Em uma edição especial do projeto ComCausa Recebe, a organização acolheu os pais de Maicon de Souza Silva para um momento de escuta pública, diálogo e reconhecimento dos 30 anos de luta da família por memória, justiça e reparação.

O encontro reuniu familiares, representantes da sociedade civil, defensores de direitos humanos e parceiros históricos da ComCausa, entre eles Ivanir dos Santos, uma das principais referências nacionais na defesa dos direitos humanos e no combate ao racismo religioso.

Durante a atividade, os pais de Maicon compartilharam lembranças, reflexões e relatos sobre três décadas de mobilização para impedir que a história do filho fosse esquecida.

Em diversos momentos, a emoção tomou conta do ambiente, evidenciando o peso de uma luta que atravessa gerações e permanece atual diante dos desafios da reparação e do reconhecimento institucional.

Trinta anos de uma luta que não terminou

Maicon de Souza Silva foi morto ainda criança em um caso que se tornou símbolo da violência de Estado e da luta contra a criminalização de vítimas. Desde então, sua família vem travando uma batalha permanente para preservar sua memória e exigir que o Estado reconheça sua responsabilidade.

Ao longo dessas três décadas, os pais de Maicon participaram de manifestações, reuniões institucionais, audiências, atos públicos e inúmeras iniciativas voltadas à busca por justiça. A luta também passou a representar milhares de outras famílias que perderam filhos para a violência institucional e enfrentaram o silêncio, a burocracia e a tentativa de apagamento de suas histórias.

Atualmente, a família cobra a implementação de medidas de reparação previstas em documento recentemente firmado junto ao poder público, incluindo a criação do Memorial Maicon, com a instalação de uma estátua e uma placa em homenagem ao menino na Praça do Chafariz, além da retratação oficial do registro de “auto de resistência” associado ao caso.

Caso ajudou a construir a metodologia do Programa Acolher

Durante o encontro, Adriano Dias destacou que a trajetória da família de Maicon possui uma relação direta com a própria história da ComCausa e com a construção da metodologia que mais tarde seria formalizada como Programa Acolher.

Segundo ele, o acompanhamento da família começou muito antes da formalização da organização e ajudou a consolidar a compreensão de que não bastava denunciar violações de direitos humanos. Era necessário permanecer ao lado das famílias, acompanhando seus processos de luto, resistência e busca por justiça.

“Esse é um dos casos mais antigos que acompanho. A história de Maicon ajudou a construir nossa forma de atuar. Foi com famílias como essa que aprendemos a importância da presença permanente, da escuta e da defesa da memória como um direito humano fundamental”, afirmou Adriano Dias.

O fundador da ComCausa ressaltou ainda que o caso permanece como uma referência para o trabalho desenvolvido pelo Programa Acolher, iniciativa voltada ao atendimento, acolhimento e acompanhamento de familiares de vítimas da violência letal e de desaparecimentos.

Programa Acolher: presença na ausência

Formalizado após a Chacina da Baixada, em 2005, o Programa Acolher tornou-se uma das principais frentes de atuação da ComCausa. Baseado na escuta qualificada, no apoio psicossocial, na mediação institucional e na preservação da memória, o programa acompanha familiares em situações marcadas pela dor, pela impunidade e pela invisibilidade.

Para a ComCausa, a luta da família de Maicon representa de forma exemplar os princípios que orientam o Acolher: estar presente quando as instituições falham, transformar a dor em mobilização e garantir que as histórias das vítimas não sejam apagadas.

“Quando o Estado se ausenta, a memória se torna uma forma de resistência. O Acolher nasceu justamente da necessidade de garantir que essas famílias não enfrentem sozinhas a dor, a burocracia e a busca por justiça”, destacou Adriano Dias.

Equipe da ComCausa registrou todo o encontro

A edição especial do ComCausa Recebe foi integralmente registrada pela equipe de comunicação da ComCausa. Os depoimentos, reflexões e relatos apresentados pela família durante a atividade passarão a integrar o acervo de memória da organização, contribuindo para a preservação da história da família e para a construção de um registro permanente sobre a luta por direitos humanos no estado do Rio de Janeiro.

O material produzido também servirá para ampliar o alcance da pauta, sensibilizar a sociedade e fortalecer a mobilização em torno das medidas de reparação reivindicadas pela família.

Presença de Ivanir dos Santos fortaleceu o encontro

A atividade contou ainda com a participação de Ivanir dos Santos, reconhecido nacionalmente por sua trajetória em defesa dos direitos humanos, da liberdade religiosa e do combate ao racismo.

Sua presença foi destacada pelos participantes como um gesto de solidariedade à família e de reconhecimento da importância histórica da luta travada pelos pais de Maicon ao longo das últimas três décadas.

Memória como instrumento de justiça

Ao final do encontro, a ComCausa reafirmou seu compromisso de continuar acompanhando a família e cobrando o cumprimento das medidas de reparação previstas para o caso.

Mais do que uma homenagem, a organização destacou que a construção do Memorial Maicon e a revisão dos registros oficiais representam passos fundamentais para o reconhecimento da verdade histórica e para a preservação da dignidade da vítima.

Trinta anos depois, a história de Maicon continua mobilizando pessoas, inspirando novas gerações e lembrando que memória, justiça e reparação não são favores concedidos pelo Estado, mas direitos que precisam ser garantidos.

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