Adriano Dias

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ECA 35 anos: marco civilizatório e o necessário debate sobre a proposta da Lei Melissa Campos

Neste mês de julho de 2025, o Brasil marca os 35 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), promulgado em 13 de julho de 1990. Mais do que a criação de uma lei, essa data representa uma ruptura histórica com a lógica tutelar e repressiva do antigo Código de Menores, estabelecendo um novo paradigma: o reconhecimento de crianças e adolescentes como sujeitos plenos de direitos, com garantia de proteção integral e prioridade absoluta, conforme previsto na Constituição de 1988. O ECA é fruto da mobilização de diversos setores sociais — educadores, juristas, conselheiros tutelares, movimentos populares, igrejas e organizações da sociedade civil — e teve como inspiração a Convenção Internacional dos Direitos da Criança da ONU. Entre suas principais inovações estão a criação dos Conselhos Tutelares, a adoção de medidas socioeducativas em substituição à internação meramente punitiva, e a promoção do desenvolvimento integral de meninas e meninos em situação peculiar de desenvolvimento. Avanços e entraves persistentes Apesar dos avanços legais e institucionais, o Brasil ainda enfrenta desafios significativos na efetivação dos direitos garantidos pelo ECA. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos, mais de 130 mil denúncias de violência contra crianças e adolescentes são registradas anualmente, incluindo casos de negligência, agressão física, violência psicológica e abuso sexual. Além disso, cerca de 40 mil crianças desaparecem por ano, muitas em contextos de extrema vulnerabilidade social — realidade constantemente denunciada por iniciativas como o projeto Acolher: Desaparecidos, da ComCausa e familiares. Em várias regiões do país, os Conselhos Tutelares operam com infraestrutura precária, ausência de formação continuada e dificuldades de articulação com a rede de proteção. O sistema socioeducativo, por sua vez, enfrenta déficit de profissionais, superlotação das unidades e carência de programas eficazes de reintegração. Esses obstáculos demonstram que, embora o ECA represente uma conquista histórica, sua plena implementação ainda é um projeto em construção. Novas ameaças: radicalização e violência juvenil A realidade contemporânea apresenta novos desafios, como o crescimento da radicalização misógina e do discurso de ódio entre adolescentes. Episódios recentes de violência extrema, incluindo ataques em ambientes escolares e crimes hediondos praticados por jovens, revelam a necessidade de políticas públicas intersetoriais que articulem educação, saúde mental, cultura de paz e promoção de direitos. Esse cenário, muitas vezes alimentado por redes digitais e conteúdos extremistas, reforça a urgência de investir em estratégias preventivas, com foco na escuta, no acolhimento e na construção de ambientes seguros e inclusivos. Lei Melissa Campos: reflexões sobre proteção e responsabilização Nesse contexto, ganha destaque o Projeto de Lei 3271/2025, conhecido como Lei Melissa Campos, que propõe ampliar o tempo máximo de internação para adolescentes autores de crimes hediondos, de três para até oito anos. A proposta, nomeada em homenagem à jovem Melissa, assassinada em maio de 2025, reacende um debate crucial: como compatibilizar a responsabilização com os princípios da proteção integral? O projeto tem sido defendido por setores que enxergam na proposta uma resposta à sensação de impunidade diante de crimes graves praticados por adolescentes. Contudo, diversas entidades — como o Conanda, a OAB, Defensorias Públicas e organizações da sociedade civil — alertam para o risco de retrocessos. A ampliação do tempo de internação pode representar uma inflexão punitivista que contraria os fundamentos do ECA e os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. ComCausa em ação: por uma infância protegida e respeitada A ComCausa compreende que este é um momento que exige análise crítica, escuta ativa e diálogo democrático. Ao celebrar os 35 anos do ECA, destacamos a importância de reconhecer suas conquistas e, ao mesmo tempo, enfrentar as falhas estruturais que impedem sua plena realização. Reafirmamos nosso compromisso com a construção de um país que coloque crianças e adolescentes no centro das políticas públicas, com ações que integrem proteção, inclusão, prevenção e responsabilização adequada. Defendemos com firmeza que nenhuma resposta eficaz à violência infantojuvenil pode se apoiar em soluções meramente punitivas. O combate à violência exige investimento em prevenção, educação de qualidade, fortalecimento da rede de proteção e promoção da justiça restaurativa. Nosso princípio é o diálogo. É por meio da escuta qualificada e da construção coletiva que poderemos enfrentar as causas da exclusão, da violência e da negligência. Proteger a infância é uma tarefa coletiva e permanente — e qualquer proposta legislativa, como a Lei Melissa Campos, deve ser debatida à luz da Constituição, da dignidade humana e do espírito transformador que inspirou a criação do ECA em 1990. Defender o ECA é lutar por políticas públicas que salvem vidas e assegurem a todas as crianças e adolescentes o direito de crescer com dignidade, segurança e amor. * Entrevista da Rádio Tropical de 10 de julho de 2025. Imagem de capa ilustrativa Leia também | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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Nicolly-Fernandes-Marques-ComCausa

