Adriano Dias

Violência contra mulher

Masculinismo no Brasil: o ecossistema que transforma ressentimento em ideologia, audiência e ataque político

Há um fenômeno em expansão no Brasil que, embora ainda seja pouco nomeado no debate público cotidiano: o masculinismo. Não se trata de uma simples “conversa sobre homens” nem de uma discussão neutra sobre identidade masculina. Em suas formas mais visíveis, o masculinismo funciona como movimento reativo: organiza redes, produz narrativa e difunde uma visão de mundo que coloca mulheres em condição de subalternidade, tratando igualdade de gênero como ameaça, e o feminismo como inimigo a ser derrotado. Uma das pesquisas que sistematizam esse cenário é a tese de doutorado “Masculinismo: misoginia e redes de ódio no contexto da radicalização política no Brasil”, defendida por Bruna Camilo de Souza Lima e Silva na PUC Minas, em março de 2023. O resumo oficial do trabalho é explícito: o objetivo é compreender a atuação de grupos masculinistas no Brasil, suas relações com a extrema direita e a influência desses discursos na esfera política — com atenção especial às eleições de 2018 e ao período do governo Bolsonaro. Assunto que publicamos há época. O texto de apresentação da tese vai além de uma descrição genérica. Ele caracteriza os masculinistas como indivíduos que reproduzem “discursos e práticas de ódio contra as mulheres”, defendendo superioridade masculina nas esferas cultural, política, econômica e social, e coloca o masculinismo dentro de um vocabulário maior que inclui misoginia, extrema direita, fascismo, ciberativismo e o papel da desinformação. Essa é a chave para entender por que o tema importa. O masculinismo não é apenas uma opinião atravessada por machismo; é uma infraestrutura de produção de sentido — e, cada vez mais, uma infraestrutura de produção de dinheiro e de poder simbólico. Ele se alimenta de frustrações reais e inseguranças subjetivas (afetivas, econômicas, identitárias), mas as organiza em um destino ideológico: “o problema são elas”. E, quando a política do ressentimento encontra a mecânica das plataformas, o resultado costuma ser previsível: mais engajamento, mais radicalização, mais assédio. Do conceito ao cotidiano digital: como o masculinismo se apresenta (e por que ele recruta) Do conceito ao cotidiano digital, o masculinismo contemporâneo no Brasil quase nunca se apresenta com o nome que realmente o descreve. Ele raramente se anuncia como misoginia, não chega dizendo “ódio às mulheres” ou “superioridade masculina”, porque sabe que, em muitos ambientes, isso ainda geraria rejeição imediata. Em vez disso, ele se disfarça em formatos familiares, de aparência útil e até “neutra”, e é justamente por essa camuflagem que circula com tanta facilidade. Surge como autoajuda masculina, com promessas de melhora pessoal e frases de efeito que apelam ao orgulho ferido — “melhore sua vida”, “se imponha”, “se valorize” — e, ao mesmo tempo, planta a ideia de que o mundo estaria conspirando contra homens “de verdade”. Aparece também como manual de relacionamento, vendido como orientação prática, mas construído sobre generalizações e desconfiança — “como lidar com mulheres”, “como evitar ‘esse tipo’ de mulher” —, reduzindo pessoas a categorias e transformando a convivência afetiva em campo de batalha. Em muitas portas de entrada, vem embalado como conteúdo sobre sucesso, status e dominância, com expressões como “homem de alto valor”, “mentalidade”, “postura”, “liderança”, “dominância”, criando a impressão de que existe uma fórmula objetiva para “vencer”, desde que o homem recupere controle e que a mulher seja recolocada no lugar de objeto a ser administrado, avaliado ou punido. E, quando precisa escapar da crítica, assume a forma mais eficiente de todas para o ambiente digital: humor e provocação, onde o insulto vira “brincadeira”, o ataque vira “piada”, a crueldade vira “sinceridade”, e qualquer contestação pode ser rebaixada a “mimimi” — um mecanismo retórico que desqualifica a vítima e protege o agressor. Nessa arquitetura, o recrutamento não costuma ser imediato; ele é gradual, por camadas, como um corredor de portas que se abrem uma após a outra. Primeiro, oferece pertencimento: uma comunidade que acolhe frustrações e dá sensação de tribo, com linguagem própria, memes, códigos e a promessa de que “aqui você vai entender o que ninguém te contou”. Depois, oferece explicação total do mundo: tudo passa a caber numa narrativa simples, que transforma a complexidade das relações e da vida social em uma história com vilões e mocinhos. Por fim, oferece controle: a promessa de que, se o homem seguir o roteiro, ele volta a mandar, volta a “se respeitar”, volta a “ser homem” — e, muitas vezes, isso significa impor regras, punir comportamentos, vigiar, desconfiar, dominar. O passo decisivo acontece quando a frustração individual — rejeição, insegurança, medo de abandono, precariedade econômica, ressentimento social — é convertida em tese coletiva: “homens são vítimas”, “mulheres se beneficiam”, “o feminismo oprime”. A partir daí, a ideia de igualdade deixa de ser vista como princípio democrático e passa a ser rebatizada como ameaça; a autonomia das mulheres vira “excesso”; direitos viram “privilégios”; e a vida comum é reorganizada por uma lógica de disputa permanente. Isso não é um traço exclusivo do Brasil. A ONU Mulheres descreve a chamada machosfera como uma rede de comunidades que afirma tratar de dificuldades enfrentadas por homens — namoro, boa forma, paternidade, autoestima —, mas que frequentemente promove conselhos e atitudes nocivos e compartilha oposição ao feminismo, sustentando a falsa ideia de que homens seriam “vítimas” do cenário social e político atual. O que acontece no Brasil, porém, é que essa lógica ganha um motor adicional: ela se mistura com guerra cultural, com a polarização e com uma linguagem política que transforma igualdade em ameaça e proteção de direitos em “privilégio”. Nesse encontro, o masculinismo deixa de ser apenas um conjunto disperso de conteúdos e passa a funcionar como ecossistema: ele alimenta identidade de grupo, cria inimigos fixos, reforça ressentimento como virtude e, em muitos casos, normaliza a misoginia a ponto de ela deixar de parecer “desvio” e passar a ser entendida como sinal de pertencimento, coragem ou autenticidade. Masculinismo como “ciberativismo”: a estratégia de expansão em rede A tese de Bruna Camilo chama atenção para a dimensão organizativa: os dados analisados incluem postagens e comentários em blogs, fóruns, grupos de aplicativos de mensagens, além de entrevistas. E o resumo aponta um aspecto decisivo: os grupos

