Os pais de Maicon assinaram um documento oficial que prevê medidas de memória e reparação para o caso do menino, morto há 30 anos, e agora cobram que o compromisso saia do papel. Entre os pontos previstos estão a instalação de uma estátua com placa em homenagem à criança na Praça do Chafariz e a retratação do registro de “auto de resistência” associado ao caso. Diante da desconfiança sobre o cumprimento do acordo, afirma que poderá iniciar uma greve de fome caso não haja avanço concreto.
A ComCausa realizará, no dia 02 de maio, a partir das 17h, uma edição especial do ‘ComCausa Recebe’ com a família de Maicon de Souza Silva, menino morto há 30 anos em um caso que se tornou símbolo da luta por memória, justiça e reparação diante da violência de Estado no Rio de Janeiro.
O encontro será realizado na sede da ComCausa, no Centro do Rio de Janeiro, e terá como objetivo ouvir a família, registrar sua trajetória de resistência, dar visibilidade às cobranças por reparação e reforçar a importância da preservação da memória das vítimas da violência institucional.
O caso de Maicon é o mais antigo acompanhado por Adriano Dias, fundador da ComCausa, ainda antes da formalização de alguns dos projetos que depois estruturariam a atuação da organização no acolhimento de familiares de vítimas da violência. Ao longo de três décadas, a família seguiu lutando para que a história do menino não fosse apagada e para que o Estado reconhecesse sua responsabilidade.
“Esse é um caso que atravessa a própria história da ComCausa. Nos influenciou de como burcar atuar. Acompanhamos essa família há décadas, porque entendemos que memória não é favor, é direito”, afirma Adriano Dias.
O que é o ComCausa Recebe
O ComCausa Recebe é um projeto da ComCausa criado para promover encontros, diálogos e escutas públicas com pessoas, famílias, movimentos sociais, coletivos, lideranças comunitárias, pesquisadores, comunicadores e defensores de direitos humanos. A proposta do projeto é abrir espaço para histórias que muitas vezes são invisibilizadas pelas instituições, pela mídia tradicional e pelos espaços formais de decisão. Por meio desses encontros, a ComCausa busca fortalecer causas sociais, registrar memórias, ampliar denúncias públicas e construir pontes entre sociedade civil, comunicação popular e defesa de direitos.
Nesta edição, o ComCausa Recebe será dedicado à família de Maicon, cuja luta atravessa três décadas e permanece atual diante da demora no cumprimento de medidas de reparação simbólica assumidas pelo poder público.
Quem foi Maicon
Maicon era ainda uma criança quando foi morto, há 30 anos, em um caso que marcou profundamente sua família e passou a integrar a longa história de denúncias contra a violência de Estado no Rio de Janeiro.
Sua morte não representa apenas uma tragédia familiar. Ela também simboliza a realidade de muitas famílias pobres, negras e periféricas que, ao perderem seus filhos para a violência institucional, ainda precisam enfrentar a criminalização das vítimas, a lentidão das respostas oficiais e a tentativa de apagamento da memória.
Ao longo dos anos, o caso de Maicon se tornou referência na denúncia contra execuções, abusos cometidos por agentes públicos e registros oficiais que, historicamente, foram utilizados para justificar mortes em ações policiais.
Três décadas de dor, denúncia e resistência
Desde a morte de Maicon, sua família segue lutando para que o caso não seja esquecido. Foram anos de protestos, vigílias, atos públicos, reuniões, denúncias e cobranças por reconhecimento institucional.
O pai de Maicon, José Luiz, transformou a dor pela perda do filho em mobilização permanente. Ao lado de familiares e apoiadores, ele manteve viva a memória do menino e denunciou, durante décadas, a ausência de reparação e a demora do Estado em reconhecer de forma concreta sua responsabilidade.
“Não estamos pedindo favor. Estamos cobrando respeito à memória do nosso filho e o cumprimento de um compromisso assumido”, afirma pai, José Luiz.
Para a família, cada promessa não cumprida aprofunda a dor e reforça a sensação de abandono. Por isso, a cobrança atual não se limita ao reconhecimento simbólico: os familiares querem prazos, medidas concretas e confirmação pública de que o acordo será executado.
“Depois de 30 anos, a gente não pode aceitar mais uma promessa vazia. Queremos ver o memorial construído e a verdade reconhecida”, afirma a família.
Documento prevê medidas de memória e reparação
Recentemente, os pais de Maicon assinaram um documento oficial que prevê medidas de memória e reparação relacionadas ao caso. Entre os principais pontos estão a instalação de uma estátua com placa em homenagem à criança na Praça do Chafariz e a retratação do registro de “auto de resistência” associado à morte do menino. Para a família, o documento representa um avanço importante, mas ainda insuficiente enquanto não houver execução concreta das medidas.
A preocupação dos familiares é que o compromisso fique apenas no papel, repetindo um histórico de promessas não cumpridas, adiamentos e silêncios institucionais. Por isso, a cobrança atual é para que sejam definidos prazos, responsabilidades, etapas de execução e confirmação pública das ações previstas.
Memorial Maicon: mais do que uma homenagem
Um dos pontos centrais da reparação é a criação do Memorial Maicon, com a instalação de uma estátua e uma placa na Praça do Chafariz.
Para a família, o memorial não é apenas uma homenagem simbólica. Ele representa o reconhecimento público de uma injustiça histórica e a afirmação de que a vida de Maicon não pode ser apagada.
Ao ocupar um espaço público, o Memorial Maicon transforma a praça em um lugar permanente de memória, denúncia e reflexão. A presença da estátua e da placa permitirá que moradores, visitantes e novas gerações conheçam a história do menino e compreendam o significado da luta de sua família.
“O memorial é para que as pessoas saibam que Maicon existiu, que ele era uma criança, que tinha uma família e que sua história não pode ser apagada”, afirma um dos familiares.
A Praça do Chafariz como lugar de memória
A escolha da Praça do Chafariz tem grande significado para os familiares. A instalação do memorial em uma praça pública transforma o espaço urbano em território de memória, fazendo com que a história de Maicon deixe de ser tratada apenas como uma dor privada e passe a ser reconhecida como uma questão pública.
Espaços públicos carregam histórias, disputas e memórias coletivas. Quando uma vítima da violência de Estado é lembrada nesses locais, a cidade passa a reconhecer uma dor que antes era invisibilizada.
O Memorial Maicon poderá funcionar como um marco contra o esquecimento. Ele também será uma forma de denúncia permanente contra a violência institucional, o racismo, a impunidade e a criminalização de vítimas.
Para os familiares, a placa e a estátua são formas de dizer que Maicon existiu, que sua história importa e que nenhuma versão oficial pode apagar a dignidade de uma criança.
Retratação do “auto de resistência”
Outro ponto fundamental previsto no documento é a retratação do registro de “auto de resistência” associado ao caso.
Durante muitos anos, a expressão “auto de resistência” foi utilizada em registros de mortes provocadas por agentes do Estado, especialmente em ações policiais. Na prática, esse tipo de registro muitas vezes serviu para construir uma narrativa de confronto, proteger agentes públicos e criminalizar as vítimas.
No caso de Maicon, a retratação desse registro tem peso político, moral e histórico. Para a família, corrigir essa marca significa enfrentar uma versão que, durante décadas, contribuiu para a dor, a injustiça e a tentativa de apagamento da verdade.
“Quando colocam uma morte como auto de resistência, tentam culpar a vítima e aliviar a responsabilidade do Estado. No caso de uma criança, isso é ainda mais cruel”, afirma Adriano Dias.
A revisão do enquadramento também dialoga com a luta de inúmeras famílias que denunciam o uso de registros oficiais para encobrir violações de direitos humanos.
O caso que ajudou a formar a metodologia do Acolher
A luta da família de Maicon tem relação direta com a construção do que, anos depois, seria formalizado pela ComCausa como o Programa Acolher. A história do Acolher começa antes de sua institucionalização. Desde os anos 1980, integrantes que mais tarde formariam a ComCausa já atuavam junto a famílias atingidas pela violência policial na Baixada Fluminense. A partir desse envolvimento, surgiu a compreensão de que não bastava denunciar a violência: era necessário permanecer ao lado das famílias, acompanhar seus lutos, dar visibilidade às vítimas e pressionar por justiça.
O caso de Maicon, em 1996, foi um dos marcos desse processo. A ComCausa passou a acompanhar a família e manteve essa presença ao longo dos anos, mesmo quando o caso saiu do centro da atenção pública.
“O que nos move é o compromisso com a presença na ausência. Quando o Estado falha, é preciso garantir que as memórias não desapareçam junto com os corpos. A justiça, para essas famílias, começa pelo reconhecimento de sua dor como uma dor pública e política”, afirma Adriano Dias, fundador da ComCausa e idealizador do Programa Acolher.
Programa Acolher foi formalizado após a Chacina da Baixada
O Programa Acolher foi formalizado em 2005, após a Chacina da Baixada, quando 29 pessoas foram assassinadas e 30 ficaram baleadas por policiais militares em Nova Iguaçu e Queimados, no maior massacre da história recente do estado do Rio de Janeiro. Naquele momento, diversas instituições, entre elas a ComCausa, em articulação com a Diocese de Nova Iguaçu e outras entidades, atuaram no acolhimento das famílias, organizando mutirões jurídicos, rodas de escuta e cuidado, além de cobranças por responsabilização das autoridades.
Diante da brutalidade e do abandono institucional, tornou-se evidente a necessidade de transformar aquela experiência em um programa estruturado. Assim nasceu oficialmente o Programa Acolher, baseado em escuta qualificada, encaminhamentos jurídicos e psicossociais, mediação com a imprensa, interlocução com instituições de justiça e segurança, amplificação das vozes familiares, produção de memoriais digitais e presença institucional continuada.
