No último final de semana, a comunidade de Acari foi palco de um dos encontros mais significativos de memória e resistência dos últimos anos. A atividade marcou os 35 anos da Chacina de Acari, episódio emblemático da violência de Estado no Brasil, que permanece impune desde 1990. Organizado pelo Coletivo Akari, o encontro reuniu familiares das vítimas, militantes históricos dos direitos humanos, representantes de instituições, movimentos sociais e lideranças comunitárias que, há décadas, transformam o luto em luta.
Diversos militantes e movimento sociais, como a ComCausa Defesa da Vida, esteve presente e se soma ao reconhecimento da importância histórica e simbólica desta mobilização. O evento não foi apenas um momento de homenagem, mas também uma poderosa plataforma de articulação coletiva em torno de uma pauta ainda extremamente urgente: o desaparecimento forçado de pessoas no Brasil, que continua a devastar comunidades inteiras.
O caso Acari: 35 anos sem respostas
Em julho de 1990, 11 jovens foram sequestrados por homens que se identificaram como policiais civis, em ações que ocorreram na comunidade de Acari e em bairros vizinhos. Nunca mais foram vistos. Até hoje, nenhum corpo foi localizado, nenhuma condenação definitiva foi aplicada, e as famílias seguem sem qualquer reparação. A dor e o silêncio do Estado persistem como feridas abertas na história do país.
A atuação das “Mães de Acari” tornou-se símbolo de resistência e mobilização internacional. Em uma época sem internet e com pouquíssimo apoio institucional, essas mulheres romperam o isolamento, denunciaram o caso em redes internacionais e fizeram ecoar uma luta que inspiraria diversas outras.
Desaparecimentos: um drama que se repete
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, a taxa de desaparecimentos no Brasil voltou a crescer. Em 2024, foram 81.873 registros, o maior número desde 2018 — uma alta de 4,9% em relação ao ano anterior. O levantamento revela que, em média, quatro pessoas desaparecem por hora no país.
O crescimento foi mais acentuado nas regiões Nordeste (41,4%) e Norte (31%), embora o estado do Rio de Janeiro, localizado na região Sudeste, ainda figure entre os com maiores registros absolutos. A Baixada Fluminense, em especial, concentra parte expressiva desses casos — muitos deles com indícios de violência institucional ou envolvimento de agentes públicos.
A persistência do problema revela falhas estruturais graves no sistema de busca, notificação e acolhimento às famílias, mesmo com a vigência da Lei nº 13.812/2019, que institui a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas.
Coletivo Akari: uma iniciativa que merece destaque
Dentre os vários elementos marcantes do encontro, destaca-se o protagonismo do Coletivo Akari, uma articulação jovem, comunitária e profundamente conectada às urgências do território. A iniciativa vai além da denúncia: propõe ações concretas de memória, escuta, fortalecimento emocional e articulação política — especialmente com os familiares das vítimas e os atores da segurança pública.
A ComCausa estabeleceu interlocução e buscara se colocar à disposição para contribuir com as ações do Coletivo. E registra com entusiasmo e admiração o trabalho do coletivo, que representa uma renovação necessária da luta por direitos humanos na periferia carioca. Em um ambiente historicamente marcado pela dor, é inspirador ver surgir uma geração que, com coragem e afeto, honra as lutas do passado e constrói caminhos para o futuro.
Seguimos juntos por memória, verdade e justiça
A Chacina de Acari não é uma página virada. Ela segue nos olhos marejados das mães, nas faixas erguidas pela juventude, e nos dados estarrecedores que continuam a mostrar que, no Brasil, desaparecer ainda é um destino possível — e, muitas vezes, silenciado.
A ComCausa agradece profundamente pela oportunidade de participar deste momento de escuta, articulação e fortalecimento da luta. Seguiremos caminhando com o Coletivo Akari e com todas as vozes que se recusam a deixar a memória ser apagada.
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