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Masculinidades Positivas - Pai e Filho

Virada é compromisso: Masculinidades Positivas para um ano novo com mais cuidado e respeito

Ser homem de verdade é ser responsável: com o que você sente, com o que você faz, com a vida ao redor. A virada não precisa ser um teste de força, nem um “acerto de contas” disfarçado de celebração. Ela pode ser um marco de maturidade: a decisão consciente de fazer da convivência um lugar de segurança, não de disputa. Depois de quatro dias de diagnóstico, raiz, impacto e espelho, a mensagem final é positiva e prática: o roteiro pode mudar quando responsabilidade vira hábito e o cuidado vira compromisso público. Essa mudança é urgente — e os sinais aparecem com clareza nos canais de ajuda. Em 2024, a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) registrou mais de 750 mil atendimentos somando telefone, WhatsApp e e-mails (mais de 2 mil por dia). E, só em ligações, foram 691.444 chamadas recebidas, um aumento de 21,6% em relação ao ano anterior. O dado mais duro, porém, é o que ele revela sobre persistência: em 46,4% das denúncias registradas, a vítima relatou agressões diárias. Masculinidades Positivas: presença que protege Masculinidades Positivas não pedem que o homem “deixe de ser homem”. Propõem algo melhor: uma presença que protege. É o homem que sabe pausar, regular o tom, reconhecer emoções e dividir o cuidado. É o homem que troca performance por responsabilidade — e faz disso um padrão, não uma exceção de fim de ano. A própria realidade do Ligue 180 mostra que a violência nem sempre começa “no tapa”: na lista de violações relatadas em 2024, a violência psicológica aparece como a mais frequente (101.007 registros), seguida da violência física (78.651). Isso reforça um ponto central desta série: mudar o roteiro antes da escalada é proteção concreta. Quatro pactos simples para uma virada com dignidade A virada precisa sair do discurso e entrar no corpo. Aqui vão quatro pactos diretos — para combinar com a família e praticar consigo: 1) Regular o álcool como cuidado (sem performance): Se você percebe que “passou do ponto”, esse é o momento de escolher limite como maturidade: alternar com água, comer, desacelerar, parar antes de virar risco. 2) Trocar disputa por escuta: Convivência não é campeonato. Escuta ativa é perguntar mais do que afirmar, baixar o volume, aceitar encerrar o assunto quando virar ringue. 3) Nomear emoções antes que virem raiva: Dizer “não estou bem”, “estou no limite”, “preciso de cinco minutos” é coragem prática. É o contrário de explodir. 4) Dividir cuidado como responsabilidade, não “ajuda”: Assumir tarefas reais — antes, durante e depois da festa — reduz tensão e injustiça. Cuidado compartilhado é prevenção. Compromisso público: um texto curto para colocar em prática “Na virada, eu me comprometo a manter a casa como lugar de cuidado, não de disputa. Vou respeitar limites, regular o álcool, falar sem gritar, fazer pausa quando eu escalar e dividir responsabilidades. Minha presença precisa ser segurança, não tensão. Virada é compromisso.” Quando o risco aparece: pedir ajuda também é proteção A virada positiva não ignora o risco. Se houver ameaça, intimidação, violência física, medo real ou alguém impedido de sair, isso não é “clima ruim”. É violência e precisa de rede. O Ligue 180 funciona 24h e também pode ser acionado por WhatsApp; em emergência, o caminho é o 190. No final, sempre volta ao essencial: Defesa da Vida Virada é compromisso porque a vida não pode depender do humor de ninguém. Por isso, a ComCausa – Defesa da Vida, com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU), estrutura o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida como um caminho comunitário: rodas de conversa orientadas, pactos de convivência, ferramentas práticas de maturidade emocional e mobilização pública para transformar autocontrole em proteção real, dentro e fora de casa. Este artigo integra o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, estruturado pela ComCausa – Defesa da Vida com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU). A proposta enfrenta padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas: autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado. Imagem de capa ilustrativa. Leia também Parceria UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU): | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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bomba relógio

Masculinidades: Você é o “tio chato” ou uma bomba-relógio?

Este texto não foi escrito para “apontar o dedo” e humilhar ninguém. Ele é um espelho — daqueles necessários, especialmente em época de festas, quando a convivência aumenta, o consumo de álcool tende a subir e assuntos delicados aparecem. O objetivo é prático: você consegue perceber quando está subindo o tom, perdendo o controle e transformando a noite em disputa? Porque, quando isso acontece, a conta quase nunca é paga por quem “faz a cena”. A conta cai sobre a casa inteira — e os números lembram que essa realidade é estrutural: em 2024, o Brasil registrou 1.067.556 acionamentos ao 190 por violência doméstica (cerca de 2 chamadas por minuto) e 555.001 medidas protetivas de urgência concedidas, segundo números divulgados a partir do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A pergunta, então, deixa de ser moral e vira responsabilidade: o que você faz quando percebe que está escalando? Sinal 1 — Você precisa “ter a última palavra” e trata divergência como duelo Você não conversa: você disputa. Qualquer divergência vira “desrespeito”. E, quando alguém discorda, você sente que precisa vencer — não pelo melhor argumento, mas pela posição de força. Esse é o primeiro degrau da escalada: a conversa deixa de ser troca e vira ringue. Pergunta honesta: você entra para entender ou entra para ganhar? Sinal 2 — Você interrompe, fala por cima e usa volume para dominar O volume sobe e a escuta some. A interrupção vira estratégia e o tom vira arma. É a política do “quem fala mais alto manda”. O problema é que dominar a conversa não prova razão — só cria medo, desgaste e constrangimento. Técnicas de manejo de conflito e comunicação recomendam justamente o oposto: escuta ativa, postura não ameaçadora e pausa quando a conversa começa a sair do eixo, para reduzir risco de escalada e conter tensão. Sinal 3 — Você usa “piada” para humilhar e chama crítica de “mimimi” Aqui entra um veneno típico de festa: a “brincadeira” que humilha — corpo, sexualidade, racismo, machismo, crença, origem, classe — e, quando alguém reage, você transforma o incômodo do outro em “exagero”. Isso é um sinal clássico de abuso de poder: você define a regra do jogo e ainda acusa o outro de “não aguentar”. Se você precisa humilhar para se sentir grande, o problema não é o outro. É a insegurança que você está tentando esconder. Sinal 4 — Você bebe para “provar” algo e perde o ponto do limite Não é só beber. É beber como performance: “eu aguento”, “eu mando”, “eu não recuo”. E aí o álcool entra como acelerador, reduzindo freios e piorando decisões. Os riscos disso não são abstratos: em 2024, o volume de chamados por violência doméstica e o número de medidas protetivas concedidas mostram o tamanho do problema no cotidiano brasileiro. Se você já percebe que “depois do terceiro copo” você muda, isso não é opinião: é dado. E dado serve para decisão — e para agir antes do estrago. Sinal 5 — Você transforma qualquer incômodo em raiva, como se essa fosse a única emoção possível É a “panela de pressão” do Dia 2 acontecendo em tempo real: frustração vira raiva; cansaço vira raiva; vergonha vira raiva; insegurança vira raiva. E aí tudo vira motivo. Você não está discutindo apenas o assunto do momento — você está despejando um acúmulo. Materiais de orientação sobre gerenciamento de raiva e desescalada reforçam a importância de reconhecer sinais do corpo, interromper o ciclo e recuperar o controle antes que a reação domine a decisão. Ferramenta-chave: Saída Estratégica A “Saída Estratégica” não é fugir. É assumir o controle de si. É o oposto de “perder a moral”: é preservar a dignidade do encontro e a segurança emocional da casa. Como fazer, na prática (em 60 segundos): Nomeie para si: “eu estou escalando”; Anuncie sem ataque: “vou respirar e já volto”; Saia do ambiente por 5 a 20 minutos: água no rosto, respiração, caminhar curto; Volte com um acordo: “vamos retomar sem grito” ou “vamos mudar de assunto agora”. Abordagens de manejo de conflito reforçam a utilidade de fazer uma pausa quando a conversa sai do eixo e combinar um retorno ao tema apenas depois de baixar a intensidade emocional. Quando não é “clima ruim”: é risco Se há ameaça, intimidação, violência física, medo real ou alguém impedido de sair, não é “briga de família”. É situação de violência e precisa de rede de proteção. O Governo Federal orienta que o Ligue 180 funciona 24h (também com WhatsApp) e, em emergência, deve-se acionar a Polícia Militar pelo 190. No final, sempre volta ao essencial: Defesa da Vida Este texto existe para transformar autoconsciência em atitude — e atitude em proteção real. Por isso, a ComCausa, com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU), está estruturando o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida: um caminho comunitário para trocar disputa por escuta, controle por responsabilidade e “hombridade” por cuidado, com formação, rodas de conversa e pactos públicos que fortaleçam uma cultura cotidiana de Defesa da Vida. Este artigo integra o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, estruturado pela ComCausa – Defesa da Vida com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU). A proposta enfrenta padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas: autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado. Imagem de capa ilustrativa. Leia também Parceria UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU): | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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Africa, direitos, Baba Yetu, ComCausa, ONU, Portal C3, Defesa da Vida, negro