Nicolly Fernandes Marques: mais um caso de feminicídio infantil

Um crime brutal chocou os moradores da cidade de Carapicuíba, na Região Metropolitana de São Paulo, no último sábado, 19 de julho de 2025. A vítima foi Nicolly Fernandes Marques, uma menina de apenas 12 anos, que foi encontrada morta dentro de sua residência em circunstâncias que apontam para um caso de feminicídio infantil — uma das formas mais cruéis de violência doméstica e de gênero. Nicolly foi localizada sem vida por sua tia e babá, ao chegarem em casa. O corpo da adolescente apresentava sinais evidentes de violência: mãos e pés amarrados e panos amarrados ao redor do pescoço, sugerindo morte por estrangulamento. A cena revelou um assassinato que causa indignação e profunda dor não apenas para a família, mas para toda a sociedade. Principal suspeito e desdobramentos O principal suspeito do crime é o padrasto da menina, Anderson Pereira, que estava sendo procurado pela polícia desde a descoberta do corpo. Horas após o assassinato, Anderson foi encontrado morto após ser atropelado por um caminhão. As autoridades investigam a hipótese de suicídio — se ele teria se jogado em frente ao veículo — ou se foi empurrado por outra pessoa, o que reabriria novos desdobramentos para o caso. O caso está sob responsabilidade do 1º Distrito Policial de Carapicuíba e é tratado como homicídio pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP). A perícia trabalha para reunir provas que ajudem a esclarecer as circunstâncias do crime e confirmar a responsabilidade do padrasto. Violência dentro de casa O assassinato de Nicolly expõe, mais uma vez, a urgência de debater e combater a violência contra crianças e adolescentes no ambiente doméstico — local que, em tese, deveria oferecer proteção, mas que em muitos casos se transforma em cenário de abusos e tragédias. O feminicídio infantil é uma realidade ainda invisibilizada no Brasil. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ao menos 22% dos homicídios de meninas entre 0 e 13 anos têm características que indicam motivação de gênero, muitas vezes cometidos por figuras próximas, como padrastos, pais ou companheiros da mãe. Leia também | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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Luciane Torres Acolher ComCausa Desaparecidos

Quinze anos de ausência: a história de Luciane e a luta incansável de uma mãe que se recusa a esquecer

