A ComCausa inicia nesta semana a campanha “Infância Livre: Proteção contra a Adultização Digital”, iniciativa que surge diante do avanço acelerado de processos de adultização de crianças e adolescentes em ambientes digitais e presenciais. O tema, que ganhou destaque nacional nas últimas semanas, tornou-se pauta urgente pela gravidade dos impactos sociais, culturais e psicológicos.

A campanha tem como objetivo combinar comunicação popular, mobilização social e incidência política para esclarecer a sociedade sobre os riscos da adultização precoce, sensibilizar famílias e comunidades e pressionar o poder público para implementação de medidas efetivas de proteção.

Contexto social e números preocupantes

Os dados mais recentes confirmam a gravidade do problema. A SaferNet Brasil (2024) registrou mais de 100 mil denúncias de crimes de exploração sexual contra crianças na internet em apenas um ano — um aumento de 38 % em relação a 2022. O Disque 100, canal nacional de direitos humanos, informa que 6 em cada 10 casos de violência sexual contra menores têm algum vínculo com o ambiente digital.

A pressão cultural de consumo e erotização precoce também é alarmante. O estudo “Infâncias Consumidas” (Blanco, 2020) revelou que cerca de 70 % das crianças brasileiras entre 8 e 12 anos já pediram produtos depois de serem impactadas por influenciadores digitais. Paralelamente, levantamento da Common Sense Media (2023) — citado em relatórios da Unesco — mostra que a exposição prolongada a redes sociais está associada a aumento da ansiedade, queda da autoestima e distorção da imagem corporal entre adolescentes.

Esses indicadores mostram como o mercado digital tem convertido a infância em espaço de monetização e controle simbólico, aprofundando processos de adultização.

Recentemente, o influenciador Felca teve papel determinante em elevar esse debate na esfera pública. No dia 6 de agosto, ele publicou um vídeo massivo denunciando a exploração de menores em redes sociais. Após a divulgação, as denúncias de conteúdo explícito envolvendo crianças aumentaram 114 % no sistema da SaferNet — passando de 770 para 1.651 registros no período de seis dias, entre 6 e 12 de agosto.

O vídeo viralizou rapidamente — atingiu mais de 38 milhões de visualizações em poucos dias Agência Nele, Felca chamou atenção para o que definiu como o “algoritmo P” — mecanismo que permite às plataformas sugerirem conteúdo que sexualiza crianças com base em padrões de interação, ampliando assim a circulação de material potencialmente abusivo.

As denúncias de Felca também desencadearam repercussão política: até o momento, 32 projetos de lei foram apresentados na Câmara dos Deputados para criminalizar a exploração sexual infantojuvenil online, regulamentar a atuação de menores em conteúdo digital, coibir a monetização de vídeos com crianças e reforçar deveres das plataformas Portal da Câmara dos Deputados.

Fundamentos legais e institucionais

A campanha da ComCausa se apoia em um arcabouço legal já consolidado no país, ainda que muitas vezes pouco aplicado. A Constituição Federal, em seu artigo 227, garante a prioridade absoluta dos direitos de crianças e adolescentes, reforçada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que estabelece a proteção integral e criminaliza práticas de exploração. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), por sua vez, dedica o artigo 14 à salvaguarda das informações de menores, determinando que qualquer tratamento de dados deve observar sempre o princípio do melhor interesse.

Outro marco fundamental é a Resolução 163 do Conanda, de 2014, que classifica como abusiva a publicidade dirigida diretamente ao público infantil — dispositivo essencial diante de um mercado cada vez mais orientado para influenciar crianças como consumidoras em potencial. Mais recentemente, a Lei 14.811 de 2024 ampliou a repressão a crimes de assédio e exploração sexual contra menores, endurecendo penas e incluindo essas práticas no rol dos crimes hediondos. Paralelamente, o Congresso Nacional discute propostas que podem fortalecer ainda mais essa proteção, como o PL 2.259/2022, que regulamenta a atuação de influenciadores mirins, e o PL 2.628/2022, que estabelece parâmetros para ambientes digitais seguros.

Apesar desse conjunto normativo, especialistas alertam que a realidade ainda está distante do que prevê a lei. Falta fiscalização, conscientização e efetividade das políticas públicas para transformar esses dispositivos legais em proteção concreta.

O que a campanha propõe

É nesse cenário que a campanha “Infância Livre” ganha força. Ao longo da semana de lançamento, o tema será explorado em profundidade no PortalC3.net e na RedeDH, em uma série de reportagens especiais que vão costurar dados, análises acadêmicas e entrevistas com especialistas. A primeira matéria trará o debate sobre publicidade infantil e a exploração simbólica de crianças, discutindo onde termina a comunicação legítima e onde começa o abuso. Em seguida, será abordado o fenômeno dos influenciadores mirins e do chamado sharenting, que transforma a infância em mercadoria digital e expõe dados e imagens de menores de forma descontrolada.

Outro eixo da campanha analisará o papel das plataformas digitais e seu dever de cuidado, tema que ganhou relevância com a tramitação do PL 2.628/2022 e com decisões recentes do STF e do STJ. A série também trará uma reportagem sobre os crimes digitais contra menores, destacando os avanços trazidos pela Lei 14.811/2024, mas também os desafios de aplicá-la em um ambiente marcado por anonimato e velocidade de circulação de conteúdos. Por fim, o ciclo se encerra com uma análise sobre o papel da escola, da família e das políticas públicas na construção de caminhos coletivos para prevenir a adultização, defendendo uma infância livre de pressões consumistas e riscos digitais.

A proposta da campanha da ComCausa – “Infância Livre: Proteção contra a Adultização Digital” reforça a centralidade desse debate em tempos de hiperconexão e consumo desenfreado. Com base em dados concretos, legislação vigente e experiências comunitárias, a iniciativa convoca sociedade, Estado e mercado a assumirem responsabilidades. Afinal, proteger a infância é garantir não apenas o presente, mas também o futuro do país.

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