A antiga Casa de Saúde Dr. Eiras, em Paracambi, na Baixada Fluminense, foi definitivamente fechada em 23 de março de 2012, após um longo processo de denúncias, intervenção pública e desativação progressiva. O encerramento marcou o fim de uma das instituições psiquiátricas mais emblemáticas do estado do Rio de Janeiro e consolidou um capítulo central da reforma psiquiátrica fluminense.
Durante décadas, o Dr. Eiras ocupou lugar de destaque no sistema de assistência em saúde mental, recebendo pacientes de diferentes municípios e funcionando dentro da lógica de internação de longa permanência. Com o passar dos anos, no entanto, a unidade passou a ser associada a denúncias de maus-tratos, abandono, superlotação e violações de direitos humanos, tornando-se símbolo do modelo manicomial combatido por movimentos sociais, profissionais da saúde e defensores da luta antimanicomial.
No início dos anos 2000, a situação da instituição já era tratada como crítica. O hospital concentrava parte expressiva dos leitos psiquiátricos da região e refletia um modelo baseado no isolamento de pessoas em sofrimento psíquico, muitas vezes afastadas do convívio familiar e comunitário por períodos prolongados. O caso ganhou repercussão por expor não apenas a precariedade da estrutura, mas também a permanência de práticas incompatíveis com os princípios de cuidado em liberdade defendidos pela reforma psiquiátrica brasileira.
A partir das denúncias e da pressão de órgãos públicos e da sociedade civil, o Dr. Eiras entrou em um processo de intervenção e desmobilização. Em 2004, a unidade sofreu intervenção articulada entre diferentes esferas do poder público e deixou de receber novas internações. Nos anos seguintes, o processo de transferência dos pacientes foi intensificado, dentro de uma política de substituição do hospital psiquiátrico por serviços comunitários e residências terapêuticas.
Em 2009, a desativação da unidade avançou com a determinação de transferência dos internos e a consolidação do fechamento como parte das novas diretrizes de saúde mental. O encerramento definitivo ocorreu em 23 de março de 2012, quando os últimos pacientes deixaram a instituição. A partir dali, o município passou a ser reconhecido também como espaço de transição entre o antigo modelo asilar e a construção de uma rede territorial de atenção psicossocial.
Mesmo depois do fechamento, o antigo complexo do Dr. Eiras permaneceu como referência histórica e simbólica para o debate sobre violações cometidas em instituições psiquiátricas no Brasil. O local segue mobilizando pesquisadores, militantes, comunicadores e organizações de direitos humanos interessados em preservar a memória do que aconteceu dentro de seus muros e em evitar que práticas semelhantes se repitam.
Foi nesse contexto que a ComCausa visitou as antigas instalações do Dr. Eiras em 13 de março de 2021, em uma agenda voltada ao resgate histórico e à reflexão pública sobre o legado do manicômio em Paracambi. A visita integrou uma série de ações desenvolvidas pela organização em torno do tema, incluindo pesquisas, atividades e matérias jornalísticas sobre o Manicômio Dr. Eiras, reforçando a importância de manter viva a discussão sobre memória, direitos humanos e política de saúde mental.
A iniciativa buscou recuperar não apenas a história física do espaço, mas também o significado social e político do antigo hospital. Ao revisitar o local e produzir conteúdo sobre sua trajetória, a ComCausa contribuiu para recolocar em pauta um tema que permanece atual: a necessidade de vigilância permanente diante de retrocessos nas políticas públicas de saúde mental e da defesa do cuidado em liberdade.
Mais de uma década após o fechamento, o Dr. Eiras continua sendo lembrado como um marco de um período em que o sofrimento psíquico foi tratado a partir da segregação, e não da inclusão. O encerramento do hospital, em 23 de março de 2012, representou o fim formal de uma estrutura manicomial histórica, mas também consolidou o local como memória viva da luta antimanicomial no estado do Rio de Janeiro.
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