No dia 30 de agosto de 2009, em uma manhã aparentemente comum de domingo, um gesto singelo e rotineiro transformou-se em um pesadelo sem fim. Luciane Torres, uma menina de apenas nove anos, acordou antes de todos, animada com a chegada do primeiro sobrinho. Na inocência de quem sonhava alto e sorria com o coração aberto, saiu sozinha para comprar pão na padaria do bairro — uma caminhada curta, habitual, num trajeto que deveria durar poucos minutos. Mas ela nunca mais voltou. Aquela foi a última vez que sua mãe, Luciene Torres, viu o sorriso da filha. Desde então, o tempo se congelou. O que era para ser um simples desjejum em família se tornou o marco de uma dor que não cessa, uma ausência que grita todos os dias. Testemunhas relataram terem visto um homem em uma bicicleta levando Luciane, mas, a partir daí, tudo se tornou névoa. As investigações, que deveriam seguir com rigor e urgência, tomaram caminhos obscuros. Documentos se perderam, versões se desencontraram, suspeitos foram detidos e liberados sem maiores esclarecimentos. E a verdade, essa nunca foi revelada. Diante do silêncio das autoridades e da falta de respostas, Luciene não se rendeu ao desespero. Transformou sua dor em ação. Abriu mão do trabalho, da rotina, de qualquer normalidade que ainda restava, e passou a dedicar sua vida a buscar não apenas por Luciane, mas também por outras crianças e adolescentes que desapareceram e cujas histórias são, muitas vezes, ignoradas pelo Estado e pela sociedade. Foi assim que surgiu a ONG Mães Virtuosas do Brasil, um espaço de acolhimento, solidariedade e resistência formado por mães que compartilham o mesmo luto cotidiano: o de não saber. Essas mulheres, muitas vezes invisibilizadas, decidiram não esperar mais. Onde o Estado falha, elas constroem redes de apoio. Onde há descaso, elas plantam esperança. E onde há silêncio, elas erguem suas vozes. A ONG atua em diferentes frentes — desde o apoio emocional às mães até a mobilização por políticas públicas que deem conta da gravidade e da complexidade do fenômeno dos desaparecimentos no Brasil. Acolher Desaparecidos Atualmente, o país registra cerca de 200 desaparecimentos por dia, segundo dados oficiais. Cada número representa uma vida, uma história, uma família devastada pela incerteza. E, entre tantas histórias interrompidas, a de Luciane é uma das primeiras a ser resgatada pelo projeto Acolher Desaparecidos, uma iniciativa que visa reconstruir a memória dessas ausências e dar visibilidade às trajetórias interrompidas — sobretudo aquelas que foram negligenciadas ao longo dos anos. Promovido por familiares, e com apoio da ComCausa Defesa da Vida, O Acolher Desaparecidos não é um movimento de resgate de dignidade. Ele nasce do compromisso com a escuta ativa, com a reconstrução das narrativas familiares e com a valorização da luta das mães que, mesmo sem respostas, se recusam a desistir. Cada história contada é um grito contra o esquecimento. Cada rosto lembrado é uma chance de reencontro. E o mais importante: qualquer pessoa pode ter sua história incluída no Acolher Desaparecidos. Basta entrar em contato com a equipe responsável, compartilhar os dados e registros