Baba Yetu: 20 anos do Pai Nosso em suaíli que virou lembrete de fé e direitos

Em 2025, “Baba Yetu” completa 20 anos de circulação pública. Composta por Christopher Tin e apresentada ao grande público em 2005 como tema de abertura do jogo Civilization IV, a canção atravessou fronteiras improváveis: nasceu no universo dos videogames, mas rapidamente ganhou vida própria, chegando a palcos, corais, escolas e comunidades. Ao longo dessas duas décadas, se firmou como uma das obras contemporâneas mais reconhecíveis quando o assunto é “humanidade em coro” — uma música que soa como encontro coletivo, como assembleia, como rito compartilhado. Mas a relevância de “Baba Yetu” não se explica apenas pela origem ou pelo impacto cultural que ela acumulou. O que sustenta sua permanência é o que ela provoca em quem escuta. Ao transformar o “Pai Nosso” — uma oração conhecida em diferentes países e tradições — em uma experiência sonora comunitária, a canção coloca em primeiro plano temas que não são abstratos: pão, perdão, responsabilidade e proteção diante do mal. Em outras palavras, “Baba Yetu” desloca a fé do campo do íntimo para o campo do comum e nos devolve uma pergunta ética que toca diretamente a cidadania: que mundo a gente constrói quando aceita, de verdade, que ninguém vive sozinho? O que a música diz, de fato Em suaíli, “Baba Yetu” significa “Pai Nosso”. A letra acompanha a estrutura da oração cristã, mas a potência da canção vai além do religioso: ela se organiza como um roteiro humano simples e inteiro — direto, breve e profundo — capaz de atravessar épocas, culturas e territórios sem perder sentido. Tudo começa pelo pertencimento. Não é “meu” Pai, é “nosso” Pai — e esse detalhe muda tudo, porque transforma a fala em comunidade, não em pedido individual. Em seguida, a oração desce do alto para o chão e pede o essencial: o alimento do dia, o necessário para atravessar a vida. A música encosta na matéria, no cotidiano, no que falta quando a dignidade é negada. Depois, vem o eixo da responsabilidade: pedir perdão não aparece como gesto solto, mas como compromisso de convivência — quem pede perdão também assume a tarefa difícil de perdoar, de reconstruir vínculo, de impor limites sem virar destruição. Por fim, a letra nomeia o risco: a tentação e o mal, como reconhecimento de que a fragilidade humana existe e de que proteção, cuidado e freios éticos são parte do que mantém a vida de pé. É essa sequência que torna “Baba Yetu” tão potente para uma leitura em direitos humanos. “Pão” e “dignidade” não são metáforas bonitas: são o mínimo que define se uma pessoa tem, de fato, condições de existir com liberdade, segurança e futuro. Por que soa tão “universal” Há um motivo para “Baba Yetu” emocionar mesmo quem não é religioso ou não entende a língua. A música foi construída como voz coletiva, e o coral não é adereço: ele é personagem. O efeito é de assembleia, de praça, de ritual público. A canção transmite uma ideia simples e poderosa: quando muitas vozes afirmam o mesmo pedido, o pedido vira compromisso. E há outro elemento simbólico forte: o uso do suaíli. Para muita gente, isso produz um estranhamento bom: a oração volta a soar “nova”, como se fosse mais antiga do que a nossa tradução cotidiana. Para outras, o gesto é um lembrete de que civilizações, saberes e espiritualidades não cabem numa narrativa única. A humanidade é plural — e o futuro também. Música feita para “videogame” como metáfora política: quando a trilha pergunta o que é civilização Embora tenha sido composta para a abertura de Civilization IV, “Baba Yetu” nunca funcionou apenas como “música de videogame”. O contexto do jogo ajuda a entender por quê. Civilization é uma simulação histórica: o jogador conduz sociedades ao longo de séculos, escolhendo caminhos de governo, economia, ciência, cultura, diplomacia e guerra. É um laboratório de decisões coletivas em escala civilizatória, onde progresso e destruição caminham lado a lado: alianças que evitam conflitos, disputas por território e recursos, descobertas que melhoram a vida e também tecnologias que ampliam a capacidade de dominar ou exterminar. Nesse cenário, a escolha de abrir o jogo com uma oração (o “Pai Nosso” em suaíli) produz um contraste intencional e poderoso. Enquanto o jogo exibe a grandiosidade da trajetória humana — impérios, cidades, monumentos, mapas, eras — a música desloca o foco para aquilo que antecede qualquer “grandeza”: a necessidade diária, o limite ético e a convivência. A mensagem implícita é direta: a pergunta decisiva não é apenas “quem vence”, mas que tipo de humanidade sobrevive dentro do próprio projeto de poder. A canção, então, vira metáfora política contemporânea. Porque, no mundo real, “civilização” não é sinônimo de modernidade, tecnologia ou vitrine urbana. Civilização é, antes de tudo, capacidade de organizar a vida coletiva sem sacrificar pessoas como custo normal do sistema. É o pacto mínimo que define se um Estado e uma sociedade protegem vidas ou administram descartes. Por isso, quando “Baba Yetu” insiste em “pão” e “perdão”, ela pode ser lida como um lembrete sobre o que sustenta a cidadania na prática: O ponto é que a música não “resolve” esses problemas, mas ela aponta uma bússola: sociedades que não conseguem garantir o pão e não conseguem praticar o perdão (no sentido de responsabilidade, reparação e convivência) ficam estruturalmente mais próximas da barbárie, mesmo cercadas de inovação, consumo e discurso de progresso. A modernidade pode multiplicar ferramentas; mas sem ética pública e sem direitos, ela só acelera desigualdades e conflitos. Lida assim, “Baba Yetu” vira um comentário profundo sobre cidadania: antes de erguer monumentos, uma civilização precisa sustentar gente. Antes de celebrar vitória, precisa impedir que a vitória seja construída sobre vidas esmagadas. E, no fundo, é isso que a canção coloca em cena: a grandeza humana só é verdadeira quando a dignidade não é exceção, mas regra. A leitura em direitos humanos: pão, perdão e proteção Em um olhar de cidadania e direitos humanos, “Baba Yetu” pode ser lida a partir de três chaves centrais — simples na forma, profundas no conteúdo.

