta de seus familiares e das instituições, como a Diocese de Nova Iguaçu, que teve um papel fundamental na época, além de refletir sobre a atual conjuntura da violência na Baixada. No entanto, mesmo após tanto tempo, as mobilizações para essas atividades têm esbarrado na apreensão dos moradores das cidades atingidas, especialmente daqueles que vivem próximo aos locais onde ocorreram os atentados. A recorrência das manifestações de medo evidencia que a violência ainda ressoa, tornando o processo de mobilização um desafio. Apesar da condenação dos responsáveis — cujas penas somadas ultrapassam dois mil anos de prisão —, o sentimento entre os moradores é de medo e desconfiança. No Brasil, o tempo máximo de cumprimento de pena é de 30 anos, o que significa que, em breve, alguns dos envolvidos na chacina poderão estar novamente em liberdade. Essa possibilidade alimenta a angústia de quem, de alguma forma, ainda vive sob a sombra daquela noite de terror. O medo que perdura “Eles mataram um monte de pessoas no meio da rua e já devem sair daqui a pouco. Como confiar [na justiça]?”, desabafa uma idosa que mora próximo ao Bar Caique, na Rua Gama, no bairro Cerâmica, em Nova Iguaçu. Ela tem um filho policial militar que ingressou na corporação no mesmo ano da chacina — ocorrida a apenas uma quadra de onde ele morava e onde sua mãe ainda reside. Em Queimados, um comerciante, que também prefere não se identificar, compartilha a mesma preocupação: “Eles estão presos há 20 anos, mas será que vão cumprir os 30? Daqui a pouco, vão estar aqui.” — e completa, sem dar detalhes: “Disseram que até já viram [nome de um dos presos] aqui em Queimados.” Fala isso sem apresentar elementos que comprovem o fato. Outra moradora da cidade afirma: “Eles não são mais da polícia, mas muitos amigos deles continuam fazendo as mesmas coisas (…) alguns até entraram para a política.” Além dessas preocupações, até convites enviados por mensagens de celular — para missas ou outras atividades — recebem respostas marcadas pela apreensão. O trauma que não cicatriza Mesmo com condenações consideradas históricas, o fato de as penas, na prática, serem muito menores do que as anunciadas reforça a percepção de que crimes cometidos por agentes do Estado ficam sem a devida responsabilização. A desconfiança no sistema penal e nas instituições de segurança fortalece a sensação de que a justiça não foi plenamente feita. Essas são cicatrizes profundas deixadas pela Chacina da Baixada. A maior chacina do Rio de Janeiro O massacre ocorreu na noite de 31 de março de 2005, nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Trata-se do maior caso de violência policial registrado na história do estado. As vítimas receberam 96 tiros, e algumas delas foram baleadas 13 vezes. Muitas foram atingidas na nuca e no rosto, para garantir que não sobrevivessem. Entre os mortos estavam crianças, estudantes, comerciantes, desempregados, funcionários públicos, marceneiros, pintores e garçons. Somente uma pessoa sobreviveu. Em Nova Iguaçu, 17 pessoas foram assassinadas; depois, os criminosos seguiram para Queimados, onde mataram mais 12. As vítimas eram civis comuns, incluindo homens, mulheres e jovens, muitos sem antecedentes criminais, atingidos enquanto estavam em frente de casa, conversando ou caminhando. Após investigações, o Ministério Público denunciou 11 policiais militares pelo envolvimento no caso. Cinco foram levados a júri popular e condenados, com penas que chegam a mais de 500 anos de prisão, embora apenas alguns tenham sido julgados até hoje. O caso gerou revolta nacional e internacional, evidenciando problemas graves de violência policial, impunidade e abuso de poder no Brasil, especialmente contra populações pobres e periféricas. Até hoje, a Chacina da Baixada é lembrada como um marco de brutalidade e um símbolo da luta por justiça e direitos humanos no país. As condenações Os principais responsáveis pela chacina, todos policiais militares à época, foram julgados e receberam sentenças severas: Outros acusados tiveram desfechos distintos: Fabiano Gonçalves Lopes foi absolvido da participação nos assassinatos em março de 2008, porém perdeu o cargo público e permaneceu preso por outros crimes. Ivonei de Souza foi absolvido da acusação de formação de quadrilha em 2009. Já o cabo da PM Gilmar da Silva Simão foi assassinado com 15 tiros em 2006, na Vila Valqueire, ele havia acabado de prestar depoimento na 4ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar, quando o veículo Gol em que estava foi metralhado. Violência e insegurança continuam 20 anos depois Hoje, 20 anos depois, a Baixada Fluminense tem mais territórios controlados por narcotraficantes e narcomilícias, que expandiram sua influência em associação criminosa com agentes do Estado — não apenas das polícias. O sentimento de insegurança é agravado pela percepção de que pouco mudou em duas décadas. A violência policial segue como uma ameaça constante na Baixada Fluminense, e a população se sente desprotegida. Saiba de mais detalhes no link da matéria abaixo: Programação em Nova Iguaçu e Queimados A programação terá início no dia 30 de março, às 18h, com uma missa na Paróquia Sagrada Família, no bairro da Posse, em Nova Iguaçu. A cerimônia visa homenagear as vítimas e refletir sobre a necessidade de justiça e transformação nas políticas de segurança pública. No dia seguinte, 31 de março, as atividades se concentrarão em Queimados. A partir das 16h, na Praça Nossa Senhora da Conceição, será realizado um ato público com a instalação de um memorial temporário, exposição de cartazes, acendimento de 30 velas em homenagem às vítimas e leitura solene de seus nomes. Familiares e participantes também terão espaço para depoimentos sobre a luta por

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Memória: Gabriela Sou da Paz

No dia 25 de março de 2003, a estudante Gabriela Prado Maia Ribeiro, de 14 anos, ia pela primeira vez pegar o metrô sozinha, na estação São Francisco Xavier, para saltar uma estação depois, na Saens Pena, quando ficou no meio do fogo cruzado entre um policial e bandidos que assaltavam uma bilheteria. Atingida no lado direito do peito, Gabriela não resistiu e morreu. Na mesma ação, dois policiais ficaram feridos. Quatro bandidos chegaram à estação por volta das 15h30. Dois deles renderam um bilheteiro e dois ficaram na escada, dando cobertura aos cúmplices. Imagens gravadas pelo circuito interno de TV do metrô mostram os dois assaltantes dentro da bilheteria quando o policial civil Renato Lemos Naiff, de Brasília, se aproxima do guichê. Conforme a polícia, ele teria ficado muito tempo observando o movimento dos bandidos, o que provocou a suspeita deles. Um dos assaltantes saiu da cabine, rendeu o policial e o revistou. Quando viu que ele estava com uma arma, o ladrão deu dois tiros em Renato, atingindo-o na região lombar. Em seguida, o detetive Luis Carlos Carvalho, da 17⁠ª. DP (São Cristóvão), que descia a escada de acesso a estação, notou um dos bandidos na cobertura. Quando ele tentou sacar a arma, o assaltante começou a disparar. O detetive, baleado duas vezes, ainda trocou tiros com o criminoso, mas havia outro marginal no alto da escada. Durante o confronto, uma bala perdida atingiu Gabriela, que também descia a escada para entrar na estação, onde havia pânico entre passageiros. Quatro Estações Ficaram Fechadas e a arma do policial não foi encontrada. Após atingida, a estudante chegou a tentar fugir: subiu a escada e caiu na calcada, já do lado de fora. – Ela caiu. Quando eu a segurei, ela ainda estava respirando, mas não respondia – disse a camelô Iradi do Nascimento. Gabriela foi levada para o hospital do Andaraí, mas já chegou morta. Sua mãe, a psicóloga Cleyde do Prado Maia Santiago Ribeiro, esperava-a na Praça Saens Pena e estranhou o atraso. Ao saber do assalto, avisou ao marido, Carlos Ribeiro, que foi a estação, enquanto a mulher seguia para o hospital. Ambos tiveram logo a certeza da morte da filha: ele encontrou os óculos da adolescente na escada e ela recebeu a notícia no Andaraí. Os