ACOLHER ComCausa

1. Apresentação da prática

O ACOLHER ComCausa é uma prática continuada de promoção e defesa de direitos humanos
voltada ao acompanhamento de familiares de vítimas de violência letal e de pessoas desaparecidas,
com atuação prioritária na Baixada Fluminense, nas periferias da cidade do Rio de Janeiro e em
outros territórios da Região Metropolitana. A prática articula acolhimento qualificado, escuta
sensível, orientação jurídico-psicossocial, memória pública responsável, comunicação ética,
mobilização comunitária e incidência institucional, com a finalidade de enfrentar os efeitos
prolongados da violência e do desaparecimento sobre famílias submetidas ao luto traumático, à
desinformação, à revitimização e à fragmentação dos fluxos de proteção.

Sua aderência ao eixo Cultura da Paz decorre de sua atuação concreta no campo da proteção da
dignidade humana, da mediação institucional, da reconstrução de vínculos e da promoção de
respostas não violentas em contextos marcados por homicídios, desaparecimentos, medo,
abandono e silenciamento. O regulamento do prêmio define esse eixo como o conjunto de ações
que defendem e promovem a interação social pacífica e a resolução de conflitos por meios não
violentos, mobilizando solidariedade, tolerância, democracia e justiça social. É nesse horizonte que
o ACOLHER opera: substitui a naturalização da violência por escuta, orientação, memória,
circulação assistida entre serviços e exigibilidade de direitos.

2. Problema social enfrentado

A prática responde à ausência de mecanismos contínuos, integrados e humanizados de
atendimento a familiares de vítimas de violência letal e de pessoas desaparecidas. Após o fato
violento ou o desaparecimento, essas famílias tendem a enfrentar um percurso prolongado de
sofrimento atravessado por trauma, medo, perda de renda, desinformação, lentidão institucional,
dificuldade de acesso a serviços e baixa integração entre órgãos responsáveis. Em territórios
periféricos, esse quadro é agravado por desigualdades históricas, racismo estrutural e estigma
territorial.

No caso dos desaparecimentos, o problema se intensifica pela urgência dos primeiros
procedimentos, pelo desconhecimento social dos fluxos adequados e pela fragmentação das portas
institucionais. Foi nesse contexto que a ComCausa aprofundou, a partir de 2023, a frente Acolher:
Desaparecidos, com foco em visibilidade ética, escuta qualificada, apoio psicossocial, orientação
jurídica e incidência institucional para qualificar os fluxos de busca e prevenção.

A prática também enfrenta um componente estrutural adicional: atua com públicos e casos
invisibilizados, isto é, famílias que frequentemente não ingressam nas prioridades institucionais,
não contam com rede de apoio suficiente e nem sempre recebem cobertura pública compatível
com a gravidade de sua situação. Assim, o ACOLHER enfrenta não apenas a violência e o
desaparecimento em si, mas também a invisibilidade social e institucional que os sucede.

3. Histórico e tempo de implementação

Embora o Programa Acolher tenha sido formalizado em 2005, sua base histórica é anterior. A
trajetória da ComCausa registra atuação desde os anos 1980 em comunidades da Baixada
Fluminense diante de situações de violência institucional, abusos policiais, tortura e execuções
sumárias. Em 1996, o acompanhamento do caso de Maicon, menino de dois anos morto por
policiais militares em Acari, consolidou o princípio da permanência ao lado das famílias. A
formalização da prática ganha densidade após a Chacina da Baixada, em 2005, quando a ComCausa
desenvolveu mutirões jurídicos, atendimentos psicossociais, rodas de escuta, produção de memória
e articulação com imprensa e sistema de justiça.

Entre 2010 e 2014, a experiência do Centro de Referência em Direitos Humanos – CRDH, em
parceria com a então Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, reforçou
competências institucionais da organização em acolhimento, orientação e mediação entre
população vulnerabilizada e portas públicas de proteção.

ComCausa completa 20 anos do Programa Acolher no apoio de famílias de vítimas da violência e desaparecimentos

Em 2017, a prática passou a contar com protocolo específico para famílias de policiais vítimas de
violência. Em 2023, consolidou metodologia própria para casos de desaparecimento. Em 2025,
lançou oficialmente o Memorial Eletrônico Acolher – Desaparecidos, aprofundou a articulação com
coletivos de familiares, padronizou fluxos de triagem, acolhimento inicial, articulação institucional e
apoio continuado, e passou a integrar formalmente o Comitê Estadual de Pessoas Desaparecidas –
CEPD. Trata-se, portanto, de uma prática claramente em curso há mais de um ano, em
conformidade com o regulamento.

4. Estrutura atual da prática

A partir de 2025, a prática fortaleceu sua presença pública, sua identidade memorialística e sua
estratégia de incidência, com destaque para a consolidação do @acolher.comcausa como eixo de
comunicação e articulação do programa. Nesse processo, o Memorial Eletrônico Acolher –
Desaparecidos, já operado em parceria com o PortalC3 e a RedeDH, passou a integrar de forma
mais estruturada o ecossistema do Comunicando ComCausa, iniciativa de comunicação popular e
cidadã reconhecida como Ponto de Cultura e Ponto de Mídia Livre, além de contemplada com o
Prêmio Periferia Viva 2025, do Ministério das Cidades. O memorial vem sendo fortalecido como
eixo de memória pública, comunicação responsável e orientação social da prática, em um processo
de consolidação institucional, editorial e tecnológica

Esse esforço inclui a captação de recursos e a estruturação da página comcausa.org.br/acolher
como espaço permanente de memória, orientação, cuidado e incidência, reunindo, em linguagem
acessível e eticamente orientada, informações de interesse público, registros memorialísticos,
conteúdos de prevenção da revitimização e caminhos de acesso a direitos. Nessa arquitetura, a
prática combina atuação territorial, acolhimento continuado, incidência institucional, visibilidade
ética e memorialização digital, reforçando seu caráter inovador, seu diferencial metodológico e sua
contribuição para a Cultura da Paz.

Campanhas permanentes de desconstrução da violência

Além da estrutura de acolhimento, memória e incidência, a prática se articula a campanhas
permanentes de desconstrução da violência, entendidas como ações continuadas de educação
pública, mobilização social e prevenção. Nesse conjunto, destaca-se a campanha Jovem Fica Vivo,
desenvolvida desde 2014, voltada à proteção das juventudes.

5. Objetivo geral

Garantir acolhimento integral, escuta qualificada, orientação jurídico-psicossocial, memória
responsável, prevenção da revitimização e acesso à justiça para familiares de vítimas de violência
letal e de pessoas desaparecidas, contribuindo para reduzir sofrimento, qualificar fluxos de
atendimento, fortalecer redes de proteção e promover respostas públicas e comunitárias
compatíveis com a dignidade humana.

6. Público beneficiário

O público beneficiário direto é composto por familiares de pessoas desaparecidas e por familiares
de vítimas de violência letal, com atenção especial a mulheres negras chefes de família residentes
em territórios vulnerabilizados da Baixada Fluminense e da capital do Rio de Janeiro. A prática
também contempla, por meio de protocolo específico e sigiloso, familiares de policiais mortos em
serviço ou fora dele.

Como beneficiários indiretos, destacam-se coletivos de familiares, redes comunitárias, profissionais
do SUS, do SUAS e do sistema de justiça, comunicadores locais e a sociedade em geral, alcançada
por conteúdos orientadores, campanhas públicas, memorialização e ações de incidência
promovidas no âmbito da prática.

7. Metodologia e funcionamento

A metodologia do ACOLHER está organizada como sistema articulado de acolhimento, orientação,
memória e incidência. Sua operação compreende:

• Acesso e acolhimento: recebimento de casos por canais digitais e institucionais, triagem e
definição de plano de atendimento.
• Apoio psicossocial: escuta ativa, grupos de apoio e encaminhamento à Rede de Atenção
Psicossocial, CRAS e CAPS.
• Orientação jurídica e proteção social: apoio para registros, busca ativa, preservação de
provas e articulação com DDPA, Defensoria Pública, Ministério Público, OAB e serviços
socioassistenciais.
• Memória e visibilidade ética: manutenção do Memorial Eletrônico Acolher, atualização
responsável de retratos e produção de conteúdos orientadores.
• Produção de dados: monitoramento de casos, relatórios e proteção de dados conforme a
LGPD.
• Comunicação e incidência pública: campanhas, rádios comunitárias, redes locais, relação
ética com a imprensa e participação em espaços institucionais, inclusive no CEPD.

8. Relação com a imprensa e estratégias de visibilidade ética

No ACOLHER ComCausa, a relação com a imprensa e com os meios de comunicação é parte da
metodologia da prática. Em contextos de violência letal, desaparecimentos e revitimização, a
circulação pública de informações pode ampliar proteção, orientação e reconhecimento, mas
também pode aprofundar exposição, estigma e sofrimento. Por isso, o ACOLHER organiza a
comunicação para que ela opere no primeiro sentido. A imprensa é tratada como instrumento de
visibilidade ética, orientação social, mobilização pública e fortalecimento da exigibilidade de
direitos, e não como espaço de exploração da dor.

A sistematização do Acolher: Desaparecidos registra que essa relação é pautada por ética, proteção
e visibilidade responsável, com mediação da equipe da ComCausa junto a jornalistas,
comunicadores e veículos. Essa mediação envolve orientação sobre linguagem adequada, respeito à
privacidade, enquadramento humanizado das histórias, seleção criteriosa de informações e uso
responsável de imagens e dados sensíveis. O objetivo é evitar que a comunicação transforme
sofrimento em espetáculo e reduzir o risco de revitimização.

A prática também produz press kits, materiais acessíveis, notas, sugestões de pauta e conteúdos
orientadores com foco educativo, preventivo e memorial, além de acompanhar a cobertura
realizada. Dessa forma, a comunicação deixa de ser mero recurso de divulgação e passa a funcionar
como parte do cuidado, especialmente em casos de desaparecimento, nos quais a circulação
qualificada de informações pode ser decisiva para busca, mobilização e encaminhamento
institucional.

Essa dimensão é particularmente importante porque muitos dos casos acompanhados pelo Acolher,
sobretudo os menos notórios e menos midiatizados, tendem a desaparecer rapidamente do espaço
público. Ao operar a comunicação como estratégia de visibilidade ética, a prática se opõe a essa
lógica do esquecimento e afirma que a imprensa pode e deve contribuir para reconhecer as vítimas,
escutar as famílias e sustentar o debate público sem revitimizar.

9. Relação com órgãos policiais e sistema de direitos

A prática mantém relação institucional com órgãos policiais e com o
sistema de justiça a partir de uma lógica de mediação, circulação
assistida e redução de barreiras de acesso. Isso inclui apoio para
registros, orientação sobre procedimentos, articulação com a DDPA,
Defensoria Pública, Ministério Público, OAB e demais serviços, com o
objetivo de evitar peregrinação burocrática, reduzir desinformação e
qualificar a interlocução entre famílias vulnerabilizadas e a rede pública.
Também integra esse desenho o protocolo diferenciado para famílias de
policiais vítimas de violência, incorporado em 2017.
Essa relação não substitui as competências públicas. Seu objetivo é tornar os caminhos
institucionais mais compreensíveis, menos hostis e mais acessíveis para famílias em situação de
sofrimento extremo. Sob essa perspectiva, o ACOLHER não apenas acolhe, mas também contribui
para organizar o percurso institucional das famílias e fortalecer sua capacidade de demandar
respostas.

10. Resultados e evidências

A principal evidência do ACOLHER é sua continuidade ininterrupta ao longo de vinte anos, o que
demonstra consistência metodológica, legitimidade territorial e capacidade institucional de
permanência em um campo marcado por alta complexidade social, forte demanda reprimida e
baixa estabilidade de financiamento. Ao longo desse percurso, a prática consolidou-se como
experiência continuada de acolhimento, memória, orientação e incidência voltada à defesa da vida
e ao acompanhamento de familiares de vítimas de violência letal e de pessoas desaparecidas.
Entre os resultados consolidados, destacam-se: a estruturação do programa desde 2005; a
sistematização metodológica específica para desaparecimentos a partir de 2023; a criação e
operação do Memorial Eletrônico Acolher – Desaparecidos; a padronização progressiva de fluxos de
triagem, acolhimento e articulação institucional; a integração formal ao Comitê Estadual de Pessoas
Desaparecidas – CEPD; a produção continuada de campanhas, conteúdos orientadores e ações de
memória; e a reorganização pública da prática, a partir de 2025, em torno do @acolher.comcausa,
conferindo maior unidade à comunicação, à memorialização ética e à orientação social do
programa.

Do ponto de vista quantitativo, a ComCausa trabalha com a estimativa institucional acumulada de
que mais de 1.000 casos relacionados à violência letal, aos desaparecimentos e a situações
correlatas já tenham sido acompanhados ao longo dos últimos vinte anos, em diferentes níveis de
intensidade, duração e permanência. Dentro desse universo, estima-se que ao menos cerca de 300
casos tenham recebido atenção continuada, entendida como vínculo prolongado, múltiplas
interações de orientação, apoio psicossocial, memória, articulação institucional e incidência. Ainda
que nem todo o acervo histórico esteja consolidado em uma série estatística única e plenamente
padronizada, essa estimativa é coerente com a longevidade da prática, sua capilaridade territorial,
seu alcance multifrente e sua permanência histórica.
No campo das evidências objetivas de legitimidade
institucional, destaca-se ainda o reconhecimento público
obtido em 2025, quando a ComCausa recebeu o Prêmio
SEIM Integrando Ações: Direitos Humanos e Gestão
Pública, distinção entregue pela coordenação do Disque
Denúncia. Esse reconhecimento reforça a relevância do
Acolher na integração entre direitos humanos,
comunicação de interesse público, articulação intersetorial
e resposta qualificada a situações complexas de violência e
desaparecimento.

ComCausa recebe prêmio por atuação no enfrentamento aos desaparecimentos

Esse conjunto de evidências — permanência histórica, volume de casos acompanhados, atenção
continuada a famílias, consolidação metodológica, estruturação de fluxos, memorialização pública,
integração institucional, uso qualificado da comunicação e reconhecimento externo — qualifica o
ACOLHER como prática socialmente robusta, metodologicamente consistente e publicamente
reconhecida.

11. Impacto social

O impacto social do ACOLHER se expressa em diferentes planos. No plano imediato, a prática atua
na redução do sofrimento, na organização das informações, na orientação das famílias e na
ampliação do acesso a serviços e direitos. No plano psicossocial, oferece escuta qualificada,
suporte, encaminhamento e presença institucional em situações marcadas por trauma, medo,
desamparo e ruptura da rotina. No plano institucional, contribui para qualificar fluxos de
atendimento, fortalecer a contrarreferência, ampliar a articulação com órgãos públicos e reduzir
barreiras entre famílias vulnerabilizadas e a rede de proteção.

No plano simbólico, comunitário e político, o impacto do Acolher se manifesta na preservação ética
da memória, na prevenção da revitimização, no fortalecimento das vozes familiares e na produção
de visibilidade pública responsável para casos que, com frequência, permaneceriam invisibilizados.
Trata-se de uma prática que enfrenta não apenas a violência direta, mas também a violência
posterior do abandono, da desinformação, da naturalização da dor e da ausência de
reconhecimento institucional. A comunicação, nesse contexto, integra o impacto social da prática
porque contribui para romper o isolamento das famílias e manter vivos, no espaço público, casos
que tendem a ser esquecidos com o tempo.

A melhoria da qualidade de vida de populações em vulnerabilidade social se materializa, no caso do
ACOLHER, no fato de que a prática oferece, onde frequentemente só existe desamparo, um
percurso real de escuta, orientação, proteção, memória e incidência pública. Seu impacto, portanto,
não deve ser lido apenas em termos assistenciais, mas também em sua capacidade de transformar
experiências de dor extrema em trajetórias de cuidado, reconhecimento e mobilização por justiça.

12. Inovação, replicabilidade, diversidade, equidade e diferenciais

A inovação do ACOLHER reside na sua capacidade de integrar, em um mesmo arranjo
metodológico, dimensões que frequentemente aparecem fragmentadas nas respostas públicas e
sociais à violência: acolhimento psicossocial, orientação jurídica, memorialização protetiva,
comunicação ética, mobilização comunitária, relação qualificada com a imprensa e incidência
institucional. Em vez de atuar apenas no atendimento, apenas na denúncia ou apenas na memória,
a prática constrói uma tecnologia social integrada, que transforma sofrimento em cuidado,
memória em proteção, visibilidade em orientação e dor em exigibilidade de direitos.

A imprensa e a comunicação comunitária são componentes centrais dessa inovação, porque ampliam o alcance da
prática, qualificam a informação pública e convertem visibilidade em ferramenta de cuidado,
memória e incidência — sem espetacularizar a dor e sem desrespeitar vítimas e familiares.

Sua replicabilidade decorre da existência de fluxos definidos, canais de contato, padronização
progressiva de atendimento, monitoramento de casos, produção de conteúdos orientadores,
memorialização estruturada e articulação consistente com a rede pública e comunitária. Embora
profundamente enraizada na Baixada Fluminense, a prática oferece elementos metodológicos
passíveis de adaptação a outros territórios e públicos, especialmente aqueles marcados por
violência letal, desaparecimentos, baixa coordenação institucional e necessidade de mediação
qualificada entre famílias vulnerabilizadas e serviços públicos.

No campo da diversidade e da equidade, o ACOLHER prioriza famílias de territórios periféricos,
especialmente mulheres negras chefes de família, historicamente mais afetadas por violência,
desaparecimentos, sobrecarga de cuidado e desproteção institucional. Ao mesmo tempo,

contempla famílias de policiais vítimas de violência por meio de fluxo próprio e sigiloso,
demonstrando capacidade de reconhecer diferentes perfis de vulnerabilidade sem perder coerência
ética e metodológica. Os meios adotados para garantir equidade incluem linguagem acessível,
escuta qualificada, mediação institucional, comunicação sem revitimização, memorialização ética e
articulação em rede para redução de barreiras de acesso.

Seus diferenciais concentram-se em alguns elementos centrais: continuidade sem interrupção,
permanência institucional junto às famílias, trabalho com públicos historicamente invisibilizados,
integração entre cuidado, memória, justiça e comunicação, e capacidade de articular resposta
direta e incidência estrutural. Um dos diferenciais mais expressivos do ACOLHER ComCausa é sua
capacidade de manter presença ao lado das famílias ao longo do tempo, inclusive quando o caso
perde visibilidade pública, deixa de mobilizar a imprensa ou deixa de figurar entre as prioridades
institucionais. Essa continuidade não é acessória: ela constitui o núcleo ético da prática.

Essa permanência se expressa tanto em casos históricos, como o de Maicon, em Acari, cujo
acompanhamento completa trinta anos em abril de 2026 (registros acima), quanto em casos
recentes, como o de Myrella Ramos de Sousa, levado ao conhecimento da ComCausa em março
de 2026 (print relatório abaixo), em contexto de possível violação grave de direitos fundamentais
no atendimento em saúde. A aproximação entre esses casos evidencia que o Acolher foi construído
para enfrentar uma das dimensões mais cruéis da violência e da negligência institucional: o fato de
que, com o passar do tempo, sobretudo nos casos menos notórios, menos midiatizados ou
socialmente invisibilizados, muitas famílias tendem a ser progressivamente esquecidas e, em
consequência, duplamente abandonadas. A prática da ComCausa se opõe diretamente a essa
lógica. Seu compromisso é seguir acompanhando mães, pais e responsáveis independentemente do
tempo transcorrido, da notoriedade do caso ou da intensidade da cobertura pública.

https://comcausa.org.br/tag/myrella-ramos-de-sousa/

O ACOLHER ComCausa é uma prática consolidada de acolhimento, orientação, memória e
incidência voltada a familiares de vítimas de violência letal e de pessoas desaparecidas. Seu
diferencial central é a capacidade de não deixar as famílias sozinhas, independentemente do tempo
transcorrido, da notoriedade do caso ou da intensidade da atenção pública. Em contextos marcados
por violência, negligência e invisibilização, a prática oferece escuta qualificada, apoio psicossocial,
orientação jurídica, comunicação ética e acompanhamento continuado, transformando desamparo
em cuidado e abandono em defesa de direitos.

Esse compromisso com a permanência é um dos elementos mais fortes da prática. O ACOLHER foi
estruturado justamente para enfrentar a realidade de que, com o passar do tempo, sobretudo nos
casos menos notórios, muitas famílias tendem a ser esquecidas e duplamente abandonadas:
primeiro pela violação sofrida, depois pelo enfraquecimento da memória social e da resposta
institucional. Ao permanecer ao lado dessas famílias, a ComCausa reafirma que a defesa da vida
também se expressa em não permitir que a dor se torne solidão.

A prática também se diferencia pela forma como opera a comunicação. No âmbito do ACOLHER, a
imprensa e os meios de visibilidade pública não são utilizados para espetacularizar a dor. Ao
contrário, a comunicação é tratada como instrumento de visibilidade ética, de preservação da
memória, de orientação pública e de fortalecimento da voz das famílias, sempre com respeito às
vítimas, às suas trajetórias e aos limites da exposição pública. Esse aspecto reforça a contribuição
da prática para a Cultura da Paz, ao substituir exploração por cuidado, estigma por reconhecimento
e silêncio por incidência qualificada.

Do ponto de vista metodológico, o ACOLHER reúne elementos centrais: impacto social, inovação,
replicabilidade, diversidade, equidade e diferenciais claros. Seu impacto se expressa na redução do
sofrimento, na ampliação do acesso a direitos, na prevenção da revitimização e no fortalecimento
de redes de apoio e justiça. Sua inovação está na integração entre acolhimento psicossocial,
orientação jurídica, memorialização protetiva, comunicação ética, mobilização comunitária e
incidência institucional. Sua replicabilidade decorre da existência de fluxos, protocolos, canais de
contato e articulação estruturada com a rede pública e comunitária. Sua dimensão de equidade se
manifesta no foco em públicos historicamente mais expostos à violência e menos protegidos pelas
instituições, especialmente famílias periféricas e mulheres negras chefes de família.

Ao mesmo tempo, é necessário registrar que, apesar dos resultados, registros, reconhecimentos e
evidências acumulados, o principal desafio da prática continua sendo sua sustentabilidade material
e operacional. Manter equipe, estrutura mínima, deslocamentos, produção de conteúdos,
memorialização, articulação institucional e acolhimento continuado exige recursos permanentes e
compatíveis com a complexidade do trabalho realizado.

Nesse contexto, qualquer reconhecimento é relevante não apenas por seu valor público e
simbólico, mas também por sua capacidade de fortalecer concretamente a continuidade da prática.
O apoio associado à premiação contribuiria para fortalecer mais ainda o programa, além de
contribuir para manter equipe, estrutura e condições operacionais essenciais para que o ACOLHER
siga exercendo sua função pública: não deixar pessoas sozinhas, mesmo quando o tempo passa, a
atenção social diminui e a resposta institucional se enfraquece.