Debora Barroso

DebatePapo ComCausa – Defesa da Vida sobre a Agenda do Cairo acontece nesta quinta em sua sede no Rio

A ComCausa – Defesa da Vida realiza, nesta quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, um DebatePapo presencial dedicado à Agenda do Cairo (ICPD) — o marco internacional adotado em 1994 que reposicionou o debate global sobre população e desenvolvimento ao colocar direitos humanos, igualdade de gênero, saúde, escolhas e dignidade no centro das políticas públicas. O encontro será realizado na sede do Rio e transmitido nas redes sociais, e integra a agenda pública da organização de promover reflexão qualificada, mobilização cidadã e fortalecimento de redes de proteção e cuidado no território. A proposta do DebatePapo é direta: tirar a Agenda do Cairo do “lugar distante” dos grandes documentos internacionais e trazê-la para a vida real — para as perguntas que atravessam o cotidiano de quem vive os efeitos das desigualdades, das violências e das barreiras de acesso a serviços públicos. Em vez de um debate abstrato, a ComCausa – Defesa da Vida quer discutir o que o Cairo exige quando a gente traduz a teoria em prática: quais direitos precisam ser garantidos, quais serviços precisam funcionar, quais redes precisam estar de pé e quais mudanças sociais precisam ser sustentadas no tempo. O que é a Agenda do Cairo e por que ela ainda é assunto de 2026 A chamada Agenda do Cairo é o nome pelo qual ficou conhecido o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (ICPD), realizada no Egito de 5 a 13 de setembro de 1994, com participação de 179 governos. A adoção do Programa de Ação em 13 de setembro de 1994 consolidou uma virada de paradigma: desenvolvimento deixou de ser visto apenas como meta econômica ou demográfica e passou a ser cobrado como direito efetivo, medido por acesso real a serviços, por igualdade e por proteção da vida. O UNFPA, agência da ONU que atua globalmente com a agenda da ICPD, destaca esse ponto como central: o Programa de Ação foi “marcante” justamente por reconhecer saúde e direitos reprodutivos, além do empoderamento de mulheres e da igualdade de gênero, como pilares de programas de população e desenvolvimento. Ao longo dos anos, a agenda ganhou processos de seguimento e reafirmação. Um marco importante é a Resolução 65/234 da Assembleia Geral da ONU (22 de dezembro de 2010), que trata do seguimento “além de 2014” e reforça a continuidade do Programa de Ação. Por que a ComCausa – Defesa da Vida está puxando esse debate agora Para a ComCausa – Defesa da Vida, falar de Cairo em 2026 é falar de uma pergunta que não sai do território: o direito existe apenas no papel ou ele chega onde a vida acontece? O DebatePapo parte do reconhecimento de que, quando a vida é atravessada por violência, desigualdade e desproteção, não adianta um “discurso bonito” — é preciso rede, método e compromisso público. Por isso, o encontro vai tratar a Agenda do Cairo como uma lente para discutir desafios atuais, como: -Prevenção de violências e fortalecimento de redes de proteção;-Cuidado e acesso a serviços, com acolhimento e continuidade, não apenas respostas pontuais;-Igualdade de gênero e enfrentamento de desigualdades que estruturam risco e vulnerabilidade;-Juventudes e normas sociais: o que precisa mudar para reduzir danos e ampliar responsabilidade coletiva. Parceria com a ONU: Agenda do Cairo no território, com compromisso público O DebatePapo também se conecta à parceria institucional da ComCausa – Defesa da Vida com o sistema ONU no Brasil, via UNFPA e ONU Brasil, no marco de iniciativas alinhadas à Agenda do Cairo. A ideia, aqui, não é usar a ONU como “selo”, mas como horizonte de responsabilidade: metas internacionais só têm sentido quando viram ação concreta, linguagem pública útil, prevenção e cuidado de verdade. O próprio ciclo internacional do Cairo reforça essa linha de urgência. No marco do ICPD+25, por exemplo, o UNFPA registra que a Nairobi Summit (12–14 de novembro de 2019) foi co-convocada pelos governos do Quênia e da Dinamarca e pelo UNFPA justamente para acelerar a implementação do Programa de Ação, reunindo governos, ONU, sociedade civil e redes de juventudes. É a mesma lógica que orienta o DebatePapo: compromisso sem aceleração vira atraso; direito sem rede vira promessa. O que esperar do DebatePapo A proposta do encontro é combinar memória, contexto e prática, com linguagem acessível e foco territorial. Em vez de uma palestra “para especialistas”, a ComCausa – Defesa da Vida quer uma conversa pública que ajude a responder perguntas como: O que a Agenda do Cairo muda quando o tema é segurança, cuidado e dignidade no cotidiano? Que tipo de rede (comunitária e institucional) faz o direito “parar de escorregar” e virar acesso real? Como comunicar direitos de forma que vire orientação prática e caminho de proteção? Como articular homens e juventudes em pautas de responsabilização e prevenção, sem simplificação e sem moralismo? Convite O DebatePapo do dia 15 de janeiro de 2026 é um chamado para quem entende que direitos humanos não são um capítulo separado da vida — são a própria condição para que a vida seja vivida com segurança, cuidado e dignidade. A ComCausa – Defesa da Vida convida ativistas, comunicadores, educadores, pesquisadores, coletivos, organizações parceiras e moradores interessados a acompanharem o encontro e a ajudarem a manter esse debate em circulação pública, com seriedade e compromisso. Serviço DebatePapo — ComCausa – Defesa da Vida | Agenda do Cairo (ICPD)Data: 15 de janeiro de 2026Local: Sede do Rio Robne (Rio de Janeiro) com transmissão nas redes sociaisEntrada/inscrição e horário: a ComCausa – Defesa da Vida informará nos seus canais oficiais (site e redes). Imagem de capa ilustrativa. Leia também | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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Violência - Criança - Mulher

Masculinidades: Quem paga a conta da “hombridade”? O impacto sobre mulheres, crianças e a casa inteira

O estrago não é só o soco: é o grito, a humilhação, a ameaça, a tensão que vira memória de medo. Existe um tipo de violência que não aparece em hematoma, mas muda completamente o ar do ambiente. Ela começa quando um homem decide que precisa “vencer” a noite pelo domínio: dominar a conversa, dominar o humor, dominar a sala. A partir daí, a festa deixa de ser encontro e vira teste de poder. Nessa lógica, o que era celebração se transforma em território de controle. A família passa a administrar o clima como quem administra risco: quem pode falar, o que pode ser dito, quando é melhor calar, qual assunto “não pode tocar”, qual piada precisa engolir para evitar a explosão. É uma violência em câmera lenta — e, por ser cotidiana, muitas vezes naturalizada. O estrago invisível: grito, humilhação, ameaça e a normalização do medo Muita gente só chama de violência quando vira agressão física. Mas o caminho até ela costuma ser pavimentado por sinais repetidos: sarcasmo que humilha, chantagem emocional, ameaça velada, intimidação no tom de voz, controle sobre quem fala e quem “merece respeito”. É aí que a “hombridade” vira cobrança coletiva: todo mundo ajusta a própria conduta para não “provocar” a pessoa que está armada por dentro. E é importante reconhecer que isso tem dimensão social e institucional. Em 2024, o Brasil registrou 1.067.556 acionamentos ao 190 por violência doméstica, o que equivale a cerca de 2 chamadas por minuto. No mesmo período, foram concedidas 555.001 medidas protetivas de urgência e houve registro de 51.866 casos de violência psicológica e 95.026 de stalking (perseguição), segundo sistematizações baseadas no Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Esses números ajudam a entender por que o “clima pesado” dentro de casa não é detalhe: ele compõe uma paisagem mais ampla, onde a violência psicológica e o controle são frequentes — e, não raro, antecedem episódios mais graves. Mulheres como amortecedor: o peso dobrado de “salvar a noite” Quando a masculinidade tóxica entra na sala, as mulheres quase sempre viram amortecedor. Organizam a casa, a comida, o cuidado — e, além disso, assumem o trabalho invisível de mediar tensão para evitar a explosão. É o “deixa pra lá” engolido para não piorar; é a tentativa de mudar de assunto; é o esforço de manter a festa de pé enquanto alguém disputa controle. Esse papel é exaustivo e injusto. E tem consequências diretas: mais ansiedade, mais hipervigilância, mais desgaste emocional. Mesmo quando não existe agressão física, existe um tipo de aprisionamento cotidiano — porque uma casa em que todos precisam prever a reação de alguém deixa de ser casa e vira campo minado. Crianças “aprendem” a violência antes de entender a palavra Crianças aprendem rápido. Aprendem a identificar sinais: a postura, o olhar, o tom que muda, o copo enchendo, a risada que vira deboche, a conversa que vira disputa. E isso marca. Organismos internacionais chamam atenção para o impacto de crescer em ambientes violentos. A OMS aponta que crianças que crescem em famílias onde há violência podem sofrer perturbações emocionais e comportamentais e que isso se associa, mais tarde, a reproduzir ou vivenciar violência. A própria OMS também destaca que a exposição à violência na infância pode prejudicar o desenvolvimento do cérebro e do sistema nervoso e se relaciona a piores resultados cognitivos e educacionais ao longo da vida. E, em novembro de 2025, o UNICEF reforçou que a exposição de crianças à violência por parceiro íntimo contra suas mães afeta o senso de segurança, saúde e aprendizagem, e aumenta a probabilidade de a criança também sofrer agressões físicas ou psicológicas no ambiente doméstico. Em outras palavras: quando um adulto “faz cena” e impõe medo, a criança não “esquece depois”. Ela registra no corpo. E leva isso para a vida. O risco adicional: quando conflito conjugal escala e vira disputa por controle Há um ponto sensível no fim de ano: mais convivência, mais estresse, mais cobrança social e, muitas vezes, mais álcool. O que poderia ser conversa vira duelo. O que poderia ser ajuste vira ameaça. O que poderia ser pedido de cuidado vira disputa por controle. E o cenário doméstico é precisamente onde muitas violências acontecem — por isso medidas protetivas e acionamentos ao 190 são um termômetro decisivo. E quando essas medidas são descumpridas, o risco cresce: em 2024, foram registrados 101.656 descumprimentos de medidas protetivas, segundo a mesma sistematização baseada no Anuário. Masculinidades Positivas são prática: proteção concreta No fim, “hombridade” não pode ser traduzida em medo para os outros. Masculinidades Positivas não são frase de efeito, nem estética de rede social: são escolhas diárias que protegem de verdade — o filho, a companheira, a mãe, a família inteira. Defender a vida também é garantir um fim de ano sem ameaça dentro de casa, sem humilhação à mesa, sem crianças em estado de alerta e sem convivência administrada como risco. É por isso que esta série aponta para uma saída prática. A ComCausa – Defesa da Vida , com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU), está estruturando o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida para transformar diagnóstico em ação comunitária: rodas de conversa orientadas, pactos de convivência, ferramentas de maturidade emocional e desescalada, além de mobilização pública, para que a paz não dependa do humor de ninguém. Este artigo integra o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, estruturado pela ComCausa – Defesa da Vida com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU). A proposta enfrenta padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas: autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado. Imagem de capa ilustrativa. Leia também Parceria UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU): | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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panela de pressão

A panela de pressão: como a masculinidade tóxica sabota a celebração