dois bandidos que estavam na escada de acesso roubaram um Astra e fugiram. Os outros dois fugiram pelas trilhas do metrô. O sistema teve de ser desligado porque os trilhos são energizados e policiais fizeram buscas, mas os marginais escaparam. Devido ao desligamento, as estações Estácio, Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saens Pena ficaram fechadas entre 15h43 e 16h25. O policial de Brasília foi operado no hospital do Andaraí. Ferido na perna e no ombro, o detetive da 17⁠ª. DP foi levado para o Prontocor na Tijuca. Ambos não correm risco de vida. Plano Era Fazer Festa de 15 Anos no Mar Gabriela ganhou, ano passado, o prêmio de destaque do Colégio pH, na Tijuca, por ser uma excelente aluna. Seu pai, o psicólogo Carlos Santiago Ribeiro, de 45 anos, neste ano ia atender a um desejo de sua filha: alugar uma escuna para que a filha comemorasse seu aniversário, em 30 de agosto, navegando com a família e amigos em Angra dos Reis. Quando eu entrar em casa e ver as coisas dela, sentir o cheiro dela, não sei o que vai acontecer. Adianta nos queixarmos do governo? Adianta dizer que estamos sitiados e entregues ao crime? Afinal, o que falta para que alguém acabe com esta violência? – disse o pai. Gabriela, filha única, gostava de flores e cristais. Parecia com a mãe, a psicóloga Cleyde Prado Maia Ribeiro, que é espiritualista. Praticava natação e ginástica em uma academia da Tijuca, onde morava. Nos estudos, planejava cursar veterinária. No hospital do Andaraí, a tia de Gabriela, estava revoltada com a falta de segurança: “Pelo amor de Deus, nos salvem desse inferno” Para a mãe, a morte de Gabriela deve servir para que outros jovens não sejam vítimas da violência. Revoltada, ela dizia aos repórteres: “Mostrem tudo porque talvez alguém tome uma providência e jovens não continuem morrendo inutilmente nas mãos de vagabundos.” No Fim da Linha Inaugurado em 1979, o metrô foi durante anos uma ilha de segurança entre os transportes coletivos do Rio. Enquanto o número de assaltos a ônibus aumentava, o metrô garantia uma viagem tranquila a seus passageiros. O quadro, no entanto, vêm mudando nos últimos anos. Somente este mês, foram registrados três ações violentas de bandidos no metrô. No último sábado, bandidos fizeram um arrastão dentro do vagão. Cerca de 50 passageiros que viajavam na Linha 2 foram assaltados. No último dia 8, dois homens assaltaram a bilheteria de Del Castilho. Arnaldo Mourthé, que foi presidente do metrô em duas épocas distintas – antes e depois – acha que dois fatores contribuíram para a mudança do quadro: o aumento da violência em todo o estado e a redução do pessoal, inclusive na área de segurança, adotada pela concessionária. Fonte: Jornal O Globo – Primeiro Caderno em 26/03/2003. | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________ Compartilhe:

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ComCausa solicita pronunciamentos no Legislativo sobre os 20 anos da Chacina da Baixada

A ComCausa está mobilizando esforços em memória dos 20 anos da Chacina da Baixada e para ampliar o debate sobre segurança pública e direitos humanos no âmbito legislativo. A entidade solicitou pronunciamentos nas Câmaras Municipais de Queimados e Nova Iguaçu, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e na Câmara dos Deputados, em Brasília. A iniciativa visa fortalecer as discussões em torno dos 20 anos da Chacina da Baixada, ocorrida em março de 2005, um dos episódios mais marcantes e trágicos da história da região. O objetivo da ComCausa é honrar a memória das vítimas, reconhecer a luta dos familiares e propor um diálogo construtivo sobre políticas de segurança pública e direitos humanos. Não se trata apenas de lembrar as vítimas, mas de promover um debate que resulte em propostas efetivas para a prevenção da violência e a melhoria das políticas de segurança na Baixada Fluminense. Chacina da Baixada: um marco na luta por justiça A Chacina da Baixada, ocorrida em 31 de março de 2005, foi um dos episódios mais violentos da história recente do Rio de Janeiro. Na ocasião, 30 pessoas foram baleadas e 29 morreram em Nova Iguaçu e Queimados, em uma ação que chocou o país e expôs as fragilidades do sistema de segurança pública. O crime, até hoje não completamente esclarecido, deixou marcas profundas na região e nas famílias das vítimas, que seguem em busca de justiça e reparação. Passadas duas décadas, o episódio continua a ser um símbolo da luta contra a violência e a impunidade. As atividades programadas para março deste ano em Nova Iguaçu e Queimados buscam não apenas relembrar as vítimas, mas também transformar essa memória em ações concretas que contribuam para a construção de uma sociedade mais justa, segura e solidária na Baixada Fluminense. Atividades programadas e expectativas A ComCausa está participando, juntamente com familiares e outras instituições, de uma série de eventos para marcar os 20 anos da Chacina da Baixada. A programação terá início no dia 30 de março, às 18h, com uma missa na Paróquia Sagrada Família, no bairro da Posse, em Nova Iguaçu. A cerimônia visa homenagear as vítimas e refletir sobre a necessidade de justiça e transformação nas políticas de segurança pública. No dia seguinte, 31 de março, as atividades se concentrarão em Queimados. A partir das 16h, na Praça Nossa Senhora da Conceição, será realizado um ato público com a instalação de um memorial temporário, exposição de cartazes, acendimento de 30 velas em homenagem às vítimas e leitura solene de seus nomes. Familiares e participantes também terão espaço para depoimentos sobre a luta por justiça e memória. A partir das 18h, a programação segue no Auditório da Câmara Municipal de Queimados, com o apoio do vereador Professor Catelano, com a solenidade “20 Anos da Chacina da Baixada: O que mudou?”. O evento contará com mesas de debate que abordarão o histórico da chacina, os desafios nas investigações e a conjuntura da segurança pública nos últimos 20 anos. A mesa “Segurança Pública na Baixada Fluminense: Avanços e Desafios” discutirá dados sobre violência na região, políticas públicas e propostas para a redução da criminalidade. Segundo o vereador Professor Catellano, um dos articuladores da iniciativa, “é fundamental manter viva a memória das vítimas e discutir ações concretas para prevenir a violência e garantir segurança à nossa população”. Participação e outras atividades Participarão do evento representantes dos familiares das vítimas, autoridades locais, instituições públicas e especialistas em direitos humanos. Além dessas atividades, haverá outras iniciativas em Nova Iguaçu, promovidas por familiares em conjunto com os núcleos de apoio às vítimas e direitos humanos da Prefeitura de Nova Iguaçu, que ainda não divulgaram suas agendas. Mais notícias | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________ Compartilhe:

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Lucas-Terra-Bahia

Caso Lucas Terra

O caso Lucas Terra ganhou repercussão nacional e internacional após a morte brutal do jovem de 14 anos, em Salvador, em 21 de março de 2001. O jovem foi vítima de agressões sexuais e queimado vivo por um grupo de homens, entre eles um pastor, um bispo, um obreiro, com o apoio de um segurança da sede da Igreja Universal em Salvador. Até o momento, apenas o pastor Silvio Roberto Galiza foi condenado pela justiça, mas o caso ainda está em aberto. O júri popular dos outros acusados, Fernando Aparecido da Silva e Joel Macedo, foi adiado em março de 2020, devido à pandemia de COVID-19, e em 2021 foi aberta uma petição pública pedindo que o Poder Judiciário do Estado da Bahia marcasse a data do Tribunal do Júri. Siga: Apoio Caso Lucas Terra Relembre o acontecido No final de 2000, a família Terra planejava se mudar para Parma, na Itália, onde trabalhariam em um restaurante. Marion, a mãe de Lucas, foi a primeira a partir, viajando de avião do Rio de Janeiro para a Europa nos últimos dias de dezembro. Enquanto isso, Carlos Terra, o marido, e seus filhos, incluindo Lucas, passaram o verão em Salvador, onde um