Em cinco anos de atuação contínua, o Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro deixou de ser apenas uma resposta emergencial à pandemia e se firmou como uma das experiências mais robustas de promoção da saúde em favelas e periferias do país. Prestes a completar esse primeiro ciclo, a iniciativa celebra um marco simbólico e político de grande peso: mais de 1 milhão de pessoas já foram diretamente impactadas por ações que vão da segurança alimentar à saúde mental, passando por educação popular, vigilância comunitária e tecnologias sociais criadas e aperfeiçoadas nos próprios territórios. Esse balanço será apresentado no encontro “Favelizar a Saúde: 5 anos de parceria Alerj–Fiocruz”, marcado para o dia 5 de dezembro, às 12h30, na Arena Cultural Dicró, no Parque Ari Barroso, na Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro – uma escolha de local que, por si só, carrega o simbolismo de uma região ainda marcada pelo trauma de operações policiais e pela perda de 121 vidas em confrontos recentes. O Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio nasce de uma articulação inédita entre organizações comunitárias e instituições científicas de destaque nacional, como Fiocruz, IFF, UENF, UFRJ, UERJ, PUCRJ, SBPC, Alerj e Abrasco, em parceria com a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Pensado inicialmente no contexto da pandemia de Covid-19, o Plano foi concebido como um grande laboratório vivo de tecnologias sociais, no qual as soluções em saúde não são formuladas de forma distante dos problemas, mas emergem diretamente do cotidiano dos becos, vielas, lajes e casas dos territórios historicamente mais deixados para trás. Em vez de enxergar as favelas apenas como espaços de carência e vulnerabilidade, a iniciativa reconhece esses lugares como centros de produção de conhecimento, cuidado e inovação, capazes de fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) “de baixo para cima”, a partir da experiência concreta das comunidades. Números que revelam a dimensão da experiência e o cenário de desigualdade Em apenas cinco anos, o Plano apoiou 146 projetos de saúde integral, alcançando 175 favelas e periferias espalhadas por 33 municípios do estado e destinando mais de R$ 20 milhões para ações locais, com aportes que variam de R$ 50 mil a R$ 500 mil para cada iniciativa. Esse conjunto de ações atingiu diretamente mais de 1 milhão de pessoas – cerca de 5,8% de toda a população fluminense –, o que dá a medida da capilaridade e da relevância do programa. Esses resultados se tornam ainda mais significativos quando são colocados ao lado dos dados da Síntese de Indicadores Sociais de 2024, do IBGE, que mostram que duas em cada dez pessoas no estado do Rio de Janeiro ainda vivem abaixo da linha da pobreza, com renda inferior a R$ 694. É justamente essa população, concentrada em favelas e periferias – territórios vulneráveis específicos e populações “mais deixadas para trás” –, que o Plano coloca no centro das ações, reforçando que política pública de saúde, para ser efetiva, precisa dialogar com desigualdades concretas e enfrentar diretamente a pobreza, o racismo estrutural, a violência e a exclusão histórica. Cozinhas comunitárias: combater a fome como política de saúde e defesa da vida Um dos eixos mais visíveis e simbolicamente fortes do Plano são as cozinhas comunitárias e as iniciativas de segurança e soberania alimentar instaladas em diversas favelas e periferias do estado. Ao longo desse período, os recursos destinados pelo Plano possibilitaram garantir alimentação digna para aproximadamente 250 mil famílias, com a distribuição de mais de 600 toneladas de alimentos e o preparo de cerca de 200 mil refeições servidas diretamente nas comunidades. Mais do que pontos de oferta de comida, essas cozinhas se transformaram em espaços de cuidado ampliado, onde se cruzam ações de mobilização, escuta ativa, formação, orientação sobre direitos e construção de redes de solidariedade. Em muitos casos, são nesses espaços que moradores encontram apoio diante da fome, do desemprego, do luto e das sucessivas crises econômicas e sanitárias, evidenciando que alimentar, nas favelas, é também uma forma concreta de fazer política de saúde e de afirmar a defesa da vida. Agroecologia, quintais produtivos e a saúde que passa pela relação com o território Outro pilar central do Plano são as ações de agroecologia e sustentabilidade, responsáveis por cerca de 30% dos projetos apoiados. Nessas iniciativas, hortas comunitárias surgem em encostas antes abandonadas, quintais produtivos ganham vida em áreas adensadas, viveiros se multiplicam e cozinhas de aproveitamento integral ensinam a utilizar alimentos de forma mais completa e saudável. Tudo isso compõe uma rede que articula saúde, território, alimentação saudável, meio ambiente e economia solidária. Ao incentivar práticas agroecológicas em territórios densamente urbanizados, o Plano reforça que falar de saúde nas favelas não é apenas tratar de hospitais e postos de atendimento, mas também de saneamento básico, qualidade da água, acesso a alimentos saudáveis, áreas verdes, clima e direito ao território, numa visão de justiça socioambiental que coloca a vida cotidiana das comunidades no centro da pauta. Educação popular, comunicação comunitária e juventudes que comunicam para salvar vidas Cerca de 40% das iniciativas apoiadas pelo Plano se dedicam à educação popular em saúde, à formação de multiplicadores e à comunicação comunitária. A partir dessas experiências, nascem cartilhas, podcasts, vídeos, rádios comunitárias, perfis em redes sociais, campanhas digitais e materiais educativos que traduzem temas considerados complexos – como Covid longa, dengue, tuberculose, saúde mental, direitos sexuais e reprodutivos – para uma linguagem direta, acessível e conectada ao dia a dia das favelas. Jovens comunicadores e comunicadoras populares se formam como sujeitos políticos e técnicos, produzindo conteúdos que disputam narrativas, combatem a desinformação e fortalecem a confiança no SUS, especialmente em momentos de crise. Ao transformar a comunicação em ferramenta de cuidado e de mobilização, o Plano mostra que “comunicar para salvar vidas” não é apenas uma frase de efeito, mas um método de trabalho em territórios historicamente mais deixados para trás. Mulheres negras na linha de frente da cultura de cuidados e da defesa da vida Os dados do Plano confirmam aquilo que a história das favelas já revela há décadas: a centralidade das mulheres,