No Brasil, o desaparecimento de pessoas deixou de ser uma exceção trágica para se tornar um fenômeno estruturante da violência com tendência de alta após a pandemia e fortes assimetrias regionais. Na Baixada Fluminense, essa realidade ganha contornos ainda mais duros: disputas entre facções e milícias, alta letalidade policial e falhas de governança de dados alimentam uma engrenagem de ocultação que transforma rios em valas, bairros em corredores de desova e famílias em investigadoras do próprio luto.

Ao mesmo tempo, a categoria de “mortes a esclarecer” e a subnotificação borram o retrato estatístico, mascarando homicídios e atrasando respostas do Estado. Introduzir o tema, portanto, é reconhecer que investigar desaparecidos é também investigar homicídios, exigir padronização de protocolos, integrar bases e proteger quem busca — porque, antes de números, há nomes, histórias e direitos que não podem desaparecer.

O Brasil voltou a aumentar o número de registros de pessoas desaparecidas

Em 2024, as Polícias Civis contabilizaram 81.873 ocorrências — uma média de quatro notificações por hora —, o maior patamar desde 2018. Depois da queda nos anos mais duros da pandemia (2020–2021), a curva reacelerou e fechou 2024 com alta de 4,9%. Na variação 2018–2024, Nordeste e Norte lideram os crescimentos (+41,4% e +31,0%), enquanto o Sudeste registra queda de 4,1%. Os dados, do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, acendem um alerta: o incremento dos desaparecidos pode encobrir execuções e desaparecimentos forçados — sobretudo onde há disputa territorial de grupos armados e alta letalidade policial. Em termos simples: uma parte da violência não aparece nos homicídios, porque os corpos não aparecem.

Onde os números somem: o nó das “mortes a esclarecer”

A análise dos desaparecimentos precisa necessariamente ser articulada à categoria de “mortes a esclarecer”, uma classificação provisória dos boletins policiais que reúne ocorrências tanto com quanto sem indícios de crime, podendo ser posteriormente reclassificadas como homicídio, suicídio ou acidente. O Anuário Brasileiro de Segurança aponta que, entre 2018 e 2022, o percentual de mortes de intenção indeterminada (registradas pelo Datasus) apresentou crescimento consistente, enquanto o indicador equivalente da segurança pública permaneceu mais estável, ainda que em níveis inferiores. Essa discrepância foi agravada por mudanças recentes na metodologia de alguns estados, que passaram a incluir as “mortes a esclarecer” dentro do total de homicídios, o que compromete a comparabilidade das séries históricas e dificulta a interpretação sobre a real dinâmica da violência.

Em 2024, por exemplo, houve unidades da federação cuja taxa de mortes a esclarecer sem indício de crime superou a de homicídios dolosos, enquanto outros estados sequer reportaram a categoria. Tal cenário revela falhas graves de padronização, reforçando a urgência de uma governança de dados integrada e transparente, capaz de oferecer diagnósticos confiáveis para orientar políticas públicas.

Baixada Fluminense: a face mais exposta de um problema nacional

Na Baixada Fluminense, o desaparecimento de pessoas consolidou-se como uma espécie de “solução criminosa” para conflitos e como estratégia de blindagem de culpáveis, inclusive quando a violência envolve agentes estatais. Levantamento abrangendo o período 2016–2020 cruzou dados do Instituto de Segurança Pública (ISP/RJ) — relativos a desaparecidos, homicídios dolosos e mortes decorrentes de intervenção policial — com registros do Disque Denúncia e monitoramento de imprensa e redes sociais.

O resultado permitiu comparar Baixada e capital e mapear zonas de ocultação, ao mesmo tempo em que fortaleceu uma agenda legislativa para tipificar o desaparecimento forçado no Código Penal, em consonância com a Convenção da ONU e a jurisprudência do Sistema Interamericano de Direitos Humanos.