A raiz: masculinidade tóxica como “panela de pressão”. Repressão emocional + álcool + disputa por “honra”: a receita que transforma frustração em fúria. Existe um padrão que atravessa gerações e classes sociais e costuma ficar mais visível justamente nas festas: a masculinidade tóxica — também chamada de masculinidade hegemônica — como um manual invisível de conduta. Esse “manual” ensina que o homem precisa ser forte o tempo todo, provedor a qualquer custo, competitivo, dominante, dono da verdade. E, sobretudo, ensina que ele não pode “fraquejar” diante de ninguém. O problema é que, quando um modelo exige desempenho permanente, ele produz um efeito colateral previsível: pressão interna acumulada. E pressão acumulada não desaparece por boa vontade. Ela vaza. Muitas vezes, vaza da forma socialmente “autorizada” para homens: raiva. O custo oculto: quando sentir vira “proibido”, a raiva vira linguagem Esse manual cobra caro porque estreita o repertório emocional. Em vez de aprender a dizer “estou triste”, “estou com medo”, “estou exausto”, “estou inseguro”, “estou frustrado”, muita gente aprende a engolir tudo. Só que o corpo não engole. A mente não engole. A conta aparece. É assim que nasce a “panela de pressão”: tristeza, luto, vergonha, sensação de fracasso, sobrecarga financeira, conflitos no trabalho, sensação de não ser respeitado — tudo vai sendo comprimido com a tampa bem fechada. E o que não pode ser dito encontra uma saída “aceitável” no imaginário masculino: a raiva, o grito, a imposição, o sarcasmo, o “não levo desaforo”. Em termos de saúde pública e direitos, isso importa porque normas de gênero consideradas nocivas têm sido associadas a comportamentos de risco e práticas prejudiciais, incluindo maior propensão ao abuso de substâncias e atitudes hostis nas relações. A Organização Mundial da Saúde chama atenção para como normas de gênero nocivas afetam meninos e homens, ampliando comportamentos arriscados e práticas negativas direcionadas a mulheres. “Honra”, “respeito” e a ilusão do controle: por que a festa vira arena É aqui que entra a disputa por “honra”. Em muitas famílias e rodas sociais, a festa vira palco de status: quem domina a conversa, quem “manda” no ambiente, quem “não fica por baixo”. Divergência vira afronta. Um comentário vira provocação. Um olhar vira desafio. Esse mecanismo é traiçoeiro porque se alimenta de um sentimento legítimo — a necessidade humana de reconhecimento — mas o converte em forma tóxica: reconhecimento vira domínio. Respeito vira medo. Autoridade vira autoritarismo. Na prática, a panela de pressão não explode por grandes causas. Explode por gatilhos pequenos, típicos do fim de ano: a criança que derruba o refrigerante; o parente que comenta “de novo você…”, em tom de deboche; a lembrança antiga que vira cobrança; uma divergência política tratada como ofensa pessoal; uma comparação (“fulano venceu, você não”). Nada disso, isoladamente, deveria virar crise. Mas, com pressão acumulada, vira estopim. O álcool como “acelerador”: quando o freio falha, a escalada fica mais rápida O álcool não cria agressividade do nada, mas pode reduzir o freio, alterar julgamento e diminuir a capacidade de recuar no momento certo. O Ministério da Saúde registrou que, no Brasil, em 2022, 29,2% dos casos notificados de violência interpessoal envolveram consumo prévio de álcool pelo agressor. Isso ajuda a entender por que o fim de ano, com mais encontros e mais consumo, tende a ter mais episódios de conflito: o álcool entra como acelerador em um terreno já vulnerável. E, como risco populacional, o tema é sério: em 2022, o Ministério da Saúde também apontou que o álcool esteve associado a 3% dos óbitos no Brasil, reforçando o tamanho do impacto na saúde coletiva. A conta que ninguém vê: violência doméstica como retrato de uma cultura Quando se fala em masculinidade tóxica, não se está falando apenas de “clima ruim” no Natal. Está-se falando do pano de fundo que normaliza intimidação, humilhação, ameaça e, em alguns casos, violência direta. A dimensão aparece nos números: em 2024, houve 1.067.556 acionamentos ao 190 por violência doméstica (algo como “duas chamadas por minuto”) e 555.001 medidas protetivas concedidas, segundo dados sistematizados a partir do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Ou seja: a “explosão” não é metáfora distante. Ela conversa com uma realidade cotidiana em que o espaço doméstico, frequentemente, é cenário de medo e controle — e isso se agrava quando álcool e pressão emocional entram em cena. Caixa de serviço: como esvaziar a panela antes do estouro Se a imagem é a panela de pressão, a pergunta prática é: como esvaziar antes de explodir? Algumas atitudes simples mudam o rumo da noite: Nomear o estado interno (mesmo que só para si): “estou no limite”, “estou irritado”, “estou me