Adriano Dias

Agenda do Cairo: o pacto de 1994 que colocou direitos no centro do desenvolvimento — e parceria da ComCausa – Defesa da Vida com a ONU

Cairo, Egito, setembro de 1994. Em um mundo ainda acostumado a tratar “população” como número, projeção e meta, a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD/ICPD) produziu um deslocamento histórico: a vida humana deixou de ser apenas “indicador” e passou a ser reconhecida como direito, com autonomia, igualdade, saúde e dignidade no centro do debate global. O resultado desse encontro foi o Programa de Ação do Cairo — mais conhecido como Agenda do Cairo — adotado por 179 governos e reconhecido como um marco por romper com a lógica demográfica e afirmar uma agenda centrada nas pessoas. A partir dali, o mundo passou a ter um documento-referência que, na prática, responde a uma pergunta essencial: o que significa “desenvolver” um país quando a vida de parte da população continua atravessada por desigualdade, violências, falta de acesso a serviços e ausência de proteção? A Agenda do Cairo responde com uma tese simples e exigente: desenvolvimento real é aquele que se mede pela capacidade de garantir direitos, reduzir desigualdades e oferecer cuidado efetivo, especialmente para mulheres, meninas, adolescentes e juventudes. É nesse horizonte — o de transformar princípio em prática pública — que a ComCausa – Defesa da Vida situa sua atuação e, agora, reafirma seu alinhamento à Agenda do Cairo por meio de uma parceria com o sistema ONU no Brasil, via UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas), para estruturar iniciativas de fortalecimento institucional e ação territorial conectadas à Agenda do Cairo e à Agenda 2030. O que é a Agenda do Cairo? A Agenda do Cairo não é uma frase de efeito e tampouco um “tema” isolado. Ela é um Programa de Ação que consolidou, no cenário internacional, a ideia de que políticas públicas precisam articular: -Direitos humanos como base;-Igualdade de gênero como condição de desenvolvimento;-Saúde sexual e reprodutiva como direito e como serviço público a ser garantido com qualidade e acesso;-Proteção e atenção a adolescentes e jovens;-Educação, informação e autonomia como fundamentos de escolhas livres e trajetórias mais seguras. O próprio texto do Programa de Ação, em edições publicadas no âmbito da ONU/UNFPA, é explícito ao destacar a mudança de paradigma: em vez de perseguir “metas demográficas”, a política deve se orientar pelas necessidades, aspirações e direitos de cada pessoa — e pelo enfrentamento de desigualdades como medida real de progresso. As datas que ancoram a Agenda do Cairo Para registro institucional, cronologia, calendário editorial e referência histórica, a Agenda do Cairo tem marcos objetivos: 5 a 13 de setembro de 1994 — realização da ICPD no Cairo, Egito. 13 de setembro de 1994 — o Programa de Ação é adotado por aclamação. 22 de dezembro de 2010 — a Assembleia Geral da ONU aprova a Resolução 65/234, sobre o seguimento do Programa de Ação (um marco importante para a continuidade e revisão do compromisso internacional). 