Um retrato em números (2016–2020)

  • Disque Denúncia: foram registradas 1.738 ocorrências correlatas (pessoas desaparecidas, encontro ou destruição de cadáver, cemitérios clandestinos etc.). Após depuração técnica, 768 denúncias apresentaram indícios de desaparecimento forçado.
  • Distribuição territorial: das denúncias, 351 ocorreram na Baixada, com destaque para Duque de Caxias (96), Belford Roxo (91), Nova Iguaçu (37) e São João de Meriti (35). A capital concentrou 417 registros. Em termos proporcionais, a taxa de denúncias de desaparecimento forçado foi de 9,25 por 100 mil habitantes na Baixada, contra 6,12 no Rio.
  • Registros oficiais: no mesmo período, a Baixada contabilizou 7.709 desaparecidos, uma média de quatro por dia; a capital registrou 10.306 casos. Quando ajustados por população, os índices se aproximam, mas a Baixada apresenta ligeira taxa superior (154,38 por 100 mil hab.) em comparação com a capital (153,04 por 100 mil hab.).

Esse conjunto de dados reforça que a Baixada não apenas concentra casos graves e emblemáticos, mas também antecipa tendências nacionais, tornando-se um território-chave para compreender a dinâmica dos desaparecimentos no Brasil.

A geografia da “desova”: rios como valas, fronteiras como logística

Um exemplo nefasto é a região do Km 32 (Nova Iguaçu) aparece como nó logístico de descarte. Fronteira entre a Zona Oeste do Rio (Campo Grande, Santa Cruz) e a Baixada, cortada pela BR-465 e Estrada Madureira, a área é estruturada pela bacia Guandu – Guandu Mirim – Capenga – Campinho, historicamente citada como um dos maiores cemitérios clandestinos do estado. Um morador às margens do Rio Capenga relatou ter visto, supostamente, cerca de 500 corpos em oito anos — média de um por semana. O relato não é prova judicial, mas indica escala e prioridade investigativa, demandando resposta estatal integrada.

O que dizem os dados — e o que falta dizer

No cenário nacional, a aparente redução das Mortes Violentas Intencionais (MVI) precisa ser relativizada diante do crescimento dos registros de desaparecidos, o que exige cautela frente a interpretações excessivamente otimistas. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública apresenta séries históricas relacionando MVI e mortes a esclarecer (2011–2022), além de um painel específico sobre desaparecidos (2018–2022), evidenciando conexões e inconsistências.

Também devemos destacar ainda as quebras de série decorrentes de mudanças nas regras de classificação em alguns estados, que passaram a incorporar as “mortes a esclarecer” no total de homicídios, comprometendo a comparabilidade temporal. Em 2024, a disparidade ficou evidente: a taxa de mortes a esclarecer sem indício de crime variou entre 0 e 27,5 por 100 mil habitantes entre as unidades da federação, com alguns estados sequer enviando dados. Esse quadro revela que a governança informacional continua sendo um dos pontos cegos mais críticos do poder público, dificultando diagnósticos precisos e políticas efetivas.

Por que a Baixada é chave para entender o Brasil

A Baixada Fluminense funciona como um espelho antecipado das dinâmicas nacionais de violência: a combinação de disputas armadas, letalidade policial elevada, avanço de milícias e um processo de urbanização marcado por desigualdades cria terrenos férteis para a ocultação de corpos. As denúncias encaminhadas ao Disque Denúncia evidenciam a forte concentração territorial de cemitérios clandestinos, encontros de cadáveres e registros de desaparecidos, enquanto os dados do Instituto de Segurança Pública confirmam a persistência de altos índices oficiais. Nesse cenário, as redes sociais cumprem papel central ao amplificar a memória e a mobilização das mães e familiares, que resistem ao apagamento. Reconhecer essa realidade é admitir que investigar desaparecimentos é, ao mesmo tempo, investigar homicídios, exigindo uma cadeia de custódia robusta e transparente, capaz de transformar pistas frágeis em provas periciais concretas.

