O Cemitério dos Pretos Novos escancara uma das páginas mais violentas da história brasileira. Localizado na região do Valongo, no Rio de Janeiro, o espaço foi destinado ao sepultamento de africanos escravizados que morriam logo após a chegada dos navios negreiros à Baía de Guanabara ou imediatamente depois do desembarque, antes mesmo de serem vendidos. O local funcionou entre 1772 e 1830.

Antes de ser transferido para o Valongo, o cemitério operava no Largo de Santa Rita, em plena área urbana, próximo ao mercado de escravos recém-chegados. Diante do impacto sanitário e social da prática, o vice-rei marquês do Lavradio determinou a remoção tanto do mercado quanto do cemitério para uma área então considerada fora dos limites da cidade.

A mudança, no entanto, não significou dignidade. O Valongo entrou para a história como território de horrores. Ali, os africanos que sobreviviam à travessia atlântica recebiam o “passaporte” para a escravidão nas senzalas. Já os que morriam tinham seus corpos descartados em enterros degradantes, sem rituais, nomes ou respeito.

O historiador José Murilo de Carvalho descreve o local como “cenário tétrico do comércio de carne humana”, expressão que sintetiza a lógica desumana do tráfico escravista. O Valongo não era apenas um ponto de chegada: era um espaço de aniquilação física e simbólica de milhares de vidas negras.

Hoje, o Cemitério dos Pretos Novos é reconhecido como sítio arqueológico e espaço de memória. Sua existência confronta o mito da escravidão branda e reforça a necessidade de políticas de memória, verdade e reparação. Preservar e divulgar essa história é um ato político, fundamental para a defesa da vida, o enfrentamento do racismo estrutural e a construção de justiça histórica.

Redescoberta do Cemitério dos Pretos Novos expõe provas materiais da violência da escravidão

A redescoberta do Cemitério dos Pretos Novos, na região do Valongo, Zona Portuária do Rio de Janeiro, revelou duas evidências incontornáveis da escravidão no Brasil: a forma degradante como africanos recém-chegados eram enterrados e a comprovação material, por meio da arqueologia, da violência extrema do tráfico negreiro. O estudo é analisado pelo historiador Júlio César Medeiros da Silva Pereira, doutor pela Fiocruz e diretor do Instituto de Memória e Pesquisa Pretos Novos (IPN).

Criado no século XVIII, o cemitério funcionou como destino final de africanos que morriam logo após o desembarque ou ainda nos barracões do maior mercado de escravos do país. Sem qualquer ritual religioso, os corpos eram lançados em covas rasas, muitas vezes deixados à flor da terra, misturados a lixo urbano, ossos de animais e entulhos. A pesquisa histórica e arqueológica confirma relatos de viajantes da época que descreviam o local como um terreno revolvido, coberto por ossos mal queimados e mau cheiro constante.

A primeira evidência está na própria existência do cemitério: um espaço exclusivo para escravizados recém-chegados, tratados como indigentes, sem nome, sepultura digna ou reconhecimento humano. Registros da freguesia de Santa Rita indicam que, apenas entre 1824 e 1830, cerca de 6 mil corpos foram ali descartados em uma área reduzida, revelando a lógica mercantil da escravidão, em que a morte era parte do cálculo econômico.

A segunda evidência emerge dos ossos. Escavações arqueológicas encontraram restos humanos queimados, quebrados e misturados, confirmando a prática de reutilização das valas comuns. Estudos recentes, incluindo análises isotópicas de estrôncio realizadas por pesquisadores da Fiocruz e da UFRJ, comprovaram que os indivíduos enterrados vinham de diferentes regiões do continente africano, reforçando o caráter transatlântico do crime escravista.

Para além da brutalidade física, o cemitério simboliza a ruptura espiritual imposta aos africanos, especialmente aos de origem banto, cuja cosmologia valorizava o culto aos ancestrais. Morrer sem ritual significava, para esses povos, o rompimento definitivo da linhagem e a impossibilidade de retorno espiritual à África. A negação do sepultamento digno foi, portanto, mais uma forma de violência.

Fechado em 1830, no contexto do acordo entre Brasil e Inglaterra para proibir o tráfico negreiro, o cemitério foi apagado da paisagem urbana e da memória oficial. Sua redescoberta, primeiro em 1996 e depois reforçada pelas pesquisas a partir de 2010, rompeu esse silêncio histórico.

Hoje, o Cemitério dos Pretos Novos se afirma como um dos mais importantes sítios de memória da escravidão nas Américas. Mais do que vestígio arqueológico, é prova material do racismo estrutural que fundou o país. Os ossos que ressurgem da terra não são apenas restos do passado: são evidências de um crime histórico que ainda exige memória, reparação e justiça.