22 de setembro de 2014 — sessão especial ligada ao processo de seguimento “ICPD Beyond 2014”, realizada sob resoluções da ONU que tratam dessa continuidade. Essas datas importam porque deixam claro que o Cairo não ficou “congelado” em 1994: ele foi sendo reafirmado, revisitado e reposicionado como referência de política e de responsabilização pública. Por que esse debate volta com força: o Cairo como “bússola” quando a vida está em risco A Agenda do Cairo permanece atual por um motivo muito concreto: ela fala de vida cotidiana, não de abstração. Em diferentes países, inclusive no Brasil, a distância entre o direito e o acesso real ainda aparece de forma dura: falta de informação clara, serviços que não acolhem, fluxos que não funcionam, desigualdades que se acumulam e violências que se repetem. Nessa realidade, a Agenda do Cairo funciona como bússola porque estabelece um padrão de cobrança: se a política pública existe, ela precisa chegar; se o direito é reconhecido, ele precisa ser garantido; se há compromisso, ele precisa produzir resultado verificável. A parceria com a ONU no Brasil: o papel do UNFPA e o edital alinhado à Agenda do Cairo No Brasil, o UNFPA tem atuado com chamadas públicas e estratégias de fortalecimento institucional de organizações da sociedade civil, entendendo que OSCs são parte decisiva da engrenagem de proteção e de promoção de direitos — especialmente em territórios onde o acesso ao Estado é mais difícil e a violência encontra mais brechas. Um marco recente dessa estratégia foi o lançamento, em 24 de novembro de 2025, do Edital de Fortalecimento Institucional de Organizações da Sociedade Civil – Grants, apresentado pelo UNFPA Brasil como iniciativa alinhada ao mandato do UNFPA e aos princípios da CIPD (Agenda do Cairo). Segundo o UNFPA, o edital prevê investimento de cerca de R$ 600 mil para apoiar até oito organizações, com aproximadamente R$ 75 mil por instituição, voltados especificamente ao fortalecimento institucional (processos internos, equipes, consultorias, equipamentos, comunicação, planejamento, governança e metodologias). O edital explicita também as áreas temáticas prioritárias, conectadas diretamente à Agenda do Cairo: prevenção de gravidez na adolescência, educação integral em sexualidade, prevenção de uniões precoces, promoção de masculinidades positivas e não violentas, redução da mortalidade materna, impactos populacionais das mudanças climáticas e comunicação estratégica para mudança social. No documento oficial da chamada (PDF), o UNFPA reforça que essa modalidade não é para “executar um projeto pontual”, mas para fortalecer a capacidade organizacional de produzir impacto com consistência e continuidade, dentro do Programa de País 2024–2028 do UNFPA Brasil. ComCausa – Defesa da Vida: adesão à Agenda do Cairo e parceria com a ONU para agir no território É nesse contexto que entra a ComCausa – Defesa da Vida. Segundo publicações institucionais da própria ComCausa, a organização foi selecionada em um processo alinhado à Agenda do Cairo e à Agenda 2030 para estruturar o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, em articulação com o UNFPA (ONU) e comunicação associada ao campo ONU no Brasil. Essa parceria é relevante não apenas como chancela institucional, mas porque indica uma direção de método: trabalhar masculinidades como política de prevenção — não no sentido superficial de “campanha comportamental”, mas como campo estratégico para reduzir violências, reorganizar convivências e fortalecer responsabilidade pública. A própria chamada do UNFPA coloca “masculinidades positivas e não violentas” como uma das áreas prioritárias no eixo de aceleração da Agenda do Cairo no Brasil. Em linguagem direta: quando o UNFPA diz que masculinidades são agenda estratégica, ele está reconhecendo que

