O conteúdo apresentado neste relatório é fruto de uma sistematização inicial e ainda incompleta das experiências concretas vividas pela ComCausa — experiências acumuladas ao longo de décadas de atuação comprometida com os direitos humanos, a justiça social e a comunicação de interesse público na Baixada Fluminense e em outros territórios historicamente vulnerabilizados.

Trata-se de uma leitura construída a partir da escuta direta das comunidades, dos atendimentos prestados, das denúncias recebidas — acolhidas ou não pelas instituições —, das relações estabelecidas com veículos de imprensa e do acompanhamento das dinâmicas territoriais e institucionais. Essa sistematização, embora relevante, é limitada pelas restrições de recursos técnicos e financeiros e reflete uma visão situada, parcial, mas profundamente enraizada na realidade vivida junto à população.

Não se pretende aqui apresentar uma análise definitiva ou um levantamento estatístico preciso. O que se oferece é um ponto de partida: um mapa narrativo e interpretativo inicial, que possa servir de base para estudos mais aprofundados, rigorosos e qualificados, a serem realizados por universidades, órgãos públicos, redes da sociedade civil e pesquisadores comprometidos com a transformação social. Tais estudos são urgentes e necessários para dar conta da complexidade do trabalho cotidiano de resistência de sujeitos, coletivos e organizações que enfrentam a necropolítica que historicamente assola a Baixada Fluminense.

É importante reconhecer que algumas informações aqui reunidas podem conter lacunas ou imprecisões, e que determinadas análises não estão necessariamente em total consonância com consensos técnicos ou teóricos. Ainda assim, o valor deste trabalho está em oferecer uma leitura comprometida com a realidade, construída a partir do chão da prática social.

O objetivo maior desta sistematização é justamente esse: estimular o debate público, inspirar articulações entre atores diversos e fortalecer práticas transformadoras. Ao converter sua trajetória em subsídio reflexivo e político, a ComCausa reafirma sua convicção de que as soluções para os desafios sociais e institucionais da Baixada devem nascer do protagonismo das comunidades. Um futuro digno, inclusivo e justo não pode ser exceção — deve ser o princípio.

Uma travessia que conecta ação direta, reflexão crítica e educação libertadora na Baixada Fluminense e além.

| Sistematização: Adriano Dias

| Assessoria: Debora Barroso e  João Oscar

| ComCausa Defesa da Vida

Eixos do Panorama de Violações de Direitos Humanos na Baixada Fluminense (2024-2025)

Eixo temáticoSíntese do problema (2024-25)
0Déficit institucional de direitos humanos13 prefeituras sem secretaria autônoma de DH, Igualdade Racial ou Mulher; conselhos sem quórum bloqueiam repasses federais.
1Violência letal & abusos policiais3 795 mortes violentas em 2024; AISPs 15/20/21 concentram 38 %. Letalidade policial na Baixada ↑ 71,9 % (jan-abr/25).
2Desaparecimentos forçadosBaixada responde por ~30 % dos desaparecimentos do RJ; Delegacia de Paradeiros prometida desde 2019 nunca inaugurada.
3Domínio armado de facções & milíciasOperação Bisturi apreende 28 fuzis (mar/25); “tour da propina” prende 22 PMs (nov/24); milícias cobram taxa de gás/internet.
4Violência de gênero & feminicídio107 feminicídios em 2024; Baixada = 30 % dos casos. Apenas 3 DEAMs 24 h e 1 abrigo ativo para 3,9 mi de habitantes.
5Genocídio da juventude negra84 % das vítimas de homicídio (2022-24) = homens negros 15-29 a; em Meriti, 31 % dos óbitos juvenis vêm da polícia.
6Violência na primeira infância7 crianças baleadas (jan-abr/25); Conselhos Tutelares sem estrutura; visitas domiciliares cobrem < 6 % das crianças 0-6 a.
7Violência e tensão nas escolas368 escolas suspenderam aulas por tiros (2024); 317 dias letivos perdidos; só 6 mediadores escolares para 840 unidades.
8População em situação de rua~14 000 pessoas sem teto; apenas 3 Centros POP; nenhum município aderiu ao plano federal Ruas Visíveis.
9Direito à água & saneamentoColeta de esgoto: Caxias 13,4 %, Belford 5,6 %; surtos de leptospirose no Pilar; alagamentos crônicos no Centenário.
10Injustiça ambientalPassivos tóxicos: Gramacho (3 Mi L/d chorume), Cidade dos Meninos (DDT), lixão Marambaia, CENTRES, CTR Rio, lixões clandestinos; racismo ambiental cristalizado.

Esses eixos concentram os principais pontos críticos identificados pela a partir de atendimentos, relação com imprensa, diligências comunitárias e cruzamento de bases públicas entre jan 2024 e mai 2025.

0 | Déficit institucional de direitos humanos

A fotografia mais ampla dos direitos humanos na Baixada Fluminense revela um território onde a pauta foi relegada a um lugar residual tanto pelas administrações municipais quanto, em grande medida, pela própria engrenagem federativa que exige contrapartidas locais para liberar verbas. Nenhuma das treze prefeituras – de Nova Iguaçu a Guapimirim – estruturou uma secretaria autônoma de Direitos Humanos, Igualdade Racial ou Mulher; as poucas “coordenadorias” existentes funcionam penduradas em Assistência Social, com menos de três servidores efetivos e dotação simbólica, como mostrou o levantamento do Observatório das Metrópoles.

Sem essa engrenagem básica, os municípios ignoram – ou não conseguem cumprir – os requisitos para acessar os principais instrumentos federais. Entre 2023 e 2025, nenhum deles firmou convênio com o programa Mulher Viver sem Violência, tampouco ingressou no SINAPIR, sistema nacional que libera recursos para igualdade racial; quanto ao Juventude Negra Viva, a própria Secretaria Nacional de Juventude reconhece “falta de engajamento dos entes subnacionais” – a Baixada confirma a regra, com zero termos de adesão registrados no SIGCON-ME até maio de 2025 .

A engrenagem trava ainda mais porque os Conselhos Municipais de Mulher, Juventude, Igualdade Racial e Direitos Humanos, exigidos pela legislação para recebimento de repasses, funcionam sem orçamento ou com cadeiras vagas; o Siconv/SIGCON marcou a maioria como “inoperante” já em fevereiro / 2025 . Sem conselho, não há plano; sem plano, não há projeto; sem projeto, não há convênio – e o ciclo se fecha.

Diante desse vácuo institucional, quem sustenta alguma resposta são organizações comunitárias, igrejas, terreiros, coletivos culturais e ONGs, frequentemente financiados por pequenos editais ou vaquinhas on-line. O poder público, por sua vez, investe de forma desproporcional em políticas de segurança ostensiva: o orçamento agregado dos três maiores batalhões da PM – 15.º, 20.º e 21.º – supera em quase dez vezes tudo o que as treze prefeituras somaram para ações de “promoção de direitos” em 2024.

Em síntese, o déficit de direitos humanos na Baixada não se resume à falta de dinheiro; ele revela uma escolha política que privilegia a repressão imediata e abre mão de construir estruturas de prevenção, proteção e reparação. Enquanto esse desenho não mudar – começando por secretarias, conselhos e aderência a programas federais – violações seguirão tratadas como fatalidades isoladas, e não como problema público que exige política de Estado.

  1. Ausência de secretarias específicas – Nenhuma das 13 prefeituras (Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Belford Roxo, São João de Meriti, Mesquita, Nilópolis, Queimados, Japeri, Magé, Paracambi, Seropédica, Itaguaí e Guapimirim) mantém secretaria ou coordenadoria com dotação própria para Direitos Humanos, Igualdade Racial ou Políticas para Mulheres. Levantamento do Observatório das Metrópoles mostra que tais pastas, quando existem, estão subordinadas à Assistência Social, com equipes inferiores a três servidores observatoriodasmetropoles.net.br.
  2. Baixa adesão a programas federais –
  • Mulher Viver sem Violência: nenhuma das treze cidades firmou convênio ativo br.
  • Juventude Negra Viva / Juventude Viva: a Secretaria Nacional de Juventude confirma que, em 2025, nenhum município da Baixada assinou termo de adesão; o próprio plano federal reconhece “falta de engajamento dos entes subnacionais” uol.com.br.
  • SINAPIR (promoção da igualdade racial): não há registro de ingresso das prefeituras no sistema entre 2021-25 (consulta SIGCON-ME, maio / 2025).
  1. Conselhos inoperantes – Conselhos Municipais de Mulher, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos funcionam sem dotação ou têm cadeiras vagas, inviabilizando o repasse de recursos dos fundos nacionais (Siconv/SIGCON, fev / 2025).
Ministério de políticas de igualdadeConvênios/obras nos 13 municípios (2024-2025)Valor (R$)% da Pop. atendida*
Direitos Humanos & Cidadania (MDHC)0 novos convênios registrados desde 2020; o último — Duque de Caxias, R$ 300 mil — foi encerrado em mar/202000 % 
Ministério da Igualdade Racial (MIR)Nenhuma adesão ao SINAPIR (2021-25)00 %
Ministério das Mulheres (MMulheres)Três convênios exclusivos de Belford Roxo: 970022 (R$ 3 mi), 954880 (R$ 1,5 mi) e 949805 (R$ 400 mil) para reestruturar o CEAMBel4,9 mi26 % (só BRX)
Ministério dos Povos Indígenas (MPI)Investimentos restritos ao Museu do Índio, na capital; nenhum projeto territorializado na Baixada0 %

Evidência: portaldatransparencia.gov.br

* População total da Baixada: 3,9 milhões hab.; Belford Roxo: 1,0 milhão hab. (IBGE 2022).

Principais constatações

  1. Ausência estrutural – As 13 prefeituras não mantêm secretaria própria de Direitos Humanos, Igualdade Racial ou Mulher; onde há “coordenadorias”, elas estão penduradas na Assistência Social com < 3 servidores cada. observatoriodasmetropoles.net.br
  2. Piso orçamentário simbólico – Em 2023, Belford Roxo reservou R$ 30 mil (0,008 % da peça) para DH; os demais municípios nem sequer abrem sub-ação específica.
  3. Baixa captura de recursos federais – Entre 2023-25, nenhum município firmou convênio com:
    • Mulher Viver sem Violência (exceto BRX);
    • Juventude Negra Viva;
    • SINAPIR.
      O próprio Plano Juventude Negra Viva admite “falta de engajamento dos entes subnacionais”. gov.br
  4. Visibilidade nula para povos originários – A Baixada abriga aldeias urbanas Tupi-Guarani e famílias Pataxó em Nova Iguaçu e Paracambi, mas nenhum edital do MPI ou da Funai foi executado no território (2023-25). portaldatransparencia.gov.br
  5. Conselhos paralisados – 11 dos 13 Conselhos Municipais (Mulher, Igualdade Racial, Juventude, DH) estão sem dotações ou sem quórum, bloqueando transferências automáticas de fundos nacionais (Siconv/SIGCON fev/25).

O vácuo institucional reforça respostas meramente punitivas na segurança pública e impede ações preventivas em gênero, juventude, igualdade racial ou educação em direitos humanos.

  • Recursos federais perdidos – só o eixo “Mulher Viver sem Violência” reservou R$ 51,7 mi no PLOA-2025; municípios sem convênio não acessam casas-abrigo nem ônibus da mulher.
    Referência: PLOA-2025, Vol. II – código 5662 planalto.gov.br
  • Bloqueio de fundos nacionais – Conselhos incompletos impedem repasses automáticos do Fundo Nacional de Igualdade Racial e do Fundo dos Direitos da Mulher (portarias 209/2023 e 17/2024 / MDHC).
  • Baixa execução orçamentária – Belford Roxo destinou R$ 30 mil a DH em 2023; se aplicasse o piso mínimo sugerido (1 % da receita corrente líquida), teria R$ 11,6 mi para programas de prevenção e reparação.
ItemSituação na Baixada Fluminense (13 municípios)Evidências on-line
1. Ausência de secretarias estruturadasSomente Belford Roxo e São João de Meriti ainda mantêm nomenclaturas de “Direitos Humanos”, mas as pastas foram fundidas à Assistência Social e contam com < 3 servidores efetivos cada. Os demais 11 executivos sequer incluem o tema na estrutura orgânica.Relatório Baixada em Movimento – Observatório das Metrópoles (2023) identifica “fragilidade ou inexistência de órgãos de DH na região” observatoriodasmetropoles.net.br
2. Orçamento ínfimoExemplo real: na LDO 2022 de Belford Roxo a ação “Gestão e Operacionalização das Políticas Públicas de Direitos Humanos” recebeu R$ 30 mil (0,008 % da peça orçamentária), contra R$ 213 mi para ensino fundamental.Demonstração de metas – LDO/BRX pág. 24-26 mostra a rubrica de R$ 30 000 portal.cmbr.rj.gov.br
3. Baixa adesão a programas federaisa) Mulher Viver sem Violência – consulta ao Portal de Transferências do MMulheres indica apenas Volta Redonda (Sul Fluminense) como município fluminense ativo em 2024-25; nenhuma das 13 cidades da Baixada celebrou convênio.Diário de despesas do ERJ evidencia visitas técnicas do programa em Volta Redonda, não na Baixada rj.gov.br
 b) Plano Juventude Negra Viva – o PDF oficial (versão 2024) lista apenas capitais e grandes cidades do Nordeste; zero adesões no RJ até abr/2025, fato reconhecido pela Secretaria Nacional de Juventude como “falta de engajamento dos entes subnacionais”.Plano Juventude Negra Viva, p. 42-43, “Entes aderentes” gov.br
 c) SINAPIR – a listagem atualizada (02 jun 2025) mostra 171 municípios filiados no país, nenhum deles nos 13 da Baixada.Página oficial do SINAPIR / MDHC gov.br
4. Conselhos inoperantesLevantamento feito pela ComCausa nos Diários Oficiais (fev-mai/2025) encontrou cadeiras vagas ou sem dotação em 11 Conselhos da Mulher, Igualdade Racial, Juventude e DH; as duas exceções (Belford Roxo e Caxias) não publicaram atas desde 2023.Exemplo: resolução de reprogramação do COMAS-Meriti sem previsão orçamentária para DH (DOM 08 abr 2025) transparencia.meriti.rj.gov.br
5. Resultado práticoCom orçamento tracionado para segurança ostensiva, as prefeituras recorrem a “operações punitivas” enquanto políticas preventivas (juventude, gênero, raça, escola) ficam sem fonte de custeio — cenário citado como “círculo vicioso de violência” pelo Observatório das Metrópoles.Baixada em Movimento, seção “Capacidade político-institucional” observatoriodasmetropoles.net.br

Recomendações qualificadas

  1. Lei Orgânica Municipal de DH
    Dotação mínima ≥ 1 % + obrigatoriedade de secretaria autônoma.
  2. Adesão imediata a programas federais
    Cronograma de 90 dias para cadastrar convênios em: Mulher Viver sem Violência, Juventude Negra Viva, SINAPIR e Escola Sem Violência.
  3. Plano de Capacitação Inter-municipal (Baixada-DH)
    Formação de 200 gestores em elaboração de projetos no SIGCON-ME e Siconv; mentoria com UF Rural RJ e Defensoria Pública.
  4. Painel Transparente Baixada
    Publicar mensalmente: dotações, empenhos e liquidações de todas as rubricas de DH, Igualdade Racial e Mulher — modelo inspirador: Portal TCE-RJ “Fiscalização Digital”.
  5. Fundo Rotativo de Reparação (10 % de multas ambientais e de trânsito)
    Estimativa de arrecadação: R$ 38 mi/ano, suficiente para triplicar as verbas de proteção social e financiar Casas da Mulher em Caxias, Iguaçu e Meriti.

A escassez de estrutura e de orçamento não é “fatalidade fiscal”, mas escolha política. Enquanto direitos humanos ficarem presos a rubricas simbólicas (R$ 30 mil) e sem vínculos a programas federais, a Baixada continuará a operar no modo repressivo-emergencial. Estruturar secretarias, ativar conselhos e buscar transferências voluntárias é o primeiro passo para transformar diagnóstico em política efetiva.

Eixo 1 | Violência letal & abusos policiais

Os quatro maiores municípios da Baixada — Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e São João de Meriti — voltaram a puxar para cima o indicador estadual de letalidade violenta. Segundo o Segurança em Números 2025 (ano-base 2024), o Rio registrou 3 795 vítimas de mortes violentas intencionais; grande parte delas ocorreu justamente nas Áreas Integradas de Segurança Pública 15, 20 e 21, que cobrem esses municípios. rj.gov.br

Cidade (pop. IBGE 2022)Mortes por intervenção policial – jan-abr/2025Tendência*Observações
Duque de Caxias (924 k)25▲ +34 % vs. 2024Concentração na AISP 15 (Campos Elíseos)odia.ig.com.br
São João de Meriti (473 k)23▲ +50 %AISP 21 registrou maior salto da RM RJ em 2024-25cesecseguranca.com.br
Belford Roxo (513 k)15▲ +27 %Bairro Santa Tereza mantém taxa de 87 homicídios/100 mil
Nova Iguaçu (825 k)2 077 homicídios acumulados 2018-22**Município com maior nº absoluto de assassinatos na RM RJ – estudo CESeC/UFJFbrasildefato.com.br

* Comparação com o mesmo quadrimestre de 2024, ISP/GEU.
** Na série 2018-2022; o ISP ainda consolida 2023-24 por bairro.

Análise ComCausa: O uso massivo da força continua substituindo inteligência policial. Mesmo com a adoção piloto de câmeras-corpo em 2024, nenhum dos 37 inquéritos de mortes em serviço na Baixada virou denúncia até abril/2025.

Indicador-chaveBaixada FluminenseFonte
Mortes violentas intencionais (MVI)-20243 795 no estado; AISPs 15 (Caxias), 20 (Nova Iguaçu) e 21 (S. J. de Meriti) concentraram a maior fatia regionalrj.gov.br
Mortes por intervenção policial – jan-abr 202598 na Baixada (↑ 71,9 % vs. 2024)cesecseguranca.com.br
Ranking municipal – jan-abr 2025Duque de Caxias 25; S. J. de Meriti 23; Belford Roxo 15diariodorio.com
Nova Iguaçu (série histórica)2 077 homicídios 2018-22, recorde absoluto da RMRJavozdacidade.com

1.1 Retrato da letalidade

  • Espinha dorsal do problema – dos 3 795 MVI contabilizados em 2024 pelo Segurança em Números 2025, 38 % ocorreram nas AISPs 15, 20 e 21, que cobrem Caxias, Nova Iguaçu, Meriti e Belford. Isso mantém a Baixada como epicentro de mortes violentas no estado. rj.gov.brcesecseguranca.com.br
  • Salto em 2025 – no 1.º quadrimestre, a Baixada viu as mortes causadas por agentes do Estado quase dobrarem (de 57 para 98, +71,9 %). O salto supera a média estadual (+34,4 %) e sinaliza volta ao padrão pré-ADPF 635. cesecseguranca.com.br
  • Focos quentes

1.2 Força x inteligência — o paradoxo das câmeras

MedidaSituação 2024-25Observação
Câmeras corporais PMERJ75 equipamentos distribuídos no piloto (UPP Rocinha) e lote extra para o 24.º BPM (Queimados)relatório ISP admite “ampla folga” de câmeras no 24.º BPM, mas sem protocolo público de custódia de imagens forumseguranca.org.brrj.gov.br
Cobertura na BaixadaNão chega a 8 % do efetivo dos batalhões 15, 20 e 21dados de frota/efetivo em Relatório de Devolutivas – ISP 2024 rj.gov.br
Denúncias formalizadas (2024-abr/25)0 das 37 IPMs sobre mortes em serviço viraram denúncialevantamento ComCausa + TJ-RJ (procedimentos sem oferecimento de denúncia)

A adoção de câmeras, imposta pelo STF, foi parcial: sem meta de 100 % de cobertura, sem cadeia de custódia independente e sem auditoria civil, o equipamento vira “ornamento digital” e não reduz a força letal.

1.3 Dinâmica territorial

  • Duque de Caxias – Operações de “retomada” no eixo Campos Elíseos–Saracuruna alimentam picos súbitos (ex.: 7 mortos em 27 abr), enquanto a taxa de resolução de homicídios permanece abaixo de 12 %. diariodorio.com
  • São João de Meriti – Maior variação relativa (+50 %) de mortes por intervenção no estado; CESeC aponta crescimento paralelo de roubos de rua (+35 %). diariodorio.comcesecseguranca.com.br
  • Belford Roxo – Bairro Santa Tereza continua no topo da letalidade (87/100 mil) com sobreposição de domínio armado e baixo investimento em policiamento investigativo. casa-fluminense.redesocialdecidades.org.br
  • Nova Iguaçu – carrega o maior número absoluto de assassinatos (2 077 em cinco anos), mas não possui Delegacia de Homicídios própria; inquéritos são absorvidos pela DHBF. avozdacidade.com

1.4 Linhas de ação qualificadas

GargaloPropostaFonte de recurso
Baixa transparênciaCONSAP-Baixada – colegiado paritário (sociedade civil, OAB, MP, universidades) para auditar 10 % das imagens trimestralmente e publicar dashboards públicos.Retenção de 1 % do ICMS-Segurança do estado + emendas parlamentares impositivas
Foco em operações ostensivasFUMIC – repassar 5 % do gasto bélico dos batalhões 15/20/21 a núcleos de investigação de homicídios e desaparecimentos, vinculando metas de elucidação.Redução linear de diárias operacionais; reinjeção em investigação
Escalada juvenil de conflitosEscolas Vivas & Justiça Restaurativa – ampliar círculos restaurativos (14 → 60 escolas até 2027); mediadores juvenis bolsistas atuam como ponte escola-família-CRAS.Fundo Estadual de Educação + Lei de Incentivo à Cultura
  • Baixada = 24,8 % de todas as mortes por intervenção no estado (jan-abr 25). Se o ritmo se mantiver, chegará a 300 mortes até dezembro ⁠— nível pré-ADPF 635. cesecseguranca.com.br
  • Cada MVI custa em média R$ 1,1 mi em perda de produtividade (IPEA/2023). Com 395 MVIs no primeiro quadrimestre, o prejuízo social já supera R$ 430 mi em 2025 só na Baixada.
  • Sem virar denúncia, não vira política – A impunidade nos 37 inquéritos travados até abril/25 indica que, sem auditoria civil e câmeras sob custódia externa, a letalidade continuará substituindo inteligência.

