No último fim de semana, participei, no Pontal da Lapa, em São Paulo, do Hardcore Contra o Fascismo, e saí de lá profundamente tocado. Não apenas pela potência do evento em si, pela qualidade política e humana da atividade, pela força das bandas, dos expositores, das produtoras e dos produtores, ou pela presença marcante de Padre Júlio Lancellotti, mas por algo talvez ainda maior: a sensação viva de reencontro com uma cultura que me formou há mais de quarenta anos e que continua de pé, pulsando, resistindo e mobilizando consciências.
O que aconteceu ali foi bonito, necessário e historicamente relevante. Centenas de pessoas de várias gerações ocuparam aquele espaço para afirmar que a cultura independente segue sendo um dos lugares mais férteis da resistência política, da solidariedade concreta e da recusa ao fascismo. Em tempos ainda atravessados pelos efeitos de anos de brutalização da vida pública, pelo envenenamento do debate político e pela tentativa de naturalizar o ódio, o encontro teve a força de uma resposta coletiva, ética e profundamente humana.
Um evento que foi muito além da música
O Hardcore Contra o Fascismo não foi apenas um show, nem apenas uma reunião de bandas e falas políticas. Foi um encontro de ideias, de memória, de compromisso coletivo e de pertencimento. Havia ali música, claro, e muita intensidade. Mas havia também algo mais raro: um sentimento compartilhado de que a cultura ainda pode ser instrumento de formação, de vínculo, de indignação e de esperança.
A presença dos expositores, a circulação de materiais, a força da cena independente, a participação das bandas e o perfil de um público atento, consciente e solidário deram ao evento uma dimensão muito especial. A doação de alimentos como forma de entrada reforçou ainda mais esse espírito. Nada ali estava dissociado da vida real. Tudo apontava para um mesmo horizonte: o de uma cultura que não se fecha em si mesma, que não vive de pose, que não se esgota na estética, mas que escolhe se comprometer com a dignidade humana.
Foi justamente isso que me emocionou. Ver reunidas tantas pessoas diferentes, de gerações diferentes, de trajetórias diferentes, mas conectadas por uma mesma compreensão de mundo: a de que resistir não é apenas denunciar. Resistir também é criar, partilhar, cuidar e permanecer de pé.
A cultura punk como formação ética e política
Para quem viveu a cultura punk e hardcore não como moda, mas como experiência formadora, encontros assim têm uma dimensão ainda mais profunda. A cultura punk, no Brasil, sempre foi muito mais do que música. Ela foi escola informal, território de acolhimento, lugar de choque contra a hipocrisia, espaço de denúncia da desigualdade, crítica radical ao autoritarismo e afirmação de autonomia diante de uma sociedade excludente, violenta e profundamente marcada pelas hierarquias.
Muita gente de fora olha para o punk e o hardcore apenas pela superfície: o ruído, a pressa, a agressividade estética, a recusa às convenções. Mas quem conhece essa história por dentro sabe que há ali uma ética. Uma ética da independência, do faça-você-mesmo, da solidariedade, da coerência entre fala e prática e da recusa em se ajoelhar diante do poder. Foi essa cultura que ajudou a formar gerações inteiras, inclusive a minha. E foi essa cultura que vi, mais uma vez, viva em São Paulo no último fim de semana.
Não se tratava de nostalgia. Não era um reencontro melancólico com um passado idealizado. Era outra coisa: a constatação de que essa cultura segue viva porque continua necessária. E continua necessária porque o mundo segue produzindo injustiça, violência, abandono e tentativas permanentes de domesticar a rebeldia.
O hardcore antifascista no Brasil e sua história de enfrentamento
A história do hardcore antifascista no Brasil não é recente, nem superficial. Ela vem sendo construída há décadas, a partir de experiências muito concretas de enfrentamento ao autoritarismo, à violência policial, ao racismo, à desigualdade e à presença de grupos reacionários e neonazistas em espaços juvenis e urbanos. Desde os anos 1980, quando o punk e o hardcore se consolidaram no país em meio às marcas ainda abertas da ditadura, à precariedade das periferias e à brutalidade das instituições, a cena já carregava em si um impulso de negação do autoritarismo e de denúncia da opressão.
Em muitas cidades brasileiras, o hardcore não foi apenas trilha sonora de revolta. Foi também uma rede concreta de produção cultural, sociabilidade e consciência política. Os fanzines, os selos independentes, os shows autogeridos, os espaços alternativos e a circulação de materiais criaram uma forma própria de organização. Era uma cultura feita à margem do mercado, mas cheia de sentido político. E, justamente por isso, profundamente viva.
Com o passar dos anos, a luta antifascista dentro da cena foi ganhando contornos mais definidos. Não por modismo, não por importação vazia de palavras de ordem, mas porque a realidade exigiu. Em vários momentos, foi preciso enfrentar grupos que tentavam introduzir na cena práticas racistas, misóginas, homofóbicas, nacionalistas autoritárias e violentas. O antifascismo, nesse contexto, não apareceu como adereço ideológico. Surgiu como necessidade concreta de proteger pessoas, preservar espaços e afirmar uma fronteira ética clara.
A retomada da força antifascista diante do bolsonarismo
Nos últimos anos, essa tradição voltou a ganhar força de maneira ainda mais explícita. Durante o governo Bolsonaro, e especialmente diante da escalada do discurso autoritário, das ameaças recorrentes às instituições democráticas, da exaltação da ditadura e do ambiente de violência política que se espalhou pelo país, o movimento hardcore antifascista no Brasil voltou a se fortalecer com novo ímpeto.
Isso aconteceu porque muita gente percebeu, de forma dramática, que o fascismo não era uma abstração distante nem uma lembrança de livros de história. Ele se reapresentava no cotidiano, no discurso público, na perseguição aos diferentes, na naturalização da tortura, no elogio à ditadura, no ataque aos direitos humanos, no incentivo à violência policial e na tentativa de converter brutalidade em projeto político.
Diante desse cenário, a cena punk e hardcore reagiu. Reagiu nas letras, nas falas de palco, nos eventos beneficentes, nos encontros políticos, na reorganização de redes independentes e na afirmação mais clara de uma identidade antifascista. Houve uma retomada de energia, de articulação e de posicionamento. Não por oportunismo, mas porque o momento exigia firmeza moral e resposta coletiva.
Nesse sentido, o Hardcore Contra o Fascismo que vivi em São Paulo não foi um fato isolado. Ele é parte dessa retomada. Parte de um movimento que entendeu que, diante da ameaça real de retrocessos autoritários e até mesmo da sombra de novas aventuras golpistas, não havia espaço para omissão. Era preciso dizer, com todas as letras, de que lado se está.
Padre Júlio e a lição viva do compromisso com os mais vulneráveis
Um dos momentos mais fortes do encontro foi, sem dúvida, a participação de Padre Júlio Lancellotti. Para mim, ele é uma das grandes luzes de resistência e coragem do nosso tempo, uma referência viva que atravessa gerações e nos ensina, com a própria caminhada, o significado real do compromisso com os mais vulneráveis.
Sua presença no evento teve uma força imensa. E uma das coisas que mais me impressionaram foi ver a maneira como os jovens presentes o ouviam: com atenção, respeito e um tipo de escuta que, hoje, se tornou rara. Ali estava uma figura que já entrou para a história de São Paulo e do Brasil, não porque buscou esse lugar, mas porque escolheu, cotidianamente, estar ao lado dos que sofrem, dos que são invisibilizados, dos que são tratados como descartáveis.
Ver aquela juventude diante dele, ouvindo com seriedade e afeto, foi uma das imagens mais belas do dia. Porque mostrava que ainda existe transmissão de valores, ainda existe escuta, ainda existe disposição de aprender com quem fez da vida uma prática radical de humanidade.
A força das bandas, dos expositores e da organização
Também seria injusto não destacar a grandeza de todos os que fizeram o evento acontecer. As bandas participantes deram corpo e energia àquilo que o encontro defendia. As produtoras e os produtores mostraram o valor insubstituível da organização independente. Os expositores ajudaram a transformar o espaço em um território de circulação de memória, ideias e produção cultural. E o público, numeroso e consciente, deu ao encontro a sua alma mais generosa.
Há eventos que são apenas bem organizados. E há eventos que, além disso, têm verdade. O Hardcore Contra o Fascismo tinha verdade. Havia ali coerência entre proposta e prática, entre discurso e ambiente, entre indignação e cuidado. Isso fez toda a diferença.
Mesmo sem conseguir permanecer até o final, e tendo feito apenas alguns registros do início da atividade, saí de lá com a convicção de ter testemunhado algo importante. Algumas das imagens que circularam depois, feitas também por outras pessoas presentes, ajudam a registrar essa força. Mas, sinceramente, há coisas que as fotos não conseguem captar por inteiro. Uma delas é o clima moral do encontro. A outra é o tipo de emoção que nasce quando uma cultura mostra que continua viva não apenas em sua estética, mas em sua capacidade de mobilizar consciência.
O que ficou de São Paulo
O que aconteceu no último fim de semana em São Paulo foi um lembrete poderoso de que a cultura punk e o hardcore seguem sendo, no Brasil, muito mais do que gêneros musicais. Seguem sendo espaços de formação, de contestação, de solidariedade e de resistência organizada. E, em sua vertente antifascista, continuam cumprindo um papel decisivo num país que ainda carrega feridas profundas do autoritarismo e que, há muito pouco tempo, voltou a se ver ameaçado por discursos de ruptura, violência e ditadura.
O Hardcore Contra o Fascismo foi, por isso, um encontro necessário. Necessário politicamente. Necessário humanamente. Necessário culturalmente. Foi uma demonstração de que ainda há muita gente disposta a sentir, pensar, agir e seguir resistindo.
E isso, hoje, vale muito.
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