Sítio Cemitério dos Pretos Novos: análise biocultural. Interpretando os ossos e os dentes humanos.

A descoberta do Sítio Arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, no Rio de Janeiro, revelou não apenas ossos enterrados sob o solo urbano, mas provas científicas incontestáveis da violência do tráfico transatlântico de africanos escravizados. Encontrado em 1996, durante uma reforma residencial, o local funcionou entre aproximadamente 1770 e 1830 como espaço de descarte dos corpos de africanos que morriam logo após o desembarque no porto do Valongo.

A análise arqueológica e bioantropológica do sítio confirmou que os sepultamentos ocorreram de forma precária, sem ritos funerários, muitas vezes com cremação parcial e destruição deliberada dos restos mortais. Dos 5.563 fragmentos ósseos estudados, mais de 60% apresentavam sinais de queima, evidenciando práticas funerárias degradantes, incompatíveis com qualquer noção de dignidade humana.

A importância do achado ultrapassa o campo científico. O cemitério se tornou um marco da memória e identidade da população afrodescendente, ao materializar a história da diáspora africana e do racismo estrutural que marcou a formação do Brasil. A análise biocultural permitiu compreender não apenas como essas pessoas morreram, mas também como viveram.

Os estudos identificaram um número mínimo de 31 indivíduos, majoritariamente adultos jovens, com predominância de homens, refletindo o perfil do tráfico negreiro, voltado sobretudo à exploração de força de trabalho masculina. As condições de saúde observadas nos ossos e dentes indicam que muitos não chegaram a desenvolver doenças crônicas, sugerindo mortes rápidas, relacionadas às violências da travessia atlântica, à fome, aos maus-tratos e às infecções.

A análise dentária trouxe dados reveladores. A baixa incidência de cáries e hipoplasias aponta para uma dieta tradicional africana anterior ao cativeiro, enquanto os padrões das cúspides, sulcos e raízes dentárias confirmam a origem africana dos indivíduos, especialmente de populações de matriz banto. Esses dados reforçam a conexão direta entre o sítio e o tráfico de pessoas escravizadas vindas da África Central.

Outro aspecto marcante são as modificações dentárias intencionais, identificadas em dezenas de dentes. Essas alterações, comuns em diferentes culturas africanas, revelam práticas estéticas e identitárias que sobreviveram mesmo diante da violência da escravidão. Os entalhes e limagens nos incisivos demonstram que esses indivíduos carregavam consigo marcas culturais profundas, apagadas apenas pela brutalidade do sistema escravista.

Além disso, os pesquisadores identificaram sinais de estresse biológico e mecânico, como fraturas, traumas infeccionados e alterações articulares compatíveis com posturas forçadas e maus-tratos. Em uma criança, a presença de hiperostose porótica indica anemia ativa, reforçando o quadro de vulnerabilidade extrema.

As evidências arqueológicas, somadas à pesquisa histórica, desmontam narrativas que minimizam a crueldade da escravidão no Brasil. O Cemitério dos Pretos Novos se consolida como um espaço de memória fundamental, onde ciência, história e direitos humanos se encontram para afirmar uma verdade incômoda: a escravidão foi um projeto de morte.

Preservar o sítio e difundir seus achados é um compromisso com a defesa da vida, com a justiça histórica e com as futuras gerações, para que os ossos que emergiram da terra não voltem ao silêncio.

Descoberta de Bahkita reforça importância do Cemitério dos Pretos Novos como memória da escravidão

As pesquisas arqueológicas no Cemitério dos Pretos Novos, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, avançam e seguem revelando evidências contundentes da desumanização imposta aos africanos durante o tráfico transatlântico. Único cemitério nas Américas diretamente associado a um mercado de escravizados, o local foi destinado ao sepultamento de africanos que morriam antes mesmo de serem vendidos, entre 1769 e 1830.

Redescoberto em 1996, durante reformas em uma residência na Rua Pedro Ernesto, o cemitério expôs uma realidade brutal: corpos descartados sem ritos, sem identidade e sem qualquer dignidade. Os chamados “pretos novos” — africanos recém-chegados, que ainda não haviam sido legalmente incorporados à condição de escravizados — já eram tratados como mercadoria descartável.

As primeiras investigações arqueológicas ocorreram ainda na década de 1990. Entre 2011 e 2012, uma pesquisa coordenada pelo arqueólogo Reinaldo Tavares delimitou a área do sítio, garantindo sua proteção patrimonial. Em novas etapas, realizadas entre 2014 e 2015, escavações de monitoramento revelaram ossos humanos e vestígios culturais, embora sem esqueletos completos em conexão anatômica, o que reforçava relatos históricos sobre a reutilização das valas e a destruição dos corpos.

