Nesta semana, o Colégio Estadual Rubens Farrulla, localizado em Coelho da Rocha, São João de Meriti, vivenciou uma tarde marcada por emoção, escuta e conscientização com a exibição do documentário “Desova”. A atividade, realizada no dia 11 de junho, reuniu estudantes, professores, convidados e ativistas em uma roda de conversa sobre as marcas da violência de Estado e os desaparecimentos forçados que continuam a assombrar a Baixada Fluminense.
A ação foi realizada pelo Observatório Fluminense de Pesquisa da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) em conjunto com o Fórum Grita Baixada, com apoio institucional da direção do colégio, representada pela diretora Chris Pereira, e da equipe pedagógica, especialmente da orientadora educacional Maria Cristina e do professor Alexandre Pires. Juntos, garantiram um ambiente acolhedor, seguro e propício para o diálogo com a comunidade escolar.
Um dos momentos mais marcantes do encontro foi a participação de Ilsimar de Jesus, da Rede de Mães Vítimas da Violência da Baixada e também integrante da Pesquisa como articuladora local do território de São João de Meriti, que emocionou a todos ao compartilhar sua trajetória de dor e resistência após o assassinato de seu filho, Vitor Hugo, que foi aluno do próprio Colégio Rubens Farrulla. Sua presença ressignificou o espaço escolar, transformando-o em território de memória e luta.
A roda de conversa também contou com a presença da socióloga e pesquisadora Jaqueline de Sousa Gomes, da UFRRJ, que desde 2021 integra a pesquisa “Mapeamento Exploratório sobre Desaparecimentos e Desaparecimentos Forçados em municípios da Baixada Fluminense – RJ”, a pesquisadora também atuou como organizadora do livro “Desaparecimentos Forçados: Vidas Interrompidas na Baixada Fluminense” publicado em 2023 pela editora Autografia, o livro apresenta os resultados da pesquisa e todo o processo de investigação sobre o tema dos desaparecimentos forçados na Baixada Fluminense. Na roda de conversa, sua fala trouxe uma leitura crítica sobre as práticas de ocultação de corpos por parte do Estado, destacando o papel das mães como guardiãs da memória, da verdade e da dignidade, além de apresentar o projeto de pesquisa que o grupo de pesquisadores da UFRRJ desenvolve.
Durante o debate, Adriano Dias, fundador da ComCausa, realizou uma exposição sobre o panorama dos desaparecimentos na Baixada Fluminense, com base nas experiências cotidianas acompanhadas pela organização. Abordou a falta de políticas públicas específicas, a ausência de protocolos efetivos e a urgência na criação de equipamentos públicos voltados à busca de pessoas desaparecidas e à responsabilização do Estado. “A Baixada Fluminense concentra um número expressivo de desaparecimentos no estado do Rio de Janeiro. Muitos casos seguem sem investigação adequada, aprofundando o sentimento de abandono e impunidade entre os familiares”, destacou Adriano.
O documentário “Desova”, dirigido por Laís Dantas e realizado pela Quiprocó Filmes, com apresentação do Fórum Grita Baixada e do Observatório Fluminense da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) que retrata o vazio deixado pelas vítimas da violência de Estado e o esforço contínuo de suas mães para manter viva a memória dos filhos. Mais do que um registro audiovisual, o filme é um grito por justiça — sobre o que fica, sobre o que o rio leva e sobre a dor que não se cala.
“Desova” teve sua estreia internacional no 12º Festival Internacional de Cine Político – FICIP, em Buenos Aires, em maio de 2023, levando o Prêmio de Melhor Filme na Competição Oficial Internacional de Curtas-metragens e também foi selecionado para o 19° Brésil en Mouvements, 3ª Semana do Cinema Negro de BH e para a VI Mostra SESC de Cinema.
Filmado na região do KM 32, em Nova Iguaçu, além de localidades próximas, “Desova” apresenta dados alarmantes sobre o problema, traz depoimentos de mães que se organizaram em coletivos e em grupos de arteterapia para lidar com a dor da ausência, além de depoimentos de pesquisadores e estudiosos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) que desenvolvem pesquisas focadas no assunto.
A atividade deixou marcas profundas nos estudantes. Muitos expressaram indignação, empatia e desejo de mudança, reforçando que a escola pode — e deve — ser um espaço de formação cidadã, enfrentamento das injustiças e fortalecimento da juventude como agente de transformação social. Foi mais do que um evento educativo. Foi um momento de memória, denúncia e esperança por um futuro diferente na Baixada Fluminense.
Livro sobre desaparecimento forçado na Baixada
Foi lançado pela Livraria Folha Seca, no centro do Rio, o livro Desaparecimento Forçado: Vidas Interrompidas na Baixada Fluminense, fruto da pesquisa desenvolvida pelo Fórum Grita Baixada e pelo Observatório Fluminense, vinculado à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). A publicação traz à tona um dos temas mais dolorosos e invisibilizados da segurança pública brasileira: a prática sistemática de desaparecimentos forçados.
O livro mapeia diferentes dinâmicas de desaparecimento na região da Baixada Fluminense, identificando como autores grupos armados diversos — que incluem agentes de segurança do Estado, milicianos e traficantes. A pesquisa analisa dados do Disque-Denúncia e do Instituto de Segurança Pública (ISP), expondo a brutalidade com que corpos e vidas são apagados, tanto fisicamente quanto das estatísticas oficiais.
O livro Desaparecimento Forçado: Vidas Interrompidas na Baixada Fluminense já está disponível para aquisição na Livraria e Edições Folha Seca. Mais do que uma leitura, trata-se de um documento de denúncia e de resistência, que desafia o esquecimento e cobra ações concretas para enfrentar esse tipo de violência.
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