Nascido em Cabo Verde no final do século XIX, Martinho Nobre de Melo participou das primeiras organizações políticas africanas em Lisboa, tornou-se professor, ministro e embaixador de Portugal no Brasil. Décadas depois, uma casa associada à sua presença na Baixada Fluminense passou a abrigar o Museu Marinheiro João Cândido

No Morro do Embaixador, em São João de Meriti, um casarão guarda uma história que atravessa Cabo Verde, Portugal e Brasil. Hoje relacionado ao Museu Marinheiro João Cândido, o imóvel é identificado por fontes locais como antiga residência de Martinho Nobre de Melo, intelectual nascido em Santo Antão que se tornou professor universitário, escritor, jornalista, ministro e diplomata português. Reportagens sobre a implantação e a inauguração do museu, entre elas as publicadas pelo Site da Baixada, registram a ligação do chamado Casarão do Embaixador com Nobre de Melo.

Mas a história do homem que deixou seu título incorporado à memória daquele território é bem mais complexa do que sua carreira diplomática. Antes de ocupar posições importantes no Estado português, Martinho Nobre de Melo participou de uma geração de africanos que, nas primeiras décadas do século XX, criou organizações e jornais em Lisboa para discutir racismo, cidadania, representação política e direitos das populações africanas submetidas ao domínio colonial. Mais tarde, sua trajetória tomaria outra direção, aproximando-o do nacionalismo português, do corporativismo e das estruturas de poder do país que representaria diplomaticamente no Brasil.

De Santo Antão para Portugal

Martinho Nobre de Melo nasceu em 24 de dezembro de 1891, na ilha de Santo Antão, quando Cabo Verde ainda estava sob domínio colonial português. Morreu em Lisboa em 26 de dezembro de 1985, aos 94 anos. Registros da Academia das Ciências de Lisboa e da Universidade de Lisboa documentam sua origem, formação acadêmica e extensa presença na vida intelectual portuguesa. Por uma questão de precisão histórica, não cabe tratá-lo como cidadão da atual República de Cabo Verde, criada apenas em 1975, mas como um homem nascido em Cabo Verde cuja trajetória se desenvolveu dentro da complexa realidade colonial de seu tempo.

Ainda jovem, deixou o arquipélago e seguiu para Portugal, onde estudou Direito na Universidade de Coimbra. Depois ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa. Texto publicado pela própria instituição após sua morte registra que Nobre de Melo foi aprovado para assistente em 1914, tornou-se professor extraordinário em 1916 e recebeu o grau de doutor em 1917. Direito, literatura, política, jornalismo e atividade acadêmica passariam a caminhar juntos em sua vida, mas é nos anos de juventude que aparece um dos capítulos menos conhecidos de sua biografia: sua participação na chamada causa africana.

A causa africana antes da independência

O pesquisador cabo-verdiano Manuel Brito-Semedo, em A Construção da Identidade Nacional — Análise da Imprensa entre 1877 e 1975, situa Martinho Nobre de Melo entre os cabo-verdianos que participaram das organizações africanas existentes em Lisboa nas primeiras décadas do século XX. Segundo o levantamento do autor, Nobre de Melo foi primeiro-secretário da Assembleia-Geral da Junta de Defesa dos Direitos de África, chegou à presidência do Partido Nacional Africano e mais tarde apareceu como presidente honorário do Conselho Nacional do Movimento Nacionalista Africano. A pesquisa de Brito-Semedo é uma das referências mais importantes para compreender essa dimensão africana de sua trajetória.

O ambiente no qual essas organizações surgiram foi estudado também pelos pesquisadores Pedro Varela e José Augusto Pereira, em trabalho publicado pela Revista de História da Universidade de São Paulo. Eles identificam, entre 1911 e 1933, a formação em Portugal de uma geração organizada de africanos e afrodescendentes que criou jornais, associações e redes políticas contra o racismo e em defesa de direitos. Essa geração estabeleceu contatos com o pan-africanismo internacional e colocou em circulação debates sobre a situação das populações africanas no império português.