sentindo desrespeitado”; Pausar a escalada (técnica do “intervalo”): sair da cena por 5 minutos, respirar, beber água, lavar o rosto, caminhar curto; Trocar prova por cuidado: “não preciso vencer a conversa para ser respeitado”; Limitar álcool como compromisso, não como “fraqueza”; Pedir ajuda quando a raiva vira padrão: terapia, grupo, roda de conversa, acompanhamento na rede de saúde. Isso não é “ser menos homem”. É ser mais responsável. A virada: maturidade emocional também é coisa de homem A virada que a ComCausa – Defesa da Vida propõe é simples e profunda: maturidade emocional também é coisa de homem. Coragem não é aumentar o volume, bater na mesa ou disputar quem “tem razão”. Coragem é perceber, com honestidade, o que está acontecendo por dentro — antes que isso transborde para fora — e assumir compromisso com a segurança emocional e física de quem está ao redor. E, para deixar claro, esse debate não termina em reflexão abstrata. A ComCausa está estruturando o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida para transformar diagnóstico em prática comunitária: rodas de conversa orientadas, ferramentas de autocontrole e desescalada, pactos de convivência, formação e mobilização pública, para que a “panela de pressão” não seja destino — e sim um ciclo interrompido. Este artigo integra o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, estruturado pela ComCausa – Defesa da Vida com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU). A proposta enfrenta padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e

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Masculinidades: Festa ou campo de batalha? Por que os conflitos de fim de ano têm rosto masculino?

A ceia como termômetro de um ano inteiro Festas de fim de ano são vendidas como tempo de reconciliação. Mas, na vida real, muita gente conhece a outra face desse “roteiro”: a mesa que vira arena, o clima que pesa antes da sobremesa, a ironia que humilha, o grito que atravessa a sala, o “só estava brincando” usado para encobrir ofensa, a discussão que começa “por nada” e termina em porta batida — e, em casos extremos, em agressão. O que torna essa cena ainda mais importante de ser nomeada é o padrão: frequentemente, o estopim tem rosto masculino, seja no trânsito, no bar, no encontro de família ou no casal. A repetição é quase sempre a mesma, como se existisse um manual social pronto. Ele começa pequeno: um comentário atravessado, um olhar interpretado como desafio, uma lembrança antiga trazida como acusação, uma divergência política tratada como ataque pessoal, um “você sempre foi assim”. Em poucos minutos, o que era celebração vira disputa por território simbólico: quem fala, quem cala, quem “manda” na conversa, quem precisa pedir desculpa, quem “não pode sair por baixo”. Quando isso acontece, a festa deixa de ser coletiva e passa a ser administrada como risco: todo mundo mede palavras, evita temas, tenta “não provocar” — e o encontro inteiro vira refém do humor de uma única pessoa. Não é “homem mau”. É um modelo que ensina raiva como linguagem Há um ponto que precisa ser dito com clareza: este diagnóstico não é uma caça às bruxas contra homens. É uma denúncia de um modelo cultural que ensinou a muitos homens que “segurar a onda” o ano inteiro é obrigação — e que, na virada, a válvula de escape socialmente tolerada costuma ser a raiva. Tristeza, medo, frustração e insegurança foram empurrados para o lugar da “fraqueza”. A raiva, ao contrário, recebeu autorização social: “homem é assim”, “não leva desaforo”, “precisa se impor”. O resultado aparece na forma como a convivência vira performance. Em vez de nomear cansaço, luto, estresse financeiro, pressão do trabalho ou sensação de fracasso, muitos homens chegam à festa com a emoção no limite, mas sem repertório de conversa para isso. A ceia vira palco. E o palco cobra demonstração: provar força, dominar o ambiente, “ganhar” a palavra. Quando a presença vira disputa, a casa inteira paga a conta — mesmo que não exista agressão física. Porque a violência começa antes do soco: começa na humilhação, na intimidação, no controle, na ameaça velada, no medo instalado. O álcool como acelerador de conflitos O fim de ano também costuma