O jornal El País, na editoria América, publicou em 15 de dezembro de 2025 a reportagem “A indignação pelos feminicídios no Brasil se abre espaço no debate público e sai às ruas”, descrevendo um cenário de mobilização nacional que deixou de ser episódico e passou a ocupar o centro da conversa pública: protestos, pressão por respostas do Estado e um grito repetido em diferentes cidades — “Parem de nos matar”.
A matéria reconstrói a mudança de clima social a partir de uma comparação poderosa: em 2019, atos isolados pareciam dissolver-se no fluxo da cidade; em dezembro de 2025, a mesma indignação reaparece em massa, com mulheres e apoiadores se organizando em rede e tomando avenidas e praças em várias capitais.
O domingo em que o grito virou multidão
Segundo o El País, as marchas do domingo, 7 de dezembro, reuniram cerca de 10 mil pessoas em São Paulo e milhares em outras cidades, num movimento articulado rapidamente, impulsionado pela sequência recente de crimes que chocou o país e rompeu a barreira da normalização.
Em São Paulo, a concentração aconteceu na região do Masp, na Avenida Paulista — um ponto simbólico de atos públicos — e o repertório de palavras de ordem foi direto: “parem de nos matar”, “chega de mortes”, exigindo prevenção, proteção e resposta do poder público. A Agência Brasil, ao listar horários e locais em diferentes estados, registrou que manifestações ocorreram em várias cidades do país no mesmo dia, com chamadas públicas para que a mobilização não ficasse restrita a uma capital — mas tivesse cara de agenda nacional.
Por que a comoção “furou” a rotina do noticiário
O ponto de virada, descreve o El País, foi a sucessão de episódios marcados por extrema crueldade e ampla repercussão — crimes que escancaram como a violência de gênero se expressa não só em estatísticas, mas em trajetórias interrompidas, famílias devastadas e sobreviventes com sequelas permanentes.
A Associated Press também relacionou os protestos a uma “onda” recente de casos que gerou indignação pública e reforçou a cobrança por medidas preventivas e políticas de proteção mais efetivas, além de mudanças culturais que enfrentem a misoginia cotidiana.
Os números por trás da urgência
A reportagem do El País lembra que o Brasil vive uma média que equivale a quatro mulheres assassinadas por dia. Esse retrato ganha contorno ainda mais duro quando confrontado com os dados de segurança pública: o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (divulgado em 2025) apontou 1.492 feminicídios em 2024, recorde desde a tipificação do crime, mantendo a média diária em torno de quatro.
Ou seja: não se trata de “picos” isolados, mas de uma continuidade que o país aprende a enxergar com mais nitidez quando a violência explode em casos emblemáticos — e, então, volta a ser cobrada como prioridade política.
Lei existe — mas o desafio é transformar regra em proteção real
O Brasil construiu marcos importantes nas últimas décadas. A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) estruturou mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Em 2015, a Lei nº 13.104/2015 incluiu o feminicídio como qualificadora do homicídio e o colocou no campo dos crimes hediondos.
Mais recentemente, houve nova mudança legislativa: a Lei nº 14.994/2024 ampliou a pena para 20 a 40 anos e passou a tratar o feminicídio como crime autônomo no Código Penal.
Ainda assim, a própria cobertura do El País e de outros veículos converge num ponto: punir é necessário, mas não resolve sozinho. Prevenção, educação, resposta rápida, proteção efetiva, acolhimento, rede intersetorial e acompanhamento de risco são as peças que precisam funcionar antes do “depois”.
Rede de ajuda: denunciar também é uma forma de interromper a escalada
Num país em que a subnotificação ainda é realidade, os canais de orientação e denúncia fazem diferença concreta. O Ligue 180, serviço nacional de atendimento a mulheres, completou 20 anos em 2025 e registrou mais de 877 mil atendimentos entre janeiro e outubro, com média de 2.895 por dia, segundo o Ministério das Mulheres. Em situações de emergência e risco imediato, a orientação é acionar o 190.
Janeiro começa com ação: ComCausa – Defesa da Vida e ONU (UNFPA)
No rastro desse debate que cresce nas ruas e nas redações, a ComCausa – Defesa da Vida anuncia o início, em janeiro de 2026, de um projeto com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU), estruturado como Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida. Na comunicação pública, a iniciativa passa a ser apresentada pelo nome curto “Masculinidades Positivas – Defesa da Vida”, pensado para facilitar memorização e circulação nas redes, mantendo a assinatura institucional da ComCausa.
A proposta parte de um eixo direto: enfrentar padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas — autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado — e terá desdobramentos de campanha já na primeira quinzena de janeiro, conectando prevenção, comunicação cidadã e mobilização social.
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