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Dia Internacional das mulheres

ComCausa articula Núcleo de Masculinidades Positivas e lança campanha “Virada é compromisso”

A ComCausa – Defesa da Vida estruturou o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida e lançou, para a semana de 26 a 31 de dezembro, a campanha “Virada é compromisso: Cuidar é ser homem”. A iniciativa inaugura um ciclo permanente mudança social e mobilização comunitária, voltado a adolescentes e jovens, com ênfase em juventudes negras periféricas, na Baixada Fluminense e na cidade do Rio de Janeiro. Com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU), a proposta busca enfrentar padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas: autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado. Para comunicação pública, o projeto passa a ser apresentado com o nome curto “Masculinidades Positivas – Defesa da Vida”, adotado para facilitar memorização e circulação nas redes, mantendo a assinatura institucional ComCausa . Por que lançar na semana da virada A escolha do período entre o Natal e o Ano Novo é estratégica: trata-se de uma semana de convivência intensificada, marcada por encontros familiares, deslocamentos, confraternizações e maior exposição a situações de estresse. A campanha pretende funcionar como um “freio” preventivo, desnaturalizando comportamentos que costumam escalar conflitos — gritos, humilhações, ameaças e controle — e oferecendo mensagens curtas e acionáveis para manter um ambiente seguro. A frase que orienta as peças resume a abordagem: virada é compromisso, e esse compromisso começa dentro de casa. Para a ComCausa – Defesa da Vida, Defesa da Vida também se expressa em práticas cotidianas de cuidado e em uma masculinidade que não se afirma pela intimidação. O que o Núcleo pretende enfrentar No desenho metodológico do projeto, o Núcleo atua nas raízes de problemas estruturantes como violência de gênero e violência sexual, gravidez não intencional na adolescência, uniões precoces e barreiras ao exercício de direitos sexuais e reprodutivos. A linha de ação inclui ainda temas que atravessam diretamente a vida familiar: paternidade responsável, responsabilidade afetiva, abandono afetivo, negligência e conflitos pós-separação em que vínculos são instrumentalizados, com práticas de manipulação de crianças e adolescentes e alienação parental, gerando danos emocionais e ruptura de convivência segura. A proposta, segundo a organização, não é tratar esses temas apenas como “assuntos de campanha”, mas como uma agenda contínua de prevenção e mudança cultural, com linguagem popular e foco em atitudes verificáveis. Como será a campanha “Virada é compromisso: Cuidar é ser homem” A campanha de dezembro está organizada para publicar uma peça por dia entre 26 e 31/12, combinando cards, carrosséis, reels/shorts e stories. O conteúdo traz orientações práticas de convivência pacífica, como técnicas de desescalada de tensão, rejeição ao controle e à humilhação como forma de “autoridade”, e reforço da corresponsabilidade masculina no cuidado com filhos, filhas e com o ambiente doméstico. Agenda de janeiro e fevereiro Após o ciclo de dezembro, o projeto entra em fase de mobilização territorial e articulação institucional. Em janeiro, está previsto um Café no Ponto de lançamento do Núcleo, com objetivo de apresentar a proposta, consolidar governança e aproximar apoiadores e redes comunitárias. No mesmo mês, a ComCausa pretende iniciar contato com todas as prefeituras da Baixada Fluminense, além da Prefeitura do Rio de Janeiro e do Governo do Estado, para mapear gestores e propor ações conjuntas vinculadas às campanhas do semestre. Em fevereiro, a organização prevê uma ativação cultural parceira com show no Gato Negro Pub e a produção de materiais de prevenção para o Carnaval, incluindo o “Leque de Prevenção”, além de camisetas e adesivos com mensagens diretas sobre respeito, consentimento e convivência segura. A agenda inclui ainda uma proposta de encontro na Baixada Fluminense durante a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência (01 a 08/02), preferencialmente em cooperação com poder público e rede local. A partir de março, e ao longo de todo o mês, o Núcleo Masculinidades Positivas – Defesa da Vida da UNFPA (ONU) e ComCausa inicia a fase de atividades presenciais regulares em ruas, praças, eventos comunitários e instituições parceiras, consolidando a transição do ciclo inicial (campanhas digitais e articulação institucional) para uma atuação territorial contínua, de mobilização e diálogo direto com o público. Este projeto integra o marco da Agenda do Cairo (CIPD) ao promover direitos humanos, igualdade de gênero e saúde sexual e reprodutiva por meio de comunicação para mudança social, prevenção de violências e fortalecimento de adolescentes e jovens, reafirmando a corresponsabilidade de meninos e homens no cuidado e na Defesa da Vida. Brasil Sem Misoginia Desde 2013, a ComCausa – Defesa da Vida atua no enfrentamento à misoginia e às violências de gênero em seus territórios e, em 2023, formalizou sua adesão à mobilização nacional Brasil Sem Misoginia, iniciativa do Ministério das Mulheres lançada em 25 de outubro de 2023, reafirmando seu compromisso com a promoção de respeito, equidade e Defesa da Vida. No desdobramento dessa agenda, a ComCausa – Defesa da Vida procurará o Ministério das Mulheres para apresentar o Núcleo, compartilhar o calendário de campanhas e propor ações conjuntas de prevenção e enfrentamento à misoginia e às violências de gênero, fortalecendo a comunicação de interesse público e a rede de proteção nos territórios. Serviço Projeto : Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da VidaNome público: Masculinidades Positivas – Defesa da VidaApoio/financiador: UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU)Campanha de lançamento: “Virada é compromisso: Cuidar é ser homem”Período: 26 a 31 de dezembroTerritórios: Baixada Fluminense e cidade do Rio de JaneiroRealização: ComCausa – Defesa da Vida Imagem de capa ilustrativa Imagem de capa ilustrativa Parceria UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU): Leia também | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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procura-se Jeverson Olmiro Lopes Goulart