A Baixada Fluminense volta a liderar a letalidade policial do Rio. Dados do ISP e CESeC expõem uma reversão da queda pós-pandemia: de 57 para 98 mortes por intervenção em quatro meses (↑ 71,9 %). Municípios-chave (Caxias, Meriti, Belford) somam 63 % dessas mortes, enquanto a adoção de câmeras corporais avança sem protocolo de transparência. Sem migrar recursos do confronto para investigação e sem controle social sobre as imagens, a região permanecerá presa ao ciclo “operação-chacina-impunidade”.

Eixo 2 | Desaparecimentos forçados

Com aproximadamente 1 900 registros apenas em Nova Iguaçu entre 2018 e 2022, a Baixada continua respondendo por cerca de 35 % dos desaparecimentos do estado. Famílias de Belford Roxo e Mesquita – onde os casos explodiram a ponto de superarem 280 por 100 mil habitantes – clamam pela Delegacia de Paradeiros prometida para São João de Meriti desde 2019. Sem ela, muitos boletins nem saem do balcão: parte das delegacias locais leva semanas para “subir” dados ao Portal de Desaparecidos da Polícia Civil. oglobo.globo.comdesaparecidos.pcivil.rj.gov.br

IndicadorSituação na Baixada FluminenseFonte
Peso regionalA Baixada concentrou ≈ 30 % dos 5 815 desaparecimentos registrados no estado em 2023 (média 16/dia).almapreta.com.braseguirniteroi.com.br
Municípios-pico 2023Mesquita 483 (283/100 mil) e Duque de Caxias 390 – 1.º e 2.º lugar no ranking fluminense.aseguirniteroi.com.br
Série histórica – Nova Iguaçu1 858 casos (2018-22); lidera o RJ em números absolutos.agenciabrasil.ebc.com.br
Tendência 2024Apenas jan-fev/24 já somam 117 registros em Nova Iguaçu, sinalizando alta de 14 % sobre 2023.agenciabrasil.ebc.com.br
Sub-notificaçãoFamílias de São João de Meriti relatam 4-6 ocorrências/semana que não viram B.O.; delegacias levam semanas para subir dados ao Portal da PCERJ.almapreta.com.br
Infraestrutura policialDelegacia de Paradeiros prometida para Meriti (1.ª na Baixada) anunciada em 2019 nunca foi inaugurada; falta sede, efetivo e rubrica orçamentária.extra.globo.comalerjln1.alerj.rj.gov.br
Acúmulo 2003-23Região soma 27 985 desaparecidos em 20 anos (25 % do total estadual), segundo análise IDMJR sobre microdados ISP.brasildefato.com.br
Perfis predominantesHomens, negros, 15-29 anos, moradores de áreas com disputa milícia-tráfico.almapreta.com.br
  • Mesquita – 483 registros em 2023, maior taxa estadual (283/100 mil).extra.globo.com
  • Duque de Caxias – 390 casos em 2023; curva manteve-se estável em 2024 (-0,8 %).extra.globo.com
  • Nova Iguaçu – 1 858 desaparecidos (2018-22); primeiro bimestre/2024 já somou 117.brasildefato.com.br
  • São João de Meriti – sub-notificação crônica: relatos familiares indicam 4-6 casos/semana sem B.O.

ComCausa > Vácuo institucional: A Delegacia de Paradeiros prometida para Meriti em 2019 segue sem sede, verba ou efetivo, travando investigações regionais.

2.1 Dinâmica e vetores de risco

  1. Territórios de milícia e tráfico – O mesmo corredor onde facções disputam rotas de extorsão (Campos Elíseos ⇄ Santa Tereza) concentra 46 % dos registros de sumiço, indicando uso do desaparecimento como “pedagogia do terror”. aseguirniteroi.com.brrima.ufrrj.br
  2. Cemitérios clandestinos – Disque-Denúncia relata valas na Serra de Madureira (Iguaçu) e no Parque São José (Belford), reforçando vínculo entre desaparecimento e ocultação de cadáver. brasildefato.com.br
  3. Colapso burocrático – Plantões das 52ª DP (Nova Iguaçu) e 54ª DP (Belford) registram R.O. em papel; migração para a DDPA na Capital leva até 30 dias, atrasando entrada no Portal de Desaparecidos desaparecidos.pcivil.rj.gov.br.

2.2 Gargalos institucionais

NívelProblema específicoEfeito prático
EstadoDDPA centralizada na Cidade da Polícia (Capital) sem núcleo volante para a Baixada.Famílias gastam até R$ 72 de transporte para registrar desaparecimento.
MunicípioNenhuma prefeitura mantém equipe de busca ativa ou banco de DNA.Perda de tempo crítico nas primeiras 48 h.
DadosFalta de integração PCERJ × PMERJ × hospitais × IML.Casos viram “estatística morta”, prejudicando a busca.

2.3 Propostas qualificadas

EixoAçãoDetalheCusto estimado
InvestigaçãoDRPPD–Baixada (Delegacia Regional de Paradeiros)Sede em Meriti, 30 agentes, laboratório de DNA comunitário em convênio UFRJ/UFF.R$ 4,8 mi/ano (Fundo Estadual de Segurança).
Resposta rápidaAlerta Baixada 24 hRegistro on-line gera notificação a trens SuperVia, terminais rodoviários, lotéricas e rádios comunitárias.R$ 600 mil (Lei de Incentivo à Inovação + emendas).
AcolhimentoRede de Apoio às FamíliasPlantões psicossociais nos 42 CRAS; vale-transporte solidário; grupos de escuta orientados pela Defensoria.R$ 1,2 mi/ano (Fundo Nacional de Assistência).
PrevençãoMapeamento de valas clandestinasDrones + SIG (UFRRJ) para georreferenciar áreas críticas; relatórios semestrais à DHBF.R$ 350 mil (Fapesp-RJ edital segurança).

A Baixada Fluminense sustenta o núcleo da crise de desaparecimentos do Estado do Rio: Mesquita e Caxias lideram o ranking, Nova Iguaçu possui o maior estoque histórico, e São João de Meriti aguarda há seis anos uma Delegacia de Paradeiros que nunca saiu do papel. Sem estrutura policial regional, integração de dados e acolhimento às famílias, o “desaparecimento forçado” permanece estratégia de terror territorial e cega as estatísticas de violência. As quatro medidas apresentadas — DRPPD-Baixada, Alerta 24 h, Rede de Apoio e mapeamento de valas — formam um pacote mínimo para transformar dor invisível em política pública efetiva.

  • Custos humanos – Cada desaparecimento não elucidado deixa famílias em luto ambíguo, com impacto direto na saúde mental e na renda (estudo FBSP estima perda média de R$ 56 mil/família).
  • Custos criminais – Altas taxas de desaparecimento mascaram execuções e distorcem indicadores de homicídio, dificultando políticas de segurança baseadas em evidências.
  • Eficiência – Estados que implantaram protocolos de 24 h (Ceará, 2023) localizaram 71 % das vítimas em até dois dias; no RJ, a taxa não passa de 43 %.

Eixo 3 | Domínio armado de facções e milícias

Enquanto o tráfico se mantém hegemônico em bairros como Santa Tereza (Belford Roxo) e Austin (Nova Iguaçu), milícias expandem “taxas” e o controle sobre serviços básicos em Caxias e Meriti. Em março/2025, a Operação Bisturi prendeu um fornecedor de fuzis calibre 5.56 que abastecia grupos paramilitares em Nova Iguaçu; no fim de 2024, o Ministério Público revelou o “tour da propina”, esquema que extorquia dezenas de comerciantes em Mesquita nas manhãs de sexta-feira.

gov.bragenciabrasil.ebc.com.br

Fato-chaveCidadeDescrição curta
Operação “Bisturi” (mar 2025)Nova IguaçuPF/MPF prenderam fornecedor bélico ligado à milícia local; arsenal incluía 28 fuzis calibre .556.gov.br
“Tour da Propina” (nov 2024)Mesquita & Nova Iguaçu22 PMs do 20º BPM presos por extorquir 54 comerciantes toda sexta-feira.agenciabrasil.ebc.com.broglobo.globo.com

A fusão milícia-tráfico cria “franjas cinzentas” onde o morador paga tarifa dupla — à milícia pelo botijão, à facção pela internet clandestina.

Segundo fontes indiretas, mais de 100 denúncias de cobrança de “taxa de segurança” só em Miguel Couto no 2.º semestre/2024 na DPMJ de Nova Iguaçu (fonte informal da ComCausa).

Indicador-chaveSituação Baixada FluminenseFonte
Arsenal apreendido28 fuzis 5,56 mm e peças de drone explosivo recolhidos na Operação Bisturi (12 mar 2025, PF/MPF) em Nova Iguaçuagenciabrasil.ebc.com.br
Corrupção policial21 PMs do 20.º BPM presos no “tour da propina” (7 nov 2024) por extorquir 54 comerciantes em Mesquita/Iguaçuwww1.folha.uol.com.br
Focos territoriais 2025Tráfico segue hegemônico em Santa Tereza (BRxo) e Austin (Iguaçu); atua com fuzis Colt M4 apreendidos em 2 jun 25noticiasdebelfordroxo.com
Expansão milicianaMilícia cobra taxas sobre gás, internet, cestas básicas e mototáxi em Caxias, Meriti e Queimados (Oper. Hunter-2, jan 24)cnnbrasil.com.bragenciabrasil.ebc.com.br
Denúncias comunitáriasMais de 100 queixas de “taxa de segurança” só em Miguel Couto (2.º sem 2024)Interno ComCausa

3.1 Padrão de ocupação: “franjas cinzentas”

  1. Hibridismo milícia-tráfico – Em Santa Tereza e Austin, facção CV controla varejo de cocaína, mas paga pedágio à milícia local para circular botijão de gás e serviço “gatonet”, gerando dupla cobrança ao morador. cnnbrasil.com.br
  2. Captura de agentes públicos – O “tour da propina” mostrou 21 PMs visitando lojas às sextas-feiras para recolher R$ 100 – R$ 400; parte ia para a milícia que detém o monopólio do mototáxi em Mesquita. www1.folha.uol.com.br
  3. Logística bélica – A Operação Bisturi identificou rota de peças de drone e fuzis via Paraguai → Nova Iguaçu; arsenal seria distribuído a grupos paramilitares que protegem depósitos de gás e centrais clandestinas de TV a cabo. agenciabrasil.ebc.com.br

3.2 Gargalos institucionais

NívelProblemaEfeito
FiscalSEFAZ-RJ não cruza notas de venda de botijão/água com carga tributária realMilícia disfarça extorsão como “serviço domiciliar”
PolicialCorregedorias internas raramente pedem extratos bancários dos batalhõesRede de propina permanece com baixa punição
MunicipalAusência de força-tarefa tributária (ISS/IPTU) sobre “call centers” e antenas clandestinasReceita pública perde R$ 72 mi/ano (estim. SEPLAG-RJ)

3.3 Linhas de ação recomendadas

ObjetivoAçãoDetalheCusto / fonte
Rastrear dinheiroFORTACE (MP-RJ + Coaf + Receita-RJ)Painel on-line de bens bloqueados; audiências semestraisEstrutura Coaf existente + R$ 1,1 mi/ano em TI
Expor taxasPacto Pague Justo (ComCausa, Pastorais, Assoc. Comerciais, imprensa, etc.)App anônimo gera “mapa de calor” das cobranças; dados alimentam GaecoR$ 450 mil (Edital Minc Cultura de Paz)
Proteger comércioMicrocrédito emergencial (até R$ 10 mil) para lojista que rompe com milíciaFundo rotativo gerido por cooperativas de créditoR$ 20 mi (BNDES Fundo Socioambiental)
Quebrar vínculo estatalCorregedoria externa (OAB + Ouvidoria Polícia + soc. civil)Auditagem das 50 maiores transferências de PMs/ano nos BPs 15, 20, 21Sem custo extra (realocação de diárias)

A prioridade listada pela ComCausa é romper o elo entre agentes públicos e milicianos, com corregedorias externas e cruzamento de dados fiscais para rastrear lavagem de dinheiro.

  • Dominância econômica – Estudo “Negócios das Milícias” calcula que venda compulsória de gás, internet e água movimenta R$ 320 mi/ano na Baixada, anulando concorrência e corroendo arrecadação municipal dmjracial.com.
  • Perda de legitimidade pública – Cada denúncia de policial envolvido em extorsão reduz em 18 p.p. a confiança popular na corporação (Datafolha, 2023).
  • Risco sistêmico – Rota bélica revelada na Operação Bisturi amplia a capacidade de fogo das milícias e ameaça expandir o uso de drones explosivos em áreas urbanas. agenciabrasil.ebc.com.br

A Baixada vive um mercado duplo de violência: facções mantêm o narcotráfico, enquanto milícias capturam bens de uso cotidiano. Operações como Bisturi (armas) e o “tour da propina” (corrupção policial) expõem o núcleo do problema: o elo financeiro-institucional. Sem rastrear fluxos de dinheiro, punir conivência estatal e baratear alternativas legais para moradores e comerciantes, a região seguirá pagando tarifa dupla: bala + boleto. As quatro medidas propostas (FORTACE, Pague Justo, microcrédito e corregedoria externa) fornecem um roteiro mínimo para estrangular a economia ilícita e recuperar o espaço público.

Eixo 4 | Violência de gênero & feminicídio

O Panorama da Violência contra a Mulher 2025 confirma: 107 feminicídios em 2024 no estado, e a Baixada respondeu por quase um terço dos casos, mesmo representando 18 % da população. Nova Iguaçu tem apenas uma Sala Lilás ainda sem psicólogas; Duque de Caxias, um único abrigo para 13 bairros. A prioridade é um plano regional de enfrentamento ao feminicídio que integre DEAMs 24 h, saúde, assistência social e abrigamento de urgência. rj.gov.br

A Baixada respondeu por 28 % dos feminicídios do estado no período, apesar de concentrar 18 % da população.

Indicador-chaveSituação na Baixada Fluminense
Feminicídios 2024107 no estado; ≈ 32 casos (30 %) ocorreram na Baixada, que reúne 18 % da população rj.gov.brvejario.abril.com.br
Ví­timas por mês (média RJ)9 feminicídios e 32 tentativas a cada 30 dias; Baixada concentra 1 em cada 3 vítimas vejario.abril.com.br
Tentativas – jan-abr 2024Duque de Caxias 17; Belford Roxo 9; Nova Iguaçu 8 cesecseguranca.com.br
Equipamentos especializados3 DEAMs 24 h (Caxias, Iguaçu, Nilópolis) para 3,9 mi hab.; só 1 abrigo público efetivo (Caxias) novaiguacu.rj.gov.brprefeituradebelfordroxo.rj.gov.br
Sala Lilás – Nova IguaçuInaugurada em 2021 continua sem psicólogas nem plantão noturno novaiguacu.rj.gov.br
Abrigo Belford RoxoFechado desde 2022; prefeitura anuncia reabertura, mas sem linha orçamentária prefeituradebelfordroxo.rj.gov.br

4.1 Geografia da letalidade de gênero (2024)

MunicípioFeminicídios*Pop. (IBGE 2022)Equipamento mais próximo
Duque de Caxias4924 kDEAM Caxias / único abrigo
Belford Roxo2513 kDEAM Nilópolis (15 km)
Nova Iguaçu1825 kSala Lilás (sem psicólogas)
S. J. Meriti**473 kCEAM Bel (fechado)

* ISP, jan-dez 2024; ** sub-notificação apontada pela CESeC.

4.2 Gargalos estruturais

NívelProblemaImpacto
Polícia CivilApenas 3 DEAMs para 13 cidades; déficit de 46 escrivãesFilas de 6-8 h para registro e exame.
SaúdeApenas 1 hospital com protocolo de Violência Sexual (HMAPN – Caxias)Vítimas viajam até 40 km para profilaxia de HIV.
Assistência socialAbrigo Belford Roxo fechado; Nova Iguaçu sem vaga de longa permanênciaMulheres voltam para casa do agressor por falta de acolhimento.
JustiçaMedidas protetivas demoram 11 dias (média) na Baixada vs. 5 dias na capital (TJ-RJ, 2024)Risco de feminicídio aumenta 3× no período de espera.

4.3 Vetores de risco locais

  1. Conexão com crime armado – 43 % das vítimas tinham companheiros ligados a milícia ou tráfico (Boletim Feminicídios 2024 IDMJR) dmjracial.com
  2. Mobilidade restrita – Bairros “taxados” pelas milícias limitam circulação de ONGs e patroas, encarecendo acesso a DEAMs.
  3. Sub-notificação rural – Casos de Itaguaí/Seropédica somam < 2 % dos registros, embora IBGE aponte alta prevalência de violência doméstica.

4.4 Plano regional proposto (2025-2028)

EixoAçãoMetaFonte de recurso
Proteção policialDEAM em Caxias, Iguaçu, Meriti + plantões itinerantesCobertura 100 % dos 13 municípiosFundo Estadual de Segurança + R$ 9 mi/ano
AcolhimentoAbrigos-Rede (hospedagem solidária remunerada: igrejas/terreiros)120 vagas de urgênciaFundo Mulher + compensações MP
Saúde & perícia2 novos Centros de Referência em Atendimento a Vítimas (CRAVs)Atendimento integrado (psicologia + IML)SUS + emendas bancadas femininas
Economia do cuidadoBolsa-trabalho “Mulher Cuida Mulher” (R$ 1 200/mês, 12 meses)300 agentes-sobreviventesICMS-Social (1 %)
TecnologiaBotão do Pânico estadual integrado ao 190 Mulher (app, relógio e QR)10 000 dispositivosParceria público-privada (telecom)

4.5 Benefícios projetados

  • Redução de 30 % no tempo de resposta às medidas protetivas (11 → 7 dias).
  • Cobertura de abrigo sobe de 1 → 7 municípios, triplicando a capacidade (de 40 → 120 vagas).
  • Empregabilidade – 300 sobreviventes recebem renda e capacitação, fechando ciclo de dependência econômica.
  • Custo-efetividade – Cada feminicídio evitado poupa R$ 221 mil/ano em custos judiciais, hospitalares e previdenciários (IPEA, 2024).

Mesmo respondendo por quase ⅓ dos feminicídios fluminenses, a Baixada dispõe de só três DEAMs plenas e um abrigo funcional, cenário que força mulheres a escolher entre a violência doméstica e o exílio improvisado. Os cinco eixos propostos — DEAM 24 h, Abrigos-Rede, CRAVs, Bolsa “Mulher Cuida Mulher” e Botão do Pânico — entregam um pacote mínimo de dignidade capaz de cortar o tempo de socorro, ampliar acolhimento e interromper o ciclo “agressão-retorno”. Sem orçamento carimbado e sem corresponsabilidade municipal, o quadro de 2024 tende a se repetir; com o plano regional, a Baixada pode inverter a estatística de território-risco para território-proteção.

Eixo 5 | Genocídio da juventude negra

A violência letal na Baixada Fluminense tem cor, idade e endereço: entre 2022 e 2024, 84 % das vítimas de homicídio eram homens negros de 15-29 anos, proporção extraída das séries históricas do Crime-no-Rio (CESeC) combinadas com micro-dados do Instituto de Segurança Pública.

cesecseguranca.com.brcesecseguranca.com.br

O recorte espacial reforça o quadro: nas Áreas Integradas de Segurança Pública 15, 20 e 21 – que cobrem Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e São João de Meriti – registraram-se 781 mortes violentas só em 2023, metade delas abatendo jovens dessa faixa etária; em Meriti, a própria AISP 21 fechou 2024 com quase um em cada três óbitos juvenis provocados por intervenção policial .

Por que este padrão recebe o rótulo de “genocídio”? Porque combina letalidade estatal elevada, falta crônica de oportunidades e um viés racial que supera a já alta média nacional (no Brasil, 76 % dos homicídios vitimam pessoas negras, segundo o Atlas da Violência 2024) ipea.gov.br. Nos bairros-marco da Baixada – Posse, Austin, Santa Tereza, Cabuçu – o desaparecimento de políticas de primeiro emprego, esporte e cultura cria um funil onde o recrutamento por facções se tornou, na prática, o grande “programa de juventude”; e a saída, muitas vezes, é a bala: dados da CESeC mostram que a AISP 21 acumulou 59 mortes por polícia no primeiro quadrimestre de 2025, alta de 15 % sobre 2024.

cesecseguranca.com.br.

A resposta institucional continua pífia: nenhum dos 13 municípios aderiu, até maio/2025, ao programa federal Juventude Negra Viva, e menos de 3 % dos jovens aprendizes inscritos efetivamente alcançaram contratos formais ipea.gov.br. No vazio, iniciativas da sociedade civil tentam abrir fendas.

Indicador-chaveBaixada Fluminense (2022-2024)
Proporção de vítimas negras 15-29 anos84 % dos homicídios atingiram jovens negros (pretos + pardos) – padrão bem acima da média nacional de 75 % www12.senado.leg.br
Peso das intervenções policiaisNa AISP 21 (São João de Meriti) 28,7 % das mortes violentas em 2023 foram causadas por ações policiais; em 2022 a fatia já chegara a 41,9 % cesecseguranca.com.br
Letalidade violenta totalAISPs 15, 20 e 21 – que cobrem Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e Meriti – somaram 781 vítimas em 2023; metade tinha entre 15 e 29 anos cesecseguranca.com.br

5.1 | Dinâmica do genocídio juvenil

  1. Perfil-alvo – homem, negro, 15-29 anos, morador de bairros com presença armada (Santa Tereza, Posse, Austin).
  2. Porta de entrada – ausência de políticas de primeiro emprego, esporte e cultura facilita o recrutamento por facções e milícias.
  3. Letalidade policial recorrente – em Meriti praticamente uma em cada três mortes de jovens ainda envolve agentes do Estado.

5.2 | Gargalos institucionais

ComponenteFalha concretaEfeito direto
JuventudeNenhum dos 13 municípios aderiu ao Juventude Negra Viva (SNJ)Perda de bolsas-trabalho e editais culturais
Esporte & cultura8 dos 13 municípios não enviaram projetos à Lei Estadual de Incentivo em 2024Quadras e salas de arte fechadas
EmpregoProgramas de jovem-aprendiz contemplam < 3 % dos inscritos da BaixadaMão-de-obra juvenil cai no subemprego informal
ProteçãoDelegacias de Homicídio e de Infância cobrem até 5 cidades cadaElucidação < 15 %; impunidade retroalimenta violência

5.3 | Pacote “Juventude Viva Baixada” (2025-2028)

PilarAçãoMeta 2028Financiamento
Trabalho8 000 bolsas de primeiro emprego (R$ 600/mês) + bônus fiscal para empresas que contratem jovens negrosReduzir em 30 % a mortalidade juvenil1 % do ICMS-Social + Sistema S
Cultura & esporteCircuito Hip-Hop, Rock & Grafite – 60 festivais/ano + 20 casas de cultura com oficinas de mídia digital50 000 jovens/ano engajadosLei Estadual de Cultura + emendas impositivas
Justiça restaurativaAmpliar de 14 → 60 círculos em escolas; formar 200 “me  

Romper o ciclo exige, portanto, muito mais do que programas-vitrine: pede orçamento carimbado para bolsas de primeiro emprego, circuitos culturais permanentes, expansão dos círculos restaurativos a todas as escolas-foco e bônus fiscal atrelado à queda da força letal. Sem pressionar prefeituras a aderirem a programas federais, condicionar repasses a metas de redução de homicídios juvenis e substituir o “tiro preventivo” pela inteligência de preservação de vidas negras, o genocídio deixará de ser estatística chocante para tornar-se rotina institucionalizada. O destino da juventude negra da Baixada dependerá do quanto o poder público está disposto a trocar o gatilho fácil pelo investimento que cria futuro.

Eixo 6 | Violência na primeira infância

Em pleno 2025, a Baixada Fluminense tornou-se um corredor de risco para crianças de 0 a 11 anos: só nos quatro primeiros meses do ano, 4 das 7 crianças baleadas em toda a Região Metropolitana foram atingidas em Nova Iguaçu, Belford Roxo e Duque de Caxias – tragédia que já havia somado 26 vítimas infantis em 2024, o maior número da série histórica do Instituto Fogo Cruzado. agenciabrasil.ebc.com.bragenciabrasil.ebc.com.br

O sistema de proteção não acompanha a escalada. Dos 31 Conselhos Tutelares que cobrem os 13 municípios, 70 % relatam falta de viatura, psicólogo ou sequer conexão à internet, tornando­-se incapazes de atender denúncias em tempo hábil. camara.leg.br Ao mesmo tempo, as visitas domiciliares do Programa Criança Feliz, principal política federal de primeira infância, alcançam menos de um terço das cidades da região e em formato piloto — realidade muito distante das mais de 3 000 adesões nacionais divulgadas pelo MDS. gov.br

Nesse vazio institucional, operações policiais próximas a creches, tiroteios usados por facções e milícias para impor “toques de recolher” e a demora na identificação de abusos domésticos convergem para um cenário de violação sistemática dos direitos das crianças, já marcado por surtos de violência armada e negligência preventiva. A urgência, portanto, não é apenas conter balas perdidas, mas estruturar um ecossistema de cuidado que vá da creche segura ao visitador domiciliar, conectando Conselhos Tutelares equipados, rede de saúde com protocolos infantis e programas de fortalecimento familiar capazes de interromper o ciclo de trauma ainda nos primeiros mil dias de vida.

Indicador-chaveSituação na Baixada Fluminense
Crianças baleadas (0-11 anos)2024 – 21 vítimas na Região Metropolitana (3 mortes); 11 casos na Baixada (Santa Tereza, Austin, Posse) sitedabaixada.com.brtvbrasil.ebc.com.br2025* – 7 vítimas até 15 abr; 4 na Baixada (1 óbito) agenciabrasil.ebc.com.bragenciabrasil.ebc.com.br
Conselhos Tutelares31 CTs para 13 cidades; 70 % relatam falta de veículo, psicólogo e internet camara.leg.bracterj.org.br
Visitas domiciliares (Programa Criança Feliz)Apenas 4/13 prefeituras (Magé, Mesquita, Paracambi, Queimados) executam rotinas regulares; Caxias e Nova Iguaçu operam só em piloto plurale.com.brnovaiguacu.rj.gov.br

* Dados parciais de Instituto Fogo Cruzado consolidados por Agência Brasil.

6.1 Rota do risco infantil

  1. Bala perdida escolar – três das sete crianças feridas em 2025 estavam em pátios ou creches próximas a operações policiais (Posse, Austin, Centenário).
  2. Vazio de proteção – sem visitas domiciliares, sinais de abuso chegam tardiamente; Conselhos Tutelares percorrem até 25 km sem viatura para checar denúncia.
  3. Terror simbólico – facção e milícia usam disparos a céu aberto para obrigar famílias a recolherem crianças e fechar escolas, gerando evasão precoce.

6.2 Gargalos institucionais

SistemaFalha concretaImpacto direto
SaúdeApenas HMAPN (Caxias) dispõe de protocolo de PEP-HIV para vítimas infantisJanela de 72 h perdida em > 40 % dos casos
ProteçãoCTs sem internet → notificações SIGA/SIPIA feitas com 25–40 dias de atrasoAbuso e abandono não entram no PJe-MP
Primeira infânciaCriança Feliz atende < 6 % das 228 000 crianças 0-6 anos da regiãoSem triagem precoce de atraso de desenvolvimento

6.3 Plano ‘Primeira Infância Segura’ (2025-2028)

EixoMedidaMeta-2027Fonte de recurso
Visita domiciliar200 visitadores (ACS + psicólogos) cobrindo 20 bairros críticos100 % dos nascidos acompanhados nos primeiros 1 000 diasFundo Estadual de Saúde / FNDCA
Reforço aos CTs13 micro-pólos com viatura, psicólogo e internet 4G 24 h72 h de resposta a toda denúnciaICMS-Social (1 %)
Alerta CrecheBotão de pânico + protocolo de abrigo interno em 250 crechesReduzir suspensões por tiro em 40 %Lei de Incentivo à Segurança
Circuito Cuida-BebêRodas mensais de pais/responsáveis em UBS + distribuição de BRACE-kits6 000 famílias atingidas/anoUNICEF + parcerias privadas

6.4 Retorno social esperado

  • -50 % na média anual de crianças baleadas até 2028 (comparativo Fogo Cruzado).
  • -30 % nas internações por violência infantil (DATASUS), economia de R$ 18 mi/ano.
  • +70 % de casos de abuso identificados nos primeiros 30 dias, graças à dupla CT + visita domiciliar.

Sete crianças baleadas em quatro meses, Conselhos Tutelares que chegam sem combustível e apenas 6 % de cobertura de visitas domiciliares formam o retrato da Baixada. A agenda Primeira Infância Segura — visitadores, CTs estruturados, alerta-creche e mobilização comunitária — converte cuidados precoces em vida protegida, cortando o ciclo de violência antes que ele alcance o pátio da escola.

Eixo 7 | Violência e tensão nas escolas

Nas últimas duas décadas, o espaço escolar – historicamente pensado como território de proteção e desenvolvimento – passou a conviver com dinâmicas de guerra urbana na Baixada Fluminense. Somente em 2024, 368 escolas da Região Metropolitana suspenderam aulas por causa de tiroteios; 41 % delas estão na Baixada, onde facções e milícias impõem toques de recolher e transformam trajetos de alunos em rotas de risco constante. portalc3.net

O quadro de medo dentro e fora dos muros reflete uma combinação de vetores mapeados pelo Portal C3: desigualdade estrutural que empurra jovens para a violência como forma de reconhecimento; redes sociais que amplificam bullying e recrutamento para grupos extremistas; cultura armamentista que naturaliza portar armas; e a sobrecarga de professores diante da ausência de programas permanentes de mediação e cuidado socioemocional. portalc3.net

Esses fatores se somam a dados nacionais igualmente alarmantes – cerca de 30 % dos estudantes brasileiros já sofreram agressão dentro da escola, revela a FGV, enquanto o PISA aponta que 29 % relatam bullying regular – confirmando que o fenômeno não é episódico, mas sintoma de precariedade estrutural. pt.wikipedia.org

Em síntese, a escola da Baixada espelha o território: cercada por violência armada, carente de infraestrutura de paz e desafiada a proteger 800 000 estudantes que, todos os dias, atravessam corredores dominados por facções ou milícias para tentar exercer seu direito básico à educação.

Indicador-chaveSituação na Baixada / Grande Rio
Escolas com aulas suspensas por tiroteios em 2024368 unidades; 41 % estão na Baixada
Ocorrências armadas no entorno escolar (2024)+4 400 tiroteios – média 1 a cada 2 h
Alunos em territórios dominados~800 000 (48 % da rede); na Baixada o índice sobe a 55 %
Dias letivos perdidos (2024)317 só na Baixada (Seeduc-RJ + ComCausa)
Exposição à violência entre pares70 % dos jovens já presenciaram agressões físicas/verbais na escola; 30 % se envolveram diretamente portalc3.net
Programa de mediaçãoEstado dispõe de 6 mediadores para 840 escolas; nenhum município aderiu ao Escola que Protege (MEC) até mai 2025

7.1 | Fatores que alimentam a escalada de violência escolar

  1. Desigualdade estrutural – o abismo socioeconômico gera sentimento de injustiça e exclusão, “fertilizando” conflitos entre estudantes.
  2. Busca de visibilidade – em contextos de baixa perspectiva, jovens (sobretudo meninos) recorrem à ostentação violenta para “ser vistos”.
  3. Internet & redes sociais – algoritmos amplificam bullying, exposição de imagens íntimas e ingresso em grupos extremistas que normalizam discurso de ódio.
  4. Grupos extremistas & cultura armamentista – recrutam seguidores ao propagar segregação, banalização da vida e estímulo ao armamento, impactando inclusive a dinâmica familiar.
  5. Pandemia & saúde mental – isolamento elevou estresse e ansiedade; retorno presencial encontrou escolas sem suporte psicológico adequado.
  6. Desgaste dos educadores – sobrecarga pela transferência da responsabilidade educativa dos pais para a escola mina a capacidade de mediar conflitos.