dos irmãos de Lucas residia. Foi em janeiro de 2001 que Lucas Terra, um jovem religioso, começou a frequentar a Igreja Universal do bairro de Santa Cruz, em Salvador. Ele se identificou tanto com o evangelho que dedicava seu tempo integralmente para a obra de Deus, conforme relatado por Marion. Lucas e um grupo de jovens visitavam favelas, distribuíam roupas e tentavam evangelizar crianças. Em conversas por telefone, Lucas confessava a sua mãe que estava desiludido com a Europa e tinha o desejo de permanecer no Brasil. Ele aspirava ser obreiro da Universal, um papel de destaque que ficava um nível acima da posição de assistente de obreiro que ele ocupava. Na prática, um obreiro auxilia o pastor na organização das atividades do templo. Lucas também estava apaixonado por sua namorada, que frequentava a mesma igreja. Seu mentor era o pastor Silvio Roberto Galiza, que liderava a unidade. Testemunhas relataram que o pastor Galiza tinha um comportamento dominador em relação ao jovem. Na noite de 21 de março de 2001, o adolescente estava prestes a realizar seu sonho. Galiza convidou somente Lucas, que fazia parte de um grupo, para ir de ônibus até a sede da Universal na Pituba, a quatro quilômetros de distância da igreja em Santa Cruz, a fim de receber a gravata de obreiro. Em seu depoimento dado em 2008, o assassino Galiza alegou que Lucas Terra teria flagrado os pastores Fernando Aparecido da Silva e Joel Miranda Macedo em um ato sexual no templo da Igreja Universal. Que isso teria sido a razão por trás do assassinato do jovem, de acordo com o testemunho do criminoso. Lucas Terra foi levado à força pelos três religiosos para outro templo da Igreja Universal, localizado em Rio Vermelho, onde sofreu tortura e abuso sexual. Depois, ele foi colocado dentro de um caixote e queimado vivo em um terreno baldio na Avenida Vasco da Gama, em Salvador. O corpo do adolescente de 14 anos só foi encontrado em 23 de março, enquanto seu pai, Carlos, procurava por ele sem comunicar a esposa. Marion só ficou sabendo do assassinato de seu filho mais novo duas semanas depois, e retornou ao Brasil no início de abril. Quando chegou ao país, Marion, mãe de Lucas Terra, aguardou 43 dias até poder enterrar o corpo do filho, já que o Instituto Médico Legal (IML) precisou realizar o exame de DNA. Além disso, a família Terra teve que lidar com a demora no andamento do inquérito, que só foi concluído em outubro de 2001. O pastor Silvio Galiza passou a ser acusado pela morte de Lucas, mas sua prisão não foi decretada, o que só aconteceu após o pai do menino, Carlos Terra, acampar na porta do Ministério Público de Salvador. O processo judicial andava vagarosamente, mas mesmo diante da dor da brutalidade da perda do filho, Carlos Terra e sua esposa Marion não se calaram diante da tragédia que ocorreu com seu filho Lucas Terra. Eles foram às ruas protestar e participaram de palestras para compartilhar o caso. Além disso, enviaram uma carta à Organização das Nações Unidas (ONU) denunciando a demora no processo e questionando como Galiza, que morava na periferia, tinha recursos para pagar um time de advogados. A pressão da família resultou no primeiro julgamento do pastor em junho de 2004. Ameaças da Igreja Nessa época, as ameaças começaram a surgir. Segundo Marion Terra, ela recebia ligações de indivíduos que a intimavam a parar de denunciar a igreja, dizendo que deveria se preocupar com a segurança de seus filhos e que eles estavam manchando a imagem da Universal. Ela afirma que tentaram intimidá-los de todas as formas possíveis. Durante esse período, a família de Marion Terra se mudava frequentemente para se proteger de possíveis tentativas de intimidação. De acordo com ela, a Igreja Universal do Reino de Deus tem trabalhado para impedir a condenação dos três pastores. Condenação de Silvio Galiza No dia 9 de junho de 2004, Silvio Galiza foi condenado a 23 anos e 5 meses de prisão por homicídio triplamente qualificado, abuso sexual, morte e queima do corpo da vítima Lucas Terra. No entanto, após recurso, a pena foi reduzida para 18 anos e depois para 15 anos. Cinco testemunhas foram fundamentais para a condenação. Embora a acusação tenha apontado Galiza como o único autor do crime, a promotora Cleusa Boyda expressou a sensação de que havia mais pessoas envolvidas, enquanto o promotor Davi Gallo afirmou que seria impossível para Galiza ter cometido o crime sozinho. Silvio Galiza acusa outros pastores da Universal Em 2006, durante uma entrevista no programa Linha Direta, Galiza apresentou uma nova versão do crime, como já havia feito em outras ocasiões. Ele estava acompanhado de sete advogados e sempre alegava sua inocência, mas desta vez acusou outros três membros da igreja: o

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Escultura no Praça de Volta Redonda - 09 de novembro 1988 ComCausa

CEMESF: um patrimônio da memória, da cidadania e da democracia

O Centro de Memória do Sul Fluminense (CEMESF) Genival Luiz da Silva  é uma instituição de referência no campo da preservação histórica, cultural e social do Brasil. Vinculado ao Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS) da Universidade Federal Fluminense (UFF), campus Volta Redonda, foi criado em 19 de março de 2015, resultado da mobilização de professores, pesquisadores, estudantes e integrantes da sociedade civil organizada. O CEMESF nasceu para atender a uma demanda antiga por um espaço de memória que fosse democrático, acessível e comprometido com a valorização de vozes e experiências muitas vezes silenciadas nos registros oficiais. Seu objetivo é reunir, organizar e disponibilizar documentos, acervos e testemunhos que traduzem não apenas a trajetória do Sul Fluminense, mas também capítulos centrais da história política, social e cultural brasileira. Missão e objetivos O centro atua de forma estratégica na preservação da memória coletiva. Sua missão envolve estimular pesquisas históricas, apoiar projetos acadêmicos e comunitários, e incentivar a produção de novos estudos. Também se dedica a receber e preservar acervos pessoais e institucionais, assegurando condições adequadas de guarda e acesso público. Entre suas atribuições, destacam-se a organização de documentação relativa à região do Sul Fluminense, abrangendo municípios como Volta Redonda e Barra Mansa, incluindo registros iconográficos, orais e documentais de grande relevância. Paralelamente, promove ações voltadas à memória, à cidadania e aos direitos humanos, consolidando-se como espaço democrático de memória e fortalecendo a valorização de narrativas populares e de grupos historicamente invisibilizados. Acervos preservados O CEMESF guarda acervos de grande importância histórica, que compõem um mosaico das lutas, conquistas e tragédias vividas na região. Entre eles estão documentos pessoais de ativistas, trabalhadores, artistas e lideranças comunitárias, além de acervos institucionais da Câmara Municipal de Volta Redonda, do 1º Batalhão de Infantaria Blindada do Exército e, em especial, da Comissão Municipal da Verdade de Volta Redonda (CMV-VR). Outro destaque é o arquivo da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que reúne documentação organizada e digitalizada, essencial para compreender o papel central da empresa na formação de Volta Redonda e nas lutas operárias do século XX. O centro também preserva uma vasta produção acadêmica e cultural, resultante de projetos de extensão, seminários, exposições e entrevistas realizadas por docentes e estudantes da UFF. Nesse processo, merece destaque a participação da ComCausa – Defesa da Vida, organização de longa trajetória em direitos humanos na Baixada Fluminense. A entidade acompanhou ativamente os trabalhos da Comissão da Verdade de Volta Redonda, contribuindo para a coleta de depoimentos, para o registro da memória de familiares de perseguidos políticos e para a articulação com movimentos sociais. Essa atuação reforça a dimensão cidadã do acervo hoje preservado no CEMESF. Estrutura e funcionamento Localizado na Rua Desembargador Ellis Hermydio Figueira 783, Bloco A, Sala 209, no bairro Aterrado, em Volta Redonda (RJ), o centro foi projetado para garantir a preservação dos acervos e, ao mesmo tempo, o acesso público às informações. O espaço dispõe de terminais de consulta abertos a pesquisadores e visitantes, além de estações de trabalho dedicadas à catalogação, organização e digitalização de documentos, operadas por bolsistas e voluntários. O funcionamento é viabilizado pelo apoio institucional da UFF e da FAPERJ, por meio de bolsas de iniciação científica e projetos específicos. A gestão é realizada por uma equipe multidisciplinar formada por professores, estudantes, pesquisadores associados e colaboradores voluntários. A coordenação inicial esteve a cargo da antropóloga Ana Paula Poll, que desempenhou papel fundamental na definição das metodologias e linhas de atuação do CEMESF. Importância histórica e social Mais do que um arquivo, o CEMESF é um espaço de memória ativa, cujo papel impacta diretamente a sociedade. Seu acervo da Comissão Municipal da Verdade de Volta Redonda constitui elemento essencial para o reconhecimento das vítimas da ditadura militar e para a consolidação do direito à memória e à verdade. O centro também preserva a memória operária e industrial da “Cidade do Aço”, marcada pela presença da CSN e pelas intensas lutas sindicais que moldaram a identidade local. Além disso, exerce papel relevante na educação cidadã, aproximando a juventude de sua própria história por meio de projetos educativos, visitas guiadas e atividades em escolas. Outro aspecto fundamental é a resistência à invisibilidade, já que o CEMESF amplia o registro de narrativas populares e de comunidades, combatendo a lógica do esquecimento que muitas vezes domina a história oficial. Desafios Apesar de sua relevância, o centro enfrenta desafios permanentes. Entre eles estão a escassez de recursos para conservação e digitalização de documentos, a dependência de bolsas e subsídios vulneráveis a cortes, e a necessidade de maior visibilidade institucional junto ao poder público e à sociedade. Soma-se a isso a urgência em ampliar o acesso físico e digital ao acervo e garantir condições adequadas de preservação, com segurança e controle climático para materiais sensíveis. Projetos e iniciativas Mesmo diante das dificuldades, o CEMESF tem desenvolvido iniciativas de grande impacto. O projeto Memória e Direitos Humanos nas Escolas leva entrevistas e documentos históricos para estudantes, estimulando reflexão crítica sobre democracia e cidadania. Já os seminários regionais “Memória, Trabalho e Direitos Humanos” reúnem pesquisadores, militantes e movimentos sociais para debater a preservação da memória coletiva. Outra frente é a digitalização de documentos da CSN e de arquivos públicos, que garante preservação e acesso ampliado, complementada pelo registro oral e testemunhal de perseguidos políticos da ditadura militar, recuperando histórias de resistência e coragem que inspiram as novas gerações. O CEMESF é um espaço de resistência, cidadania e transformação. Mais do que guardar documentos, integra a história regional à memória nacional, fortalece processos de reparação simbólica e promove o direito de lembrar como instrumento de justiça. Consolidado como patrimônio coletivo do povo brasileiro, o centro preserva a dignidade da memória e contribui para a construção de um futuro fundamentado na justiça, na verdade e na democracia. ServiçoCentro de Memória do Sul Fluminense (CEMESF) Genival Luiz da SilvaUniversidade Federal Fluminense – Campus Volta RedondaRua Des. Ellis Hermydio Figueira, nº 783, Bloco A, Sala 209, Aterrado – Volta Redonda (RJ)CEP 27.213-145 Imagem de capa ilustrativa Leia também | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto

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Vitímas da Chacina da Baixada - Arquivo ComCausa

Câmara de Queimados realizará atividade em memória das vítimas da Chacina da Baixada

A Câmara Municipal de Queimados realizará, no dia 31 de março de 2025, um evento público em memória das vítimas da Chacina da Baixada, marcando os 20 anos de uma das maiores tragédias da história do Rio de Janeiro. A iniciativa, proposta pela organização social ComCausa com o apoio do vereador Professor Catellano e da presidência da Câmara, tem como objetivo homenagear as vítimas, reforçar a luta por justiça e promover reflexões sobre segurança pública e direitos humanos na Baixada Fluminense. Na noite de 31 de março de 2005, um grupo de policiais militares desencadeou uma série de homicídios nas cidades de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense. Ao todo, 30 pessoas foram baleadas, resultando em 29 mortes, entre elas jovens e crianças. Considerada a maior chacina da história do estado do Rio de Janeiro, o episódio chocou o Brasil e ganhou repercussão internacional, tornando-se um símbolo da violência policial e da impunidade. Alguns dos responsáveis foram condenados, com penas que ultrapassam 500 anos de prisão, mas o caso ainda reflete os desafios da violência institucional no país. A Chacina da Baixada impulsionou mobilizações sociais e se consolidou como um marco na luta contra a violência de Estado. Duas décadas depois, a data segue viva na memória da população como um lembrete da necessidade de políticas públicas eficazes e da garantia dos direitos humanos. O evento na Câmara de Queimados O evento do dia 31 de março reunirá familiares das vítimas, ativistas de direitos humanos, autoridades públicas, representantes do Poder Judiciário, forças policiais e membros da sociedade civil. A programação incluirá homenagens, depoimentos e debates sobre os impactos da chacina e os caminhos para um futuro mais seguro na região. Segundo o vereador Professor Catellano, um dos principais articuladores da atividade, “é fundamental manter viva a memória das vítimas e discutir ações concretas para prevenir a violência e garantir segurança à nossa população”. A ComCausa, parceira na organização, destaca o caráter reflexivo e propositivo da iniciativa, que buscará elaborar propostas para a segurança pública municipal. A expectativa é que o debate contribua para a construção de uma sociedade mais justa, combatendo o apagamento histórico e promovendo a reparação às vítimas. Missa na véspera em Nova Iguaçu As homenagens terão início um dia antes, no dia 30 de março, às 18h, com uma missa na Paróquia Sagrada Família, no bairro da Posse, em Nova Iguaçu. Organizada pela comunidade da Diocese de Nova Iguaçu, a celebração será um momento de reflexão e tributo às vítimas, reforçando o compromisso com a defesa da vida. A presença da ComCausa em ambos os eventos simboliza a continuidade dos esforços para transformar a memória em ações concretas. Segurança pública: uma preocupação nacional A relevância do tema é reforçada por dados recentes. Segundo pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg, 57,8% dos brasileiros consideram a criminalidade o maior problema do país, superando questões como corrupção e economia. Na Baixada Fluminense, a violência segue como um desafio persistente, o que torna eventos como esse essenciais para discutir soluções e cobrar mudanças estruturais nas instituições responsáveis pela segurança. Memória e transformação Manter viva a lembrança da Chacina da Baixada vai além de um ato de recordação: é uma forma de prevenir novas tragédias, promover a reconciliação social e transformar as estruturas de poder que perpetuam a violência. Para quem deseja revisitar o contexto do episódio, a ComCausa disponibiliza em seu canal no YouTube uma cobertura da caminhada realizada em 2015, nos dez anos da chacina, com depoimentos e imagens que ajudam a compreender sua magnitude. Mais detalhes sobre o evento na Câmara de Queimados, como horário e programação completa, serão divulgados em breve. A iniciativa reafirma o compromisso da região com a memória, a justiça e a construção de um futuro mais seguro e solidário. Mais notícias | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________ Compartilhe:

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