Masculinismo no Brasil: o ecossistema que transforma ressentimento em ideologia, audiência e ataque político
Há um fenômeno em expansão no Brasil que, embora ainda seja pouco nomeado no debate público cotidiano: o masculinismo. Não se trata de uma simples “conversa sobre homens” nem de uma discussão neutra sobre identidade masculina. Em suas formas mais visíveis, o masculinismo funciona como movimento reativo: organiza redes, produz narrativa e difunde uma visão de mundo que coloca mulheres em condição de subalternidade, tratando igualdade de gênero como ameaça, e o feminismo como inimigo a ser derrotado. Uma das pesquisas que sistematizam esse cenário é a tese de doutorado “Masculinismo: misoginia e redes de ódio no contexto da radicalização política no Brasil”, defendida por Bruna Camilo de Souza Lima e Silva na PUC Minas, em março de 2023. O resumo oficial do trabalho é explícito: o objetivo é compreender a atuação de grupos masculinistas no Brasil, suas relações com a extrema direita e a influência desses discursos na esfera política — com atenção especial às eleições de 2018 e ao período do governo Bolsonaro. Assunto que publicamos há época. O texto de apresentação da tese vai além de uma descrição genérica. Ele caracteriza os masculinistas como indivíduos que reproduzem “discursos e práticas de ódio contra as mulheres”, defendendo superioridade masculina nas esferas cultural, política, econômica e social, e coloca o masculinismo dentro de um vocabulário maior que inclui misoginia, extrema direita, fascismo, ciberativismo e o papel da desinformação. Essa é a chave para entender por que o tema importa. O masculinismo não é apenas uma opinião atravessada por machismo; é uma infraestrutura de produção de sentido — e, cada vez mais, uma infraestrutura de produção de dinheiro e de poder simbólico. Ele se alimenta de frustrações reais e inseguranças subjetivas (afetivas, econômicas, identitárias), mas as organiza em um destino ideológico: “o problema são elas”. E, quando a política do ressentimento encontra a mecânica das plataformas, o resultado costuma ser previsível: mais engajamento, mais radicalização, mais assédio. Do conceito ao cotidiano digital: como o masculinismo se apresenta (e por que ele recruta) Do conceito ao cotidiano digital, o masculinismo contemporâneo no Brasil quase nunca se apresenta com o nome que realmente o descreve. Ele raramente se anuncia como misoginia, não chega dizendo “ódio às mulheres” ou “superioridade masculina”, porque sabe que, em muitos ambientes, isso ainda geraria rejeição imediata. Em vez disso, ele se disfarça em formatos familiares, de aparência útil e até “neutra”, e é justamente por essa camuflagem que circula com tanta facilidade. Surge como autoajuda masculina, com promessas de melhora pessoal e frases de efeito que apelam ao orgulho ferido — “melhore sua vida”, “se imponha”, “se valorize” — e, ao mesmo tempo, planta a ideia de que o mundo estaria conspirando contra homens “de verdade”. Aparece também como manual de relacionamento, vendido como orientação prática, mas construído sobre generalizações e desconfiança — “como lidar com mulheres”, “como evitar ‘esse tipo’ de mulher” —, reduzindo pessoas a categorias e transformando a convivência afetiva em campo de batalha. Em muitas portas de entrada, vem embalado como conteúdo sobre sucesso, status e dominância, com expressões como “homem de alto valor”, “mentalidade”, “postura”, “liderança”, “dominância”, criando a impressão de que existe uma fórmula objetiva para “vencer”, desde que o homem recupere controle e que a mulher seja recolocada no lugar de objeto a ser administrado, avaliado ou punido. E, quando precisa escapar da crítica, assume a forma mais eficiente de todas para o ambiente digital: humor e provocação, onde o insulto vira “brincadeira”, o ataque vira “piada”, a crueldade vira “sinceridade”, e qualquer contestação pode ser rebaixada a “mimimi” — um mecanismo retórico que desqualifica a vítima e protege o agressor. Nessa arquitetura, o recrutamento não costuma ser imediato; ele é gradual, por camadas, como um corredor de portas que se abrem uma após a outra. Primeiro, oferece pertencimento: uma comunidade que acolhe frustrações e dá sensação de tribo, com linguagem própria, memes, códigos e a promessa de que “aqui você vai entender o que ninguém te contou”. Depois, oferece explicação total do mundo: tudo passa a caber numa narrativa simples, que transforma a complexidade das relações e da vida social em uma história com vilões e mocinhos. Por fim, oferece controle: a promessa de que, se o homem seguir o roteiro, ele volta a mandar, volta a “se respeitar”, volta a “ser homem” — e, muitas vezes, isso significa impor regras, punir comportamentos, vigiar, desconfiar, dominar. O passo decisivo acontece quando a frustração individual — rejeição, insegurança, medo de abandono, precariedade econômica, ressentimento social — é convertida em tese coletiva: “homens são vítimas”, “mulheres se beneficiam”, “o feminismo oprime”. A partir daí, a ideia de igualdade deixa de ser vista como princípio democrático e passa a ser rebatizada como ameaça; a autonomia das mulheres vira “excesso”; direitos viram “privilégios”; e a vida comum é reorganizada por uma lógica de disputa permanente. Isso não é um traço exclusivo do Brasil. A ONU Mulheres descreve a chamada machosfera como uma rede de comunidades que afirma tratar de dificuldades enfrentadas por homens — namoro, boa forma, paternidade, autoestima —, mas que frequentemente promove conselhos e atitudes nocivos e compartilha oposição ao feminismo, sustentando a falsa ideia de que homens seriam “vítimas” do cenário social e político atual. O que acontece no Brasil, porém, é que essa lógica ganha um motor adicional: ela se mistura com guerra cultural, com a polarização e com uma linguagem política que transforma igualdade em ameaça e proteção de direitos em “privilégio”. Nesse encontro, o masculinismo deixa de ser apenas um conjunto disperso de conteúdos e passa a funcionar como ecossistema: ele alimenta identidade de grupo, cria inimigos fixos, reforça ressentimento como virtude e, em muitos casos, normaliza a misoginia a ponto de ela deixar de parecer “desvio” e passar a ser entendida como sinal de pertencimento, coragem ou autenticidade. Masculinismo como “ciberativismo”: a estratégia de expansão em rede A tese de Bruna Camilo chama atenção para a dimensão organizativa: os dados analisados incluem postagens e comentários em blogs, fóruns, grupos de aplicativos de mensagens, além de entrevistas. E o resumo aponta um aspecto decisivo: os grupos






