Na manhã de 5 de junho de 2009, uma sexta-feira aparentemente comum, a vida de Rogéria Alves da Cruz Rodrigues foi dilacerada por uma ausência que nunca mais se preencheu. Sua filha, Vitória Claudiano Nogueira, de apenas 11 anos, saiu de casa no bairro de Irajá, na Zona Norte do Rio de Janeiro, com a inocente missão de entregar o cartão RioCard escolar a uma colega de sala. Era um percurso curto, habitual, seguro aos olhos da família. Mas aquela foi a última vez que a menina foi vista. Ela desapareceu sem deixar vestígios.
A partir daquele momento, o tempo deixou de avançar para Rogéria. Os ponteiros do relógio congelaram na dor. “Minha filha saiu com um sorriso no rosto, como fazia todos os dias. Me disse ‘já volto, mãe’. Eu nunca imaginei que aquela seria a última vez que ouviria sua voz. A última vez que veria seu rosto”, conta Rogéria, em uma lembrança que ainda hoje causa um silêncio profundo em sua casa — um vazio que ecoa por todos os cantos.
Uma menina com brilho nos olhos e fé no coração
Vitória era muito mais do que uma criança comum. Ela era luz, era esperança. Era o tipo de filha que enchia a casa com risadas, música e afeto. Gostava de estudar, era dedicada e respeitosa, muito apegada à mãe, com quem dividia não só o cotidiano, mas também a fé. “Ela era minha companheira de igreja, minha parceira nos cultos. Fazia coreografias com o grupo infantil, cantava, dançava, adorava participar das coisas da igreja. Era uma menina de fé, uma alma iluminada”, relata Rogéria.
Segundo a mãe, Vitória não apresentava qualquer indício de problemas emocionais, não se envolvia em situações de risco, não usava substâncias, nem havia relatos de conflitos com ninguém. “Ela era só uma criança vivendo sua vida. Sonhava em ser professora. Sonhava em crescer.”
O desaparecimento e a ausência do Estado
A última vez que alguém a viu foi quando passava pela Rua Aníbal Porto, em frente à antiga loja da Oi. Alguns dias depois, uma denúncia anônima informou que Vitória teria sido vista em uma praça no bairro Jardim América, acompanhada de uma mulher mais velha. Rogéria correu para o local, em desespero. “Andei por tudo, procurei em cada canto, perguntei para todo mundo. Mas ninguém tinha visto nada. Foi como se aquela informação tivesse sido jogada só para me dar esperança e depois me arrancar o chão de novo.”
No mesmo dia do desaparecimento, Rogéria registrou o boletim de ocorrência na 27ª Delegacia de Polícia, em Vicente de Carvalho. No entanto, desde então, o que se seguiu foi o mais absoluto descaso. O inquérito foi aberto, mas não houve investigação efetiva. Nenhuma diligência. Nenhuma ação concreta. Nenhuma resposta. E, pior, com o tempo, o caso foi arquivado. “Arquivaram a história da minha filha como se fosse um papel velho. Arquivaram a vida dela. Isso não é só uma negligência, é uma violência”, afirma Rogéria, indignada.
Segundo a família, a Defensoria Pública nunca acompanhou o caso. A família também não teve acesso a advogado. As poucas divulgações que conseguiu foram fruto da sua própria mobilização: Vitória foi mencionada na TV Record, na Band, na Globo, e no programa SOS Crianças Desaparecidas. Ainda assim, nenhuma pista surgiu.
Hipóteses que ferem, mas não podem ser ignoradas
Sem respostas do Estado, Rogéria passou a levantar hipóteses por conta própria. “Se ninguém encontra, se ninguém viu, se tudo foi apagado, há algo mais por trás disso. Não posso descartar a possibilidade de tráfico humano, de exploração sexual. Existe um mercado de crueldade que se alimenta de crianças pobres e invisibilizadas como minha filha.”
Mesmo sem provas concretas, ela não se cala. “Não posso aceitar que minha filha tenha virado estatística. Ela tinha um nome, um rosto, um futuro. E mesmo que nunca mais volte, eu preciso saber o que aconteceu com ela. Tenho o direito de enterrar minha filha ou de abraçá-la novamente. Mas não posso viver o resto da vida sem saber.”
A dor que virou força coletiva
Com o passar dos anos, e diante do silêncio institucional, Rogéria decidiu não sofrer sozinha. Transformou sua dor em luta e sua busca em bandeira. Criou o movimento Mães Braços Fortes, reunindo mulheres que compartilham da mesma tragédia: a ausência de seus filhos e a presença opressiva do abandono estatal.
“O que essas mães enfrentam é mais do que a dor de perder um filho. É a dor de serem ignoradas, de não serem ouvidas. Somos mulheres pobres, negras, da periferia — não temos voz para eles. Por isso, criamos a nossa própria voz. Juntas”, explica.
Acolher Desaparecidos: reconstruindo rostos, recuperando dignidade
Hoje, a história de Vitória volta a ganhar visibilidade através do projeto Acolher Desaparecidos, desenvolvido com o apoio da ComCausa Defesa da Vida e da empresa de comunicação Virtuo. A iniciativa nasceu da união de famílias, ativistas – com apoio da empresa Virtuo – com o propósito de dar nome e rosto aos desaparecidos que foram esquecidos pelas instituições. O projeto organiza galerias digitais, campanhas de redes sociais, projeções em espaços públicos e mobilizações culturais, além de prestar apoio psicológico, jurídico e social às famílias.
Com base na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), o Acolher Desaparecidos realiza o tratamento seguro e sigiloso das informações prestadas pelas famílias. Os dados são utilizados apenas com autorização expressa, visando à articulação com canais públicos, como a Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA), Ministério Público, Defensoria, conselhos tutelares, Disque 100, Disque Denúncia Rio 181 e redes de proteção social.
O Acolher Desaparecidos não é um movimento de resgate de dignidade. Ele nasce do compromisso com a escuta ativa, com a reconstrução das narrativas familiares e com a valorização da luta das mães que, mesmo sem respostas, se recusam a desistir. Cada história contada é um grito contra o esquecimento. Cada rosto lembrado é uma chance de reencontro. E o mais importante: qualquer pessoa pode ter sua história incluída no Acolher Desaparecidos. Basta entrar em contato com a equipe responsável, compartilhar os dados e registros disponíveis, e permitir que a memória daquele que partiu sem explicação possa ser preservada e, quem sabe, reencontrada. Porque toda ausência merece atenção. Toda dor merece ser ouvida.
A luta que não tem fim
Rogéria segue firme. Mesmo com o peso dos anos, da ausência, do luto não autorizado. Ela continua acreditando. Continua procurando. Continua falando o nome de sua filha todos os dias. “A Vitória é parte de mim. Enquanto eu respirar, ela vai estar viva. E enquanto eu estiver viva, eu vou procurar. Porque ninguém desaparece sozinho. E nenhuma mãe deveria ser obrigada a viver com essa dor.”
Vitória Claudiano Nogueira desapareceu há 16 anos. E ainda assim, está mais presente do que nunca.
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