aumentar o consumo de álcool e a exposição social: mais encontros, mais festas, mais circulação, mais estímulos. O álcool não inventa do nada um comportamento violento, mas pode reduzir freios e piorar decisões num contexto em que já existe tensão acumulada. Esse ponto não é “achismo”: o Ministério da Saúde registra que, no Brasil, em 2022, 29,2% das notificações de violência interpessoal envolveram consumo prévio de álcool pelo agressor. Por isso, o “só mais uma” pode ser mais do que um detalhe. Em ambientes onde há competição de status, provocações e disputas por “respeito”, o álcool tende a funcionar como catalisador: aquilo que sóbrio seria ignorado vira “afronta”; o que poderia ser conversa vira duelo; e a necessidade de provar virilidade passa a falar mais alto do que o compromisso com a paz da casa. O problema não é a festa. O problema é o roteiro que entra na sala — e que, com álcool e tensão, encontra combustível para acelerar. O que os números revelam sobre violência e gênero Se a ceia é o cenário, os dados ajudam a entender por que esse debate não pode ser tratado como exagero. A violência baseada em gênero no Brasil é estrutural e persistente — e, em grande parte, cometida por homens. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública destaca que, em 2023, 1.467 mulheres foram mortas por feminicídio e que a imensa maioria desses crimes foi cometida por homens. Na edição seguinte, com os números consolidados de 2024, o país registrou 87.545 estupros — o maior número da série, segundo a divulgação. Esses números não significam que toda discussão familiar vá virar crime. Mas lembram algo essencial: existe uma cultura de violência que atravessa relações íntimas, atravessa a casa e atravessa o cotidiano. E o fim de ano, por aumentar convivência e, muitas vezes, consumo de álcool, tende a tornar esse risco mais visível. Em outras palavras: quando “a noite desanda”, o que aparece não é uma anomalia. É um padrão social que já estava ali — e que precisa ser interrompido antes de escalar. A “Delegacia lotada” não é destino: é sinal de falha coletiva Outro termômetro decisivo são os mecanismos de proteção. Em 2024, foram concedidas 555.001 medidas protetivas no âmbito da Lei Maria da Penha, e houve mais de 1 milhão de chamadas ao 190 relacionadas à violência doméstica, segundo levantamentos divulgados a partir de dados públicos e análises reportadas. Isso mostra duas coisas ao mesmo tempo: mais mulheres buscam ajuda (o que é positivo), mas o volume de ocorrências segue alto — e a prevenção ainda falha. Quando uma sociedade só reage depois do conflito, ela normaliza o caminho até a explosão. Por isso, a pergunta que move esta série é simples e direta: por que seguimos aceitando que “ser homem” inclua um direito informal de constranger, intimidar, dominar e estragar o encontro dos outros? O pacto possível: Virada é compromisso A ComCausa – Defesa da Vida propõe começar a virada pelo básico: reconhecer o padrão, nomear os gatilhos e assumir um compromisso público. O primeiro passo é sair da negação (“é assim mesmo”) e aceitar um pacto simples: ninguém precisa provar virilidade estragando a noite de ninguém. Nos próximos dias, esta série vai aprofundar as raízes (como a masculinidade tóxica vira “panela de pressão”), os impactos (quem paga a conta dessa performance) e, principalmente, as ferramentas práticas para interromper a escalada antes que ela vire humilhação, ameaça ou violência. A ideia é sair do diagnóstico e chegar

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Violência contra mulher

El País aponta: indignação contra feminicídios no Brasil ganha as ruas e pressiona o debate público

O jornal El País, na editoria América, publicou em 15 de dezembro de 2025 a reportagem “A indignação pelos feminicídios no Brasil se abre espaço no debate público e sai às ruas”, descrevendo um cenário de mobilização nacional que deixou de ser episódico e passou a ocupar o centro da conversa pública: protestos, pressão por respostas do Estado e um grito repetido em diferentes cidades — “Parem de nos matar”. A matéria reconstrói a mudança de clima social a partir de uma comparação poderosa: em 2019, atos isolados pareciam dissolver-se no fluxo da cidade; em dezembro de 2025, a mesma indignação reaparece em massa, com mulheres e apoiadores se organizando em rede e tomando avenidas e praças em várias capitais. O domingo em que o grito virou multidão Segundo o El País, as marchas do domingo, 7 de dezembro, reuniram cerca de 10 mil pessoas em São Paulo e milhares em outras cidades, num movimento articulado rapidamente, impulsionado pela sequência recente de crimes que chocou o país e rompeu a barreira da normalização. Em São Paulo, a concentração aconteceu na região do Masp, na Avenida Paulista — um ponto simbólico de atos públicos — e o repertório de palavras de ordem foi direto: “parem de nos matar”, “chega de mortes”, exigindo prevenção, proteção e resposta do poder público. A Agência Brasil, ao listar horários e locais em diferentes estados, registrou que manifestações ocorreram em várias cidades do país no mesmo dia, com chamadas públicas para que a mobilização não ficasse restrita a uma capital — mas tivesse cara de agenda nacional. Por que a comoção “furou” a rotina do noticiário O ponto de virada, descreve o El País, foi a sucessão de episódios marcados por extrema crueldade e ampla repercussão — crimes que escancaram como a violência de gênero se expressa não só em estatísticas, mas em trajetórias interrompidas, famílias devastadas e sobreviventes com sequelas permanentes. A Associated Press também relacionou os protestos a uma “onda” recente de casos que gerou indignação pública e reforçou a cobrança por medidas preventivas e políticas de proteção mais efetivas, além de mudanças culturais que enfrentem a misoginia cotidiana. Os números por trás da urgência A reportagem do El País lembra que o Brasil vive uma média que equivale a quatro mulheres assassinadas por dia. Esse retrato ganha contorno ainda mais duro quando confrontado com os dados de segurança pública: o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (divulgado em 2025) apontou 1.492 feminicídios em 2024, recorde desde a tipificação do crime, mantendo a média diária em torno de quatro. Ou seja: não se trata de “picos” isolados, mas de uma continuidade que o país aprende a enxergar com mais nitidez quando a violência explode em casos emblemáticos — e, então, volta a ser cobrada como prioridade política. Lei existe — mas o desafio é transformar regra em proteção real O Brasil construiu marcos importantes nas últimas décadas. A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) estruturou mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Em 2015, a Lei nº 13.104/2015 incluiu o feminicídio como qualificadora do homicídio e o colocou no campo dos crimes hediondos. Mais recentemente, houve nova mudança legislativa: a Lei nº 14.994/2024 ampliou a pena para 20 a 40 anos e passou a tratar o feminicídio como crime autônomo no Código Penal. Ainda assim, a própria cobertura do El País e de outros veículos converge num ponto: punir é necessário, mas não resolve sozinho. Prevenção, educação, resposta rápida, proteção efetiva, acolhimento, rede intersetorial e acompanhamento de risco são as peças que precisam funcionar antes do “depois”. Rede de ajuda: denunciar também é uma forma de interromper a escalada Num país em que a subnotificação ainda é realidade, os canais de orientação e denúncia fazem diferença concreta. O Ligue 180, serviço nacional de atendimento a mulheres, completou 20 anos em 2025 e registrou mais de 877 mil atendimentos entre janeiro e outubro, com média de 2.895 por dia, segundo o Ministério das Mulheres. Em situações de emergência e risco imediato, a orientação é acionar o 190. Janeiro começa com ação: ComCausa – Defesa da Vida e ONU (UNFPA) No rastro desse debate que cresce nas ruas e nas redações, a ComCausa – Defesa da Vida anuncia o início, em janeiro de 2026, de um projeto com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU), estruturado como Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida. Na comunicação pública, a iniciativa passa a ser apresentada pelo nome curto “Masculinidades Positivas – Defesa da Vida”, pensado para facilitar memorização e circulação nas redes, mantendo a assinatura institucional da ComCausa. A proposta parte de um eixo direto: enfrentar padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas — autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado — e terá desdobramentos de campanha já na primeira quinzena de janeiro, conectando prevenção, comunicação cidadã e mobilização social. 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ComCausa é selecionada pela UNFPA-ONU para criar Núcleo de Masculinidades Positivas

A ComCausa Defesa da Vida foi selecionada pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA – United Nations Population Fund) em um programa de Fortalecimento Institucional de Organizações da Sociedade Civil para a Aceleração Estratégica da Agenda do Cairo. Entre as quase 200 organizações inscritas, apenas oito foram escolhidas em todo o país – entre elas a ComCausa. O apoio do UNFPA permitirá à ComCausa estruturar o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, uma frente permanente da instituição voltada a trabalhar masculinidades não violentas, direitos sexuais e reprodutivos, paternidades cuidadoras e comunicação para mudança social com adolescentes e jovens, especialmente moradores de periferias. “Mais do que uma ação pontual, trata-se de um investimento no coração da organização, que fortalecerá equipe, processos internos, governança e capacidade de comunicação em temas como saúde e direitos sexuais e reprodutivos, prevenção de violências, educação integral em sexualidade e promoção da igualdade de gênero”, afirma Adriano Dias, autor da proposta e que atuará como coordenador de ações da ComCausa a partir de 2026. Ele destaca que o Núcleo está diretamente alinhado aos temas centrais da Agenda do Cairo. O Núcleo terá entre suas atribuições: desenvolvimento de protocolos, políticas internas e materiais de referência sobre masculinidades, prevenção de violências e proteção de crianças, adolescentes e mulheres; construção de indicadores e ferramentas de monitoramento que permitam demonstrar resultados, qualificar o trabalho de campo e gerar insumos para políticas públicas e novas parcerias, entre outras ações. A Agenda do Cairo. é o compromisso internacional firmado em 1994, na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, que colocou os direitos humanos, a igualdade de gênero e a saúde sexual e reprodutiva no centro das políticas de população e desenvolvimento. Em vez de focar apenas em “número de pessoas”, a Agenda do Cairo afirma que não há desenvolvimento sustentável sem respeito à autonomia de mulheres e meninas, acesso à informação e a serviços de saúde de qualidade, combate às desigualdades e às violências. Já o Fundo de População das Nações Unidas é o organismo da ONU responsável por temas populacionais, saúde sexual e reprodutiva e direitos reprodutivos. Como agência de cooperação internacional, trabalha para que todas as pessoas – mulheres, homens, jovens e crianças – possam viver com saúde, dignidade e igualdade de oportunidades, apoiando países na formulação de políticas que reduzam a pobreza, garantam gestações desejadas, partos seguros e enfrentem o HIV/Aids e as diversas formas de violência. Implementação O projeto se iniciará já em dezembro de 20256 e será formalmente lançado na primeira quinzena de janeiro, em uma agenda especial de apresentação pública do Núcleo e de diálogo com parceiros e comunidades da Baixada Fluminense e da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. As ações do Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida serão implementadas entre dezembro de 2025 e junho de 2027, com acompanhamento técnico do UNFPA. Segundo a coordenação de ações da ComCausa, a tendência é que essa frente se consolide como uma agenda estruturante da instituição, que já atua há anos com comunicação, direitos humanos, juventudes e prevenção das violências. Para a ComCausa – Defesa da Vida, esse reconhecimento é também um chamado a ampliar redes e somar forças com coletivos, instituições, escolas, serviços públicos e iniciativas de base comunitária que já constroem, na prática, novas formas de ser homem, de viver a sexualidade, de exercer a paternidade e de comunicar a vida nas periferias. Imagem de capa ilustrativa Leia também | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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