Uma nova fase das pesquisas teve início em dezembro de 2016, com o objetivo de identificar contextos funerários preservados e aprofundar o entendimento sobre as práticas de inumação. A escavação sistemática de uma área de 2 metros por 2 metros confirmou o padrão de descaso com os mortos e, em maio de 2017, trouxe um achado histórico: o primeiro esqueleto articulado de um “preto novo” encontrado no local.

O esqueleto pertence a uma jovem mulher, batizada simbolicamente de Bahkita, em referência à primeira santa africana canonizada pela Igreja Católica. O nome carrega um gesto de reparação simbólica, ao devolver identidade e humanidade a alguém que, em vida, foi privada de ambas.

O achado de Bahkita representa um marco científico e social. Do ponto de vista arqueológico, trata-se da primeira evidência de inumação primária no cemitério, permitindo análises bioarqueológicas mais precisas sobre origem, saúde, idade e condições de vida. No campo social e cultural, Bahkita se tornou um símbolo de memória, resistência e reconhecimento da dor histórica vivida por milhões de africanos e seus descendentes.

O Cemitério dos Pretos Novos guarda uma herança física, genética e simbólica fundamental para a compreensão da escravidão no Brasil. Mais do que um sítio arqueológico, o espaço se afirma como território de memória, denúncia e luta contra o apagamento histórico. Cada osso encontrado reforça a urgência de revisitar o passado para defender a vida, enfrentar o racismo estrutural e construir justiça histórica.

Josefina Bakhita

As análises iniciais da mais recente pesquisa arqueológica no Cemitério dos Pretos Novos, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, indicam que o corpo encontrado no sítio pertenceu a uma jovem africana sequestrada em seu território de origem e trazida à força para ser comercializada no mercado da escravidão. Ela não resistiu aos maus-tratos impostos ainda nos primeiros dias em solo brasileiro.

A equipe de arqueologia batizou o achado de Bakhita, que significa “bem-aventurada” em um dialeto núbio do Sudão. O nome homenageia Santa Josefina Bakhita, padroeira das pessoas sequestradas e escravizadas e primeira santa africana, canonizada em 2000 pelo papa João Paulo II. O gesto busca devolver humanidade e identidade a quem foi reduzida a mercadoria.

Após seis meses de escavação sistemática, os pesquisadores identificaram diferentes contextos arqueológicos que confirmam relatos históricos sobre a brutalidade das práticas funerárias no local. Entre eles, a quebra proposital e destruição de ossos, o uso de cremação parcial de cadáveres e a dispersão intencional de restos humanos no subsolo. Em 26 de abril de 2017, a equipe encontrou um conjunto de mandíbula e maxilares aparentemente íntegros, associados a vértebras cervicais. A partir desse achado, revelou-se um esqueleto completo.

A descoberta de Bakhita tem relevância científica e social. Mesmo frágil, o esqueleto pode fornecer informações valiosas sobre as condições de saúde, o nível de estresse físico e as violências sofridas por essa jovem africana em sua curta vida. Pela primeira vez, um “preto novo” — neste caso, uma jovem preta nova — poderá “falar” por meio da ciência, ajudando a compreender de forma mais precisa as condições degradantes a que africanos escravizados foram submetidos no Brasil dos séculos XVIII e XIX.

A pesquisa é coordenada pelo arqueólogo e professor de História Reinaldo Bernardes Tavares, do Museu Nacional da UFRJ e do Instituto de Memória e Pesquisa Pretos Novos (IPN). Um dos focos centrais do estudo é analisar os impactos das construções de casas unifamiliares erguidas na segunda metade do século XIX, que ainda hoje se sobrepõem ao sítio arqueológico.

Além disso, os pesquisadores investigam como se davam as práticas de inumação no Cemitério dos Pretos Novos e quais eram as condições de trabalho dos próprios africanos escravizados obrigados a enterrar outros cativos. O achado de Bakhita transforma o cemitério em um espaço ainda mais potente de memória, denúncia e defesa da vida, confrontando o silêncio histórico sobre a escravidão e o racismo estrutural no Brasi

Leia também

Fale conosco! | Nos conheça

Projeto Comunicando ComCausa

Portal C3 | Instagram C3 Oficial

______________________

Comunicando ComCausa Pêmio Periferia Viva Ministério Cidades 2025

______________________

Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

Pix ComCausa

______________________

Compartilhe: