No sábado, 23 de maio, a ComCausa realizou, na Praça de Tinguá, em Nova Iguaçu, uma atividade presencial da campanha “A Chuva Não Mata Sozinha: Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro”, iniciativa inscrita na 9ª Campanha Nacional #AprenderParaPrevenir — Cidades Sem Risco.

A ação marcou uma etapa importante da mobilização construída pela ComCausa para tratar de prevenção de riscos, enchentes, alagamentos, deslizamentos, memória das tragédias climáticas e justiça climática a partir da realidade das comunidades, favelas, periferias e territórios vulnerabilizados do Rio de Janeiro.

A campanha parte de uma mensagem central: a chuva é natural, mas a tragédia não. Quando a chuva encontra ruas sem drenagem, bueiros entupidos, valões cheios, encostas vulneráveis, moradias inseguras, ausência de saneamento, falta de alerta, demora do poder público e pouca escuta das comunidades, ela deixa de ser apenas um fenômeno da natureza e passa a revelar desigualdades históricas.

Tinguá, memória das chuvas e território de prevenção

A escolha de Tinguá não foi por acaso. O bairro, localizado em Nova Iguaçu, carrega uma forte relação com a água, a Mata Atlântica, a Reserva Biológica do Tinguá e a memória recente dos impactos das chuvas na Baixada Fluminense.

Em fevereiro de 2026, Nova Iguaçu foi atingida por fortes chuvas que provocaram alagamentos, deslizamentos, interdições de imóveis e deixaram famílias em situação de vulnerabilidade. Tinguá esteve entre os bairros afetados, reforçando a urgência de ações de prevenção, informação comunitária e cobrança por políticas públicas permanentes.

Na campanha, Tinguá é tratado como território-símbolo: um lugar onde a proteção ambiental, a vida comunitária, a memória das enchentes e a necessidade de prevenção se encontram. A atividade presencial buscou justamente transformar essa experiência em diálogo, escuta e mobilização.

Ação aconteceu no dia do aniversário da Rebio Tinguá

A atividade do dia 23 de maio também teve um significado especial porque aconteceu no dia do aniversário da Reserva Biológica do Tinguá, uma das principais áreas de proteção ambiental da Baixada Fluminense.

Para a ComCausa, essa coincidência reforça a ligação entre floresta, água, território e vida. A Rebio Tinguá representa a importância da preservação ambiental, das nascentes, da biodiversidade e da proteção dos recursos naturais. Ao mesmo tempo, as chuvas recentes mostram que proteger a natureza também exige proteger as comunidades que vivem no entorno, garantir infraestrutura urbana, prevenção de riscos, saneamento, drenagem, alerta e políticas públicas efetivas.

A campanha afirma que justiça climática significa olhar para o ambiente e para as pessoas ao mesmo tempo. Não existe cidade segura se as comunidades continuam expostas ao risco. Não existe prevenção real sem escutar quem mora no território.

Ministério das Cidades, Cemaden Educação e Campanha Nacional Cidades Sem Risco

A campanha da ComCausa foi inscrita na 9ª Campanha Nacional #AprenderParaPrevenir — Cidades Sem Risco, uma mobilização nacional voltada à educação, comunicação e participação social para a prevenção de riscos de desastres.

A campanha nacional é articulada no âmbito do Ministério das Cidades, por meio da Secretaria Nacional de Periferias, em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, por meio do Cemaden Educação, com apoio do x’

A proposta nacional incentiva escolas, organizações sociais, coletivos, movimentos populares, lideranças comunitárias, educadores, agentes públicos e comunidades a criarem campanhas locais de prevenção. A ideia é que cada território reconheça seus riscos, mobilize seus saberes, produza informação acessível e fortaleça uma cultura de cuidado antes que o desastre aconteça.

A ComCausa aderiu a essa mobilização com uma campanha própria, construída a partir da experiência dos direitos humanos, da memória social, da comunicação comunitária e da defesa das populações mais atingidas pelas desigualdades urbanas e ambientais.

Cartilha eletrônica: informação popular para salvar vidas

Um dos principais produtos da campanha é a cartilha eletrônica “A Chuva Não Mata Sozinha: Guia Popular de Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro”.

A cartilha foi elaborada em linguagem acessível, voltada para circulação digital por WhatsApp, redes sociais, Portal C3, RedeDH, parceiros comunitários e lideranças locais. O material reúne informações sobre memória das enchentes, justiça climática, racismo ambiental, sinais de risco, cuidados antes, durante e depois das chuvas, doenças pós-enchentes, canais úteis e responsabilidades do poder público.

Entre os alertas trabalhados estão rachaduras em paredes e no solo, árvores ou postes inclinados, fendas, água barrenta descendo de encostas, barreiras encharcadas, bueiros entupidos, valões cheios e subida rápida da água.

A cartilha também orienta sobre cuidados com crianças, idosos, pessoas com deficiência, mulheres, famílias vulnerabilizadas, pessoas acamadas e animais. Para a ComCausa, informação simples, direta e comunitária pode ajudar a reduzir danos e salvar vidas.

Depoimentos de moradores e lideranças de Tinguá

Durante a atividade, a campanha registrou depoimentos de moradores e lideranças locais sobre os impactos das chuvas em Tinguá.

O professor Jefferson Lopes, morador de Tinguá, falou sobre a realidade vivida pela comunidade e a importância da prevenção antes da próxima chuva. Ana Claudia, presidente da Associação de Moradores de Tinguá, relatou os efeitos das chuvas na região e destacou a necessidade de atenção permanente do poder público. A campanha também ouviu Rosimar e Seu Nono, que compartilharam memórias, preocupações e experiências de quem vive o risco de perto.

Esses relatos são fundamentais porque mostram que a comunidade conhece o território. Os moradores sabem onde a água sobe primeiro, quais ruas alagam com mais frequência, onde existem barreiras vulneráveis, quais famílias precisam de apoio e quais problemas se repetem a cada temporal.

Para a ComCausa, essa memória não pode ser ignorada. Ela precisa ser reconhecida como conhecimento comunitário, ferramenta de prevenção e base para cobrança de políticas públicas.

Comunicação comunitária também é prevenção

A campanha também contou com apoio de comunicadores populares e canais comunitários. A ComCausa agradeceu à Rádio Serra Verde FM — Xerém/RJ, à Verônica, da Rádio Tinguá, e aos parceiros que ajudaram na veiculação da chamada da campanha.

A comunicação comunitária é parte essencial da prevenção. Quando a informação circula pelo rádio, pelo WhatsApp, pelas redes sociais, pelas lideranças locais e pelos veículos populares, ela chega mais rápido às famílias, aos moradores das áreas de risco e às pessoas que precisam se preparar antes da chuva.

Cada chamada, cada vídeo, cada card, cada depoimento e cada compartilhamento ajuda a construir uma rede de cuidado. A campanha defende que comunicação acessível, territorializada e comprometida com a vida também salva.

Palavra do idealizador da campanha local

Idealizador da campanha local da ComCausa, Adriano Dias destacou que a iniciativa nasce da relação direta entre direitos humanos, memória, justiça climática e prevenção.

“A campanha ‘A Chuva Não Mata Sozinha’ parte de uma ideia simples, mas muito profunda: desastre não é apenas uma questão ambiental, é também uma questão de direitos humanos. Quando a chuva encontra desigualdade, racismo ambiental, abandono público, falta de saneamento, ausência de drenagem e moradia insegura, quem sofre primeiro são as favelas, as comunidades e as periferias. A ComCausa quer transformar memória em ação, dor coletiva em prevenção e informação em proteção da vida”, afirmou Adriano Dias.

Segundo ele, a campanha também busca afirmar que os territórios não podem ser lembrados apenas depois da tragédia.

“A prevenção precisa chegar antes. O poder público precisa ouvir as comunidades, investir em infraestrutura, cuidar das encostas, limpar valões, garantir alerta, assistência social, saúde, educação e defesa civil comunitária. A vida das pessoas não pode depender da sorte quando a chuva chega”, completou.

ComCausa avisa: campanha continuará durante o ano

A ComCausa informa que a campanha não termina com a ação presencial nem com a inscrição na Campanha Nacional Cidades Sem Risco. A iniciativa seguirá como uma campanha permanente ao longo do ano, com novas publicações, materiais educativos, escutas comunitárias, vídeos, rodas de conversa, articulações territoriais e mobilizações em outros espaços.

A organização pretende continuar levando a mensagem “A Chuva Não Mata Sozinha” para comunidades, escolas, redes sociais, grupos de WhatsApp, lideranças locais, órgãos públicos e parceiros. A proposta é manter viva a pauta da prevenção antes da próxima chuva e ampliar o debate sobre justiça climática, racismo ambiental, direitos humanos e proteção das populações vulnerabilizadas.

A continuidade da campanha parte das premissas históricas da ComCausa: defesa da vida, promoção dos direitos humanos, escuta das comunidades, valorização da memória das populações atingidas, enfrentamento das desigualdades e cobrança por políticas públicas efetivas.

Prevenção é direito, não favor

Para a ComCausa, prevenir desastres é garantir direitos. É assegurar saneamento, drenagem, limpeza urbana, contenção de encostas, moradia digna, reassentamento seguro quando necessário, alerta eficiente, assistência social, saúde, educação, Defesa Civil comunitária e informação acessível.

A campanha reforça que não se deve culpar as vítimas. Moradores de áreas de risco não precisam de julgamento; precisam de proteção, políticas públicas, escuta e respeito. A responsabilidade comunitária é importante, mas não substitui a obrigação do Estado de prevenir tragédias e proteger vidas.

Memória protege. Comunidade previne. Justiça climática salva vidas.

A campanha “A Chuva Não Mata Sozinha” reafirma que a memória das enchentes e dos deslizamentos no Rio de Janeiro precisa servir como alerta para o presente e compromisso com o futuro.

Tinguá, Nova Iguaçu, Xerém, Petrópolis, Região Serrana, Morro do Bumba e tantos outros territórios mostram que tragédias se repetem quando a prevenção não é permanente. Por isso, a ComCausa seguirá mobilizada para transformar informação em cuidado, memória em ação e justiça climática em defesa da vida.

A chuva é natural. A tragédia, não.

Prevenção começa antes da próxima chuva.

Memória protege. Comunidade previne. Justiça climática salva vidas.

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