É preciso, no entanto, evitar uma leitura retrospectiva. A participação de Martinho Nobre de Melo nessas organizações não o transforma em personagem da luta pela independência de Cabo Verde. O movimento que conduziria à soberania cabo-verdiana pertence a outra geração e a outra conjuntura histórica, marcada décadas mais tarde por Amílcar Cabral, pelo PAIGC e pela luta de libertação nacional. Brito-Semedo demonstra que parte considerável dos dirigentes da Junta de Defesa dos Direitos de África, do Partido Nacional Africano e de organizações semelhantes ainda defendia direitos, reformas e maior representação dos africanos dentro de algum tipo de estrutura ligada a Portugal.

É justamente essa diferença que torna aquele momento relevante para a história cabo-verdiana. Nobre de Melo pertence a uma geração anterior ao nacionalismo independentista, quando africanos formados dentro do próprio sistema colonial começavam a discutir identidade, cidadania, desigualdade racial, participação política e o futuro das populações colonizadas. A historiografia costuma utilizar conceitos como protonacionalismo para analisar essas experiências, nas quais a afirmação africana coexistia com contradições sobre a permanência ou não dos vínculos com Portugal.

Da causa africana ao poder português

A trajetória de Nobre de Melo mostra de maneira particularmente clara essas contradições. O jovem envolvido com organizações africanas rapidamente passou a ocupar posições de destaque no Estado português. Em 1918, aos 26 anos, tornou-se ministro da Justiça e dos Cultos no governo de Sidónio Pais. Sua nomeação está documentada pelo Arquivo Histórico da Presidência da República Portuguesa, enquanto registros da Faculdade de Direito de Lisboa confirmam que sua carreira acadêmica foi interrompida temporariamente em razão das funções governamentais.

Em 1926, após o movimento militar que encerrou a Primeira República portuguesa, Nobre de Melo voltou ao primeiro escalão do governo, dessa vez como ministro dos Negócios Estrangeiros durante a administração do general Manuel Gomes da Costa. Estudos de Priscila Musquim Alcântara de Oliveira e Leandro Pereira Gonçalves analisam sua aproximação com o Integralismo Lusitano, com setores conservadores portugueses e com concepções de representação corporativa. Textos escritos por Nobre de Melo nos anos 1920 mostram críticas ao parlamentarismo liberal e a defesa de modelos de organização política baseados na representação profissional.

Essa passagem é central para entender sua biografia. Não houve uma linha contínua entre a militância africana da juventude e o anticolonialismo das gerações posteriores. Ao contrário, Nobre de Melo tornou-se progressivamente integrado à política, à academia e às estruturas institucionais portuguesas. Sua origem cabo-verdiana e sua participação nas primeiras organizações africanas permaneceram como parte de sua história, mas passaram a coexistir com uma carreira fortemente vinculada ao Estado português.

Treze anos como embaixador no Brasil

Em 1932, Martinho Nobre de Melo assumiu a representação diplomática de Portugal no Brasil, função que exerceria até 1945. O Arquivo Histórico da Presidência da República Portuguesa o identifica naquele período como professor da Faculdade de Direito de Lisboa e embaixador de Portugal no Rio de Janeiro. Sua missão atravessou um período particularmente intenso da história dos dois países: em Portugal, a consolidação do Estado Novo de António de Oliveira Salazar; no Brasil, a Era Vargas e, a partir de 1937, o Estado Novo brasileiro.

A historiadora Carmem Genilda Burgert Schiavon estudou relatórios enviados por Nobre de Melo a Lisboa sobre a política brasileira, incluindo suas análises sobre a Constituição de 1937 e a implantação do Estado Novo de Getúlio Vargas. Os documentos mostram um diplomata atento às transformações institucionais brasileiras e responsável por transmitir ao governo português sua leitura dos acontecimentos. Outros estudos sobre o período registram ainda sua participação no fortalecimento das relações políticas, econômicas e culturais entre Brasil e Portugal.

Foi durante essa longa experiência brasileira que seu nome passou também a fazer parte da memória da Baixada Fluminense. Fontes jornalísticas e registros locais associam Martinho Nobre de Melo ao casarão situado em São João de Meriti, na região que ficou conhecida como Morro do Embaixador. A cobertura do Site da Baixada sobre a inauguração do Museu Marinheiro João Cândido identifica o imóvel como antiga residência do diplomata.

Ainda há, porém, uma parte dessa história que precisa ser aprofundada documentalmente. Até o momento, as fontes consultadas não permitem estabelecer com precisão quando Nobre de Melo adquiriu ou passou a utilizar a propriedade, durante quanto tempo permaneceu nela ou em que momento o nome “Morro do Embaixador” começou a ser adotado pela população. Escrituras, matrículas de imóveis, correspondências diplomáticas, fotografias, jornais antigos e depoimentos de moradores poderão ajudar a reconstruir essa relação com maior precisão.

A casa do embaixador encontra a memória de João Cândido

Décadas depois, o mesmo casarão ganhou outro significado. Em 6 de dezembro de 2024, foi inaugurado em São João de Meriti o Museu Marinheiro João Cândido, dedicado ao Almirante Negro, principal liderança da Revolta da Chibata de 1910. Registros da Prefeitura de São João de Meriti e reportagens da imprensa regional destacam a relação de João Cândido com a cidade e a importância da preservação de sua memória.

Não foi encontrada documentação que indique qualquer relação entre Martinho Nobre de Melo e João Cândido Felisberto. O encontro entre os dois acontece posteriormente, através do território. Uma casa vinculada a um homem nascido em Cabo Verde, participante das primeiras organizações políticas africanas e depois representante diplomático do Estado português passou a abrigar a memória de um marinheiro negro brasileiro que liderou uma rebelião contra castigos corporais e tornou-se símbolo da luta contra a violência institucional.

Essa sobreposição dá ao Morro do Embaixador uma densidade histórica pouco comum. Cabo Verde colonial, os movimentos africanos em Lisboa, o Estado português, a diplomacia luso-brasileira, a Revolta da Chibata, a memória negra brasileira e a própria história da Baixada Fluminense passaram, por diferentes caminhos, a ocupar o mesmo território. Não é necessário forçar uma relação entre essas histórias para reconhecer a força de sua proximidade.

Depois de deixar o Brasil, Nobre de Melo continuou ativo na vida portuguesa. No RTP Arquivos e a Hemeroteca Municipal de Lisboa registram sua atuação como diretor do Diário Popular, além de sua participação em atividades culturais e jornalísticas. A RTP conserva, inclusive, uma entrevista realizada com ele em 1970. A Academia das Ciências de Lisboa mantém documentos biográficos, correspondências e fotografias relacionados à sua trajetória, enquanto o Arquivo Histórico da Presidência portuguesa registra condecorações e outros episódios de sua vida pública.

Uma história ainda aberta no Morro do Embaixador

Perguntar se Martinho Nobre de Melo pertence mais à história de Portugal ou à de Cabo Verde talvez reduza uma trajetória que se torna interessante justamente por atravessar diferentes realidades. Sua maior projeção institucional ocorreu em Portugal, onde foi professor, ministro, diplomata, intelectual e jornalista. Ao mesmo tempo, sua origem em Santo Antão e sua participação documentada nas primeiras organizações africanas fazem dele uma personagem relevante para compreender uma etapa da história política cabo-verdiana anterior à independência.

Isso não significa transformá-lo em herói nacional cabo-verdiano ou precursor direto de Amílcar Cabral. Sua importância está em outro lugar: na possibilidade de observar as contradições de uma geração africana formada dentro do sistema colonial, que reivindicava direitos e discutia identidade e racismo enquanto ainda mantinha relações políticas e culturais profundas com Portugal. A própria evolução de Nobre de Melo, da causa africana aos centros do poder português, é uma demonstração dessas ambiguidades.

Talvez uma das partes mais importantes dessa história ainda esteja fora dos grandes arquivos portugueses. Está no próprio Morro do Embaixador. Quem construiu o casarão? Como Nobre de Melo chegou à propriedade? Quem trabalhava e vivia no seu entorno? Existem fotografias ou documentos guardados? Quando a comunidade começou a chamar aquele lugar de Morro do Embaixador? Essas perguntas colocam os moradores de São João de Meriti também como fontes de uma investigação que pode conectar documentação oficial e memória oral.

De Santo Antão à Baixada Fluminense, Martinho Nobre de Melo percorreu uma trajetória atravessada pelas principais disputas políticas e identitárias de seu tempo. Participou da causa africana em sua juventude, tornou-se ministro português, acompanhou o Brasil de dentro da diplomacia e deixou seu nome associado a um território que hoje preserva a memória de João Cândido. Mais do que transformá-lo em personagem sem contradições, investigar essa trajetória permite compreender como África, Portugal e Brasil estiveram conectados durante o século XX — e como uma parte dessa história acabou ganhando endereço em São João de Meriti.