disponíveis, e permitir que a memória daquele que partiu sem explicação possa ser preservada e, quem sabe, reencontrada. Porque toda ausência merece atenção. Toda dor merece ser ouvida. Neste ano de 2025, completam-se quinze anos desde o desaparecimento de Luciane. Quinze anos em que sua mãe acorda todos os dias com a mesma pergunta sufocante: onde está minha filha? Quinze anos de busca, de saudade, de noites insones e de esperança que se reinventa a cada amanhecer. Luciene segue em frente, firme, com a coragem que só uma mãe pode ter. E ela não está sozinha. Este é um chamado à sociedade. Compartilhe esta história. Espalhe. Reposte. Converse sobre isso. Cada visualização pode ser uma pista. Cada pessoa alcançada pode ser a chave que faltava. Porque a indiferença mata. E a memória pode salvar. Se você viu Luciane ou possui qualquer informação, por menor que pareça, entre em contato com os canais oficiais de denúncia — como o Disque 100, o Disque Denúncia (181) — ou com a própria equipe do projeto Acolher Desaparecidos. Não há tempo para esquecer.Não há dor que possa ser ignorada.Por Luciane. Por todas. Acolher é resistir. Lembrar é lutar. E procurar nunca será em vão. Veja como está Luciane hoje clicando aqui! Frente ativa construída por quem sente na pele a ausência A ação nasce de associações de mães e pais, grupos e coletivos de familiares de desaparecidos junto com a OSC ComCausa e formam uma frente ativa de escuta, acolhimento e mobilização. Essa construção coletiva reconhece o saber e a experiência das famílias como elementos centrais para qualquer resposta efetiva. Como parte dessa articulação, foram criados canais exclusivos de contato: o e-mail acolher.desaparecidos@gmail.com e as redes sociais no Instagram e Facebook (@acolher.desaparecidos). Esses espaços estão a serviço dos familiares para que possam denunciar, relatar, atualizar informações e dar visibilidade aos casos, com escuta atenta, sensível e respeitosa. Galeria digital permanente com tecnologia a serviço da memória A ação prevê ainda a criação de uma galeria digital permanente, concebida como um memorial vivo onde os rostos e histórias das pessoas desaparecidas serão preservados. Com o uso de inteligência artificial para atualização progressiva das imagens dos rostos, a ferramenta visa ampliar as chances de reconhecimento e localização, respeitando as memórias afetivas das famílias. Mães, pais e irmãos serão ouvidos individualmente para a construção de perfis, que também terão suas histórias divulgadas nos portais RedeDH.org.br e PortalC3.net. A cada rosto publicado, uma resistência ao apagamento. A cada nome resgatado, a reafirmação de que ninguém desaparece sozinho — e de que cada vida importa. Campanhas públicas e mobilização popular com protagonismo familiar Os familiares serão os protagonistas das campanhas de sensibilização e busca ativa, com projeções de rostos e nomes de desaparecidos em eventos públicos, além da distribuição de cartazes, adesivos e ações visuais em espaços culturais. Veja também | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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Violência - Criança - Mulher

ComCausa se une a familiares para dar visibilidade a casos de pessoas desaparecidas

No Brasil, o desaparecimento de pessoas é uma das mais cruéis e silenciadas tragédias cotidianas. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 80 mil pessoas desaparecem todos os anos no país. Por trás de cada número, há uma história interrompida, um nome esquecido pelo poder público e, principalmente, mães, pais e familiares que enfrentam a dor da ausência e o abandono institucional. Diante dessa realidade, familiares de desaparecidos, especialmente mães e pais que transformaram sua dor em luta, com apoio a OSC ComCausa Defesa da Vida, lança a ação “Acolher: Desaparecidos”. A iniciativa integra e fortalece o projeto Memória Viva como uma resposta concreta à omissão histórica do Estado. Mais do que uma campanha de visibilidade, trata-se de um compromisso público com a memória, a dignidade e a justiça, protagonizado por quem vive diariamente o luto suspenso da incerteza. Frente ativa construída por quem sente na pele a ausência A ação nasce de associações de mães e pais, grupos e coletivos de familiares de desaparecidos junto com a OSC ComCausa e formam uma frente ativa de escuta, acolhimento e mobilização. Essa construção coletiva reconhece o saber e a experiência das famílias como elementos centrais para qualquer resposta efetiva. Como parte dessa articulação, foram criados canais exclusivos de contato: o e-mail acolher.desaparecidos@gmail.com e as redes sociais no Instagram e Facebook (@acolher.desaparecidos). Esses espaços estão a serviço dos familiares para que possam denunciar, relatar, atualizar informações e dar visibilidade aos casos, com escuta atenta, sensível e respeitosa. Galeria digital permanente com tecnologia a serviço da memória A ação prevê ainda a criação de uma galeria digital permanente, concebida como um memorial vivo onde os rostos e histórias das pessoas desaparecidas serão preservados. Com o uso de inteligência artificial para atualização progressiva das imagens dos rostos, a ferramenta visa ampliar as chances de reconhecimento e localização, respeitando as memórias afetivas das famílias. Mães, pais e irmãos serão ouvidos individualmente para a construção de perfis, que também terão suas histórias divulgadas nos portais RedeDH.org.br e PortalC3.net. A cada rosto publicado, uma resistência ao apagamento. A cada nome resgatado, a reafirmação de que ninguém desaparece sozinho — e de que cada vida importa. Campanhas públicas e mobilização popular com protagonismo familiar Os familiares serão os protagonistas das campanhas de sensibilização e busca ativa, com projeções de rostos e nomes de desaparecidos em eventos públicos, além da distribuição de cartazes, adesivos e ações visuais em espaços culturais. Incidência política e enfrentamento estrutural Com base nessa aliança com os familiares, a ComCausa pretende ampliar sua atuação no campo da incidência política, promovendo articulação direta com a Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA), o Ministério Público, a Defensoria Pública, FIA, conselhos tutelares, comissões legislativas e outras entidades estratégicas. O objetivo é construir mecanismos institucionais permanentes de escuta e resposta, não apenas para os casos em andamento, mas para prevenir novos desaparecimentos e reparar historicamente as omissões do Estado. O desaparecimento não é um evento isolado. Em muitos casos, ele é consequência direta de ciclos de violência estrutural, como o racismo, a exclusão das periferias, o abandono de crianças e adolescentes, a violência contra mulheres, o tráfico de pessoas e a atuação de grupos criminosos. As famílias denunciam, apontam caminhos e exigem coragem institucional para enfrentar esse fenômeno com políticas públicas estruturadas e sensíveis. Resposta coletiva de quem se recusa a aceitar o esquecimento A ComCausa reconhece que são mães, pais e familiares os verdadeiros protagonistas da luta por justiça. São eles que denunciam, mobilizam e exigem respostas, mesmo diante da ausência do Estado e da escassez de recursos. O “Acolher: Desaparecidos” é uma resposta construída com e pelas famílias, que transformam dor em ação. É uma aliança entre quem sofre e quem resiste. Estaremos juntos — nas ruas, nas redes, nos palcos e nos parlamentos — para garantir que cada desaparecido tenha seu nome, sua história e sua dignidade reconhecidos. Porque memória é resistência. E cada história contada por uma mãe, um pai, um irmão ou uma filha é uma vida que não se apaga. Imagem de capa ilustrativa Leia tembém | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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Assassinato de Melissa Campos escancara misoginia letal nas escolas e impõe revisão da justiça juvenil

Mãe de Melissa Campos faz apelo público pela aprovação do PL 3271/2025

O assassinato da adolescente Melissa Campos, de apenas 14 anos, ocorrido no dia 8 de maio de 2025 em uma escola de Uberaba (MG), chocou pela brutalidade, pela premeditação e, sobretudo, pela impotência do ordenamento jurídico brasileiro diante da gravidade do crime. Melissa foi esfaqueada por dois colegas da mesma idade, enquanto assistia aula, dentro de sua própria escola. Sentada em sua carteira, sem reagir, foi vítima de um ataque planejado, frio e impiedoso. Em vídeo divulgado esta semana, a mãe de Melissa, Rosana Agrelli, transforma o luto em mobilização pública por justiça. Ela aponta a insuficiência das atuais previsões do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) no que se refere à responsabilização de adolescentes por atos infracionais análogos a crimes hediondos, como homicídio qualificado ou feminicídio. “Minha filha foi assassinada na sala de aula, em plena luz do dia. Foi uma execução. Não houve discussão. Ela não teve chance. E mesmo assim, os responsáveis não podem ficar internados por mais de três anos. Eles podem sair antes disso, com avaliações a cada seis meses. Isso é justiça?”, questiona Rosana. A indignação da mãe ecoa uma inquietação compartilhada por muitas famílias brasileiras que enfrentam situações semelhantes: a sensação de impunidade institucionalizada. Atualmente, conforme o §2º do artigo 121 do ECA, a medida de internação aplicada a adolescentes infratores não pode ultrapassar três anos, e deve ser reavaliada semestralmente, independentemente da gravidade do ato praticado. Proposta de mudança no ECA Diante desse cenário, o deputado federal Fred Costa (PRD/MG) protocolou, em 7 de julho de 2025, o Projeto de Lei nº 3271/2025, batizado como Lei Melissa Campos. A proposta visa alterar o artigo 121 do ECA, estabelecendo critérios específicos e mais rigorosos para a aplicação da medida de internação a adolescentes autores de atos infracionais análogos a homicídio qualificado e feminicídio, tentados ou consumados, quando cometidos em ambiente escolar ou familiar. Principais dispositivos do PL 3271/2025: Fundamentação e compatibilidade constitucional A proposta legislativa não pretende revogar direitos fundamentais de crianças e adolescentes, mas adequar a resposta do Estado à complexidade e à gravidade de atos infracionais de natureza extrema, como homicídios e feminicídios cometidos com premeditação. Trata-se de garantir a proteção integral não apenas ao autor do ato infracional — como determina o artigo 227 da Constituição Federal — mas também à vítima, à comunidade escolar e à sociedade como um todo. O princípio da proporcionalidade é basilar no direito penal e também deve nortear a aplicação das medidas socioeducativas. Conforme entendimento já pacificado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), o caráter pedagógico da medida não impede sua intensificação proporcional à gravidade da conduta (vide REsp 1.854.092/SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura). “O ECA não foi feito para encobrir a impunidade. Ele deve proteger vidas. A vida da minha filha foi tirada por ódio gratuito. Não aceito que esses jovens voltem ao convívio social em poucos meses, como se nada tivesse acontecido”, reforça Rosana Agrelli em seu vídeo. Legado e urgência Na justificativa do projeto destaca que a Lei Melissa Campos é “o legado de uma jovem que teve sua vida ceifada dentro da escola por dois adolescentes que simplesmente não suportavam sua alegria de viver”. Ele cita trechos da sentença judicial que condenou os infratores, na qual o juiz da Infância e Juventude reconheceu o “ódio gratuito e infundado” como motivador do crime e a fragilidade do arcabouço legal atual para oferecer uma resposta à altura. “É preciso coragem para rever leis. É preciso sensibilidade para entender que proteger a infância também exige proteger as vítimas. A Lei Melissa Campos não propõe vingança. Ela propõe equilíbrio, justiça e prevenção”, afirmou o parlamentar ao apresentar o PL na Câmara dos Deputados. ECA completa 35 anos Neste aniversário do ECA, a sociedade brasileira se depara com um paradoxo: a existência de um marco legal historicamente avançado, mas que hoje, diante de episódios extremos como os que vitimaram Melissa Campos, revela limitações concretas em sua aplicação prática. Casos de assassinatos e atentados cometidos por menores de idade em ambientes escolares — como os ataques registrados em Estação (RS), Sapopemba (SP), Goiânia (GO) e Suzano (SP) — evidenciam que se trata de um fenômeno que ultrapassa o âmbito individual, exigindo respostas estruturais e sistêmicas. Não se trata apenas de punir, mas de prevenir. E a prevenção, por sua natureza, é tarefa prioritária de políticas públicas contínuas e articuladas. Leia: O que provoca o aumento da violência nas escolas Nesse sentido, é imprescindível reconhecer que os municípios ocupam posição estratégica no Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, especialmente no que se refere à promoção e à proteção social básica e especial. São eles os responsáveis por operar, em sua base, o primeiro segmento do sistema — por meio dos Conselhos Tutelares, escolas municipais, unidades básicas de saúde, CRAS, CREAS, e demais instâncias que atuam diretamente com as famílias e com os adolescentes em situação de vulnerabilidade. A ausência de uma política local estruturada de educação em direitos humanos, de acompanhamento psicossocial, de mediação de conflitos escolares, bem como a fragilidade das redes de proteção comunitária, tornam os territórios mais suscetíveis à reprodução da violência entre jovens — e agravam ainda mais os efeitos quando esta se materializa. É nesse cenário que a ComCausa Defesa da Vida e Promoção dos Direitos Humanos participa ativamente dos debates nacionais sobre os rumos da legislação e da proteção infantojuvenil no Brasil. A entidade tem acompanhado com atenção as propostas que tramitam no Congresso Nacional, como o Projeto de Lei nº 3271/2025, Lei Melissa Campos, e contribuído com reflexões técnicas, estudos de caso e articulações junto a instituições públicas, movimentos sociais e redes comunitárias. Leia também | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe: | Editoria Virtuo Comunicação | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________ Compartilhe:

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José Madureira dos Anjos Filho

Sargento PM Madureira: uma história de farda, afeto e renascimento

A maioria das pessoas se prende às tragédias e, por trás das estatísticas aterradoras, esquece que cada caso de violência tem múltiplas vítimas — pai, mãe, irmãos, irmãs, companheiros, companheiras, filhos e filhas. Esta é uma história real, sobre uma pessoa: um policial chamado Madureira. Conheci o sargento PM Madureira por meio de outro policial, o também sargento Marcelo, à época seu cunhado. Em cada encontro, especialmente nos churrascos de confraternização, nossos embates eram inevitáveis: eu, defensor dos direitos humanos; ele, policial da ativa, daqueles que carregam a farda no coração. Divergimos muitas vezes — sobre os limites da lei, o papel do Estado, a relação com as comunidades — mas, entre um debate e outro (entre uma cerveja e outra), encontrávamos alguns pontos de convergência e assim fomos compartilhando discussões, conversas acaloradas, mas também músicas e momentos de lazer, inclusive na própria sede da ComCausa. Com o tempo, Madureira foi transferido para outra região e, naturalmente, diminuimos o contato. Certo dia, recebi uma mensagem de outro amigo policial, o Evaldo: — Você soube do Madureira? Sempre que mensagens assim chegam, o coração aperta, pois raramente são boas notícias. E não era. No dia seguinte, estive com sua mãe, pai, parentes e colegas de farda em seu sepultamento. Foi nesse momento que me lembrei, com tristeza, de uma das nossas discussões mais intensas. Em tom provocativo, ele me perguntou: – Os direitos humanos vão a enterros de policiais? Respondi tambem em tom “desafiador”: — Vão, sim. Mas não é para discursar. É para abraçar. E ali estava eu, em silêncio, em oração, cumprindo aquela promessa. Meses após a despedida silenciosa, a vida voltou a surpreender. Uma nova notícia: havia nascido o filho de Madureira. “Às 13h12, veio ao mundo o pequeno José Madureira dos Anjos Neto, com 3,480 kg.” O anúncio foi feito pelas redes sociais do 20º Batalhão da Polícia Militar — a mesma unidade onde Madureira serviu por 12 anos. Em um vídeo, seus colegas do Setor Fox, onde ele atuava, acompanharam a viúva até a maternidade. Fizeram questão de estar presentes naquele momento. Não entrei em contato imediatamente com a família por respeito ao luto — como sempre faço em casos como estes. Mas, a partir desta publicação, retomei a conversa com o pai do sargento Madureira — agora o vovô Madureira. E foi nessa troca de mensagens que ouvi algo que me tocou profundamente: Madureira e sua companheira haviam passado pela dor de uma gestação interrompida. E, no momento de sua morte, ele ainda não sabia que teria uma nova chance de ser pai. Essa revelação me abalou. Me tirou o sono por uns dias. E foi justamente por isso que decidi registrar esta história. Porque ela não é apenas sobre luto. É sobre vínculos que persistem. Sobre o amor que resiste. E sobre como, mesmo diante da violência e da perda, ainda há espaço para gestos de humanidade e na renovação da vida. Hoje, deixo aqui meu abraço à família de Madureira e aos seus irmãos e irmãs de farda, que caminharam ao seu lado em vida, e agora de seu filho depois de sua partida. E desejo, do fundo do coração, que o pequeno José Madureira Neto tenha uma vida longa, protegida, plena de amor e significado. Que ele cresça rodeado de afeto e, acima de tudo, conheça quem foi seu pai — não apenas um policial, mas um homem de valores e contradições, como todos nós. Escrevo estas palavras com o coração aberto e a alma desarmada, como alguém que, há muitos anos, através da ComCausa, tem trilhado um caminho de escuta e solidariedade ao lado de famílias profundamente marcadas por tragédias que jamais deveriam ter ocorrido. São pessoas que, assim como a de Madureira, vivem uma realidade onde a dor se infiltra nos gestos mais simples, onde o silêncio pesa mais do que qualquer palavra, e onde cada memória carrega em si a lembrança de algo que foi brutalmente interrompido. Em cada rosto abatido que encontrei, em cada olhar perdido de mãe, de filho, de esposa, de irmão ou irmã, pude perceber o quanto a violência não fere apenas aquele que parte — mas espalha feridas por todos os que permanecem. Feridas invisíveis, mas profundas. Feridas que não cicatrizam com o tempo, mas que se acomodam entre a ausência e a saudade. Diante disso que, mais uma vez, sinto-me compelido a dizer — com toda a convicção que o luto e a experiência me permitiram construir — que, por mais que divergências políticas, ideológicas ou institucionais nos coloquem em campos opostos, há algo que deveria nos unir acima de tudo: o valor inegociável da vida humana. Quando uma vida é interrompida, brutalmente arrancada de seu curso natural, não há vencedores, não há justificativas morais possíveis. Só há perda. Uma perda irreparável. Uma lacuna que nenhuma estatística é capaz de traduzir. É, portanto, um embate que transcende visões partidárias ou posicionamentos ideológicos. É a eterna disputa entre a barbárie e a civilização. Entre a crueldade e a compaixão. Entre a violência cega e a humanidade que ainda insiste em resistir. É a vida, sempre a vida, contra a morte. E, mesmo em meio a tempos tão duros, tão marcados pelo medo, pelo individualismo e pela indiferença, continuo acreditando — talvez por teimosia, talvez por esperança — que sempre haverá um espaço possível para o encontro. Um espaço onde possamos nos reconhecer no outro. Onde possamos praticar uma escuta sincera, sem julgamento. Onde o respeito não seja um luxo, mas uma base. Onde a empatia deixe de ser um discurso e se torne uma prática concreta, cotidiana e transformadora. Espero, sinceramente, que aqueles que se debruçarem sobre estas palavras consigam enxergar, para além dos uniformes e das estatísticas, as pessoas que existiram por trás de cada dado. Pessoas reais. Com trajetórias, afetos, vínculos, fragilidades, medos e sonhos. Que vejam Madureira não apenas como uma farda caída, mas como um ser humano que amava e era amado. Como alguém que deixa saudade, que deixa história, que deixa família. Espero que esta narrativa, por mais dura

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