Priscila Belfort e a “teia de ausências”: por que ainda existem falha na busca por desaparecidos
Há 22 anos sem respostas definitivas, o desaparecimento de Priscila Belfort expõe um padrão: atendimento precário às famílias, investigação fragmentada e um território em que o sumiço, muitas vezes, vira estatística — especialmente quando a vítima é negra, pobre e periférica. O caso de Priscila Belfort não é apenas uma história interrompida. Ele expõe, com nitidez, o peso da conjuntura do Rio de Janeiro — marcada por sobrecarga institucional, fragmentação entre órgãos, desigualdades territoriais e um ambiente de violência e medo que dificulta a circulação de informações e a proteção de testemunhas — sobre um dos temas mais dolorosos da vida pública: o desaparecimento de pessoas. Quando alguém desaparece, o tempo vira inimigo. E, em uma conjuntura em que a resposta do Estado nem sempre é imediata, integrada e consistente, cada hora sem coordenação pode apagar pistas, dispersar testemunhas, esfriar imagens, desorganizar rotinas de busca e ampliar o sofrimento de mães, pais e familiares que passam a viver em suspensão. Em 2024, esse cenário ganhou números que não deixam margem para relativização: o Rio registrou média de 16 desaparecimentos por dia, com 2.533 registros entre janeiro e maio, segundo levantamento baseado em dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). O problema não é só “quantidade”. É a forma como as instituições respondem — e a forma como a resposta muda conforme a cor, o CEP e a renda de quem desapareceu. O caso Priscila Belfort: 20 anos de perguntas abertas Priscila Vieira Belfort nasceu no Rio de Janeiro em 5 de dezembro de 1974. Em 9 de janeiro de 2004, aos 29 anos, desapareceu após sair para almoçar no Centro do Rio, onde trabalhava na Secretaria Municipal de Esportes e Lazer. Desde então, seu paradeiro permanece desconhecido. Ao longo dos anos, o caso atravessou ondas de visibilidade pública, denúncias, buscas e hipóteses. Entre os episódios citados na reconstrução do caso, há o registro de que, em 2007, surgiu uma confissão apontando sequestro e morte, com indicação de local de ocultação, mas nada foi encontrado, mantendo o caso sem comprovação conclusiva e sem desfecho. Por isso, Priscila, muito pelo empenho de sua mãe Jovita Belfort e e seu irmão Vitor segue como símbolo de uma tragédia dupla: a violência do desaparecimento e a violência institucional da ausência de resposta. O que os dados recentes mostram: o desaparecimento como rotina O levantamento divulgado em 2024 indica que o Rio vive um patamar alto e constante de registros: são 16 novos desaparecidos por dia. E o próprio debate público sobre o tema tem apontado gargalos estruturais. Uma reportagem de 2024, por exemplo, chama atenção para um ponto decisivo: a falta de integração de dados (polícia, hospitais e IML) e a consequência direta disso para a eficiência das buscas. Na prática, quando sistemas não conversam e rotinas não são padronizadas, o desaparecimento vira um labirinto burocrático: a família procura numa porta, recebe orientação desencontrada em outra, e as pistas não chegam a tempo onde deveriam chegar. A “teia de ausências”: como as famílias são empurradas para o abandono Um dos diagnósticos mais fortes sobre o tema no Rio é descrito como uma “teia de ausências”: uma sequência de faltas institucionais que começam no momento de registrar a ocorrência e continuam no percurso por serviços de assistência, saúde, apoio psicológico e orientação jurídica. O estudo “Teia de ausências”, de pesquisadoras vinculadas ao CESeC, descreve que o caminho das famílias é marcado por: dificuldades para registrar a ocorrência (com apenas uma delegacia especializada em todo o estado); concentração geográfica dos poucos serviços de assistência; atendimentos desumanizadores, baseados em estereótipos e preconceitos; e um peso ainda maior quando as famílias são pobres, negras e periféricas. Esse ponto é central: não se trata apenas de falhas “técnicas”. Existe um padrão de desigualdade no acesso à investigação, ao cuidado institucional e ao direito básico de ser atendido com seriedade. Baixada Fluminense: o epicentro silencioso dos desaparecimentos Se na capital o desaparecimento choca, na Baixada ele se repete com um grau de naturalização perigoso. Dados compilados a partir de registros do ISP indicam que, entre 2003 e julho de 2023, a Baixada Fluminense registrou 27.985 pessoas desaparecidas, o que equivale a 25% do total do estado no período. O mesmo boletim destaca um problema grave: muitos casos que deveriam ser tratados como desaparecimentos forçados acabam “rebaixados” a uma categoria genérica de “pessoas desaparecidas”, em um contexto em que o país ainda convive com lacunas de tipificação, registro e responsabilização adequadas. E a dimensão territorial desse terror aparece na cartografia das chamadas “áreas de desova”. Em 2025, um levantamento divulgado pela Ponte Jornalismo, com base em mapeamento da IDMJR, apontou 116 cemitérios clandestinos e outras áreas de desova na Baixada Fluminense, associados a dinâmicas de violência e controle territorial. Quando um território acumula desaparecimentos, áreas de ocultação e medo estruturado, investigar “caso a caso” sem inteligência integrada e sem proteção a testemunhas vira, muitas vezes, uma encenação de procedimento. Onde o sistema quebra: coordenação, prioridade e capacidade operacional O caso de Priscila Belfort atravessa exatamente esse problema: investigações que não conseguem sustentar, por anos, uma linha robusta com transparência, revisão de hipóteses, checagem sistemática de denúncias e articulação interinstitucional. E isso ocorre num estado onde: há grande volume de registros (que exigiria equipe e tecnologia compatíveis); faltam bancos integrados e protocolos unificados; e, com frequência, a família é empurrada para o papel de “investigadora” informal — algo descrito no próprio estudo como parte do cotidiano de quem busca: “a gente vira detetive…”. Um exemplo de resposta interinstitucional que existe no Rio é o PLID (Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos), criado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) em 2012, com a finalidade de articular dados de órgãos distintos e tratar o desaparecimento como um problema social que ultrapassa a esfera meramente criminal.O diagnóstico do próprio programa reforça a importância de sistemas de informação e articulação para enfrentar um tema que tende a ser invisibilizado. Casos que seguem se repetindo Edson Davi A ComCausa – Defesa da