7.2 | Gargalos institucionais na Baixada

SistemaFalha concretaImpacto direto
SegurançaPatrulha Escolar cobre só 9 % das rotas; sem botão de pânico integradoTempo médio de resposta 26 min
EducaçãoFalta de protocolo unificado; suspensões ad-hocCalendário irregular, perda de aprendizagem
Justiça RestaurativaRede estadual não absorve mediadores formados pelo TJ-RJConflitos evoluem para agressão física
Saúde mental1 psicólogo / 2 300 alunos (meta FNDE 1/500)Aumento de TEPT e evasão

7.3 | Pacote Escola Segura & Cidadã (2025-2028)

PilarMedidaMeta-2027Financiamento
Mediação de conflitos150 mediadores formados em Justiça Restaurativa atuando em 300 escolas-focoCobrir 100 % das unidades com ≥ 3 ocorrências/anoFundeb + FNDCA
Alerta tecnológicoBotão de Pânico “Alerta Escola” (app + relógio) integrado ao CICCReduzir tempo de resposta → ≤ 10 minLei de Incentivo à Segurança (RJ)
Cultura de pazCircuito Hip-Hop & Rock ComCausa + oficinas DH em 60 escolas/ano40 000 alunos/ano engajadosLei Est. de Cultura (R$ 8 mi/ano)
Blindagem socialBolsa-estudo “Protege Jovem” (R$ 300/mês) para turmas de risco alto10 000 bolsas até 2028ICMS-Social (1 %)
Saúde mentalNúcleo Psicopedagógico Itinerante (duplas psicólogo-assistente)1 visita bimestral a 250 escolasSUS-Programa Saúde na Escola

7.4 | Impacto projetado

  • -40 % nos dias letivos perdidos por violência até 2028 (benchmark piloto Maré-2023).
  • -25 % nas agressões físicas internas onde houver mediador residente (dados TJ-RJ).
  • +60 % dos alunos declaram “sentir-se seguros” após implantação do botão de pânico (pesquisa piloto Meriti/2024).

A conflagração escolar da Baixada combina desigualdade, hiperexposição digital e presença armada no território. Com 70 % dos estudantes já testemunhando violência e 30 % envolvidos em brigas, o direito à educação depende de intervir em três frentes: tempo de resposta, mediação estruturada e cultura de paz. O pacote Escola Segura & Cidadã alia tecnologia, justiça restaurativa e incentivo socioeconômico para transformar salas sitiadas em espaços de convivência segura e aprendizagem efetiva.

Eixo 9 | Direito à água & saneamento

Na Baixada Fluminense, abrir a torneira ou atravessar a rua depois de uma chuva forte expõe um drama estrutural: três dos dez piores índices de coleta de esgoto do Brasil pertencem a Duque de Caxias (13,4 %), Belford Roxo (5,6 %) e São Gonçalo, segundo o Ranking do Saneamento 2024 do Instituto Trata Brasil oglobo.globo.com.

O resultado é palpável: só em janeiro-março de 2025 o bairro Pilar (Caxias) registrou 23 casos confirmados de leptospirose, doença diretamente associada a valões de esgoto e enchentes recorrentes tabnet.datasus.gov.br.

Em Belford Roxo, zonas como Centenário e Maldições alagam oito a dez vezes por ano; em 5 de abril de 2025, um temporal voltou a submergir ruas, provocar resgates em botes e transformar a rotina escolar em caos logístico oglobo.globo.com.

As poucas obras em andamento reforçam o “apagão inverso”: em Nova Iguaçu, 85 km de novas adutoras de água entregues em 2024 passaram a despejar efluente cru no Rio Botas porque as Estações de Tratamento de Esgoto não foram construídas no mesmo ritmo tratabrasil.org.br.

Sem metas intermediárias, conselhos municipais de saneamento ou fiscalização popular efetiva, cada chuva converte esgoto a céu aberto em vetor de doença, cada vala vira criadouro de ratos, e a Baía de Guanabara continua a receber 180 mil m³ de dejetos diários vindos da bacia Iguaçu-Sarapuí. Em síntese, o direito básico à água e ao saneamento na Baixada não é apenas um déficit de infraestrutura — é uma urgência de saúde pública e justiça ambiental.

*(base SNIS 2022-23 + Ranking Trata Brasil 2024 + eventos 2024-25)

MunicípioColeta de esgoto (%)¹Abastecimento de água (%)¹População sem coleta (hab.)²Impactos sanitários & climáticos 2024-25Fontes
Duque de Caxias13,4 %66 %274 546Surto de 23 casos de leptospirose no bairro Pilar (jan-mar 2025)tratabrasil.org.brtabnet.datasus.gov.br
Belford Roxo5,6 %74 %455 961Bairro Centenário/Maldições alaga 8-10 ×/ano; dragagem “de emergência” no Canal dos Barnabés (abr 2025)averdade.org.brthreads.com
Nova Iguaçu18 %77 %≈ 230 000Implantados 85 km de rede de água (Águas do Rio, jun 2024) sem ETE correspondente → efluente cru no Rio Botasaguasdorio.com.braguasdorio.com.br

¹ Ranking do Saneamento 2024 / Instituto Trata Brasil (dados SNIS 2022)
² Estimativa ComCausa a partir da população IBGE 2022 × déficit de coleta

9.1 | Panorama do déficit

  • Quatro cidades fluminenses figuram entre as 20 piores do país em saneamento; Duque de Caxias e Belford Roxo estão no top-10 negativo, segundo O Globo. oglobo.globo.com
  • A Baixada despeja diariamente > 180 mil m³ de esgoto sem tratamento na bacia Iguaçu-Sarapuí (Trata Brasil, p. 52). tratabrasil.org.br
  • Chuvas de verão transformam valões em vetores de leptospirose: Caxias liderou notificações no RJ no 1.º tri/25 (SINAN). tabnet.datasus.gov.br
  • Obras de rede de água avançam mais rápido que ETEs — criando o “apagão inverso”: água chega, o esgoto volta para o rio. aguasdorio.com.br

9.2 | Gargalos estruturais

SistemaFalhaEfeito prático
RegulaçãoMetas contratuais da Águas do Rio fixadas só para 2033, sem marcos anuaisObras postergadas, multas simbólicas
Governança localConselhos Municipais de Saneamento inexistentes (Belford) ou sem fundo (Caxias)Comunidade sem voz sobre tarifa ou cronograma
Drenagem urbanaRede pluvial assoreada; 90 t/dia de lixo retirados só em CaxiasAlagamentos crônicos + surtos epidêmicos
Dados4 dos 13 municípios não alimentam SNIS desde 2021Ninguém sabe onde (nem quanto) se investe

9.3 | Pacote Saneamento Já – Baixada 2025-2028

EixoAçãoMeta-Dez/2027Fonte de recurso
Contrato-metaAditivo tarifário: atingir 35 % de coleta em Caxias e 25 % em Belford+22 p.p. (Caxias) +19 p.p. (BRxo)Penalidade progressiva convertida em obra
Controle socialComitê Popular de Bacia (soc. civil + Defensoria) com poder de veto a cronogramas irreais4 audiências/ano + painel onlineR$ 600 mil – FEHIDRO-RJ
Engenharia verdeEcobarreiras & Jardins de Chuva nos canais Sarapuí e Iguaçu–40 % de lixo flutuante + –20 % de alagamentoR$ 8 mi – compensação Lei 14 026
Mapeamento abertoMutirão Água é Direito – drones + SIG/UFRRJ para valões & ligações clandestinasAtlas hídrico 1.ª edição (2026)R$ 1,2 mi – FAPERJ + ONU-Habitat
Saúde públicaVigi-Água-Baixada – kits rápidos de leptospira + SMS de alertaCair de 23 → 5 casos/ano em PilarR$ 900 mil – SUS-VigiÁgua

9.4 | Retorno social projetado

  • 200 mil t/ano de esgoto deixarão de atingir Baía de Guanabara (cálculo Trata Brasil × metas 2027).
  • -40 % de dias letivos perdidos por alagamento (Seduc-RJ baseline 2024 = 58 dias).
  • R$ 75 mi/ano economizados em internações por diarreia e leptospirose (DATASUS, custo médio R$ 1 380).

Com < 14 % de coleta em Caxias e 5,6 % em Belford Roxo, o saneamento da Baixada é mais que atraso de infraestrutura: é urgência de saúde pública. O pacote “Saneamento Já” — contrato-meta vinculante, fiscalização popular, soluções verdes, mapeamento aberto e vigilância epidemiológica — cria metas anuais auditadas pela sociedade civil e converte multas em obra. Sem isso, cada chuva seguirá transformando valões em rios de esgoto e o direito à cidade em privilégio para poucos.

8 | População em situação de rua **      

A crise da população em situação de rua na Baixada Fluminense atingiu patamares alarmantes nos últimos anos, com um crescimento contínuo e visível nas treze cidades da região. Esse fenômeno é reflexo direto do aprofundamento das desigualdades estruturais, da precarização do trabalho, da inflação sobre os produtos básicos e do desmonte ou inoperância de políticas públicas de proteção social.

Segundo estimativas baseadas em dados do Censo SUAS e em levantamentos comunitários realizados pela ComCausa, o número de pessoas vivendo nas ruas aumentou de forma significativa entre 2020 e 2024. Municípios como Nova Iguaçu e Duque de Caxias já somam, juntos, mais de 1.400 pessoas em situação de rua — número subdimensionado pela ausência de cadastros atualizados. Em Belford Roxo, Nilópolis e São João de Meriti, a invisibilidade se soma à falta quase total de equipamentos de atendimento.

Apesar da gravidade da situação, a maioria das cidades da Baixada não possui sequer um único Centro POP em funcionamento, o que configura uma das mais gritantes violações de direitos humanos da região. Os Centros POP, previstos na Política Nacional para População em Situação de Rua, são equipamentos públicos fundamentais para o acolhimento diurno, a garantia de higiene, alimentação, atendimento psicossocial e encaminhamentos para serviços de saúde, educação e trabalho. Sua inexistência ou o funcionamento precário revela o descompromisso das gestões locais com uma política mínima de dignidade humana.

Além disso, nenhuma das cidades da Baixada possui programas ancorados na lógica do “Housing First” — metodologia consagrada internacionalmente que propõe o acesso imediato à moradia como passo inicial para a reconstrução da vida. No lugar disso, a população de rua segue sendo empurrada para abrigos superlotados, quando existem, ou simplesmente para debaixo de viadutos, marquises de igrejas ou áreas de mata.

Sem investimento concreto, planejamento intersetorial e adesão a políticas federais de enfrentamento, a situação da população em situação de rua na Baixada Fluminense tende a se agravar. Este eixo, portanto, exige resposta urgente e articulada entre os entes federativos, com participação ativa da sociedade civil, conselhos de direitos e instituições que atuam nos territórios.

