Casos brutais que chocaram o país se somam a uma curva de violência que cresce há anos e atinge, principalmente, mulheres negras em territórios mais vulneráveis.
Nos últimos dias, o Brasil acordou, de novo, com notícias difíceis de suportar: mulheres assassinadas ou quase mortas por parceiros e ex-parceiros em situações de extrema crueldade. Em discurso em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva citou episódios recentes — o homem que descarregou duas pistolas contra a companheira; o que matou a mulher grávida e incendiou a casa onde estavam os filhos; o caso da mulher atropelada e arrastada por aproximadamente um quilômetro, que sobreviveu, mas teve as duas pernas amputadas.
“Essa semana…” virou expressão recorrente em telejornais, programas de variedades e redes sociais. No plenário do Senado, a senadora Professora Dorinha lamentou “vários casos de feminicídio nos últimos dias” e cobrou uma reação urgente do país. Na TV aberta, Ana Maria Braga chorou ao comentar uma tentativa de feminicídio e três assassinatos de mulheres em poucos dias: “Nos últimos dias parece que o negócio piorou… As notícias são cada vez mais frequentes e aterrorizantes”.
A sensação de que há uma “onda” de feminicídios não é apenas percepção: os dados oficiais mostram que a violência letal contra mulheres é uma emergência contínua — e que o que estoura na mídia em determinados momentos apenas dá rosto e nome a um padrão que se repete há anos.
Uma tragédia que se repete nos números
O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em julho de 2025, mostra que 1.492 mulheres foram assassinadas por feminicídio em 2024 — o maior número desde que o crime passou a ser registrado oficialmente. Foram ainda 3.870 tentativas de feminicídio, um aumento de cerca de 19% em relação a 2023.
O Mapa da Segurança Pública, divulgado pelo governo federal, aponta que, em 2024, o país registrou, em média, quatro feminicídios por dia. Desde 2020, o número absoluto de casos cresce ano a ano: 1.355 vítimas em 2020, 1.359 em 2021, 1.451 em 2022, 1.449 em 2023 e 1.459 em 2024.
Os dados mais recentes, referentes a 2025, reforçam a escalada. Levantamento do Observatório da Mulher contra a Violência, do Senado, mostra que 718 feminicídios foram registrados apenas no primeiro semestre de 2025. Já informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública, divulgadas pela imprensa especializada em raça e gênero, indicam que, de janeiro a setembro de 2025, mais de 2,7 mil mulheres foram vítimas de feminicídio — das quais 1.075 foram mortas —, representando aumento de cerca de 26% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Quando se amplia o recorte temporal, o quadro é ainda mais contundente. Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher – RASEAM 2025, elaborado pelo Ministério das Mulheres, entre 2015 e 2024 foram registradas 11.650 ocorrências de feminicídio no Brasil, além de outras 29.659 mortes violentas de mulheres classificadas como homicídio doloso ou lesão corporal seguida de morte. Somadas, são 41.309 mulheres mortas em dez anos.
Em outras palavras: a sucessão de casos que vem à tona “nesses últimos dias” não é um desvio da curva — é a própria curva.
Cor, idade e território: quem são as vítimas
Os levantamentos mostram que o feminicídio no Brasil tem cor, idade e CEP. O 19º Anuário detalha o perfil:
- 64% das vítimas são mulheres negras;
- 71% têm entre 18 e 44 anos;
- 8 em cada 10 são mortas por companheiros ou ex-companheiros;
- 64% são assassinadas dentro de casa;
- Em 97% dos casos, os autores são homens.
Ou seja, o feminicídio está profundamente ligado à violência doméstica e às desigualdades de raça, gênero e território. Organizações que atuam em territórios historicamente deixados para trás — favelas, periferias urbanas, áreas rurais precarizadas — relatam que a violência letal é apenas a ponta de um iceberg de agressões físicas, psicológicas, patrimoniais e sexuais.
No cenário global, relatório conjunto da ONU Mulheres e do UNODC aponta que, em 2024, 50 mil mulheres e meninas foram mortas por parceiros íntimos ou familiares — o equivalente a 137 vítimas por dia, uma mulher assassinada por alguém da própria família a cada dez minutos. A situação brasileira se insere, assim, em uma crise mundial de violência de gênero — com agravantes próprios de um país marcado por racismo estrutural, desigualdade extrema e períodos recentes de forte cultura armamentista.
“Nos últimos dias…”: picos de visibilidade, não de violência
A expressão “nos últimos dias” aparece repetidamente em discursos e notas de repúdio:
- Na fala do presidente Lula, que citou casos concretos para cobrar uma “luta mais dura” dos homens contra a violência;
- No pronunciamento da senadora Dorinha, pedindo resposta urgente do Estado brasileiro;
- Em declarações de entidades, sindicatos e coletivos feministas mencionando “episódios graves de violência de gênero que vieram à tona nos últimos dias”.
Esse recorte temporal ajuda a nomear a dor do momento, mas não pode mascarar a realidade: o que muda, de um dia para o outro, não é o número de mulheres mortas — é o nível de atenção pública. Em muitos casos que ganham repercussão nacional, descobrem-se depois registros anteriores de ameaça, agressão, perseguição, pedidos de medida protetiva ou relatos de que a mulher já denunciava o agressor.
Relatórios como o RASEAM e o Anuário mostram que a violência começa muito antes do feminicídio: com controle, humilhações, isolamento, violência psicológica e, muitas vezes, estupro conjugal — tornando-se letal quando a mulher tenta romper a relação ou alcançar autonomia econômica.
Falhas estruturais na proteção às mulheres
Análises de observatórios de gênero e entidades de direitos humanos apontam gargalos recorrentes:
- dificuldade de acesso a delegacias especializadas;
- medidas protetivas que demoram ou não são fiscalizadas;
- abrigos, centros de referência e atendimento psicossocial insuficientes;
- falta de articulação entre justiça, segurança, assistência e saúde;
- baixa responsabilização de agressores mesmo com histórico de violência.
Entidades ligadas à educação vêm denunciando que a violência de gênero atravessa escolas e universidades. Casos como o assassinato de duas mulheres em uma instituição de ensino técnico no Rio, citado em mobilizações recentes, mostram que o machismo letal não está restrito ao espaço doméstico.
Reação da sociedade civil e o compromisso com a Defesa da Vida
Enquanto o poder público tenta estruturar respostas, redes de mulheres, coletivos feministas, movimentos negros e entidades de direitos humanos seguem na linha de frente — especialmente em territórios vulneráveis.
Projetos locais de formação em gênero e masculinidades, rodas de conversa, campanhas comunitárias e redes emergenciais de apoio tentam oferecer o que o Estado muitas vezes não garante a tempo: escuta, acolhimento, orientação jurídica, apoio material e proteção imediata.
Organizações como a ComCausa – Defesa da Vida, que atuam historicamente na Baixada Fluminense e periferias do Rio de Janeiro, reforçam que o feminicídio não pode ser tratado apenas como “caso de polícia”, mas como tema de política pública estrutural — envolvendo educação, saúde, assistência, cultura, comunicação e participação comunitária.
Mais que estatística: o que está em jogo
Os últimos dias não inauguraram a violência contra mulheres no Brasil; apenas iluminaram, com histórias concretas, uma tragédia cotidiana. Os dados mostram que o feminicídio é a ponta de um sistema que se renova continuamente, atingindo sobretudo mulheres negras, jovens e moradoras de territórios precarizados.
Entre o impacto de mais uma manchete e a formulação de políticas eficazes, há um campo de disputa que passa por cada território, escola, serviço público e espaço de decisão. É nesse intervalo que se definem as condições para que mulheres possam viver sem medo — e para que a expressão “feminicídios nos últimos dias” deixe de ser repetida na abertura dos telejornais.
Se você vive situação de violência ou conhece alguém em risco, os canais nacionais são o Ligue 180, o Disque 100, além das Delegacias de Atendimento à Mulher e serviços locais. Denunciar é um passo importante — mas a responsabilidade é coletiva: romper a naturalização da violência e afirmar, na prática, um compromisso radical com a Defesa da Vida.
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