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Tragédia da Região Serrana, chuvas de 2011, deslizamentos, corridas de detritos, desaparecidos, força-tarefa de 2012, desabrigados, ComCausa

Memória chuvas da Região Serrana do Rio de 2011: Maior desastre ambiental do Brasil

Na madrugada de 12 de janeiro de 2011, a Região Serrana do Rio acordou em choque. Em poucas horas, o que era rua virou rio; o que era rio virou corredor de enxurrada; o que parecia chão firme cedeu como se fosse papel. Encostas desabaram em cadeia, vales foram tomados por lama, pedras e detritos. Bairros inteiros ficaram isolados — e alguns, literalmente, desapareceram sob avalanches de lama e rocha. A comunicação falhou em diversos pontos, e a sensação era a de que o território havia sido “desligado” do mundo. Um estudo de caso produzido pela ENAP descreve aquela sequência como um evento multirriscos típico de serra urbanizada: chuva intensa por muitas horas, rios formando “ondas”, deslizamentos e corridas de detritos, barramentos temporários e rupturas que geraram novas ondas de lama. Não foi um “deslizamento” apenas. Foi a combinação de inundações repentinas, movimentos de massa e colapso de infraestrutura, com destruição física e humana em larga escala. O dia seguinte: resgate, colapso e as cenas dramáticas que a imprensa expôs ao país As primeiras 48 a 72 horas depois da madrugada de 12 de janeiro de 2011 foram de emergência absoluta — e também de colapso. Com estradas interrompidas, pontes levadas, bairros inteiros isolados e o risco permanente de novos deslizamentos, equipes de busca e salvamento trabalharam sob pressão extrema, muitas vezes em condições descritas como “cegas”, sem comunicação estável. Um estudo de caso da ENAP registra que a região ficou sem luz, água potável e comunicações “de qualquer tipo”, e que equipes chegaram a operar sem celulares, satélites ou rádios. Isso ajuda a entender por que, em tantos pontos, o socorro demorou — e por que, em outros, chegou “no braço”, por trilhas, lama e ruínas. Naqueles dias, a imprensa mostrou um tipo de resgate que não cabe em frases curtas. Eram bombeiros e voluntários avançando em lama grossa, passando ferramentas de mão em mão, abrindo caminho entre pedras, madeira e restos de casas. A própria ENAP registra que houve bombeiros soterrados durante tentativas de acesso a áreas com deslizamentos — um detalhe que revela o risco assumido por quem tentou salvar vidas num terreno ainda instável. Também houve o resgate “por cima”. Helicópteros foram mobilizados para transporte de equipes, retirada de feridos e apoio logístico em áreas inacessíveis por terra. E a dramaticidade dessa operação ficou evidente quando, em 20 de janeiro de 2011, um helicóptero do Exército que atuava no resgate caiu em Nova Friburgo, ferindo tripulantes e pessoas que participavam da operação, num lembrete de que o próprio socorro operava sob risco real. Enquanto as câmeras acompanhavam essas cenas, outro colapso acontecia longe do foco principal: o colapso do fluxo funerário e pericial. Com o volume de vítimas, faltou espaço, faltou estrutura e faltou tempo. Em diversas áreas, corpos passaram a ser concentrados provisoriamente em locais improvisados — escolas, quadras, ginásios, pátios e órgãos públicos — porque eram, muitas vezes, os únicos pontos ainda utilizáveis para triagem e encaminhamento. Com o avanço das horas e o calor, preservar