A preservação da memória histórica e a valorização dos territórios que guardam importantes capítulos da luta do povo negro brasileiro estiveram no centro de um encontro realizado nesta semana na Superintendência de Igualdade Racial da Secretaria Municipal de Cultura de São João de Meriti. A atividade reuniu representantes da ComCausa – Defesa da Vida, gestores públicos, pesquisadores e lideranças locais para discutir o fortalecimento do Museu João Cândido e a promoção de ações voltadas aos moradores do Morro do Embaixador.

O encontro foi motivado pelos desdobramentos da recente agenda realizada pela ComCausa junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em Brasília. Na ocasião, foram apresentadas informações sobre a importância histórica da Casa do Embaixador e do Morro do Embaixador, bem como debatidas possibilidades de apoio institucional, preservação patrimonial e valorização da memória de João Cândido Felisberto, o Almirante Negro.

Figura central na história do Brasil, João Cândido liderou a Revolta da Chibata, em 1910, movimento que denunciou os castigos físicos impostos aos marinheiros da Marinha brasileira. Sua trajetória tornou-se símbolo da luta pela dignidade humana, pela igualdade racial e pelos direitos dos trabalhadores. Por essa razão, iniciativas voltadas à preservação de sua memória possuem relevância não apenas local, mas nacional.

Participaram da reunião o estudante de História e padre Pedro Gadelha, que vem desenvolvendo pesquisas sobre a trajetória de João Cândido e a importância do Morro do Embaixador para a memória afro-brasileira; a arquiteta Luciana Neiva, responsável pelo projeto de adequação e transformação da Casa do Embaixador em Museu João Cândido; Pierre Meirelles, subsecretário de Políticas de Igualdade Racial; Regina Célia, da Superintendência de Igualdade Racial; representantes da Prefeitura de São João de Meriti; além de Hugo Boaventura, parceiro da ComCausa e apoiador das iniciativas voltadas ao fortalecimento do espaço.

Durante a roda de conversa, foram debatidos os desafios para consolidar o Morro do Embaixador como um equipamento permanente de cultura, memória e educação patrimonial. Os participantes destacaram a necessidade de ampliar as articulações entre o poder público, universidades, instituições culturais, movimentos sociais e a própria comunidade do Morro do Embaixador, garantindo que o museu seja construído de forma participativa e conectado às demandas do território.

Também foram discutidas estratégias para fortalecer o reconhecimento institucional do espaço, promover atividades educativas voltadas para escolas, incentivar pesquisas acadêmicas e desenvolver ações culturais que contribuam para a preservação da memória da população negra da Baixada Fluminense. A expectativa é que o museu possa se consolidar como um centro de referência sobre a vida e o legado de João Cândido, além de servir como espaço de formação cidadã para jovens e moradores da região.

Outro ponto importante abordado foi a necessidade de olhar para o Morro do Embaixador não apenas como um local de memória histórica, mas também como um território vivo, habitado por famílias que preservam tradições, identidades e vínculos comunitários. Nesse sentido, as iniciativas voltadas ao museu devem caminhar lado a lado com ações que valorizem os moradores e fortaleçam o pertencimento da comunidade ao projeto.

Após a reunião, os participantes realizaram uma visita técnica ao Morro do Embaixador e à Casa do Embaixador. A atividade permitiu observar de perto as características do local, discutir aspectos relacionados à preservação do patrimônio e avaliar possibilidades para futuras intervenções e projetos. A visita também reforçou a importância de garantir que o espaço seja preservado como patrimônio histórico e cultural, mantendo viva a memória de João Cândido para as futuras gerações.

Para Adriano Dias, da ComCausa, a mobilização em torno do Museu João Cândido representa um compromisso com a verdade histórica, a justiça racial e a valorização daqueles que contribuíram para a construção do país. Segundo ele, a reunião com o IPHAN em Brasília abriu novas perspectivas para o fortalecimento do projeto e demonstrou que existe interesse crescente em reconhecer a relevância do legado deixado pelo Almirante Negro.

A iniciativa reafirma o compromisso da ComCausa, da Prefeitura de São João de Meriti e de seus parceiros com a defesa da memória, da cultura, dos direitos humanos e da igualdade racial. Mais do que preservar um espaço físico, o objetivo é garantir que a história de João Cândido continue inspirando novas gerações na luta por cidadania, dignidade e justiça social.

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