Artigo: A memória subterrânea e a crítica ao capitalismo da Diocese de Nova Iguaçu no jornal A Folha (1972–1981)
Artigo A Memória Subterrânea e a Crítica do Capitalismo da Diocese de Nova Iguaçu no Jornal “A Folha” (1972–1981) Fábio Py 1, Pedro Henrique Reis 1 e Clínio Amaral 2, *1 Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política, Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, Universidade Candido Mendes, Rio de Janeiro 22420-030, Brasil; pymurta@gmail.com (F.P.); pedropimentel542@gmail.com (P.H.R.)2 Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro 22420-030, Brasil Resumo Este artigo analisa a memória subterrânea e a crítica do capitalismo no jornal A Folha (1972–1981), que estava associado à diocese de Nova Iguaçu sob a liderança de Dom Adriano Hypólito. Em meio ao contexto autoritário da ditadura militar e à vulnerabilidade social da Baixada Fluminense, o jornal ultrapassou sua função litúrgica e assumiu um papel contra-hegemônico ao articular um discurso religioso que criticava as estruturas sociais e econômicas predominantes. Ao analisar fontes selecionadas do periódico e a teoria da memória social de Michael Pollak, examinamos como o jornal construiu uma contra-memória que desafiava narrativas hegemônicas ao mobilizar críticas ao capitalismo. Também buscamos entender como a diocese, guiada pelos princípios do Cristianismo da Libertação conforme articulado por Michael Löwy—como um movimento emergente através da prática pastoral de base—adotou uma postura política voltada para superar a desigualdade e defender a dignidade humana. Introdução Na década de 1970, desenvolveu-se na América Latina uma forma singular de expressão religiosa conhecida como Teologia da Libertação¹, comprometida com a libertação de seus povos (Gutiérrez 1986, p. 89; Sbardelotti et al. 2022). Ela se caracterizou pelo processo de renovação eclesial que emanou do Concílio Vaticano II. No Brasil, experiências como as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), os padres operários e as ações engajadas de leigos católicos tornaram-se objeto de análise de diversos intelectuais que buscaram compreender como a Igreja Católica passou a adotar, a partir da década de 1970, um discurso centrado nas classes populares (Carvalhães e Py 2017; Míguez et al. 2009). Essa inflexão, ocorrida em um contexto de repressão da ditadura militar, revelou novas formas de presença da Igreja na esfera pública, que desafiaram tanto a estrutura política autoritária do regime quanto os limites de sua própria tradição (Löwy 2016, p. 77). Neste artigo, analisamos as “memórias subterrâneas” (Pollak 1989) da periferia do Rio de Janeiro por meio do jornal A Folha, da Diocese de Nova Iguaçu, como um instrumento de crítica ao sistema capitalista no contexto da ação pastoral da diocese entre os anos de 1972 e 1981. Segundo Pollak (1989, p. 2), as memórias das “minorias e culturas dominadas” são subterrâneas porque resistem à memória oficial. Partimos, assim, da compreensão do papel dessas memórias nas transformações internas da Igreja e em sua interação com as classes populares. Recuperamos, então, a abordagem institucionalista que predominou nos estudos sobre Igreja e política na década de 1970, a qual privilegiava a análise das relações entre a hierarquia católica e o Estado, por vezes negligenciando os sujeitos coletivos que emergiram nas margens da instituição. Interpretamos esse período a partir do conceito de Cristianismo da Libertação, proposto por Michael Löwy (2016), que define o surgimento da Teologia da Libertação como um movimento que emergiu a partir da prática das comunidades populares e da mobilização de diversos intelectuais teológicos na América Latina. Em seguida, apresentamos o surgimento do Cristianismo da Libertação em paralelo às inflexões provocadas pelo Concílio Vaticano II e, sobretudo, às releituras promovidas nas conferências episcopais do CELAM, especialmente em Medellín, em 1968, e Puebla, em 1979. Nesse contexto, a opção preferencial pelos pobres assume contornos teológicos e pastorais concretos e se consolida como eixo estruturante da ação evangelizadora na América Latina (Löwy 2016, p. 76). Na sequência, contextualizamos o cenário socioespacial da Baixada Fluminense e a atuação de Dom Adriano Hypólito na Diocese de Nova Iguaçu, demonstrando como as condições de uma região marcada pela urbanização precária e pela exclusão social impulsionaram um compromisso pastoral voltado aos pobres. Nesse cenário, a Diocese de Nova Iguaçu torna-se uma expressão concreta da Teologia da Libertação enraizada na realidade do povo. A ação pastoral desenvolvida sob a liderança do bispo materializa os princípios formulados no campo eclesial latino-americano, articulando fé, compromisso político e luta por justiça social. Por essa razão, Dom Adriano Hypólito foi alvo de um sequestro durante a ditadura militar, em 1976, e a catedral da diocese foi bombardeada em 1979. Esses episódios evidenciam como a diocese esteve inserida em um amplo cenário de conflito político (Mainwaring 2004, pp. 213–214). Por fim, analisamos o jornal A Folha. Para isso, inspiramo-nos na contribuição de de Luca (2008), que propõe uma abordagem que compreende o discurso jornalístico não apenas como espelho dos acontecimentos, mas como uma construção discursiva situada, carregada de intencionalidades e disputas. Para entender por que determinados temas ganham visibilidade nas capas enquanto outros são relegados às páginas internas, é necessário reconhecer as relações de poder que permeiam a prática jornalística. O jornal não apenas noticia os fatos, mas também constrói sentidos que buscamos apreender. A partir da teoria da memória de Michael Pollak (1989), em diálogo com a análise do jornal A Folha, compreendemos como a Diocese de Nova Iguaçu, por meio do periódico, participou da construção de memórias capazes de desafiar as narrativas hegemônicas da ditadura, a partir de sua crítica ao capitalismo. O jornal elaborou sentidos baseados nas experiências dos trabalhadores da Baixada Fluminense e mobilizou sua linguagem como instrumento político. Em nossa análise, destacamos como o jornal se posicionou de forma contra-hegemônica² em relação aos grandes órgãos de imprensa (Kucinsky 2001, p. 46), ao evocar a memória do subterrâneo e reivindicar seu lugar enquanto diocese periférica (Pollak 1989). 2. Igreja e política no Brasil a partir dos movimentos leigos A década de 1970 foi um período de profundas transformações na Igreja Católica na América Latina. O campo de estudos sobre política e religião na ciência política se expandiu, e a obra Igreja e Estado no Brasil: sete monografias recentes sobre o Catolicismo brasileiro, 1916/1964, de Ralph Della Cava, sintetiza as pesquisas desse período (Della Cava 1975).