corpos virou uma corrida contra o relógio: havia urgência sanitária, mas também urgência de dignidade. A imprensa registrou essa sobrecarga com números e imagens. Em 19 de janeiro, uma reportagem apontou que o IML de Teresópolis mantinha 47 corpos em dois caminhões frigoríficos aguardando identificação, com reforço de peritos e previsão de aumento devido a áreas distantes e de difícil acesso. Ou seja: a tragédia ainda estava sendo “contada” — e, em parte, ainda estava acontecendo. Nos cemitérios, a pressão se traduziu em cenas que ficaram gravadas na memória pública. A chegada de corpos aconteceu não apenas em carros funerários, mas também em caminhões, com vários caixões transportados de uma só vez. Em alguns pontos, a urgência levou ao uso de escavadeiras para abrir covas em sequência — “dezenas, lado a lado”. No mesmo registro, aparece uma frase que sintetiza a escala do desastre: “chegam a ser enterradas famílias inteiras”, levadas pela força das águas ou soterradas por deslizamentos. Um voluntário descreveu para integrantes da ComCausa o impacto de chegar ao cemitério e só ali compreender, com os próprios olhos, a dimensão da tragédia: a quantidade de caixões, o esforço coletivo para carregá-los, a sensação de que o corpo não aguentava acompanhar o que estava acontecendo. Era solidariedade, sim — mas também era exaustão, choque e um tipo de silêncio que só existe quando a realidade ultrapassa qualquer medida. E, entre os relatos que circularam no território, houve descrições que ajudam a explicar a violência física da enxurrada. Sobreviventes narraram que, em alguns pontos, corpos de pessoas e de animais foram encontrados presos em cercas de arame farpado. Não como “imagem de choque”, mas como evidência do mecanismo: uma correnteza de alta energia que arrasta, gira e deposita detritos, transformando cercas e obstáculos em pontos involuntários de retenção. É um retrato do território embaralhado pela força da água e da lama, onde cerca, quintal, rua, pasto e casa deixaram de ser lugares distintos. É nesse ponto que entram relatos que não aparecem nas estatísticas nem nos balanços oficiais, mas definem o “depois” para quem ficou. Com o passar dos anos, a ComCausa teve acesso a relatos de famílias que atravessaram a tragédia não apenas no dia da lama, mas na longa sequência de buscas, cadastros, esperas e tentativas de obter uma resposta. É por isso que as cenas dramáticas exibidas pela imprensa não são “detalhe de impacto”. Elas revelam a engrenagem real de um megadesastre: resgate em condições-limite, risco para quem socorre, colapso de infraestrutura, pressão do tempo e do calor — e a batalha silenciosa para que ninguém vire apenas estatística, nem desapareça duas vezes: primeiro na lama, depois no registro. Um megadesastre — e por que 2011 virou divisor de época A Tragédia da Região Serrana não se consolidou apenas como um “episódio de chuva forte”. Ela se firmou como um megadesastre hidrometeorológico e geotécnico — e, ao mesmo tempo, como um evento-síntese da vulnerabilidade socioambiental no Brasil: quando meteorologia extrema encontra território fragilizado, urbanização em

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Zilda Arns, Pastoral da Criança, primeira infância, proteção da infância, redes comunitárias, prevenção, orientação às famílias, acompanhamento contínuo, cuidado no território, Defesa da Vida, ComCausa

