Nos dias 30 e 31 de maio, a Reserva Biológica do Tinguá (REBIO) comemorou seus 36 anos de existência com a realização do IX Encontro de Pesquisadores e Sociedade, consolidando-se como espaço privilegiado de diálogo entre ciência, educação ambiental e participação popular. Promovido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o evento reuniu pesquisadores, ambientalistas, estudantes, gestores públicos e lideranças comunitárias em torno de reflexões sobre a proteção da Mata Atlântica e o fortalecimento das ações socioambientais na região.
Primeiro dia: ciência e cidadania na UFRRJ
A programação teve início na sexta-feira, dia 30, no Instituto Multidisciplinar da UFRRJ, em Nova Iguaçu, com o credenciamento dos participantes e um café de boas-vindas que antecipava o espírito colaborativo do encontro. A mesa de abertura contou com representantes do ICMBio, da REBIO do Tinguá, do INEA, da CEDAE, de prefeituras da Baixada Fluminense e de instituições parceiras, que homenagearam os servidores e voluntários que, desde 1989, dedicam-se à proteção dos mais de 26 mil hectares da reserva.
As atividades da manhã foram marcadas por apresentações de pesquisas científicas recentes, incluindo estudos sobre fauna e flora da região, e pelo compartilhamento de experiências comunitárias, como mutirões de reflorestamento, ações de educação ambiental em escolas e formação de brigadistas locais.
Durante a tarde, dois painéis trouxeram reflexões fundamentais para o futuro das unidades de conservação. Pedro Menezes, do Ministério do Meio Ambiente, abordou a necessidade de repensar o uso público nas UCs, defendendo o turismo de base sustentável como aliado da preservação. Em seguida, Flávia Guimarães Chaves, do Instituto Nacional da Mata Atlântica, explicou como se dá a elaboração de listas de espécies ameaçadas, conectando a pesquisa científica à formulação de políticas públicas.
O “Café com Ciência” possibilitou o intercâmbio entre gerações de pesquisadores, com a exposição de painéis por estudantes e sorteio de brindes ecológicos – mudas nativas e publicações especializadas – como símbolo do compromisso com a restauração e a valorização do bioma.
Segundo dia: experiência prática no território da REBIO
No sábado, 31 de maio, os participantes se dirigiram à Estação de Educação Socioambiental da REBIO do Tinguá. A vivência na floresta, conduzida por analistas ambientais, incluiu trilhas interpretativas por nascentes, encostas e áreas de mata densa, com observação direta de espécies. A proposta pedagógica “conhecer para preservar” se revelou poderosa ferramenta de sensibilização, conectando afetivamente os visitantes ao território protegido.
Organização e articulações estratégicas
A qualidade e o alcance do IX Encontro de Pesquisadores e Sociedade da REBIO do Tinguá só foram possíveis graças ao esforço conjunto das equipes técnicas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), sob a liderança de Gisele Medeiros, chefe da Reserva Biológica do Tinguá. A mobilização envolveu também servidores do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), técnicos da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE), secretarias municipais de Meio Ambiente da região e diversas instituições parceiras.
A logística eficiente, o engajamento de voluntários e a articulação de apoios institucionais permitiram a realização de um encontro plural, bem-sucedido em todos os aspectos, marcando um importante momento de convergência entre ciência, sociedade civil e poder público. Durante o evento, a gestora Gisele Medeiros recebeu Adriano Dias, fundador da ComCausa, que propôs uma parceria permanente entre a organização e a Reserva Biológica do Tinguá.
O processos contínuos de articulação comunitária, valorização histórica e patrimonial, e promoção da educação ambiental nos territórios do entorno da unidade de conservação. Segundo Adriano Dias, “a ComCausa quer fortalecer a memória das mobilizações populares que deram origem à REBIO do Tinguá, e colaborar na construção de uma cidadania ecológica ativa, incluindo atividades permanentes de formação e envolvimento comunitário. A defesa da vida passa pela preservação da natureza.”
Memória das mobilizações populares
Adriano lembrou que participou das primeiras mobilizações pela criação da unidade de conservação, ainda no final da década de 1980, quando ocorreu um inédito plebiscito comunitário em Nova Iguaçu. Na ocasião, centenas de moradores votaram entre transformar a área em Parque Nacional ou Reserva Biológica — e venceram os que defendiam a proteção integral da floresta. Entre os anos de 1987 e 1989, associações de moradores, escoteiros, igrejas, professores da universidades e ambientalistas organizaram passeatas ecológicas, abaixo-assinados e reuniões públicas, pressionando o governo federal.
A mobilização surtiu efeito: em 23 de maio de 1989, o então presidente José Sarney assinou o Decreto nº 97.780, criando oficialmente a Reserva Biológica do Tinguá, com uma área de 26.260 hectares. Poucos anos depois, em 1992, a REBIO passou a integrar a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, reconhecida pela UNESCO, o que conferiu status internacional à iniciativa e atraiu pesquisadores de todo o país.
Legado e perspectivas
Mais do que uma comemoração institucional, o IX Encontro de Pesquisadores e Sociedade demonstrou, na prática, que a articulação entre ciência, educação ambiental e participação popular é um dos caminhos mais sólidos para preservar o que ainda resta da Mata Atlântica. A atividade reafirmou o papel da REBIO do Tinguá como referência em conservação ambiental no estado do Rio de Janeiro, e lançou as bases para futuras iniciativas.
Entre elas, está o planejamento de um mutirão regional de reflorestamento, previsto para este ano, além da ampliação dos programas de ciência cidadã — com envolvimento direto das comunidades do entorno em processos de monitoramento ambiental, formação e recuperação da biodiversidade.
A Reserva Biológica do Tinguá permanece, 36 anos após sua criação, como guardiã da biodiversidade fluminense, laboratório vivo para pesquisas ecológicas e um símbolo da resistência ambiental no Brasil. Um espaço onde se constrói, dia após dia, uma cidadania ambiental ativa, transformadora e comprometida com a defesa da vida.
Leia também
| Projeto Comunicando ComCausa
| Portal C3 | Instagram C3 Oficial
______________

Compartilhe: