Em 20 de abril, o assassinato de Galdino Jesus dos Santos completa mais um ano e segue como um dos episódios mais brutais da violência contra os povos indígenas no Brasil. Líder pataxó hã-hã-hãe, Galdino foi atacado enquanto dormia em uma parada de ônibus na Asa Sul, em Brasília, depois de participar de mobilizações indígenas na capital federal. Na madrugada de 20 de abril de 1997, cinco jovens atearam fogo em seu corpo com álcool. Ele morreu horas depois, aos 44 anos, em decorrência das queimaduras.
Galdino estava em Brasília com outras lideranças indígenas para defender a recuperação da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, no sul da Bahia, área marcada por conflitos fundiários históricos. Segundo os registros sobre o caso, ele havia participado de reuniões e atividades ligadas ao então Dia do Índio, celebrado em 19 de abril. Como chegou tarde ao local onde estava hospedado, não conseguiu entrar na pensão e decidiu passar a noite em um abrigo de ônibus na Quadra 704 Sul. Foi ali que sofreu o ataque.
O crime provocou comoção nacional imediata e se transformou em símbolo da desumanização sofrida por indígenas no espaço urbano. A imagem de um líder indígena queimado vivo, em plena capital do país, depois de um dia de reivindicações por direitos territoriais, deu ao caso um peso político que ultrapassou a esfera criminal. Não se tratava apenas de uma morte violenta, mas de um episódio que passou a representar a vulnerabilidade de povos originários diante do racismo, da exclusão e da naturalização da violência. Essa leitura permanece atual quase três décadas depois.
O território cuja defesa levou Galdino a Brasília também ajuda a explicar a dimensão histórica do caso. A Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu foi reconhecida pelo governo baiano em 1926 e demarcada em 1938, mas sofreu ocupação irregular por não indígenas ao longo de décadas. Em 2012, o Supremo Tribunal Federal declarou nulos os títulos privados incidentes sobre a área. Em 2025, a Funai informou a conclusão do pagamento de indenizações a ocupantes não indígenas de boa-fé, classificando o encerramento desse processo fundiário como um marco para a posse plena do território pelos Pataxó Hã-Hã-Hãe. A própria autarquia associou esse avanço à memória de Galdino como símbolo da luta do povo.
Na esfera judicial, o caso também marcou a história do sistema de Justiça brasileiro. A denúncia relatou que Galdino dormia na parada de ônibus quando os agressores atearam fogo usando álcool combustível. Inicialmente, houve entendimento de que o caso poderia ser enquadrado como lesão corporal seguida de morte, sob a tese de que os jovens queriam apenas “dar um susto”. O Ministério Público recorreu. O processo avançou, os réus foram submetidos ao Tribunal do Júri e, em 6 de novembro de 2001, os quatro acusados maiores de idade foram condenados a 14 anos de reclusão em regime integralmente fechado por homicídio qualificado. O quinto envolvido era menor de idade na época e respondeu conforme as regras aplicáveis a adolescentes.
A expressão “dar um susto”, usada pelos acusados para tentar justificar o ataque, entrou para a memória pública do caso como síntese de um discurso de banalização extrema da violência. A repercussão foi ainda maior porque os autores pertenciam a famílias de alto poder aquisitivo em Brasília, o que alimentou críticas sobre tratamento desigual no sistema penal e sobre a distância entre a gravidade do crime e a resposta institucional percebida por parte da sociedade. Ao longo dos anos, benefícios penais, pedidos de reabilitação e novos episódios envolvendo um dos condenados reforçaram a sensação de impunidade entre familiares, organizações indígenas e defensores de direitos humanos.
O peso simbólico do caso cresceu justamente porque ele condensou várias camadas de violência. Galdino foi morto fora de sua terra, em um momento de mobilização política, depois de cobrar direitos territoriais historicamente negados ao seu povo. A crueldade do ataque, a origem social dos autores e a tentativa de reduzir o crime a uma “brincadeira” ampliaram a percepção de que a vida indígena era tratada como descartável. Essa dimensão explica por que o nome de Galdino segue sendo lembrado em debates sobre racismo estrutural, direitos indígenas e memória.
A memória do assassinato ganhou nova marca pública em 19 de abril de 2023, quando a antiga Praça do Compromisso, em Brasília, foi reinaugurada com o nome de Praça Índio Pataxó Galdino Jesus dos Santos. No local, foi instalado emplacamento oficial e mantido o monumento criado por Siron Franco em 1997, posicionado próximo ao ponto de ônibus onde ocorreu o ataque. A reinauguração transformou o espaço em lugar permanente de lembrança, denúncia e reconhecimento histórico.
O caso permanece relevante em 2026 porque as condições que o cercam não desapareceram. Conflitos fundiários, violência contra lideranças indígenas, discriminação racial e dificuldade de reparação continuam presentes no país. Recontar a história de Galdino, portanto, não é apenas revisitar uma tragédia de 1997. É lembrar que o assassinato de um indígena em Brasília, depois de um dia de reivindicação por direitos, ainda serve de alerta sobre falhas persistentes do Estado e da sociedade brasileira diante da proteção dos povos originários.
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