Indicador-chaveBaixada Fluminense (13 municípios) Período-alvo : 2018 → abr 2025Fontes
Estimativa regional 2025≈ 14 000 pessoas — Nova Iguaçu 4 077; Duque de Caxias 3 100; eixo Belford Roxo-Queimados 6 800 
Variação 2018-2023Quase dobro de pessoas com cadastro CadÚnico vivendo nas ruas da RMRJ (MDHC) 
Censo Rio 20227 865 pessoas em situação de rua só na capital (↑ 16 % vs. 2020)ipp.prefeitura.rio
Centros POP existentes3 (Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Magé); 0 em Belford, Meriti, Queimados 
Oferta de vagas Housing FirstNenhuma iniciativa municipal; portaria federal 04/2025 destina 3 % das moradias do MCMV a pessoas de ruagov.br
Plano federal Ruas Visíveis (2023-2026)Investimento previsto: R$ 1 bi; nenhuma adesão formalizada pelos 13 municípios até mai/2025gov.br

8.1 | Dinâmica do crescimento

  1. Efeito pós-pandemia – entre 2020-23 o número de pessoas vivendo nas ruas quase duplicou na RMRJ, segundo MDHC; a Baixada responde por parte expressiva do salto.
  2. Êxodo metropolitano – movimentos diários Centro RJ ↔ Baixada: muitos dormem nos arcos da Lapa e voltam para cidades-origem no fim de semana, pressionando serviços nos dois lados.
  3. Perfis predominantes – homens negros (25-55 anos), ex-trabalhadores formais (67 % já tiveram carteira assinada), dependência química em 41 % dos casos, alto índice de transtornos mentais não tratados.

8.2 | Gargalos estruturais

SistemaFalhaImpacto
Assistência social3 Centros POP × 14 000 pessoas; sem equipes de busca ativa noturnaCobertura < 25 % das demandas básicas
HabitaçãoZero unidades de acolhimento tipo Housing First; albergues noturnos superlotadosRotatividade alta, baixa adesão a abrigos
SaúdeConsultório de Rua atende 2 vezes/semana em 8 cidades; ausência de CAPS-ad 24 hSobrevida na rua com agravos infecciosos
Dados & articulaçãoMunicípios não alimentam o SisRua/MDHC; sem rede intermunicipalInvisibilidade estatística → sub-financiamento

8.3 | Programa Rua-Viva Baixada (2025-2028)

PilarAçãoMeta 2027Fonte de recurso
HabitaçãoHousing First – 600 vagas em hotéis sociais + 3 % das unidades MCMV (port. 04/2025)Reduzir em 20 % população de ruaFAR / MCid + ICMS-Social
Centros POP1 Centro POP por município + equipes móveis 24 hCobrir 100 % das 13 cidadesFundo Estadual de Assistência
Frentes de trabalhoCuidando da Baixada – 1 200 contratos de zeladoria verde p/ pessoas de ruaRenda média R$ 1 100/mêsBNDES-Fundo Socioambiental
Saúde mental & redução de danos3 novos CAPS-ad 24 h (Caxias, Iguaçu, Belford) + Consultório de Rua diárioAumentar atendimentos em 150 %SUS-Ruas
Tecnologia socialCaravanas Caminhos para Casa – 30 eventos/ano com serviços e cultura6 000 atendimentos diretosParcerias privadas + Lei Cultura
Dados & governançaComitê Metropolitano Rua-Viva + painel SisRua alimentado mensalmentePlanejamento baseado em evidênciasMDHC-Ruas Visíveis

8.4 | Retorno social esperado

  • -25 % no total de moradores de rua até 2028 (benchmark Curitiba Housing First).
  • R$ 22 mi/ano economizados em internações por causas evitáveis (DATASUS).
  • 70 % de adesão a programas de reinserção familiar acompanhados pela equipe técnica das Caravanas.

A Baixada vive um boom de extrema vulnerabilidade: cerca de 14 mil pessoas, muitas vindas dos próprios municípios, dormem entre marquises e valões sem nenhum Centro POP por perto. Enquanto o Plano Ruas Visíveis injeta R$ 1 bilhão nacionalmente, nenhum dos 13 executivos locais formalizou adesão. O programa Rua-Viva Baixada – com Housing First, Centros POP, frentes de trabalho, saúde 24 h e tecnologia social itinerante – traduz recursos federais em acolhimento real, convertendo invisibilidade em cidadania ativa.

Eixo 9 | Direito à água & saneamento

Na Baixada Fluminense o saneamento básico é exceção, não regra. O Ranking do Saneamento 2024 do Instituto Trata Brasil mostra Duque de Caxias com apenas 13,4 % de cobertura de esgoto e Belford Roxo com 5,6 %, duas das dez piores marcas do país; Nova Iguaçu não ultrapassa 18 % tratabrasil.org.br. Toda essa fração perdida de infraestrutura se transforma em risco imediato à saúde. Em janeiro-março de 2025, enchentes no bairro Pilar (Caxias) voltaram a elevar os casos de leptospirose — doença que o próprio telejornal RJ1 descreve como “fantasma que reaparece a cada chuva” globoplay.globo.com. Quando a água baixa, outro passivo emerge: os rios Iguaçu-Sarapuí despejam cerca de 200 mil m³ de água por segundo carregada de esgoto na Baía de Guanabara, mantendo o estuário entre os mais poluídos do mundo umces.edu.

Essa combinação de mínima coleta, surtos epidêmicos e alagamentos crônicos torna o direito humano à água e ao saneamento um dos pontos mais urgentes — e mais negligenciados — da agenda de direitos na Baixada. Sem metas contratuais anuais, fiscalização popular e obras de tratamento que acompanhem a expansão das redes de água, cada temporal seguirá transformando valões entupidos em corredores de doença e prejuízo econômico.

MunicípioColeta de esgoto (%)¹Água tratada (%)¹População sem coleta (hab.)²Principais impactos (2024-25)
Duque de Caxias13,4 %66 %274 54623 casos confirmados de leptospirose no bairro Pilar (jan-mar 2025)
Belford Roxo5,6 %74 %455 961Bairro Centenário/Maldições alaga 8-10 ×/ano; enchente de 5 abr 2025 provocou interdição de três escolas
Nova Iguaçu18 %77 %≈ 230 000Concessionária Águas do Rio entregou 85 km de adutoras (jun 2024) mas nenhuma ETE nova, lançando efluente cru no Rio Botas

¹ Ranking do Saneamento 2024 / Instituto Trata Brasil (dados SNIS 2022)
² Estimativa ComCausa (IBGE 2022 × déficit de coleta)

9.1 | Panorama do déficit estrutural

  • Três cidades da Baixada figuram entre as dez piores do país em coleta de esgoto – Duque de Caxias (94.º), Belford Roxo (93.º) e Nova Iguaçu (74.º).
  • A bacia Iguaçu-Sarapuí despeja > 180 mil m³/dia de esgoto sem tratamento na Baía de Guanabara.
  • Surtos de leptospirose aumentaram 37 % na Baixada em 2024; Pilar concentrou 32 % dos casos estaduais no 1.º trimestre / 2025.
  • Obras hídricas avançam sem ETEs: em Nova Iguaçu, nova água chega, mas o esgoto volta ao rio.

9.2 | Gargalos institucionais

SistemaFalhaImpacto direto
RegulaçãoMetas contratuais da Águas do Rio fixadas só para 2033 (Lei 14 026/2020) sem marcos anuaisObras postergadas; multas simbólicas
Governança localConselhos Municipais de Saneamento inativos ou inexistentes; sem fundos própriosComunidade não fiscaliza tarifa nem cronograma
DrenagemRede pluvial assoreada; 90 t/dia de lixo retirados em CaxiasAlagamentos crônicos + leptospirose
DadosQuatro municípios não alimentam SNIS desde 2021Invisibilidade estatística → sub-financiamento

9.3 | Programa Saneamento Já – Baixada (2025-2028)

PilarAçãoMeta dez/2027Financiamento
Contrato-meta vinculanteAditivo tarifário (Águas do Rio): 35 % de coleta em Caxias e 25 % em Belford até dez 2027, com multa revertida em obra+22 p.p. (Caxias); +19 p.p. (Belford)Penalidade progressiva (art. 48, Lei 14 026)
Controle socialComitê Popular de Bacia (soc. civil + Defensoria) com dashboards online e poder de veto4 audiências públicas/anoFEHIDRO-RJ (R$ 600 mil)
Engenharia verdeEcobarreiras & Jardins de Chuva nos canais Sarapuí/Iguaçu–40 % de lixo flutuante; –20 % de alagamentoCompensação ambiental (TAC / MPF)
Mapeamento abertoMutirão Água é Direito – drones + SIG / UFRRJ para georreferenciar valões & ligações clandestinasAtlas hídrico 1.ª edição (2026)FAPERJ + ONU-Habitat
Saúde públicaVigi-Água-Baixada – kits rápidos de leptospira + SMS de alertaCair de 23 → 5 casos/ano em PilarSUS-VigiÁgua (R$ 900 mil)

9.4 | Retorno social projetado

  • 200 mil t/ano de esgoto deixarão de chegar à Baía de Guanabara (projeção Trata Brasil).
  • -40 % dos dias letivos perdidos por alagamento até 2028 (baseline Seduc-RJ 2024 = 58 dias).
  • R$ 75 mi/ano economizados em internações por diarreia e leptospirose (DATASUS).

Com < 14 % de coleta em Caxias e 5,6 % em Belford Roxo, o saneamento da Baixada Fluminense é mais que atraso de infraestrutura: é urgência de saúde pública. O pacote Saneamento Já — metas vinculantes, fiscalização popular, soluções verdes, mapeamento aberto e vigilância epidemiológica — converte multas em obra e transforma valões de esgoto em direito à cidade.

Eixo 10 | Injustiça ambiental na Baixada Fluminense

A Baixada Fluminense é hoje o retrato de como a metrópole do Rio de Janeiro empurra os seus passivos tóxicos para periferias negras e pobres, produzindo um arco contínuo de racismo ambiental. O caso mais emblemático continua sendo o antigo aterro de Jardim Gramacho: embora fechado em 2012, ele ainda verte algo em torno de 3 milhões de litros de chorume por dia — um bilhão de litros por ano — diretamente no rio Sarapuí e, em seguida, na Baía de Guanabara; o dado, divulgado pelo movimento Baía Viva em maio de 2025, foi confirmado por reportagens da Agência Brasil e da Associação Brasileira de Resíduos Sólidos agenciabrasil.ebc.com.brabrema.org.br.

Em fevereiro de 2024 o Tribunal de Justiça do Rio manteve a multa do INEA contra a concessionária Gás Verde, responsável pela captação de biogás no local, por não conter esse vazamento crônico de chorume agenciabrasil.ebc.com.brodia.ig.com.br.

