ComCausa Defesa da Vida está preparando uma proposta para o Edital Brasil Arquivos 2026, iniciativa vinculada ao Arquivo Nacional, com o objetivo de fortalecer ações de preservação, organização, digitalização e difusão de acervos documentais de relevância histórica, social e cultural para o país.

A proposta em elaboração terá como foco o Memorial João Cândido, iniciativa voltada à valorização da memória de João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata e uma das principais referências populares da luta contra o racismo, contra a violência institucional e pela dignidade humana no Brasil.

ComCausa entende que preservar a memória de João Cândido é também contribuir para uma reparação histórica ainda incompleta. Sua trajetória foi marcada pela coragem, pela liderança e pela defesa da dignidade dos marinheiros negros e pobres submetidos a castigos físicos e práticas herdadas do período escravista. No entanto, após a Revolta da Chibata, João Cândido sofreu perseguições, apagamentos e injustiças que atingiram não apenas sua vida, mas também sua família e sua memória pública.

Nesse sentido, a proposta pretende dialogar com a luta histórica pela reparação à família de João Cândido e pelo reconhecimento oficial de sua importância para o Brasil. A memória do Almirante Negro não pode ser tratada apenas como um episódio isolado do passado, mas como parte de uma dívida histórica do Estado brasileiro com a população negra, com os trabalhadores pobres, com os movimentos populares e com todos aqueles que enfrentaram estruturas de violência, racismo e exclusão.

A proposta também se conecta à defesa da criação e fortalecimento de espaços permanentes de memória, como museus, memoriais, centros de referência e acervos públicos dedicados à história de João Cândido, da Revolta da Chibata e das lutas negras no Brasil. A ComCausa considera que um museu ou memorial dedicado a João Cândido deve ser compreendido como um instrumento de educação pública, reparação simbólica, valorização da cultura afro-brasileira e democratização do acesso à história.

Ao longo dos anos, familiares, pesquisadores, movimentos negros, organizações sociais, educadores, parlamentares, artistas, militantes de direitos humanos e diversas iniciativas populares têm mantido viva a luta pelo reconhecimento de João Cândido. Esses movimentos enfrentam o apagamento histórico e reivindicam que o país reconheça a grandeza de sua trajetória, a injustiça cometida contra sua memória e a necessidade de transformar essa história em patrimônio vivo da sociedade brasileira.

Por meio dessa proposta, a ComCausa pretende organizar e dar maior visibilidade a documentos, fotografias, registros audiovisuais, reportagens, materiais gráficos, publicações, peças de comunicação, conteúdos educativos e registros de atividades relacionados à memória de João Cândido, à Revolta da Chibata, à cultura afro-brasileira, à reparação histórica e às ações de educação em direitos humanos desenvolvidas pela instituição.

O projeto busca ir além da preservação física ou digital de documentos. A intenção é transformar o acervo em uma ferramenta pública de formação cidadã, acesso à informação, valorização da história negra brasileira e fortalecimento de uma cultura de direitos. Para a ComCausa, preservar a memória de João Cândido é contribuir para que novas gerações tenham acesso a uma leitura mais ampla, crítica e democrática da história do Brasil.

A trajetória de João Cândido representa uma marca profunda na história nacional. Sua liderança na Revolta da Chibata colocou em evidência a resistência de marinheiros negros e pobres contra práticas violentas e desumanas. Ao mesmo tempo, sua memória revela como o país historicamente silenciou, perseguiu ou invisibilizou lideranças populares que enfrentaram estruturas de opressão.

Entre as ações previstas estão o levantamento e diagnóstico do acervo existente, a organização documental, a seleção de materiais prioritários, a digitalização de documentos e imagens, a catalogação dos itens, a criação de instrumentos de consulta, a disponibilização pública de parte do acervo em ambiente digital e a realização de atividades de difusão, como rodas de conversa, ações educativas, exposição virtual ou encontros públicos sobre memória, direitos humanos, reparação histórica e reconhecimento de João Cândido.

A proposta também poderá contribuir para aproximar estudantes, educadores, pesquisadores, movimentos sociais, lideranças comunitárias e a população em geral da história de João Cândido e da Revolta da Chibata, fortalecendo o acesso democrático à memória e estimulando o reconhecimento de trajetórias negras que ajudaram a construir o Brasil.

Com essa iniciativa, a ComCausa reafirma que memória também é uma forma de defesa da vida. Preservar arquivos, documentos e registros populares é proteger histórias que muitas vezes não foram devidamente reconhecidas pelas instituições oficiais, mas que carregam experiências fundamentais de resistência, dor, luta, organização coletiva e esperança.

Ao preparar sua proposta para o Arquivo Nacional, a ComCausa Defesa da Vida reforça seu compromisso com a preservação da memória social, a reparação histórica, a igualdade racial, a educação cidadã e a construção de uma sociedade mais justa, democrática e comprometida com os direitos humanos.

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