No último sábado, 26 de julho de 2025, a ComCausa Defesa da Vida esteve presente no estúdio do Podcast Café Underground, situado no coração do bairro Alvorada, em Nova Iguaçu, para participar de uma edição especial que se tornou muito mais do que uma simples entrevista. Foi um momento simbólico de escuta qualificada, partilha de vivências e fortalecimento de laços entre iniciativas que, a partir das margens, atuam para transformar profundamente as estruturas de exclusão e silenciamento que ainda persistem nos territórios periféricos.
A presença de Adriano Dias, fundador da ComCausa, no episódio, representou o encontro entre duas frentes que compartilham princípios comuns: o compromisso com os direitos humanos, a valorização da vida e a comunicação como instrumento de emancipação. A conversa foi mediada por três integrantes fundamentais da equipe do podcast – Carmem Bento, responsável pela comunicação e articulação em redes sociais; Ezequiel Mendes, que atua na direção audiovisual com olhar técnico e político; e André Ferreira, articulador institucional e elo com diversas iniciativas sociais. O coletivo foi formado a partir da inquietação de jovens da Baixada, que decidiram transformar a ausência de espaços de escuta em um canal de expressão legítima e engajada.
O Podcast Café Underground nasceu em julho de 2024, fruto do idealismo e ousadia de Jeremias Santos, que vislumbrou a criação de uma mídia contra-hegemônica, capaz de dar voz ao que tradicionalmente é calado. A iniciativa surgiu de forma precária, nos fundos de uma loja no Alvorada, mas logo ganhou força ao propor uma comunicação subversiva não pelo viés do embate gratuito, mas pela disposição em acolher o contraditório, provocar o pensamento crítico e promover o diálogo. Desde então, o podcast se tornou referência local ao tratar com seriedade e sensibilidade temas como identidade racial, juventudes, religiosidade, política, cultura periférica e direitos sociais.
Durante a gravação do episódio, Adriano apresentou a trajetória histórica da ComCausa, organização que emergiu dos movimentos populares da Baixada Fluminense nos anos 1980 e que se consolidou como uma das principais referências na promoção dos direitos humanos na região, especialmente após sua atuação firme diante da Chacina da Baixada, em 2005. Ao relatar o percurso institucional da ComCausa, ele destacou o conceito de “cultura de direitos” como eixo estruturante da atuação da entidade, que trabalha cotidianamente na articulação de campanhas, acolhimento de vítimas e familiares, formação cidadã, produção de conteúdos informativos e incidência em políticas públicas.
A conversa mergulhou em temas contemporâneos de alta complexidade, com destaque para o crescimento dos casos de violência envolvendo adolescentes e a instrumentalização das redes sociais como ambientes de estímulo à intolerância, à automutilação e à cultura da violência. Adriano chamou a atenção para o papel da comunicação comunitária na construção de narrativas que enfrentem esses processos, propondo estratégias educativas e afetivas para a promoção da saúde mental, da cidadania e do pertencimento coletivo.
Em um momento particularmente sensível da entrevista, foi abordado o fenômeno do bullying, a importância da Lei da Palmada e os desafios relacionados à educação infantil. Adriano argumentou que medidas violentas, travestidas de disciplina, apenas perpetuam traumas e contribuem para a reprodução de padrões de agressão na vida adulta. Destacou a importância de mecanismos de escuta e cuidado nas relações familiares e escolares, apontando para a necessidade de políticas públicas voltadas à infância e à juventude.
Outro momento marcante foi a recomendação da série Adolescência, da Netflix, que segundo Adriano traduz com profundidade psicológica e sensibilidade social as disfunções institucionais que afetam os jovens, especialmente no ambiente escolar. A série, segundo ele, oferece um convite à reflexão sobre os sistemas de opressão naturalizados e as possibilidades de ruptura a partir do afeto, da empatia e da crítica construtiva.
A defesa do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) também teve destaque. Em um contexto de discursos punitivistas e tentativas de retrocesso legislativo, Adriano reafirmou que o ECA representa um marco civilizatório para o Brasil, sendo fundamental para assegurar a proteção integral e os direitos fundamentais de crianças e adolescentes. Ressaltou que as críticas ao ECA, em grande parte, derivam de desconhecimento ou má-fé, e que é dever das organizações e da sociedade civil promover seu conhecimento e aplicação efetiva.
A pauta dos desaparecimentos, tragicamente frequente na Baixada Fluminense e em outras regiões periféricas, foi outro ponto de convergência entre a ComCausa e o Podcast Underground. Adriano relatou as ações desenvolvidas pela organização junto às famílias de pessoas desaparecidas, incluindo o uso de inteligência artificial para atualização de retratos, a produção de campanhas de mobilização e o suporte psicossocial. Criticou, com firmeza, a espetacularização da dor nas redes sociais e defendeu o uso ético da comunicação, orientada pela solidariedade, pelo acolhimento e pela escuta sensível.
A receptividade da equipe do Café Underground diante das propostas da ComCausa foi calorosa e inspiradora. O grupo expressou a intenção de firmar uma parceria estável com a organização, apoiando campanhas e contribuindo para a amplificação das pautas relacionadas a desaparecimentos, cultura de paz e direitos humanos. Essa aliança, que se desenha de forma orgânica, simboliza o potencial transformador das conexões forjadas nos territórios, entre agentes comprometidos com a vida e a justiça.
Nos minutos finais do episódio, Adriano abordou a questão da segurança pública a partir de uma perspectiva crítica e propositiva. Defendeu a municipalização das políticas de prevenção à violência, o fortalecimento das redes comunitárias e a superação do modelo repressivo, ainda hegemônico. Alertou para o avanço do poder paralelo e a corrosão institucional provocada pela corrupção e pela ausência do Estado em áreas vulnerabilizadas. Reiterou que a verdadeira segurança se constrói com inclusão, educação, cultura e participação cidadã – não com violência de Estado.
Participar do Podcast Café Underground foi, para a ComCausa, mais do que uma entrevista: foi a confirmação de que a comunicação periférica, quando praticada com ética, coragem e escuta, é uma das mais potentes ferramentas de transformação social. O episódio será veiculado nas plataformas digitais do podcast e também replicado nas redes da ComCausa, ampliando o alcance desta conversa potente e reafirmando o compromisso mútuo com a defesa da vida, da dignidade e do direito à fala.
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