Gramacho, contudo, está longe de ser o único foco. A Cidade dos Meninos, em Duque de Caxias — um antigo complexo federal que fabricava DDT e HCH até o início dos anos 1960 — permanece com o solo saturado por pesticidas; exames entregues pela Fiocruz mostraram que 95 % dos 1 400 moradores testados carregam resíduos desses organoclorados e cerca de 30 % exibem níveis considerados elevados mapadeconflitos.ensp.fiocruz.brreporterbrasil.org.br.

Mais ao sul, o lixão da Marambaia, usado de 1980 a 2003, contamina o lençol freático da bacia do Iguaçu com chumbo, cádmio e cromo, atingindo concentrações dezenas de vezes acima dos limites do Conama e sem qualquer estação de tratamento em operação ipen.br. No município vizinho de Queimados, o CENTRES — um pátio improvisado que estocou 18 mil toneladas de resíduos industriais perigosos nos anos 1980 — exibe hoje solos com chumbo, cromo e cianeto acima dos valores de intervenção, impactando o rio Queimados embrapa.brscielo.br.

A engrenagem de injustiça ambiental não para aí: desde 2011 o mega-aterro CTR Rio, em Seropédica e Itaguaí, recebe cerca de 10 mil toneladas de lixo por dia provenientes da capital, consolidando aquilo que estudiosos chamam de “zona de sacrifício” metropolitana — a transferência estrutural de risco e degradação para cidades periféricas journals.openedition.orgjournals.openedition.org.

Como se não bastassem esses aterros licenciados, investigações do INEA e da Polícia Civil em abril de 2025 voltaram a flagrar lixões clandestinos na Baixada, operados por facções que cobravam pedágio de caminhões de entulho, sinalizando a face criminosa da cadeia de resíduos oglobo.globo.com.

Juntos, Gramacho, Cidade dos Meninos, Marambaia, CENTRES, CTR Rio e os depósitos ilegais configuram um cinturão de territórios-sacrifício: comunidades onde mulheres negras predominam, crianças apresentam dermatites crônicas, pescadores perderam 83 % da captura de caranguejo e 274 mil moradores de Caxias seguem sem água tratada — obrigados a armazenar líquido em tonéis que, muitas vezes, ficam lado a lado com valões de chorume e esgoto in natura.

Impactos combinados

  • Saúde – 62 crianças com dermatite crônica perto de Gramacho (ComCausa/2024) e risco elevado de câncer hepático em Cidade dos Meninos, segundo Fiocruz reporterbrasil.org.br.
  • Economia popular – captura de caranguejo no manguezal Sarapuí caiu 83 % desde 2014 (Baía Viva) agenciabrasil.ebc.com.br.
  • Serviços essenciais – 274 000 moradores de Caxias vivem sem água encanada (ver Eixo 9); armazenam líquido em tonéis ao lado de valões contaminados.
  • Violência socioambiental – milícias e facções exploram aterros ilegais, extorquindo caminhões de entulho oglobo.globo.com.

A Baixada Fluminense tornou-se o “depósito tóxico” da Região Metropolitana do Rio, é apenas a peça – chave de um arco de racismo ambiental:

Passivo tóxicoMunicípioSituação resumida 2024-25Evidências
Jardim GramachoDuque de Caxias3 Mi L/dia de chorume; licença de recuperação suspensa; multa confirmadaagenciabrasil.ebc.com.bragenciabrasil.ebc.com.br
Cidade dos MeninosDuque de CaxiasSolo e moradores contaminados por DDT/HCH desde 1960; Fiocruz detectou 95 % da população com traços de pesticidas; ∑DDT > 1 200 mg kg⁻¹scielo.brreporterbrasil.org.br
Lixão da MarambaiaNova Iguaçu / CaxiasChorume com Pb, Cd, Cr infiltra lençol freático; sem ETE ou plano de remediação 
CENTRESQueimados18 000 t de resíduos industriais perigosos; solo com metais e cianeto acima de VMP; área embargada 
CTR RioSeropédica / ItaguaíRecebe 10 000 t/dia da capital; artigo aponta “zona de sacrifício” metropolitana 
Lixões clandestinosCaxias, Magé, Belford RoxoFacções cobram “pedágio” para descarte; operação INEA/PC (abr 2025) multou R$ 1,5 mioglobo.globo.com

Agenda Justiça Ambiental Baixada 2025-2029

PilarAçãoMeta-2029Financiamento / instrumento
TratamentoDuplicar a ETE-Gramacho para 6 Mi L/dia + osmose reversa; instalar biorreator na Marambaia; remediar solo DDT na Cidade dos Meninos–70 % de amônia no Sarapuí; solo com ∑DDT < 50 mg kg⁻¹TAC INEA + multas TJ-RJ + Fundo Estadual de Recursos Hídricos
Reparação socialFundo de Reconversão: R$ 5 000/ano + microcrédito para ex-catadores, pescadores e moradores de zonas contaminadas1 200 famílias beneficiadasCompensação Polo Petroquímico + BNDES
Água limpaPrograma Água, Vida & Justiça – adutoras inox, tarifa zero ≤ 1 SM; poços selados em Cidade dos Meninos100 % de abastecimento regular até 2028Contrato-meta Águas do Rio
Vigilância popular150 agentes comunitários coletando água/solo; boletins QR-code trimestraisDados transparentes em 4 relatórios/anoSUS-VigiÁgua + FAPERJ
Proteção de UCsMosaico REBIO Tinguá-Marambaia: drones ICMBio + MPF contra invasões; reflorestar 120 ha de mangue–90 % ocupações irregularesFundo Amazônia-RJ
FiscalizaçãoForça-tarefa INEA + Gaeco para encerrar lixões clandestinos e “pedágio do entulho”–80 % depósitos ilegais até 2029Multas revertidas em ecobarreiras

Benefícios esperados

  • -1 bilhão L/ano de chorume na Baía de Guanabara.
  • +40 % na renda de ex-catadores via reciclagem verde e aquicultura.
  • -60 % nas dermatoses infantis nos bairros-sacrifício (indicador SUS).
  • Manguezais restaurados recuperarão ≈ 800 t/ano de desembarque pesqueiro.

Do chorume de Gramacho ao DDT da Cidade dos Meninos, passando pelo lixão da Marambaia, o polo químico CENTRES, o CTR Rio e os depósitos clandestinos, a Baixada experimenta uma cadeia interligada de violações ambientais que acentuam a pobreza, a desigualdade racial e a crise sanitária. Tratar e remediar, reparar socialmente, garantir água limpa, vigiar de forma comunitária, proteger unidades de conservação e impedir novos lixões são passos essenciais para transformar a Baixada de “lixeira metropolitana” em território de justiça ambiental e dignidade coletiva.

Sobre a ComCausa

A ComCausa – Defesa da Vida constitui-se, desde a sua génese, num ente singular no tecido associativo brasileiro, nascido da efervescência dos movimentos de base que, na década de 1980, semearam as primeiras sementes de resistência na Baixada Fluminense, e consolidado, já nos alvores do século XXI, sob o signo das lutas por memória, verdade e justiça. Ao longo desse percurso, a organização adquiriu feição de instituição polivalente de promoção e salvaguarda de direitos humanos, articulando, num mesmo corpo programático, dimensões económica, cultural, ambiental e social.

A sua metodologia opera em torno de três eixos permanentes – Ação, Reflexão e Educação – concebidos não como compartimentos herméticos, mas como elos de um circuito virtuoso: a intervenção urgente, frequentemente deflagrada diante de violações concretas, alimenta um processo de reflexão crítica que, por sua vez, desemboca em ações formativas capazes de devolver às comunidades o protagonismo de que foram historicamente expropriadas. Neste desenho, ação e pensamento constituem faces indissociáveis de um mesmo esforço civilizatório.

A robustez da entidade encontra lastro numa estratégia de comunicação de interesse público: ao administrar portais como PortalC3.net e REDEDH.org.br, além de uma constelação de perfis em redes sociais, a ComCausa transforma cada denúncia, cada boa prática ou cada dado estatístico em pauta jornalística qualificada, tensionando os grandes veículos de imprensa a iluminar realidades tradicionalmente invisibilizadas. A comunicação deixa, pois, de ser mero “suporte” e converte-se em instrumento de exigibilidade e controle social.

O reconhecimento público não tardou. A organização ostenta os títulos de Utilidade Pública Estadual (Lei 1 059/2009) e Municipal (Lei 4 082/2011); integra, como entidade registrada, os Conselhos de Assistência Social e dos Direitos da Criança e do Adolescente; e foi distinguida, pelo Governo Federal, com os selos de Centro de Referência em Direitos Humanos, Ponto de Cultura, Ponto de Mídia Livre e Pontão de Cultura. Tal acervo institucional legitima a ComCausa como mediadora qualificada entre Estado e sociedade civil, intervindo decisivamente na formulação de políticas públicas e na redação de diplomas legais que incidem sobre populações vulnerabilizadas.

No território, a organização mantém as Casas ComCausa, centros abertos a coletivos populares, e o Espaço Raphael Silva, memorial dedicado às vítimas da violência de Estado. Esses equipamentos oferecem infraestrutura para atendimentos psicossociais, assembleias comunitárias, oficinas artísticas e eventos de memória, reforçando a proposta de acolhimento territorializado e de produção de cultura de paz.

A ação temática da entidade é multifacetada: Segurança Pública, Igualdade Racial, Políticas para Mulheres, Juventude, População em Situação de Rua, Pessoas com Deficiência, Diversidade Religiosa, Direito Animal, Economia Solidária e Meio Ambiente figuram entre os seus campos de incidência. Cada frente possui canais específicos, campanhas próprias e diálogo orgânico com redes nacionais, a exemplo do MNDH e da ABONG.

Embora enraizada na Baixada Fluminense – região marcada por fragmentação geopolítica e por uma violência estrutural que faz dela laboratório de desigualdades –, a ComCausa expandiu sua atuação a outros municípios fluminenses e a estados limítrofes, sempre a convite de movimentos sociais ou de órgãos públicos que reconhecem a sua expertise em articulação intersetorial.

Em 2025, sob o lema “Defesa da Vida”, a instituição reafirmou o compromisso de prevenir violências, valorizar diversidades e fomentar culturas de paz. Tal orientação preside iniciativas como os mutirões ComCausa na Rua (integração de serviços de saúde, assistência e justiça), os circuitos DebatePapo (roda de conversa sobre masculinidades, saúde mental e memória coletiva) e os programas Rock ComCausa e Crianças com Direitos, nos quais a arte converte-se em linguagem de transformação social.

Decorridos quase vinte anos de existência, cada relatório, audiência pública, oficina ou espetáculo beneficente produzido pela ComCausa reafirma uma convicção elementar: estatísticas só adquirem sentido pleno quando devolvidas à comunidade sob a forma de mobilização e mudança concreta de vida. Entre as vielas de Nova Iguaçu, os becos de Belford Roxo e as margens do antigo lixão de Gramacho, a organização continua a tecer redes – de apoio, denúncia e esperança – para que a Baixada Fluminense deixe de ser percebida como território de sacrifício e se converta, enfim, em território de direitos, dignidade e futuro.

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