Defasagem nos registros: um entrave que exige atenção do Estado

Durante visita ao Setor de Paradeiros da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, recebemos a explicação de policiais de que um registro de ocorrência feito pela manhã em uma delegacia distrital pode não estar disponível, no mesmo dia, no sistema da Delegacia de Paradeiros do Rio ou até mesmo no próprio Setor de Paradeiros da DHBF. Isso significa que, à tarde, informações essenciais ainda não foram integradas, atrasando justamente as primeiras 24 horas de busca — reconhecidas como o período mais crítico para localizar pessoas desaparecidas. Essa defasagem de integração evidencia a urgência de um sistema mais ágil e unificado, com atualização em tempo real entre delegacias e instituições envolvidas. Além disso, seria fundamental ampliar a comunicação automática com hospitais, IMLs e serviços de emergência, criando um fluxo contínuo de informações para dar mais celeridade às buscas e maior chance de êxito às famílias.

Desaparecer como estratégia: o poder oculto da violência na Baixada Fluminense

Desaparecer não é acaso: é tecnologia de poder. Na Baixada Fluminense, esse vocabulário da violência junta crime, milícia e fraquezas estatais, deixando mães sem corpo, cidades sem memória e estatísticas sem verdade. A resposta exige nomear o crime, abrir os números, proteger as famílias e enfrentar a geografia da desova. Enquanto o país celebrar a queda das mortes sem olhar para os sumiços, seguirá medindo mal sua própria tragédia — e errando o remédio.______________________

Fontes utilizadas

  1. Documento interno. Análise livro “Desaparecidos”. Notas e sistematizações para consolidar séries locais (Baixada × capital), distribuição municipal (Caxias, Belford Roxo, Nova Iguaçu, S.J. de Meriti).
  2. Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Cap. “Desaparecimentos” (séries 2018–2024, total de 81.873 em 2024, +4,9%) e seção “Mortes a esclarecer” (conceitos, quebras de série e comparabilidade).
  3. Infográfico do FBSP. Anuário 2025 –. Quadros e gráficos-síntese (MVI × Mortes a Esclarecer × Desaparecidos).
  4. Araújo, A. M. de; Gomes, J. de S.; Alves, J. C. S.; Pinto, N. M. (orgs.). Desaparecimento forçado: vidas interrompidas na Baixada Fluminense. Parceria acadêmica: UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e Fórum Grita Baixada. [Base para recorte Baixada 2016–2020, triangulação ISP/Disque Denúncia/imprensa/redes, etnografia no Km-32 e mapeamento Guandu–Guandu Mirim–Capenga–Campinho.]
  5. Relatório/Ebook – Desaparecimento Forçado. Versão técnica utilizada na sistematização do recorte Baixada (2016–2020) e procedimentos metodológicos (depuração de denúncias, tipificação indicativa de desaparecimento forçado).
  6. Instituto de Segurança Pública do RJ (ISP/RJ). Estatísticas de desaparecidos, homicídio doloso e mortes por intervenção de agente do Estado (utilizadas via compilações dos relatórios acima).
  7. Disque Denúncia – RJ. Base de ocorrências correlatas (pessoa desaparecida; encontro/ocultação de cadáver; “cemitério clandestino”), com depuração metodológica referenciada nos relatórios técnicos.
  8. Marcos normativos : ONU. Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado (incorporada no Brasil pelo Decreto nº 8.767/2016); Sistema Interamericano (CIDH/Corte IDH). Jurisprudência aplicável ao tema (ex.: parâmetros de investigação, memória e responsabilização).
  •  As séries do ISP/RJ e as contagens do Disque Denúncia citadas no texto foram acessadas por meio das compilações dos itens 3 e 4, que descrevem os critérios de depuração e os cruzamentos de base utilizados.Imagem de capa ilustrativa

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