A Baixada Fluminense contabilizou 116 cemitérios clandestinos em 2024, o que representa um aumento de 26% em relação a 2023 (92) e de impressionantes 450% desde 2021 (21). Nova Iguaçu aparece no topo da lista, reunindo o maior número de pontos de desova. Quando somada a Duque de Caxias e Belford Roxo, a cidade integra o eixo que concentra 55% dos locais identificados.
O mapeamento aponta que as áreas mais críticas estão sob domínio de grupos de extermínio, milícias, facções do tráfico e esquadrões de matadores, que transformam esses espaços em zonas de ocultação de corpos após execuções. Além de terrenos baldios e lixões, a violência se espalha por rios e trechos da malha ferroviária, com 13 pontos de desova nos rios Sarapuí, Guandu e Botas e outros 16 na linha férrea.
A prática de destruição e ocultação de cadáveres não apenas dificulta a contabilização de ossadas, como também impõe às famílias o apagamento do direito ao luto. A expansão do domínio miliciano na região está diretamente ligada a essa realidade, associando-se ao aumento dos desaparecimentos forçados.
O que mostram as pesquisas de referência
Trabalho de campo conduzido por pesquisadores e movimentos da região documenta visitas a cemitérios clandestinos, escuta de mães e familiares e atividades de acolhimento psicossocial. Em Nova Iguaçu (Km 32), entrevistas, mapeamentos comunitários e expedições a áreas ribeirinhas foram decisivos para demonstrar as dinâmicas de desaparecimento e desova.
A bacia hidrográfica do Guandu (com os rios Guandu, Guandu-Mirim, Capenga e do Campinho) é destacada como espaço histórico de descarte de corpos, provendo condições para alguns dos maiores cemitérios clandestinos do estado. Depoimentos locais relatam uma frequência contínua de corpos boiando nesses cursos d’água, evidenciando a dimensão do problema.
Como o crime se mascara nas estatísticas
Análise do Disque-Denúncia (2016–2020) categorizou relatos em seis grupos diretamente relacionados ao fenômeno: Cemitério Clandestino, Destruição/Subtração de Cadáver, Encontro de Cadáver, Furto/Comércio de ossos e órgãos, Pessoas Desaparecidas e Tráfico de Mulheres. A depuração dos dados resultou em 768 denúncias com evidências de desaparecimento forçado.
No recorte “Cemitério Clandestino”, foram 96 denúncias na Baixada e 105 na capital. Somando todos os tipos com indícios de desaparecimento forçado, a Baixada concentrou 351 denúncias (com destaque para Belford Roxo e Duque de Caxias) — comparativo que exige cautela, dada a diferença demográfica e socioespacial entre os territórios.
Incidência pública e método
A agenda de incidência na Alerj e a parceria entre Fórum Grita Baixada (FGB) e UFRRJ/Observatório Fluminense estruturaram, desde 2019, uma pesquisa exploratória sobre desaparecimentos forçados com foco inicial em Nova Iguaçu e Queimados, articulando dados oficiais (ISP), denúncias, mídia local e trabalho territorial.
O nó jurídico: tipificação e padrões internacionais
No plano internacional, a Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado afirma o princípio: “Nenhuma pessoa será submetida a desaparecimento forçado”, determina a criminalização do delito pelos Estados e o reconhece como crime contra a humanidade, com direitos das vítimas à verdade e reparação.
A CIDH, no caso Gomes Lund/Guerrilha do Araguaia, responsabilizou o Brasil e impulsionou o debate interno sobre tipificação do crime — ainda pendente no Congresso, onde PL 6.240/2013 e proposições correlatas seguem tramitando.
Recomendações para virar o jogo
As recomendações consolidadas pela pesquisa e atores da sociedade civil incluem: aprovar a tipificação penal (ex.: PL 5.215/2020, apensado ao PL 6.240/2013); tirar do papel a Política Nacional de Busca e fortalecer o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas (Lei 13.812/2019) com interoperabilidade entre estados; e criar plano nacional com participação social, centralidade racial e de gênero, e assistência às famílias.
Por que a Baixada está no epicentro
O avanço do projeto miliciano na Baixada — com captura de território, especulação imobiliária e violência de Estado — cria um ambiente fértil para execuções sumárias e ocultação de cadáveres. A geografia (rios, áreas de mata, vazios urbanos), a presença de infraestruturas como a ferrovia e a fragilidade institucional se combinam para invisibilizar crimes e desestimular denúncias, mantendo altos índices de subnotificação.
Linha do tempo recente dos “cemitérios clandestinos” na Baixada
- 2021 — 21
- 2022 — 77
- 2023 — 92
- 2024 — 116
O que precisa acontecer agora
O que precisa acontecer agora é, antes de tudo, dar nome ao crime, garantindo a tipificação do desaparecimento forçado no Código Penal. É preciso lembrar que essa prática não começou hoje: durante a ditadura militar, o Cemitério de Perus, em São Paulo, se tornou um dos símbolos mais cruéis da repressão, utilizado para ocultar corpos de opositores políticos com o envolvimento direto de agentes do Estado. Hoje, décadas depois, a mesma lógica se repete na Baixada Fluminense. Os cemitérios clandestinos da região, controlados por milícias, grupos de extermínio e facções, também operam com a conivência e, muitas vezes, com a participação de setores estatais — reproduzindo um padrão histórico de violência e apagamento da memória.
Diante disso, é necessário investigar de verdade, com grupos especializados e a integração de bases de dados sobre pessoas desaparecidas, ossadas e locais de desova. Também é fundamental responsabilizar o Estado, rompendo a estrutura de conivência e omissão que sustenta a impunidade. Ao mesmo tempo, é urgente cuidar de quem ficou, oferecendo acolhimento, assistência e reparação às mães e familiares que vivem o trauma da ausência. Por fim, é indispensável atacar a base econômica desse ciclo de violência, enfrentando a especulação imobiliária e os negócios ilícitos que alimentam o poder das milícias.
Serviço à população
Denúncias anônimas podem ser feitas pelo Disque 2253-1177 (Disque-Denúncia RJ). Procure a Delegacia de Homicídios e registre imediatamente o boletim de ocorrência. Não existe prazo de 24 ou 48 horas para iniciar a busca por uma pessoa desaparecida.
Imagem ilustrativa do Cemitério de Perus
Leia também
| Projeto Comunicando ComCausa
| Portal C3 | Instagram C3 Oficial
______________________
Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

______________________

Compartilhe: