Encontro com Márcia Noleto inicia diálogo para integrar sua experiência de acolhimento ao trabalho desenvolvido pela ComCausa com mães, familiares e pessoas que enfrentam perdas, desaparecimentos e violações de direitos

Com uma trajetória construída a partir da escuta, da solidariedade e do acolhimento a mulheres que enfrentam a perda de filhos e filhas, o Mães Sem Nome tornou-se uma importante referência no enfrentamento à invisibilidade social do luto parental.

Criado em junho de 2011 por Márcia Noleto, o grupo nasceu com o propósito inicial de colocar em contato mães que haviam perdido seus filhos, permitindo que compartilhassem experiências e buscassem novas formas de reorganização e continuidade da vida diante de uma perda profunda. A iniciativa não possui vinculação partidária ou religiosa e atua a partir do respeito às diferentes histórias, crenças e formas de vivenciar o luto.

Ao longo de aproximadamente 15 anos, o Mães Sem Nome consolidou uma experiência relevante de apoio gratuito a mães enlutadas, contando também com a participação de profissionais voluntárias da Psicologia. O trabalho procura oferecer um espaço protegido de fala, escuta e convivência para mulheres que, muitas vezes, enfrentam incompreensão, isolamento e cobranças sociais para que retomem rapidamente uma suposta normalidade depois da perda.

A própria denominação Mães Sem Nome expressa uma realidade marcada pela ausência de uma palavra específica para identificar mães e pais que perderam filhos. Enquanto a língua reconhece como órfã a pessoa que perde os pais e como viúva aquela que perde o companheiro ou a companheira, não existe uma denominação equivalente para quem enfrenta a morte de um filho.

Essa ausência de nome simboliza a dificuldade social de reconhecer plenamente a dimensão do luto materno e de oferecer respostas adequadas às mulheres e famílias que atravessam essa experiência.

À frente dessa trajetória está Márcia Noleto, psicóloga clínica, professora, escritora e fundadora do grupo. Sua atuação profissional é orientada pela ética, pelo respeito à história de cada pessoa e pela compreensão de que nenhum processo de luto pode ser tratado de forma padronizada ou submetido a prazos rígidos.

O trabalho desenvolvido por Márcia Noleto e pelo Mães Sem Nome demonstra que acolher não significa apagar a dor, esquecer quem partiu ou exigir uma superação impossível. Significa oferecer presença, reconhecimento, informação, vínculo e condições para que cada mãe possa reconstruir sua relação com a vida, preservando a memória de seu filho ou de sua filha.

ComCausa inicia aproximação institucional

Reconhecendo a relevância dessa experiência, Adriano Dias, representante da ComCausa – Defesa da Vida, reuniu-se com Márcia Noleto, em Copacabana, no Rio de Janeiro, para iniciar um diálogo sobre a construção de uma possível parceria institucional entre o Mães Sem Nome, o CAIS ComCausa – Autonomia e Inclusão, o programa ACOLHER — Memória, Cuidado e Justiça e sua frente ACOLHER Desaparecidos.

Após o encontro, a ComCausa encaminhou a Márcia Noleto um ofício de apresentação institucional, formalizando o interesse em construir uma aproximação respeitosa e uma possível parceria com o Mães Sem Nome.

O documento apresenta os objetivos e os serviços previstos no CAIS, assim como as possibilidades de integração com o programa ACOLHER, ressaltando que qualquer iniciativa conjunta deverá respeitar a autonomia, a identidade, a história e a metodologia construída pelo Mães Sem Nome.

Para Adriano Dias, o encontro representou não apenas a apresentação de uma proposta institucional, mas, principalmente, uma oportunidade de aprendizado com uma experiência reconhecida no acolhimento ao luto.

“Márcia Noleto e o Mães Sem Nome são referências fundamentais para qualquer iniciativa que pretenda atuar com mães e famílias enlutadas. Trata-se de uma trajetória construída com sensibilidade, conhecimento, responsabilidade e profundo respeito ao tempo e à história de cada pessoa”, afirmou.

Segundo Adriano, a ComCausa pretende construir essa aproximação valorizando o protagonismo do Mães Sem Nome.

“Não queremos apresentar uma proposta pronta. Queremos ouvir, aprender e construir coletivamente. O Mães Sem Nome possui uma experiência que precisa ser respeitada e reconhecida como referência na elaboração de ações de acolhimento, formação e defesa de políticas públicas para o luto”, destacou.

Mães Sem Nome como referência de acolhimento

A experiência acumulada pelo Mães Sem Nome poderá contribuir significativamente para qualificar as ações do ACOLHER e do CAIS ComCausa junto às famílias e comunidades que convivem com diferentes formas de ausência e sofrimento.

O trabalho do grupo parte da compreensão de que a morte de um filho produz repercussões que ultrapassam a dimensão emocional. A perda pode atingir a saúde física e mental, os vínculos familiares, as relações comunitárias, o trabalho, a renda, a espiritualidade, os projetos de vida e a própria forma como a mãe passa a se relacionar com o mundo.

Depois dos primeiros momentos da perda, quando geralmente existe maior mobilização de parentes, amigos e instituições, muitas mães passam a enfrentar uma redução do apoio recebido.

As homenagens terminam, as atenções diminuem e a sociedade frequentemente espera que a mulher retome suas atividades e deixe de falar sobre o filho que morreu. Entretanto, para a família, a ausência e a memória permanecem presentes.

É nesse período que espaços de escuta continuada se tornam fundamentais. O Mães Sem Nome oferece a possibilidade de convivência com outras mulheres que reconhecem a profundidade dessa experiência, sem julgamentos, comparações ou imposição de respostas.

As pessoas enlutadas não são tratadas apenas como vítimas de uma tragédia, mas como pessoas com identidade, conhecimento, memória, direitos e capacidade de participar da construção de respostas sociais e políticas para o luto.

“O Mães Sem Nome compreende que o acolhimento não pode terminar quando diminuem as homenagens ou a atenção pública. A ausência permanece no cotidiano da família, e por isso a escuta, o cuidado e o respeito também precisam permanecer”, declarou Adriano Dias.

Uma contribuição estratégica para o ACOLHER

A possível aproximação com o Mães Sem Nome poderá representar um importante avanço para o programa ACOLHER — Memória, Cuidado e Justiça.

Desenvolvido pela ComCausa desde 2005, após a Chacina da Baixada, no âmbito de sua atuação em direitos humanos, o ACOLHER é um programa de acolhimento de familiares atingidos por perdas, desaparecimentos, mortes violentas, violações de direitos e outras situações traumáticas.

O programa reúne ações de escuta, orientação, comunicação pública, encaminhamento para serviços, produção de memória, articulação institucional e incidência por verdade, justiça, reconhecimento e reparação.

Entre as situações acompanhadas estão os desaparecimentos, as mortes violentas ou evitáveis, o luto familiar, a violência institucional e outras violações de direitos.

Segundo Adriano Dias, a experiência de Márcia Noleto e do Mães Sem Nome poderá ajudar a ComCausa a ampliar e qualificar suas metodologias de atendimento, especialmente nos casos que envolvem mães e familiares enlutados.

“A experiência de Márcia Noleto e do Mães Sem Nome poderá ajudar a ComCausa a ampliar e qualificar suas metodologias de atendimento. Uma eventual parceria poderá contribuir para aperfeiçoar a formação das equipes, os protocolos de acolhimento, a realização de grupos de apoio, o desenvolvimento de rodas de conversa e a criação de atividades voltadas à memória dos filhos e filhas”, explicou.

A aproximação também poderá auxiliar a equipe do ACOLHER a reconhecer que cada perda possui características próprias e demanda formas específicas de acompanhamento.

“O luto decorrente de uma doença, por exemplo, não produz necessariamente as mesmas necessidades de uma morte violenta, de um desaparecimento, de um acidente, de uma morte evitável ou de uma situação na qual ainda não houve identificação, responsabilização ou resposta das instituições”, observou Adriano Dias.

“Embora todas essas experiências estejam relacionadas à ausência e ao sofrimento, cada uma demanda formas específicas de escuta, orientação, acompanhamento e articulação com os serviços públicos. A contribuição do Mães Sem Nome poderá fortalecer a capacidade do ACOLHER de lidar com essas diferenças sem hierarquizar dores ou reduzir as histórias das famílias a procedimentos burocráticos”, completou.

Integração com o CAIS ComCausa

A reunião também tratou da possibilidade de participação do Mães Sem Nome em ações relacionadas ao CAIS ComCausa – Autonomia e Inclusão.

O CAIS será estruturado como um centro comunitário de acolhimento, acesso a direitos, redução de danos, inclusão social, fortalecimento da autonomia e reconstrução de vínculos familiares e comunitários.

A iniciativa integra a política dos Centros de Acesso a Direitos e Inclusão Social na Política sobre Drogas, vinculada à Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos — SENAD, do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

A atuação do CAIS não estará limitada ao uso de álcool e outras drogas. O projeto considera que essa realidade frequentemente está relacionada a outras vulnerabilidades, como situação de rua, violência, desemprego, insegurança alimentar, sofrimento psíquico, falta de documentação e rompimento de vínculos familiares.

“Entre as ações previstas estão o acolhimento humanizado, a escuta qualificada, a orientação social e jurídica, o acompanhamento psicossocial, o acesso à documentação, as estratégias de redução de danos, as oficinas de qualificação, a inclusão socioprodutiva, a geração de renda, as atividades culturais, as ações territoriais e os encaminhamentos para políticas públicas”, explicou Adriano Dias, autor do projeto aprovado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Segundo ele, parte das pessoas e famílias atendidas pelo CAIS poderá apresentar trajetórias marcadas por perdas, rompimentos e outras situações traumáticas.

“Parte das pessoas e famílias atendidas pelo CAIS poderá apresentar trajetórias marcadas por mortes, desaparecimentos, perdas familiares, abandono, violência e situações traumáticas. A experiência do Mães Sem Nome poderá contribuir para que essas dimensões sejam reconhecidas e acolhidas adequadamente, evitando que o sofrimento seja tratado apenas como um problema individual ou como consequência exclusiva do uso de substâncias”, afirmou.

Adriano também destacou que a parceria poderá contribuir para uma abordagem mais ampla das situações atendidas.

“O CAIS precisa olhar para a pessoa em sua integralidade. Muitas vezes, o uso problemático de álcool e outras drogas está relacionado a uma história de perda, violência, abandono ou rompimento de vínculos. A experiência do Mães Sem Nome poderá nos ajudar a compreender e acolher melhor essas trajetórias”, acrescentou.

Formação, escuta e construção de protocolos

Entre as possíveis ações de cooperação está a realização de atividades formativas com profissionais, colaboradores e voluntários do CAIS e do programa ACOLHER.

A escuta de uma mãe enlutada exige preparação, respeito e cuidado. Frases aparentemente bem-intencionadas podem provocar sofrimento quando minimizam a perda, determinam um prazo para o luto ou sugerem que a mãe precisa esquecer e seguir adiante.

A experiência do Mães Sem Nome poderá contribuir para a criação de orientações práticas sobre como receber essas mulheres, como identificar necessidades específicas e como realizar encaminhamentos sem interromper ou desqualificar suas narrativas.

“Não basta disponibilizar um atendimento. É necessário preparar as equipes para ouvir sem julgar, sem minimizar a dor e sem impor caminhos. A escuta precisa reconhecer a singularidade de cada mãe, de cada família e de cada história”, ressaltou Adriano Dias.

Também poderão ser desenvolvidos protocolos que considerem a necessidade de privacidade, continuidade do atendimento, consentimento para o uso de imagens e histórias, preservação da memória e proteção contra exposições indevidas.

Esses protocolos poderão orientar ainda a comunicação pública da ComCausa, especialmente na produção de matérias, campanhas, vídeos e mobilizações relacionadas a mortes, desaparecimentos e violações de direitos.

“A comunicação também precisa acolher. Não podemos transformar histórias de dor em números, conteúdos ou exposições sem considerar a dignidade das famílias. A experiência do Mães Sem Nome será uma referência importante para qualificarmos nossas práticas institucionais e comunicacionais”, afirmou Adriano.

Defesa de políticas públicas para o luto

A aproximação também poderá fortalecer a incidência por políticas públicas destinadas às famílias enlutadas.

O luto pode produzir consequências duradouras e exigir acompanhamento em diferentes áreas. Muitas famílias necessitam de atenção em saúde mental, assistência social, orientação jurídica, proteção trabalhista, apoio financeiro e mediação de conflitos familiares.

Entretanto, o atendimento público costuma ser fragmentado, temporário ou inexistente. Em diversas situações, as mães precisam percorrer diferentes serviços e repetir suas histórias inúmeras vezes, sem que exista uma rede integrada de acompanhamento.

“O reconhecimento do luto como uma questão de direitos humanos pode contribuir para a criação de fluxos de atendimento mais acolhedores e para a formação dos profissionais dos serviços públicos”, afirmou Adriano Dias.

“A experiência do Mães Sem Nome, somada à atuação territorial e institucional da ComCausa, poderá fortalecer propostas de políticas que reconheçam as necessidades das famílias após uma perda. Precisamos transformar experiências de acolhimento em referências para a construção de políticas públicas permanentes”, acrescentou.

A articulação também poderá contribuir para debates sobre atenção psicossocial, direitos trabalhistas, assistência às famílias de vítimas de violência, orientação jurídica, apoio a familiares de pessoas desaparecidas e preservação da memória.

“Quando uma família perde um filho ou enfrenta um desaparecimento, não existe apenas uma demanda psicológica. Existem questões sociais, jurídicas, econômicas, familiares e institucionais. A política pública precisa reconhecer essa complexidade e organizar respostas integradas”, defendeu Adriano.

Parceria será construída coletivamente

A ComCausa ressaltou que a proposta apresentada a Márcia Noleto não constitui uma parceria fechada ou uma metodologia previamente definida.

O objetivo é construir os próximos passos de maneira coletiva, a partir da escuta, do respeito e do reconhecimento do protagonismo do Mães Sem Nome.

Novas reuniões poderão aprofundar as possibilidades de cooperação, identificar prioridades e estabelecer responsabilidades compatíveis com a capacidade e a metodologia de cada instituição.

Entre as possibilidades iniciais estão grupos e rodas de acolhimento, atividades de memória, formação de equipes, produção de materiais, campanhas de comunicação, encaminhamentos para serviços e incidência conjunta por políticas públicas.

A parceria poderá ser construída de maneira gradual, respeitando o tempo das mães e evitando que suas histórias sejam utilizadas apenas de forma simbólica ou institucional.

“Queremos que Márcia Noleto e o Mães Sem Nome sejam reconhecidos como referências e parceiros na construção dessa metodologia. Não se trata de utilizar o nome ou a experiência do grupo, mas de estabelecer uma relação verdadeira de cooperação, aprendizado e respeito”, declarou Adriano Dias.

Para a ComCausa, a contribuição de Márcia Noleto e do Mães Sem Nome será de grande importância para o fortalecimento do ACOLHER e do CAIS, especialmente porque parte de uma experiência concreta, humana e acumulada ao longo de anos de convivência com mães enlutadas.

“Márcia Noleto representa uma experiência que reúne conhecimento profissional, sensibilidade e compromisso humano. Sua trajetória e a atuação do Mães Sem Nome poderão oferecer uma contribuição essencial para que o CAIS e o ACOLHER sejam espaços cada vez mais preparados para acolher, cuidar e defender direitos”, concluiu Adriano Dias.

Mais do que incorporar uma atividade, a proposta é estabelecer uma relação de cooperação, aprendizado e reconhecimento mútuo, fortalecendo redes para que nenhuma mãe, nenhum familiar e nenhuma pessoa atingida por uma perda tenha que atravessar sua dor sozinha.

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