A maioria das pessoas se prende às tragédias e, por trás das estatísticas aterradoras, esquece que cada caso de violência tem múltiplas vítimas — pai, mãe, irmãos, irmãs, companheiros, companheiras, filhos e filhas. Esta é uma história real, sobre uma pessoa: um policial chamado Madureira.
Conheci o sargento PM Madureira por meio de outro policial, o também sargento Marcelo, à época seu cunhado. Em cada encontro, especialmente nos churrascos de confraternização, nossos embates eram inevitáveis: eu, defensor dos direitos humanos; ele, policial da ativa, daqueles que carregam a farda no coração. Divergimos muitas vezes — sobre os limites da lei, o papel do Estado, a relação com as comunidades — mas, entre um debate e outro (entre uma cerveja e outra), encontrávamos alguns pontos de convergência e assim fomos compartilhando discussões, conversas acaloradas, mas também músicas e momentos de lazer, inclusive na própria sede da ComCausa.
Com o tempo, Madureira foi transferido para outra região e, naturalmente, diminuimos o contato.
Certo dia, recebi uma mensagem de outro amigo policial, o Evaldo: — Você soube do Madureira?
Sempre que mensagens assim chegam, o coração aperta, pois raramente são boas notícias. E não era.
No dia seguinte, estive com sua mãe, pai, parentes e colegas de farda em seu sepultamento. Foi nesse momento que me lembrei, com tristeza, de uma das nossas discussões mais intensas. Em tom provocativo, ele me perguntou: – Os direitos humanos vão a enterros de policiais?
Respondi tambem em tom “desafiador”: — Vão, sim. Mas não é para discursar. É para abraçar.
E ali estava eu, em silêncio, em oração, cumprindo aquela promessa.
Meses após a despedida silenciosa, a vida voltou a surpreender. Uma nova notícia: havia nascido o filho de Madureira. “Às 13h12, veio ao mundo o pequeno José Madureira dos Anjos Neto, com 3,480 kg.” O anúncio foi feito pelas redes sociais do 20º Batalhão da Polícia Militar — a mesma unidade onde Madureira serviu por 12 anos. Em um vídeo, seus colegas do Setor Fox, onde ele atuava, acompanharam a viúva até a maternidade. Fizeram questão de estar presentes naquele momento.
Não entrei em contato imediatamente com a família por respeito ao luto — como sempre faço em casos como estes. Mas, a partir desta publicação, retomei a conversa com o pai do sargento Madureira — agora o vovô Madureira. E foi nessa troca de mensagens que ouvi algo que me tocou profundamente: Madureira e sua companheira haviam passado pela dor de uma gestação interrompida. E, no momento de sua morte, ele ainda não sabia que teria uma nova chance de ser pai.
Essa revelação me abalou. Me tirou o sono por uns dias. E foi justamente por isso que decidi registrar esta história. Porque ela não é apenas sobre luto. É sobre vínculos que persistem. Sobre o amor que resiste. E sobre como, mesmo diante da violência e da perda, ainda há espaço para gestos de humanidade e na renovação da vida.
Hoje, deixo aqui meu abraço à família de Madureira e aos seus irmãos e irmãs de farda, que caminharam ao seu lado em vida, e agora de seu filho depois de sua partida. E desejo, do fundo do coração, que o pequeno José Madureira Neto tenha uma vida longa, protegida, plena de amor e significado. Que ele cresça rodeado de afeto e, acima de tudo, conheça quem foi seu pai — não apenas um policial, mas um homem de valores e contradições, como todos nós.
Escrevo estas palavras com o coração aberto e a alma desarmada, como alguém que, há muitos anos, através da ComCausa, tem trilhado um caminho de escuta e solidariedade ao lado de famílias profundamente marcadas por tragédias que jamais deveriam ter ocorrido. São pessoas que, assim como a de Madureira, vivem uma realidade onde a dor se infiltra nos gestos mais simples, onde o silêncio pesa mais do que qualquer palavra, e onde cada memória carrega em si a lembrança de algo que foi brutalmente interrompido.
Em cada rosto abatido que encontrei, em cada olhar perdido de mãe, de filho, de esposa, de irmão ou irmã, pude perceber o quanto a violência não fere apenas aquele que parte — mas espalha feridas por todos os que permanecem. Feridas invisíveis, mas profundas. Feridas que não cicatrizam com o tempo, mas que se acomodam entre a ausência e a saudade.
Diante disso que, mais uma vez, sinto-me compelido a dizer — com toda a convicção que o luto e a experiência me permitiram construir — que, por mais que divergências políticas, ideológicas ou institucionais nos coloquem em campos opostos, há algo que deveria nos unir acima de tudo: o valor inegociável da vida humana. Quando uma vida é interrompida, brutalmente arrancada de seu curso natural, não há vencedores, não há justificativas morais possíveis. Só há perda. Uma perda irreparável. Uma lacuna que nenhuma estatística é capaz de traduzir.
É, portanto, um embate que transcende visões partidárias ou posicionamentos ideológicos. É a eterna disputa entre a barbárie e a civilização. Entre a crueldade e a compaixão. Entre a violência cega e a humanidade que ainda insiste em resistir. É a vida, sempre a vida, contra a morte. E, mesmo em meio a tempos tão duros, tão marcados pelo medo, pelo individualismo e pela indiferença, continuo acreditando — talvez por teimosia, talvez por esperança — que sempre haverá um espaço possível para o encontro. Um espaço onde possamos nos reconhecer no outro. Onde possamos praticar uma escuta sincera, sem julgamento. Onde o respeito não seja um luxo, mas uma base. Onde a empatia deixe de ser um discurso e se torne uma prática concreta, cotidiana e transformadora.
Espero, sinceramente, que aqueles que se debruçarem sobre estas palavras consigam enxergar, para além dos uniformes e das estatísticas, as pessoas que existiram por trás de cada dado. Pessoas reais. Com trajetórias, afetos, vínculos, fragilidades, medos e sonhos. Que vejam Madureira não apenas como uma farda caída, mas como um ser humano que amava e era amado. Como alguém que deixa saudade, que deixa história, que deixa família.
Espero que esta narrativa, por mais dura que seja, possa tocar corações — inclusive, e talvez especialmente, entre aqueles que atuam nas forças de segurança pública do Rio de Janeiro. Mesmo que cause desconforto. Mesmo que suscite críticas ou resistências. Porque, no fim das contas, o que realmente importa é que sigamos firmes na construção de um mundo onde nenhuma outra vida precise ser contada a partir do vazio de sua ausência. Que nenhuma outra história precise ser reconstituída entre a dor da perda e a esperança, sempre tão frágil, de um recomeço.
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