Um africano “filho da viúva”

Há ainda outra dimensão de sua trajetória: Martinho Nobre de Melo foi maçom. Registros biográficos baseados no Dicionário da Maçonaria Portuguesa, do historiador A. H. de Oliveira Marques, apontam que ele foi iniciado em 1912 na Loja Fiat Lux, em Lisboa, vinculada ao Grande Oriente Lusitano Unido, adotando o nome simbólico de Ibsen. Uma pesquisa sobre sua passagem pela instituição, que afirma ter consultado arquivos do Grande Oriente Lusitano, registra que Nobre de Melo pediu o chamado Quite Placet em 1915, documento relacionado ao desligamento regular de uma loja maçônica, e informa não ter localizado outros registros posteriores de sua atividade maçônica. A passagem pela Maçonaria acrescenta mais uma camada à formação intelectual e política de um personagem que circulou por diferentes ambientes de seu tempo — das organizações ligadas à causa africana à universidade, à política, à diplomacia e à imprensa —, embora as fontes consultadas não permitam afirmar que sua filiação maçônica tenha determinado suas posições políticas posteriores.

Uma memória que também faz parte da minha trajetória

Minha relação com essa história começou muito antes da inauguração do Museu Marinheiro João Cândido. A primeira vez que estive no local, a antiga Casa do Embaixador ainda estava em ruínas. em 2019. Desde então, acompanhei de perto as mobilizações pela recuperação daquele patrimônio e pela valorização da memória de João Cândido. Ao longo desse caminho, também pude contribuir para articulações institucionais e para a elaboração de textos e propostas voltados ao reconhecimento de sua trajetória. Pela ComCausa – Defesa da Vida, essa caminhada já soma cerca de vinte anos de mobilização de integrantes do movimetno social pelo museu.

Mas é fundamental registrar que essa história começou bem antes. Ela é resultado, sobretudo, da persistência da família de João Cândido, que há quatro gerações luta para que sua memória não seja apagada e para que o país reconheça a dimensão histórica do Almirante Negro. Ao longo dos anos, familiares, pesquisadores, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e pessoas comprometidas com essa causa mantiveram viva uma história que durante muito tempo permaneceu à margem das narrativas oficiais. O museu, a recuperação do casarão e o crescente reconhecimento de João Cândido precisam ser compreendidos como parte dessa construção coletiva e intergeracional.

Hoje, ao pesquisar a trajetória de Martinho Nobre de Melo e descobrir novas conexões entre Santo Antão, Portugal, Brasil e o Morro do Embaixador, percebo que ainda há muito a ser revelado naquele território. A casa que conheci em ruínas tornou-se um lugar onde diferentes camadas da história se encontram. Minha expectativa é que essa investigação continue envolvendo moradores, jovens, familiares de João Cândido, pesquisadores e instituições de Cabo Verde, Brasil e Portugal. Preservar esse patrimônio, para mim, não significa apenas olhar para o passado. Significa garantir que as próximas gerações possam conhecer essa história, questioná-la, produzir novas pesquisas e compreender que a memória também é uma forma de reconhecimento, cidadania e defesa da vida.

Republicada em 2026: Matéria original de dezembro de 2026 por Adriano Dias.

Fontes utilizadas na reportagem: Manuel Brito-Semedo, A Construção da Identidade Nacional — Análise da Imprensa entre 1877 e 1975; Pedro Varela e José Augusto Pereira, estudos sobre as origens do movimento negro em Portugal publicados pela Revista de História da USP; Arquivo Histórico da Presidência da República Portuguesa; Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa; Academia das Ciências de Lisboa; pesquisas de Priscila Musquim Alcântara de Oliveira e Leandro Pereira Gonçalves; estudos de Carmem Genilda Burgert Schiavon; RTP Arquivos; Hemeroteca Municipal de Lisboa; Prefeitura de São João de Meriti; e cobertura jornalística do Site da Baixada sobre o Casarão do Embaixador e o Museu Marinheiro João Cândido.

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