A ceia como termômetro de um ano inteiro

Festas de fim de ano são vendidas como tempo de reconciliação. Mas, na vida real, muita gente conhece a outra face desse “roteiro”: a mesa que vira arena, o clima que pesa antes da sobremesa, a ironia que humilha, o grito que atravessa a sala, o “só estava brincando” usado para encobrir ofensa, a discussão que começa “por nada” e termina em porta batida — e, em casos extremos, em agressão. O que torna essa cena ainda mais importante de ser nomeada é o padrão: frequentemente, o estopim tem rosto masculino, seja no trânsito, no bar, no encontro de família ou no casal.

A repetição é quase sempre a mesma, como se existisse um manual social pronto. Ele começa pequeno: um comentário atravessado, um olhar interpretado como desafio, uma lembrança antiga trazida como acusação, uma divergência política tratada como ataque pessoal, um “você sempre foi assim”. Em poucos minutos, o que era celebração vira disputa por território simbólico: quem fala, quem cala, quem “manda” na conversa, quem precisa pedir desculpa, quem “não pode sair por baixo”. Quando isso acontece, a festa deixa de ser coletiva e passa a ser administrada como risco: todo mundo mede palavras, evita temas, tenta “não provocar” — e o encontro inteiro vira refém do humor de uma única pessoa.

Não é “homem mau”. É um modelo que ensina raiva como linguagem

Há um ponto que precisa ser dito com clareza: este diagnóstico não é uma caça às bruxas contra homens. É uma denúncia de um modelo cultural que ensinou a muitos homens que “segurar a onda” o ano inteiro é obrigação — e que, na virada, a válvula de escape socialmente tolerada costuma ser a raiva. Tristeza, medo, frustração e insegurança foram empurrados para o lugar da “fraqueza”. A raiva, ao contrário, recebeu autorização social: “homem é assim”, “não leva desaforo”, “precisa se impor”.

O resultado aparece na forma como a convivência vira performance. Em vez de nomear cansaço, luto, estresse financeiro, pressão do trabalho ou sensação de fracasso, muitos homens chegam à festa com a emoção no limite, mas sem repertório de conversa para isso. A ceia vira palco. E o palco cobra demonstração: provar força, dominar o ambiente, “ganhar” a palavra. Quando a presença vira disputa, a casa inteira paga a conta — mesmo que não exista agressão física. Porque a violência começa antes do soco: começa na humilhação, na intimidação, no controle, na ameaça velada, no medo instalado.

O álcool como acelerador de conflitos

O fim de ano também costuma aumentar o consumo de álcool e a exposição social: mais encontros, mais festas, mais circulação, mais estímulos. O álcool não inventa do nada um comportamento violento, mas pode reduzir freios e piorar decisões num contexto em que já existe tensão acumulada. Esse ponto não é “achismo”: o Ministério da Saúde registra que, no Brasil, em 2022, 29,2% das notificações de violência interpessoal envolveram consumo prévio de álcool pelo agressor.

Por isso, o “só mais uma” pode ser mais do que um detalhe. Em ambientes onde há competição de status, provocações e disputas por “respeito”, o álcool tende a funcionar como catalisador: aquilo que

sóbrio seria ignorado vira “afronta”; o que poderia ser conversa vira duelo; e a necessidade de provar virilidade passa a falar mais alto do que o compromisso com a paz da casa. O problema não é a festa. O problema é o roteiro que entra na sala — e que, com álcool e tensão, encontra combustível para acelerar.

O que os números revelam sobre violência e gênero

Se a ceia é o cenário, os dados ajudam a entender por que esse debate não pode ser tratado como exagero. A violência baseada em gênero no Brasil é estrutural e persistente — e, em grande parte, cometida por homens.

Anuário Brasileiro de Segurança Pública destaca que, em 2023, 1.467 mulheres foram mortas por feminicídio e que a imensa maioria desses crimes foi cometida por homens. Na edição seguinte, com os números consolidados de 2024, o país registrou 87.545 estupros — o maior número da série, segundo a divulgação.

Esses números não significam que toda discussão familiar vá virar crime. Mas lembram algo essencial: existe uma cultura de violência que atravessa relações íntimas, atravessa a casa e atravessa o cotidiano. E o fim de ano, por aumentar convivência e, muitas vezes, consumo de álcool, tende a tornar esse risco mais visível. Em outras palavras: quando “a noite desanda”, o que aparece não é uma anomalia. É um padrão social que já estava ali — e que precisa ser interrompido antes de escalar.

A “Delegacia lotada” não é destino: é sinal de falha coletiva

Outro termômetro decisivo são os mecanismos de proteção. Em 2024, foram concedidas 555.001 medidas protetivas no âmbito da Lei Maria da Penha, e houve mais de 1 milhão de chamadas ao 190 relacionadas à violência doméstica, segundo levantamentos divulgados a partir de dados públicos e análises reportadas.

Isso mostra duas coisas ao mesmo tempo: mais mulheres buscam ajuda (o que é positivo), mas o volume de ocorrências segue alto — e a prevenção ainda falha. Quando uma sociedade só reage depois do conflito, ela normaliza o caminho até a explosão. Por isso, a pergunta que move esta série é simples e direta: por que seguimos aceitando que “ser homem” inclua um direito informal de constranger, intimidar, dominar e estragar o encontro dos outros?

O pacto possível: Virada é compromisso

ComCausa – Defesa da Vida propõe começar a virada pelo básico: reconhecer o padrão, nomear os gatilhos e assumir um compromisso público. O primeiro passo é sair da negação (“é assim mesmo”) e aceitar um pacto simples: ninguém precisa provar virilidade estragando a noite de ninguém.

Nos próximos dias, esta série vai aprofundar as raízes (como a masculinidade tóxica vira “panela de pressão”), os impactos (quem paga a conta dessa performance) e, principalmente, as ferramentas práticas para interromper a escalada antes que ela vire humilhação, ameaça ou violência. A ideia é sair do diagnóstico e chegar à prática: prevenção, responsabilidade, cuidado e convivência sem medo.

No final, sempre volta ao essencial: Defesa da Vida

No fim, tudo retorna ao essencial: Defesa da Vida. E, para deixar claro desde o primeiro dia, esta série não termina em diagnóstico. Ela termina em caminho. A ComCausa está estruturando o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida para transformar esse debate em ação comunitária permanente — com rodas de conversa orientadas, pactos de convivência, processos formativos e mobilização pública, para que o fim de ano (e o ano inteiro) não sejam reféns de velhas atitudes.

Para virar prática territorial, o Núcleo Masculinidades+ foi desenhado para operar em parceria com redes e serviços já existentes: saúde e saúde mental, assistência social, educação e juventudes, redes de enfrentamento à violência doméstica, Pontos de Cultura e coletivos, mídias comunitárias e, sempre que possível, universidades e instituições de pesquisa e extensão. A lógica é simples: prevenção exige capilaridade, e capilaridade exige parceria.

O objetivo é direto e verificável: reduzir risco, interromper escaladas, proteger mulheres e crianças, fortalecer convivência e promover uma cultura de responsabilidade masculina. Porque, em qualquer data do ano, Defesa da Vida é fazer com que a casa seja lugar de segurança — não de medo.

Este artigo integra o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, estruturado pela ComCausa – Defesa da Vida com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU). A proposta enfrenta padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas: autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado.

Imagem de capa ilustrativa

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Parceria UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU):

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