No dia 30 de agosto de 2009, em uma manhã aparentemente comum de domingo, um gesto singelo e rotineiro transformou-se em um pesadelo sem fim. Luciane Torres, uma menina de apenas nove anos, acordou antes de todos, animada com a chegada do primeiro sobrinho. Na inocência de quem sonhava alto e sorria com o coração aberto, saiu sozinha para comprar pão na padaria do bairro — uma caminhada curta, habitual, num trajeto que deveria durar poucos minutos. Mas ela nunca mais voltou.
Aquela foi a última vez que sua mãe, Luciene Torres, viu o sorriso da filha. Desde então, o tempo se congelou. O que era para ser um simples desjejum em família se tornou o marco de uma dor que não cessa, uma ausência que grita todos os dias. Testemunhas relataram terem visto um homem em uma bicicleta levando Luciane, mas, a partir daí, tudo se tornou névoa. As investigações, que deveriam seguir com rigor e urgência, tomaram caminhos obscuros. Documentos se perderam, versões se desencontraram, suspeitos foram detidos e liberados sem maiores esclarecimentos. E a verdade, essa nunca foi revelada.
Diante do silêncio das autoridades e da falta de respostas, Luciene não se rendeu ao desespero. Transformou sua dor em ação. Abriu mão do trabalho, da rotina, de qualquer normalidade que ainda restava, e passou a dedicar sua vida a buscar não apenas por Luciane, mas também por outras crianças e adolescentes que desapareceram e cujas histórias são, muitas vezes, ignoradas pelo Estado e pela sociedade. Foi assim que surgiu a ONG Mães Virtuosas do Brasil, um espaço de acolhimento, solidariedade e resistência formado por mães que compartilham o mesmo luto cotidiano: o de não saber.
Essas mulheres, muitas vezes invisibilizadas, decidiram não esperar mais. Onde o Estado falha, elas constroem redes de apoio. Onde há descaso, elas plantam esperança. E onde há silêncio, elas erguem suas vozes. A ONG atua em diferentes frentes — desde o apoio emocional às mães até a mobilização por políticas públicas que deem conta da gravidade e da complexidade do fenômeno dos desaparecimentos no Brasil.
Acolher Desaparecidos
Atualmente, o país registra cerca de 200 desaparecimentos por dia, segundo dados oficiais. Cada número representa uma vida, uma história, uma família devastada pela incerteza. E, entre tantas histórias interrompidas, a de Luciane é uma das primeiras a ser resgatada pelo projeto Acolher Desaparecidos, uma iniciativa que visa reconstruir a memória dessas ausências e dar visibilidade às trajetórias interrompidas — sobretudo aquelas que foram negligenciadas ao longo dos anos.
Promovido por familiares, e com apoio da ComCausa Defesa da Vida, O Acolher Desaparecidos não é um movimento de resgate de dignidade. Ele nasce do compromisso com a escuta ativa, com a reconstrução das narrativas familiares e com a valorização da luta das mães que, mesmo sem respostas, se recusam a desistir. Cada história contada é um grito contra o esquecimento. Cada rosto lembrado é uma chance de reencontro. E o mais importante: qualquer pessoa pode ter sua história incluída no Acolher Desaparecidos. Basta entrar em contato com a equipe responsável, compartilhar os dados e registros disponíveis, e permitir que a memória daquele que partiu sem explicação possa ser preservada e, quem sabe, reencontrada. Porque toda ausência merece atenção. Toda dor merece ser ouvida.
Neste ano de 2025, completam-se quinze anos desde o desaparecimento de Luciane. Quinze anos em que sua mãe acorda todos os dias com a mesma pergunta sufocante: onde está minha filha? Quinze anos de busca, de saudade, de noites insones e de esperança que se reinventa a cada amanhecer. Luciene segue em frente, firme, com a coragem que só uma mãe pode ter.
E ela não está sozinha.
Este é um chamado à sociedade. Compartilhe esta história. Espalhe. Reposte. Converse sobre isso. Cada visualização pode ser uma pista. Cada pessoa alcançada pode ser a chave que faltava. Porque a indiferença mata. E a memória pode salvar.
Se você viu Luciane ou possui qualquer informação, por menor que pareça, entre em contato com os canais oficiais de denúncia — como o Disque 100, o Disque Denúncia (181) — ou com a própria equipe do projeto Acolher Desaparecidos.
Não há tempo para esquecer.
Não há dor que possa ser ignorada.
Por Luciane. Por todas.
Acolher é resistir. Lembrar é lutar. E procurar nunca será em vão.
Veja como está Luciane hoje clicando aqui!
Frente ativa construída por quem sente na pele a ausência
A ação nasce de associações de mães e pais, grupos e coletivos de familiares de desaparecidos junto com a OSC ComCausa e formam uma frente ativa de escuta, acolhimento e mobilização. Essa construção coletiva reconhece o saber e a experiência das famílias como elementos centrais para qualquer resposta efetiva. Como parte dessa articulação, foram criados canais exclusivos de contato: o e-mail acolher.desaparecidos@gmail.com e as redes sociais no Instagram e Facebook (@acolher.desaparecidos). Esses espaços estão a serviço dos familiares para que possam denunciar, relatar, atualizar informações e dar visibilidade aos casos, com escuta atenta, sensível e respeitosa.
Galeria digital permanente com tecnologia a serviço da memória
A ação prevê ainda a criação de uma galeria digital permanente, concebida como um memorial vivo onde os rostos e histórias das pessoas desaparecidas serão preservados. Com o uso de inteligência artificial para atualização progressiva das imagens dos rostos, a ferramenta visa ampliar as chances de reconhecimento e localização, respeitando as memórias afetivas das famílias.
Mães, pais e irmãos serão ouvidos individualmente para a construção de perfis, que também terão suas histórias divulgadas nos portais RedeDH.org.br e PortalC3.net. A cada rosto publicado, uma resistência ao apagamento. A cada nome resgatado, a reafirmação de que ninguém desaparece sozinho — e de que cada vida importa.
Campanhas públicas e mobilização popular com protagonismo familiar
Os familiares serão os protagonistas das campanhas de sensibilização e busca ativa, com projeções de rostos e nomes de desaparecidos em eventos públicos, além da distribuição de cartazes, adesivos e ações visuais em espaços culturais.
Veja também
| Projeto Comunicando ComCausa
| Portal C3 | Instagram C3 Oficial
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