Preso no RJ: Jeverson Olmiro Lopes Goulart é capturado em Angra dos Reis

O policial militar da reserva Jeverson Olmiro Lopes Goulart, condenado a 46 anos de prisão por estupro de vulnerável e homicídio do próprio sobrinho, o menino Andrei Ronaldo Goulart Gonçalves, foi preso no estado do Rio de Janeiro após um período em que permaneceu foragido da Justiça. A captura ocorreu em Angra dos Reis, na terça-feira, 23 de dezembro de 2025. A prisão representa um marco importante para a família, especialmente para a mãe do menino, Cátia Goulart, cuja trajetória pública de denúncia e perseverança atravessou anos, mantendo o caso vivo até a responsabilização do condenado. O caso que chocou o Rio Grande do Sul envolve o menino Andrei Ronaldo Goulart Gonçalves, que tinha 12 anos quando foi encontrado morto em Porto Alegre. As investigações apontaram que houve violência sexual e homicídio, com a tentativa de simular suicídio para encobrir o crime. Veículos de imprensa e o próprio Judiciário gaúcho registram que a condenação envolve a compreensão do júri de que o réu cometeu estupro de vulnerável e homicídio duplamente qualificado, com pena estabelecida em regime fechado. Condenação a 46 anos, júri remoto, benefícios e a fuga após a sentença O julgamento foi realizado no Foro Central de Porto Alegre, e o Conselho de Sentença reconheceu a culpa do réu, fixando a pena em 46 anos de prisão, em regime fechado. Um ponto que gerou forte repercussão é que o acusado acompanhou o júri por videoconferência, a partir do Rio de Janeiro, onde residia, e sem que houvesse notícia de monitoramento eletrônico no período. Além disso, ele permanecia na condição de policial militar da reserva, o que motivou o Ministério Público do Rio Grande do Sul a apresentar medida para anular a aposentadoria e impedir que o condenado mantivesse benefícios previdenciários após a sentença condenatória.  Prisão em Angra dos Reis: ação no RJ e cumprimento da decisão judicial A prisão em Angra dos Reis (RJ) foi noticiada como o desfecho da condição de foragido que durou semanas após a sentença do fim de outubro. A captura foi reportada por diferentes veículos, indicando que ele foi localizado no estado do Rio de Janeiro e detido no dia 23/12/2025. A força de uma mãe e a responsabilidade do Estado A história do Caso Andrei também é a história da insistência de uma mãe. Cátia Goulart deu depoimentos longos e detalhados no processo, mantendo a denúncia de pé e contribuindo para que a sociedade não aceitasse versões fáceis nem o silêncio como destino. Ao mesmo tempo, a prisão reafirma um princípio básico: crimes contra crianças exigem resposta rápida, investigação qualificada, julgamento sério e execução efetiva da pena. Quando há fuga, a atuação integrada das forças de segurança e do sistema de Justiça torna-se decisiva para impedir impunidade. Nota pública: respeito à memória de Andrei e reconhecimento a quem ajudou A ComCausa – Defesa da Vida e sua rede de comunicação e incidência em direitos humanos registram, com respeito, que a captura do condenado é um passo concreto para que a justiça alcance quem violou de forma brutal a confiança familiar e os direitos de uma criança. Parabenizamos Cátia Goulart pela coragem e persistência. Reconhecemos também o trabalho dos agentes públicos envolvidos na localização e prisão e de todas as pessoas que, com responsabilidade, ajudaram a circular informação, fortalecer canais oficiais e sustentar a cobrança pública por justiça. Leia também | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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