Amarildo Dias de Souza, o pedreiro da Rocinha que virou símbolo da violência policial no Brasil, a pergunta que ecoou nas ruas em 2013 ainda ressoa: “Cadê o Amarildo?”. O caso segue sem solução definitiva quanto ao paradeiro do corpo e representa uma ferida aberta na democracia brasileira.

Amarildo foi visto pela última vez em 14 de julho de 2013, quando foi levado por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, na zona sul do Rio. Ele nunca mais voltou para casa. À época, os agentes alegaram uma “averiguação de rotina”. No entanto, investigações apontaram que ele foi torturado até a morte dentro da sede da UPP.

A repercussão do caso expôs os limites das UPPs, programa que prometia pacificar comunidades dominadas por facções, mas que acabou reproduzindo práticas violentas das velhas estruturas policiais. A mobilização social ganhou força com o grito “Cadê o Amarildo?”, que se espalhou pelas manifestações das Jornadas de Junho e virou símbolo nacional contra a brutalidade do Estado.

Justiça lenta e incompleta

Entre 2013 e 2024, a Justiça reconheceu a culpa de 12 policiais militares, incluindo o então comandante da UPP, major Edson Santos, condenado inicialmente a 13 anos de prisão, pena depois elevada para 16 anos pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). As sentenças, somadas, ultrapassam 120 anos, e todos os recursos foram esgotados. No entanto, parte dos réus ainda estaria em funções internas na Polícia Militar, segundo relatórios.

Na esfera cível, o Estado do Rio de Janeiro foi condenado a pagar mais de R$ 3,5 milhões à família — R$ 500 mil para cada um dos seis filhos, além de pensão vitalícia à companheira. Apesar da decisão transitada em julgado, a execução segue lenta, com atrasos provocados por bloqueios orçamentários.

Memória e resistência

A morte presumida de Amarildo foi oficialmente declarada, mas seu corpo nunca foi localizado. A Defensoria Pública e a família continuam buscando pistas para garantir um enterro digno. Em julho de 2023, atos em memória do pedreiro reuniram moradores da Rocinha e movimentos sociais na praia de Copacabana, cobrando justiça plena.

O caso também inspirou a série documental Cadê o Amarildo?, lançada em 2023 pelo Globoplay, com imagens inéditas e novas testemunhas. A produção reacendeu o debate sobre violência de Estado e racismo estrutural — cerca de 80% das vítimas da polícia no Rio são negros e pobres, segundo o Instituto de Segurança Pública.

Legado para o Brasil

O Caso Amarildo influenciou a criação de protocolos de prevenção à tortura e impulsionou a adoção de câmeras corporais em batalhões. Tornou-se também um marco jurídico: consolidou o uso da tortura como qualificadora de homicídio e estabeleceu parâmetros de indenização para vítimas da violência policial.

A ComCausa, organização atuante na Defesa da vida, reforça a importância de manter a memória viva e continuar pressionando por mudanças profundas na segurança pública. “O caso Amarildo é mais que um símbolo. É um alerta permanente sobre o que o Estado ainda precisa transformar”, afirma a entidade.

Mais do que uma pergunta, “Cadê o Amarildo?” é um apelo por verdade, justiça e dignidade para todas as vítimas do autoritarismo policial no Brasil. E um lembrete de que a justiça que tarda também violenta.

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