Acolher como política de escuta, cuidado e resistência
O Acolher representa uma política de escuta, cuidado e resistência. Seu objetivo é acompanhar familiares de vítimas da violência letal e de desaparecimentos, especialmente mães e pais enlutados, majoritariamente negros e moradores de territórios periféricos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Mais do que um projeto, o Acolher se tornou uma metodologia de presença. A ComCausa atua para que as famílias não sejam deixadas sozinhas diante da dor, da burocracia, da criminalização e da impunidade.
No caso de Maicon, essa permanência se expressa de forma concreta. Trinta anos depois, a ComCausa continua acompanhando a família, apoiando a luta por memória, cobrando reparação e ajudando a manter viva a denúncia contra o apagamento.
Desconfiança da família diante das promessas
Apesar da assinatura do documento, a família de Maicon afirma que ainda não confia plenamente no cumprimento das medidas. A desconfiança nasce da experiência acumulada ao longo de 30 anos, marcada por promessas, atrasos, silêncios e falta de respostas efetivas.
Para os familiares, não basta anunciar a criação do memorial ou prometer a retratação. É necessário que haja ação concreta. A família cobra que as instituições responsáveis apresentem prazos, iniciem os procedimentos e tornem público o andamento das medidas. Enquanto isso não acontecer, a sensação é de que a reparação continua incompleta.
“Assinar documento é importante, mas o que queremos é ver a obra acontecer, a placa colocada, a estátua instalada e a retratação reconhecida oficialmente”, afirma a família.
Possibilidade de greve de fome
Diante da demora e da insegurança sobre o cumprimento do acordo, o pai de Maicon, José Luiz, afirmou que poderá iniciar uma greve de fome caso não haja avanço concreto.
A possibilidade de uma medida extrema mostra o grau de sofrimento, indignação e cansaço acumulado pela família ao longo de três décadas. Também revela que, para os familiares, a reparação simbólica não é um detalhe secundário, mas parte essencial da luta por justiça.
“Se for preciso, eu faço greve de fome. Não é por mim apenas, é pela memória do meu filho e por todas as famílias que passam por isso”, afirma José Luiz.
A greve de fome, caso ocorra, será mais uma forma de pressão para que o poder público cumpra o compromisso assumido e não permita que a história de Maicon termine novamente em frustração.
O papel da ComCausa na preservação da memória
Ao realizar esta edição do ComCausa Recebe, a ComCausa reafirma seu compromisso com a defesa dos direitos humanos, a comunicação popular e a preservação da memória de vítimas da violência de Estado.
O encontro será um espaço para escutar a família, registrar sua narrativa, ampliar a denúncia e fortalecer a mobilização social. Também será uma oportunidade para chamar atenção da sociedade e das instituições para a urgência do cumprimento das medidas previstas.
Para a ComCausa, memória e reparação não podem ser tratadas como gestos simbólicos vazios. Elas fazem parte da reconstrução da verdade, do reconhecimento da dignidade das vítimas e da responsabilização histórica do Estado.
“Sem memória, não há justiça. E sem justiça, não há paz para as famílias que seguem carregando essa dor”, afirma Adriano Dias.
Uma luta que representa muitas famílias
O caso de Maicon não é isolado. Ele se conecta à realidade de muitas famílias que perderam filhos, irmãos, pais e parentes em situações de violência institucional e que, além da dor, precisaram enfrentar o silêncio, a burocracia e a criminalização.
Por isso, falar de Maicon é também falar de tantas outras vítimas que tiveram suas histórias apagadas ou distorcidas. É afirmar que cada vida importa e que nenhuma família deve atravessar décadas lutando sozinha para provar a dignidade de quem perdeu.
O Memorial Maicon poderá se tornar um símbolo dessa luta coletiva, lembrando que a cidade também precisa reconhecer suas feridas para construir um futuro com justiça.
Memória, justiça e reparação
Trinta anos depois, a memória de Maicon continua viva. Ela permanece na luta de sua família, nas denúncias feitas ao longo dos anos, nas mobilizações públicas e agora na cobrança pela criação do memorial e pela retratação do registro de “auto de resistência”.
A edição especial do ComCausa Recebe será um momento de escuta, acolhimento, denúncia e mobilização. Mais do que lembrar o passado, o encontro pretende fortalecer uma cobrança urgente no presente: que o compromisso assumido com a família saia do papel e se transforme em reparação concreta.
A história de Maicon não pode ser esquecida. Sua memória precisa ocupar a cidade, os espaços públicos e a consciência coletiva.
Serviço
ComCausa Recebe: família de Maicon pelos 30 anos de luta por memória, justiça e reparação
Data: 02 de junho
Horário: a partir das 17h
Local: Sede da ComCausa, Avenida Rio Branco, 251 (esquina com a Praça Mahatma Gandhi, na Cinelândia), entrada Rua Santa Luzia, 798 – Cinelância, Centro do Rio de Janeiro
Leia também
| Projeto Comunicando ComCausa
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