Nossa Gente Negra: ‘Perpétuo’ do Black Pantera reflete sobre o ciclo que retorna e resiste
O Nossa Gente Negra, criado pela ComCausa, parte de um princípio simples e, ao mesmo tempo, profundamente político: memória é defesa da vida. Mais do que olhar para trás em busca de datas e nomes, a iniciativa entende a memória negra como território de disputa simbólica e concreta — um campo onde se afirmam existências, se enfrentam apagamentos e se constroem horizontes de futuro. Desde 2020, trata a memória como instrumento de reconhecimento e pertencimento, ferramenta de enfrentamento ao racismo, base para a educação em direitos humanos e ponto de partida para que novas gerações se reconheçam como protagonistas, e não como figurantes, da história. É nesse contexto que, em 2025, o projeto volta seus refletores para uma banda que, há mais de uma década, faz do rock pesado uma trincheira: o Black Pantera. A edição 2025 do dedicada ao trio mineiro, articula comunicação, música e direitos humanos para mostrar que o grito da negritude também ecoa em guitarras distorcidas, rodas de mosh e palcos lotados. Entre as canções escolhidas para análise, “Perpétuo”, faixa-título do álbum lançado pela banda, desponta como um dos eixos simbólicos da campanha Nossa Gente Negra, em poucos minutos, a música condensa dimensões históricas, espirituais e políticas da experiência negra, operando como uma verdadeira aula em forma de som. É um manifesto sobre ancestralidade, reencarnação, racismo estrutural e a centralidade da cultura preta no mundo contemporâneo. A canção como aula, rito e manifesto O refrão, cantado logo no início, repete a ideia de que “estamos sempre, sempre voltando / todo mundo já foi preto um dia”, funciona como mantra e chave interpretativa. De saída, sugere que a história da negritude é marcada por ciclos: de opressão, resistência, retomada e reinvenção. Nada é linear, nada é completamente encerrado — a cada geração, velhas estruturas se reconfiguram e velhas lutas reaparecem com novas faces. Ao mesmo tempo, o verso abre espaço para outras camadas de leitura. A partir da ciência, lembra que a humanidade surge no continente africano; logo, a origem comum é negra. Do ponto de vista da formação social do Brasil, aponta para a forte presença de ascendência africana na população, muitas vezes negada ou embranquecida pelos discursos oficiais. E, em uma chave espiritual, especialmente em tradições que admitem a reencarnação, sugere que todos, em alguma existência, já podem ter experimentado a condição de ser preto. O efeito é duplo: constrói orgulho para quem se reconhece nessa história e provoca quem insiste em negá-la. A música devolve à sociedade uma pergunta incômoda: como é possível negar a centralidade da negritude em um país e em um mundo que, em diferentes níveis, nascem, se organizam e se transformam a partir da experiência africana e afro-diaspórica? Atlântico Negro: a travessia como cicatriz aberta Logo no iniciou, em um dos trechos mais contundentes, “Perpétuo” desloca a atenção para o oceano. Ao falar de um “continente-mãe” e de um “Atlântico” que assiste a uma travessia impiedosa, transformada em “um oceano inteiro de agonia”, a banda ativa o que pesquisadores e pensadores chamam de Atlântico Negro: esse espaço geográfico e simbólico marcado pelo sequestro de milhões de africanos escravizados. Não se trata apenas de mencionar a escravidão como dado histórico, mas de enquadrar o Atlântico como grande cemitério de corpos negros, como ferida que não foi cicatrizada. A música faz o que muitas vezes a historiografia tradicional evita: dá forma, densidade e dor a números que, nos livros, aparecem como estatísticas. Ao transformar a travessia forçada em imagem de horror permanente, “Perpétuo” lembra que as consequências desse processo seguem presentes nas estruturas de hoje: nas taxas de homicídio que atingem desproporcionalmente jovens negros, nas desigualdades de renda, na marginalização de territórios inteiros, na violência policial que escolhe e seleciona alvos. O oceano de agonia, portanto, não é apenas o do passado: ele se estende em rios de sangue contemporâneos como vimos recentemente no Rio de Janeiro. Essa leitura ganha ainda mais força quando pensamos no Cais do Valongo (foto de capa), na região portuária do Rio de Janeiro, temática com a qual a ComCausa se envolve há alguns anos. O local é reconhecido como o principal ponto de chegada de pessoas africanas escravizadas nas Américas e foi tombado como patrimônio da diáspora africana no Estado do Rio de Janeiro, além de ser reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Ali, onde hoje se pisa pedra e calçamento, estiveram corpos acorrentados, leilões, adoecimentos e mortes. O que a arqueologia revelou no chão do Valongo é justamente a materialização desse Atlântico de agonia em território brasileiro: ossos, fragmentos, marcas que ligam diretamente o porão dos navios ao presente da cidade. Ao convocar a imagem do oceano como cicatriz aberta, “Perpétuo” também nos obriga a olhar para esses lugares concretos — como o Cais do Valongo — não apenas como sítios históricos, mas como espaços de memória, disputa política e responsabilidade coletiva. A pergunta que desmonta o mito da “naturalidade” Outro ponto central da letra é a pergunta: “Tantos passos me precedem / Quem fez desse o meu lugar? / Pois já estive aqui antes / Deixa eu me reencontrar”, antecedida pela percepção de que muitos passos precedem o sujeito que canta. A interrogação tem força de denúncia: não se trata de aceitar que seja “natural” que pessoas negras estejam mais presentes nas periferias, nos subempregos, nas estatísticas de encarceramento ou entre os assassinados. A canção, ao questionar “quem fez desse o meu lugar”, obriga a olhar para a estrutura: Quem desenhou a cidade de modo a expulsar corpos negros para as áreas mais precarizadas? Quem se beneficiou — e continua se beneficiando — dessa organização social? Quem lucra com uma sociedade em que a cor da pele ainda define chances de acesso, segurança e futuro? Quando, em seguida, o eu lírico afirma ter “estado ali antes” e pede para se “reencontrar”, o movimento é de volta à ancestralidade e à reconstrução identitária. É o gesto de recusar o papel de objeto da história e reivindicar a posição de sujeito que se sabe



