Os resultados alcançados pelo Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro foram apresentados na última sexta-feira, 5 de dezembro, durante o evento “Favelizar a Saúde: 5 anos de parcerias”, realizado na Arena Dicró, na Vila da Penha, no Rio de Janeiro. A atividade reuniu organizações que atuam em todo o estado, incluindo iniciativas do Complexo do Alemão e da própria Vila da Penha, território que ainda vive o impacto profundo da morte de 122 pessoas em confrontos com a polícia há pouco mais de um mês.

O contexto de dor e tensão social reforçou o sentido do encontro: falar de saúde em favelas é também falar de proteção integral da vida, de memória, de cuidado comunitário e de enfrentamento estrutural das condições que adoecem corpos e territórios.

Segundo os coordenadores do programa, mais de 1 milhão de pessoas já foram impactadas pelo Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, iniciativa que completa cinco anos consolidando uma das experiências mais consistentes de promoção da saúde em territórios populares no país. Nascido como resposta direta à pandemia de Covid-19 — quando já era previsível que as desigualdades ampliariam o sofrimento e as barreiras de acesso nas favelas — o Plano transformou uma urgência histórica em método, rede e política viva de cuidado.

Uma resposta à pandemia que virou política estruturante

Durante o evento, lideranças e representantes institucionais reforçaram que o Plano foi concebido quando ainda se desenhava o cenário mais grave da crise sanitária durante a pandemia, mas já se compreendia que o impacto seria mais intenso onde o Estado chega de forma fragmentada e onde o direito à saúde enfrenta obstáculos cotidianos. A proposta, então, articulou de maneira rápida e estratégica instituições de pesquisa, universidades, entidades públicas e organizações comunitárias, construindo uma dinâmica capaz de responder à emergência sem perder de vista a estruturação de uma política de longo prazo.

Esse caminho de cinco anos gerou um resultado que vai muito além de números. A conquista central está na consolidação de uma rede sociotécnica que une capacidades científicas, gestão pública e saberes locais, com foco em ampliar o acesso, fortalecer a promoção e reafirmar os princípios do SUS nos territórios onde a vida precisa ser protegida com ainda mais intensidade.

Uma rede extensa, diversa e com enorme capilaridade

A força do Plano se expressa na ampla rede de instituições e coletivos que o compõem. Estão entre os participantes organizações e entidades reconhecidas como a FiocruzIFFUENFUFRJUERJPUCRJSBPC, Alerj e Abrasco, além de dezenas de iniciativas comunitárias espalhadas por diferentes municípios e territórios do estado.

Essa diversidade é a base da maior virtude do projeto: a capilaridade. Cada grupo atua de forma própria, com linguagens, metodologias e inserções sociais distintas, mas interligadas por um pacto de princípios e objetivos comuns. Esse desenho coletivo amplia o alcance das ações e permite que a promoção da saúde seja feita com presença territorial, legitimidade social e forte capacidade de mobilização.

Presenças institucionais e dimensão internacional

O evento também evidenciou o peso político e institucional que o Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro conquistou ao longo desses cinco anos. Além de representantes das 146 organizações que integram a rede, participaram instituições de referência como Fiocruz, IFF, UENF, UFRJ, UERJ, PUC-Rio, SBPC e Abrasco, reafirmando a robustez científica e social da articulação construída nos territórios. Pela Alerj, esteve presente a deputada Renata Souza, presidente da Comissão de Direitos Humanos, reforçando que a saúde nos territórios populares deve ser tratada como agenda pública estratégica, com foco em equidade, proteção social e defesa da vida. Entre outras representações, houve a presença do suíço Nicolas Olivier, chefe da Delegação Regional da Cruz Vermelha Internacional para Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, sublinhando o reconhecimento e a relevância do Plano como experiência de cooperação e cuidado territorial de alcance e impacto amplos.

A ponte entre ciência e favela

Figura importante na articulação entre a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), o Coordenador-Executivo do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, Richarlls Martins tem sido um dos responsáveis por traduzir a potência dessa estratégia coletiva como uma “ciência que aprende com o território, território que organiza o cuidado e uma política pública que se sustenta em cooperação real”. Sua atuação evidencia que o Plano não é apenas um conjunto de ações dispersas, mas uma arquitetura coerente de cuidado, construída com método, escuta qualificada e presença territorial permanente.

Saúde como direito humano e não negociável

Também presente no encontro, Adriano Dias da OSC ComCausa Defesa da Vida reforçou o significado político do Plano no tempo atual. Para ele, a rede representa uma conquista coletiva capaz de levar aos territórios a compreensão do direito à saúde como direito humano, consolidado no Brasil ao longo de décadas de lutas sociais e institucionais.

Adriano enfatizou que a importância da rede é gigantesca não apenas pelo que ela realiza, mas pelo que ela forma: consciência de direitos, mobilização comunitária e uma cultura permanente de cuidado. A rede, segundo ele, “transforma saúde em identidade cidadã concreta, articulando instituições e territórios numa escala que nenhum poder público conseguiria alcançar sozinho”.

Fazer muito com investimentos enxutos

Outro ponto ressaltado ao longo do encontro foi a eficiência do modelo. A lógica de rede permite combinar recursos, evitar sobreposições, potencializar saberes locais e operar com custos mais controlados. Assim, o Plano de Saúde nas Favelas consegue gerar impactos amplos e duradouros, demonstrando que investimentos enxutos, quando bem articulados e ancorados na inteligência territorial, podem produzir grandes resultados. Essa é uma das marcas mais fortes do projeto: “a capacidade de transformar recursos relativamente modestos em alcance real, contínuo e com forte legitimidade social”, conforme afirma Richarlls Martins.

Novo investimento anunciado para ampliar o Plano

Um dos momentos mais simbólicos do evento foi o anúncio de novos recursos para a próxima etapa da iniciativa. Por meio de uma ligação do secretário de Relações Institucionais do Governo Federal, André Ceciliano, foi comunicada a destinação de R$ 10 milhões do Ministério da Saúde para o projeto do próximo ano, com foco na ampliação das ações e no fortalecimento dessa arquitetura de cuidado que vem sendo construída desde a pandemia.

O anúncio reforça a relevância pública e estratégica do Plano e sinaliza a possibilidade de expansão de uma experiência que já se consolidou como referência de articulação entre ciência, Estado e território.

Uma política de vida

Ao completar cinco anos e alcançar a marca de mais de 1 milhão de pessoas impactadas, o Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro confirma que saúde pública efetiva nasce da cooperação entre Estado, ciência e território. E confirma também que as favelas não são apenas espaços onde a saúde precisa chegar: são lugares onde a saúde é produzida, reinventada e sustentada por redes de solidariedade, conhecimento e ação coletiva.

Nesse ecossistema, a ComCausa integra o conjunto de organizações que fortalecem a promoção da saúde, a comunicação cidadã e a defesa de direitos, buscando contribuir com presença territorial e compromisso social a uma rede que, hoje, se tornou referência de política pública construída com o povo e para o povo.

Matéria atualizada em 08 de dezembro de 2025.

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