Memória: morte de Zilda Arns

Em 12 de janeiro, a memória da morte de Zilda Arns reforça que proteger a primeira infância depende de redes comunitárias de cuidado, com prevenção, orientação às famílias e acompanhamento contínuo no território. O dia 12 de janeiro marca uma memória que segue atual para quem trabalha com primeira infância: a morte de Zilda Arns Neumann, médica pediatra e sanitarista brasileira, vítima do terremoto que devastou o Haiti em 2010. Ela estava em Porto Príncipe em missão humanitária quando o abalo atingiu a capital haitiana. Esta data não é apenas um registro biográfico. Ela funciona como um alerta permanente: proteger a infância exige rede — rede de informação confiável, acompanhamento contínuo, apoio comunitário e portas de entrada que funcionem antes que riscos previsíveis virem tragédia. Quem foi Zilda Arns e por que seu legado segue central Nascida em 25 de agosto de 1934, em Forquilhinha (SC), Zilda formou-se em Medicina em 1959, especializou-se em pediatria e construiu uma trajetória voltada à saúde pública e ao desenvolvimento infantil. Em 1983, ela fundou a Pastoral da Criança, iniciativa criada no âmbito da CNBB e reconhecida por organizar uma resposta comunitária para desafios enfrentados por gestantes e crianças em comunidades de baixa renda: mortalidade infantil, desnutrição, doenças evitáveis, falta de orientação e ausência de acompanhamento regular. O marco do trabalho foi o método: formação de lideranças locais e voluntários, visitas e orientação permanente às famílias, e uma lógica de acompanhamento do desenvolvimento infantil baseada em rotinas simples e contínuas — o tipo de cuidado que chega onde a política pública nem sempre chega com regularidade. A morte no Haiti: quando o luto vira exigência de proteção A morte de Zilda Arns no Haiti não foi “um acidente distante” desconectado do seu trabalho. Ela estava em missão humanitária, em um país já marcado por fragilidades estruturais, quando o terremoto atingiu Porto Príncipe e produziu devastação massiva. O episódio reforça, com dureza, o que ela defendia: em situações-limite, o que protege vidas é a existência de redes de cuidado e resposta. Por isso, esta matéria não se limita ao luto. Ela convoca uma pergunta prática: o que sustenta uma criança quando a família está sob pressão, quando o território sofre com precariedades e quando os serviços falham? A resposta passa por rede comunitária organizada, informação confiável e acompanhamento constante — não por ações pontuais. Primeira infância: prioridades objetivas de prevenção e proteção Proteger a primeira infância é fazer o essencial funcionar todos os dias, com constância. Na linha do que Zilda Arns defendia, a rede de cuidado se fortalece quando começa na gestação, com orientação e identificação precoce de vulnerabilidades como fome, violência, ausência de apoio e sofrimento psíquico. Segue com suporte prático para nutrição e aleitamento, porque insegurança alimentar não pode virar rotina. E se sustenta na prevenção contínua: acompanhar crescimento e desenvolvimento, perceber sinais de alerta, estimular brincar, linguagem, vínculo e rotina, e agir rápido diante de atrasos e dificuldades. Por fim, nenhuma proteção é completa sem enfrentar as violências: sinais precisam ser reconhecidos e encaminhados sem demora, sempre com prioridade absoluta para a criança. O que a memória de Zilda Arns cobra A memória de Zilda Arns também cobra gestão: infância protegida exige continuidade, integração entre serviços e transparência. Exige que a informação circule com clareza: onde buscar ajuda, quais portas de entrada existem, como registrar demandas, como garantir acompanhamento e retorno. No Brasil, experiências de base comunitária associadas à saúde e à proteção social mostram que é possível ampliar capilaridade e reduzir vulnerabilidades quando há método, formação e permanência. Esse debate dialoga com a produção e o acúmulo técnico de instituições brasileiras de saúde pública, inclusive na construção de abordagens de prevenção e proteção à infância. Memória como compromisso Em 12 de janeiro, lembrar Zilda Arns é lembrar que a proteção da infância não se improvisa: ela se constrói com rede, método e presença contínua no território. Para a ComCausa – Defesa da Vida, esta lembrança reforça um compromisso com primeira infância, prevenção e proteção de famílias, afirmando que cuidar é organizar, acompanhar e garantir que nenhuma criança fique invisível quando mais precisa de proteção. _______________ | Colaborou na matéria: João Bernardo Dias | Imagem de capa internet Leia também | Fale conosco! | Nos conheça | Projeto Comunicando ComCausa | Portal C3 | Instagram C3 Oficial ______________________ ______________________ Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com ______________________ Compartilhe:

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terremoto no Haiti

Memória: o terremoto no Haiti e o dia em que a resposta humanitária virou debate mundial

O relógio marcava 16h53 quando a cidade perdeu o chão — literalmente. Em 12 de janeiro de 2010, um terremoto de magnitude 7,0 atingiu o Haiti, com epicentro próximo de Léogâne, a cerca de 25 quilômetros da capital. O abalo principal durou pouco — algo como meio minuto — mas bastou para transformar ruas em corredores de poeira, quebrar rotinas, interromper serviços e derrubar, em cadeia, parte do que sustentava a vida diária: casas, prédios públicos, hospitais, escolas, vias de acesso, redes de água e energia. O que se viu nas horas seguintes foi um cenário de colapso rápido: pessoas tentando sair de edifícios parcialmente destruídos; vizinhos cavando com as mãos onde antes havia paredes; famílias procurando nomes em listas improvisadas; equipes médicas tentando atender em condições extremas, muitas vezes sem estrutura, sem luz e sem comunicação. A cidade passou a funcionar no modo “sobrevivência”, e a prioridade virou uma só: encontrar quem ainda estivesse vivo sob os escombros e manter o mínimo de atendimento possível. O choque inicial e os dias seguintes: quando a cidade tenta respirar Nas primeiras horas, o terremoto não foi apenas um evento geológico — foi um gatilho para uma crise total. O tremor principal veio acompanhado de réplicas, o que aumentou o medo e dificultou o trabalho de resgate: cada novo abalo era uma ameaça de desabamento adicional, e cada edifício instável virava risco para quem tentava entrar. Com estradas bloqueadas, aeroportos pressionados e a rede de comunicação comprometida, os esforços de socorro enfrentaram gargalos logísticos enormes. Em muitos pontos, a ajuda não chegou “tarde” por falta de vontade — chegou tarde porque a cidade, naquele momento, estava física e institucionalmente ferida. Parte da própria estrutura de governo e dos serviços essenciais foi atingida. E isso muda tudo: quando o “centro de coordenação” também cai, organizar prioridades vira uma disputa contra o tempo e contra a desordem. A dimensão humana: perdas, deslocamentos e uma sociedade em ruptura Os números da tragédia são amplamente citados e, ao mesmo tempo, variam conforme a fonte e o método de contabilização. Ainda assim, o quadro geral é inequívoco: a catástrofe produziu centenas de milhares de mortes, centenas de milhares de feridos e um contingente imenso de deslocados, com mais de um milhão de pessoas vivendo a experiência abrupta de perder teto, bens, documentos, referências e, em muitos casos, familiares. A dificuldade de registrar tudo com precisão também virou parte da história. Em países com infraestrutura limitada, crises de dados se tornam crises de direitos: sem documentação, sem cadastros confiáveis e com serviços interrompidos, a reconstrução do cotidiano — e a própria elegibilidade para auxílios — pode depender de sistemas que, naquele momento, não estavam de pé. Por que foi tão devastador: o terremoto não “explica” sozinho o desastre Com o passar dos meses, uma frase passou a resumir o principal aprendizado do Haiti: desastre não é apenas o evento extremo; é o encontro do evento com a vulnerabilidade. O terremoto foi forte. Mas o que tornou o impacto tão devastador foi a combinação de fatores históricos e estruturais: desigualdade, urbanização precária, edifícios frágeis, pouca fiscalização, baixa capacidade de resposta e um contexto socioeconômico já marcado por instabilidade. Onde moradias são frágeis e o território é ocupado sem proteção, o risco se multiplica. O perigo existe, mas é a exposição e a vulnerabilidade que definem quantas vidas serão perdidas. Esse ponto é central porque muda o foco da pergunta. Em vez de “como resistir ao inevitável?”, a questão passa a ser: o que precisa ser feito antes para que um choque não vire massacre? E a resposta, quase sempre, envolve política pública: habitação, saneamento, infraestrutura, planejamento urbano, fiscalização, sistemas de saúde e redes comunitárias. A resposta humanitária: mobilização global e o desafio da coordenação O mundo reagiu. Governos, agências multilaterais, organizações humanitárias e voluntários se mobilizaram em escala rara. Houve equipes de busca e resgate, hospitais de campanha, doações, pontes aéreas e uma atenção internacional permanente. Mas, junto com a ajuda, apareceram dilemas que são conhecidos em emergências de grande escala — e que o Haiti escancarou para o planeta. Em cenários de muitos atores, a coordenação é tão importante quanto o recurso. Sem integração, há risco de duplicar esforços em alguns pontos e deixar vazios em outros. Pode haver disputa por informação, dificuldade de alinhamento com prioridades locais e, principalmente, um problema que marca várias operações internacionais: quando a liderança nacional não tem condições reais de conduzir, a resposta fica fragmentada, e a transição do “socorro” para a “reconstrução” vira um terreno de conflito institucional. O Haiti se tornou, por isso, um marco no debate sobre governança da ajuda: quem decide prioridades, com quais dados, com qual transparência, e como garantir que o apoio externo fortaleça capacidades locais — em vez de substituí-las indefinidamente. Saúde pública no pós-desastre: quando o risco continua depois do tremor O terremoto abriu uma ferida, mas a crise não terminou quando a poeira baixou. A vida em abrigos improvisados, a precariedade de água e saneamento, a interrupção de serviços e a fragilização do sistema de vigilância epidemiológica tornaram o pós-desastre um terreno fértil para novas emergências. Meses depois, a reintrodução da cólera mostrou como a fragilidade estrutural pode transformar uma catástrofe “pontual” em uma sequência de crises. Essa é uma das lições mais duras do Haiti: em grandes desastres, o que mata não é só o momento do choque. Mata a continuidade do risco — quando o território não tem infraestrutura mínima para proteger a vida nos dias, semanas e meses seguintes. Reconstrução, desigualdade e dinheiro: o que ficou em disputa A reconstrução do Haiti também se tornou símbolo de um debate global: promessas e bilhões anunciados não significam, automaticamente, reconstrução com justiça e eficiência. Entre comprometer recursos, desembolsar e transformar dinheiro em obra, serviços e proteção, existe um caminho cheio de burocracias, disputas, prioridades conflitantes e, muitas vezes, baixa rastreabilidade. Esse tema — transparência, controle social, prestação de contas e capacidade de execução — passou a ser parte do legado do

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Priscila Belfort

Priscila Belfort e a “teia de ausências”: por que ainda existem falha na busca por desaparecidos

Há 22 anos sem respostas definitivas, o desaparecimento de Priscila Belfort expõe um padrão: atendimento precário às famílias, investigação fragmentada e um território em que o sumiço, muitas vezes, vira estatística — especialmente quando a vítima é negra, pobre e periférica. O caso de Priscila Belfort não é apenas uma história interrompida. Ele expõe, com nitidez, o peso da conjuntura do Rio de Janeiro — marcada por sobrecarga institucional, fragmentação entre órgãos, desigualdades territoriais e um ambiente de violência e medo que dificulta a circulação de informações e a proteção de testemunhas — sobre um dos temas mais dolorosos da vida pública: o desaparecimento de pessoas. Quando alguém desaparece, o tempo vira inimigo. E, em uma conjuntura em que a resposta do Estado nem sempre é imediata, integrada e consistente, cada hora sem coordenação pode apagar pistas, dispersar testemunhas, esfriar imagens, desorganizar rotinas de busca e ampliar o sofrimento de mães, pais e familiares que passam a viver em suspensão. Em 2024, esse cenário ganhou números que não deixam margem para relativização: o Rio registrou média de 16 desaparecimentos por dia, com 2.533 registros entre janeiro e maio, segundo levantamento baseado em dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). O problema não é só “quantidade”. É a forma como as instituições respondem — e a forma como a resposta muda conforme a cor, o CEP e a renda de quem desapareceu. O caso Priscila Belfort: 20 anos de perguntas abertas Priscila Vieira Belfort nasceu no Rio de Janeiro em 5 de dezembro de 1974. Em 9 de janeiro de 2004, aos 29 anos, desapareceu após sair para almoçar no Centro do Rio, onde trabalhava na Secretaria Municipal de Esportes e Lazer. Desde então, seu paradeiro permanece desconhecido. Ao longo dos anos, o caso atravessou ondas de visibilidade pública, denúncias, buscas e hipóteses. Entre os episódios citados na reconstrução do caso, há o registro de que, em 2007, surgiu uma confissão apontando sequestro e morte, com indicação de local de ocultação, mas nada foi encontrado, mantendo o caso sem comprovação conclusiva e sem desfecho. Por isso, Priscila, muito pelo empenho de sua mãe Jovita Belfort e e seu irmão Vitor  segue como símbolo de uma tragédia dupla: a violência do desaparecimento e a violência institucional da ausência de resposta. O que os dados recentes mostram: o desaparecimento como rotina O levantamento divulgado em 2024 indica que o Rio vive um patamar alto e constante de registros: são 16 novos desaparecidos por dia. E o próprio debate público sobre o tema tem apontado gargalos estruturais. Uma reportagem de 2024, por exemplo, chama atenção para um ponto decisivo: a falta de integração de dados (polícia, hospitais e IML) e a consequência direta disso para a eficiência das buscas. Na prática, quando sistemas não conversam e rotinas não são padronizadas, o desaparecimento vira um labirinto burocrático: a família procura numa porta, recebe orientação desencontrada em outra, e as pistas não chegam a tempo onde deveriam chegar. A “teia de ausências”: como as famílias são empurradas para o abandono Um dos diagnósticos mais fortes sobre o tema no Rio é descrito como uma “teia de ausências”: uma sequência de faltas institucionais que começam no momento de registrar a ocorrência e continuam no percurso por serviços de assistência, saúde, apoio psicológico e orientação jurídica. O estudo “Teia de ausências”, de pesquisadoras vinculadas ao CESeC, descreve que o caminho das famílias é marcado por: dificuldades para registrar a ocorrência (com apenas uma delegacia especializada em todo o estado); concentração geográfica dos poucos serviços de assistência; atendimentos desumanizadores, baseados em estereótipos e preconceitos; e um peso ainda maior quando as famílias são pobres, negras e periféricas. Esse ponto é central: não se trata apenas de falhas “técnicas”. Existe um padrão de desigualdade no acesso à investigação, ao cuidado institucional e ao direito básico de ser atendido com seriedade. Baixada Fluminense: o epicentro silencioso dos desaparecimentos Se na capital o desaparecimento choca, na Baixada ele se repete com um grau de naturalização perigoso. Dados compilados a partir de registros do ISP indicam que, entre 2003 e julho de 2023, a Baixada Fluminense registrou 27.985 pessoas desaparecidas, o que equivale a 25% do total do estado no período. O mesmo boletim destaca um problema grave: muitos casos que deveriam ser tratados como desaparecimentos forçados acabam “rebaixados” a uma categoria genérica de “pessoas desaparecidas”, em um contexto em que o país ainda convive com lacunas de tipificação, registro e responsabilização adequadas. E a dimensão territorial desse terror aparece na cartografia das chamadas “áreas de desova”. Em 2025, um levantamento divulgado pela Ponte Jornalismo, com base em mapeamento da IDMJR, apontou 116 cemitérios clandestinos e outras áreas de desova na Baixada Fluminense, associados a dinâmicas de violência e controle territorial. Quando um território acumula desaparecimentos, áreas de ocultação e medo estruturado, investigar “caso a caso” sem inteligência integrada e sem proteção a testemunhas vira, muitas vezes, uma encenação de procedimento. Onde o sistema quebra: coordenação, prioridade e capacidade operacional O caso de Priscila Belfort atravessa exatamente esse problema: investigações que não conseguem sustentar, por anos, uma linha robusta com transparência, revisão de hipóteses, checagem sistemática de denúncias e articulação interinstitucional. E isso ocorre num estado onde: há grande volume de registros (que exigiria equipe e tecnologia compatíveis); faltam bancos integrados e protocolos unificados; e, com frequência, a família é empurrada para o papel de “investigadora” informal — algo descrito no próprio estudo como parte do cotidiano de quem busca: “a gente vira detetive…”. Um exemplo de resposta interinstitucional que existe no Rio é o PLID (Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos), criado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) em 2012, com a finalidade de articular dados de órgãos distintos e tratar o desaparecimento como um problema social que ultrapassa a esfera meramente criminal.O diagnóstico do próprio programa reforça a importância de sistemas de informação e articulação para enfrentar um tema que tende a ser invisibilizado. Casos que seguem se repetindo Edson Davi A ComCausa – Defesa da

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Priscila Belfort

Memoria Priscila Belfort: um desaparecimento em plena luz do dia e o que o Rio ainda não conseguiu responder  

Priscila Vieira Belfort tinha 29 anos, trabalhava no centro do Rio e foi vista pela última vez por volta das 13h, caminhando “desatenta” na Avenida Marechal Floriano. Duas décadas depois, o caso permanece sem corpo, sem confirmação material e sem conclusão — mas com uma sequência de pistas, operações, falsas esperanças e perguntas que atravessam gerações. Na história recente do Rio de Janeiro, poucos desaparecimentos se tornaram tão emblemáticos quanto o de Priscila Belfort. Há um componente de visibilidade pública associado ao sobrenome. Mas o que mantém o caso como referência dolorosa é outra coisa: ele concentra, em uma única narrativa, aquilo que famílias de desaparecidos descrevem como a experiência mais cruel — quando a busca não se converte em resposta, e a ausência passa a ser administrada como se fosse rotina. Priscila desapareceu em 9 de janeiro de 2004, durante o horário de trabalho, em uma das regiões mais movimentadas do país. O fato central, confirmado e repetido ao longo dos anos, é simples e devastador: ela saiu para almoçar e não voltou. A partir desse ponto, a história se abre em camadas. Vem a reconstrução das últimas horas, a avalanche de denúncias, operações em comunidades, a recompensa que virou precedente, a hipótese de um corpo carbonizado que depois não se confirmou, a confissão que não fechou o caso e, anos mais tarde, a criação de estruturas públicas que também nasceram da pressão de mães e familiares que se recusaram a tratar o desaparecimento como destino. Este texto reúne, de forma jornalística e detalhada, os principais dados públicos sobre o caso, procurando separar com nitidez o que é fato verificado, o que são linhas investigativas e o que são alegações que circularam ao longo do tempo. Quem era Priscila Belfort Priscila Vieira Belfort nasceu no Rio de Janeiro em 5 de dezembro de 1974. Em janeiro de 2004, tinha 29 anos e trabalhava na Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, no Centro do Rio, na região da Avenida Presidente Vargas. O fato de ser irmã do lutador Vitor Belfort ajudou a levar o caso rapidamente à imprensa nacional. Mas, com o passar dos anos, a visibilidade não foi suficiente para garantir aquilo que qualquer família precisa para voltar a respirar: saber onde está, o que aconteceu e quem responde por isso. As últimas horas reconstituídas: 9 de janeiro de 2004 A cronologia mais citada por reportagens e pela reconstrução jornalística do caso descreve um desaparecimento dentro da rotina. Na manhã de 9 de janeiro de 2004, Priscila acorda com cólica e indisposição; por isso, sua mãe, Jovita Belfort, a leva de carona até o trabalho, na Avenida Presidente Vargas. Segundo a apuração reconstituída pela imprensa, ela chega ao escritório por volta das 11h e faz algumas ligações telefônicas. Pouco depois, por volta das 13h, um funcionário do prédio a vê caminhando “desatenta” na Avenida Marechal Floriano, nas proximidades da Presidente Vargas. Esse é o último avistamento com registro público consistente. A partir dali, não há confirmação de outro registro visual ou testemunhal com a mesma robustez. A família também cita elementos materiais relevantes para entender o contexto: Priscila estaria com pouco dinheiro, sem cartões bancários e com o celular descarregado. À noite, a CNN relata que Vitor registra o boletim de ocorrência na 14ª DP (Leblon). E um detalhe, repetido em coberturas mais recentes, reforça o enigma: apesar de o desaparecimento ter ocorrido em uma área central e extremamente movimentada, reportagens mencionam a ausência de imagens de câmeras capazes de indicar com clareza para onde ela foi depois daquele trecho final do trajeto. As primeiras buscas: quando a mobilização não vira pista No dia seguinte ao desaparecimento, familiares e amigos iniciam buscas e se revezam nas ruas. A mobilização cresce rapidamente: panfletos com a foto de Priscila, divulgação de telefones, acionamento do Disque Denúncia, pressão pública. A investigação, nesse começo, segue um roteiro conhecido em casos de grande repercussão: checagens em hospitais, no Instituto Médico Legal, verificação de supostos avistamentos e o recebimento de dezenas de ligações. Mas o que aparece com insistência nas reconstruções posteriores é a sensação de que, apesar do barulho e do volume de informação, não se consolidou cedo uma linha firme capaz de transformar ruído em evidência. A primeira hipótese oficial forte: sequestro — e o caso vai para a DAS Sem resultados imediatos nas primeiras diligências, a Polícia Civil passa a trabalhar com a hipótese de extorsão mediante sequestro. A partir daí, o caso é encaminhado para a Delegacia Antissequestro (DAS), unidade especializada nesse tipo de ocorrência e que atua com protocolos próprios de apuração. Há, porém, um dado que chama atenção desde o começo e pesa na leitura do caso: a família não recebeu pedido de resgate — algo que, em muitos sequestros, costuma aparecer cedo e funciona como elemento-chave para confirmar a dinâmica da extorsão. A ausência desse contato não elimina a hipótese, mas torna o cenário mais nebuloso e aumenta a necessidade de manter outras linhas em paralelo. Essa mudança de chave — do desaparecimento “sem explicação” para a hipótese de sequestro — é decisiva porque reorganiza prioridades e métodos. E é aqui que muitas famílias, em casos semelhantes, descrevem um risco estrutural: quando uma hipótese inicial se instala sem prova material forte, o caso pode ficar “preso” a um trilho investigativo, mesmo que a realidade tenha sido outra. O tempo passa, pistas envelhecem, testemunhas se dispersam, e o ponto de partida deixa de ser revisitado com a urgência que merecia. No caso de Priscila, esse trilho — que, em diferentes momentos, apontou para sequestro, para denúncias anônimas, para suspeitos específicos e para hipóteses que pareciam promissoras — não produziu a resposta final. Ao longo do tempo, o que se consolidou foi uma sequência de marcos públicos que alternam esperança e frustração: a cada nova pista, uma mobilização; a cada mobilização, o vazio que devolve a família ao ponto zero. Pouco mais de uma semana depois do desaparecimento, em 18 de janeiro de 2004, o caso ganha forte exposição

Memoria Priscila Belfort: um desaparecimento em plena luz do dia e o que o Rio ainda não conseguiu responder   Read More »