Paulo Reglus Neves Freire faleceu às 6h53 do dia 2 de maio de 1997, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, aos 75 anos de idade. A causa foi um ataque cardíaco, em decorrência de complicações de uma cirurgia para desobstrução das artérias. A morte encerrou uma vida marcada pela luta em defesa de uma educação libertadora, mas não interrompeu o legado que o consagrou como um dos maiores pensadores da pedagogia crítica em escala global.
No dia 26 de novembro de 2009, em ato simbólico realizado no Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica em Brasília, o Estado brasileiro, por intermédio do Ministério da Justiça e da Comissão de Anistia, pediu perdão público post mortem à viúva Ana Maria Araújo Freire, reconhecendo as violações cometidas contra Paulo Freire durante a ditadura militar, com o pagamento de reparação econômica simbólica à sua família.
Infância, juventude e formação intelectual
Nascido em 19 de setembro de 1921, no Recife, capital de Pernambuco, Paulo Freire cresceu em uma família de classe média que enfrentou profundas dificuldades econômicas durante a crise de 1929. As experiências com a fome e a exclusão marcaram profundamente sua percepção sobre as desigualdades sociais e, futuramente, fundamentariam sua concepção de que “a educação é um ato político”.
Estudou Direito, mas nunca exerceu a profissão. Preferiu lecionar língua portuguesa em escolas secundárias e, posteriormente, envolver-se com psicologia da educação, linguística e filosofia. Ainda jovem, iniciou os primeiros ensaios do que viria a ser o seu método de alfabetização de adultos baseado no diálogo, na escuta e na valorização do saber popular.
O método que alfabetizou com dignidade
A primeira grande experiência pedagógica de Freire foi em 1962, em Angicos, no Rio Grande do Norte. Ali, em apenas 45 dias, 300 trabalhadores rurais foram alfabetizados. Esse feito ganhou atenção nacional e levou o governo do presidente João Goulart a anunciar um ambicioso Plano Nacional de Alfabetização com base no método Paulo Freire. O golpe militar de 1964, porém, interrompeu esse processo e resultou em sua prisão por 70 dias.
Após a prisão, Paulo Freire foi obrigado a deixar o país. Viveu na Bolívia, no Chile (onde atuou em programas de reforma agrária do governo democrata-cristão), nos Estados Unidos (como professor visitante em Harvard entre 1969 e 1970), e depois na Suíça, onde passou a integrar o Conselho Mundial de Igrejas em Genebra. Nessa função, assessorou projetos de educação popular em países da África, América Latina e Ásia por mais de uma década.
Reconhecimento global e retorno ao Brasil
Freire retornou ao Brasil em 1980, com a anistia política. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e, entre 1989 e 1991, assumiu a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina. Durante esse período, criou o MOVA-SP (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos), que articulava a ação do poder público com organizações da sociedade civil e movimentos populares.
Em 2012, foi reconhecido oficialmente como Patrono da Educação Brasileira, por meio da Lei nº 12.612, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff. Seu pensamento passou a ser incorporado como eixo estruturante da política educacional voltada à inclusão, à cidadania e à justiça social.
Reconhecimento e impacto internacional
Paulo Freire é um dos brasileiros mais homenageados em todo o mundo. Recebeu mais de 41 títulos de Doutor Honoris Causa, incluindo das universidades de Harvard, Cambridge, Oxford, La Habana, e Bolonha. Também foi agraciado com o Prêmio UNESCO de Educação para a Paz, em 1986.
Em 2016, um levantamento do projeto Open Syllabus Project analisou mais de um milhão de programas universitários em países como Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, revelando que Pedagogia do Oprimido era o 99º livro mais citado — sendo o único autor brasileiro entre os cem primeiros. Nas áreas da educação e das ciências humanas, o livro aparece entre os três mais mencionados.
Na África do Sul, seu método teve papel central no movimento de Consciência Negra que enfrentou o apartheid. Nos Estados Unidos, inspirou o movimento de matemática radical, que une educação matemática com justiça social. Freire também é citado como referência nas pedagogias feministas, antirracistas, indígenas e decoloniais ao redor do mundo.
O método vivo no século XXI
O método de Paulo Freire segue vivo em diversas partes do mundo. A Revere High School, em Massachusetts (EUA), foi eleita em 2014 como a melhor escola pública de ensino médio do país, adotando práticas freireanas para integrar estudantes imigrantes e de baixa renda. Em 2015, foi premiada pelo “Schools of Opportunity” por realizar ações excepcionais em contextos de vulnerabilidade social.
Na Alemanha, seu pensamento é utilizado na formação de educadores que trabalham com refugiados, pacientes com Alzheimer e na educação infantil. A cidade de Parchim tem uma escola primária com seu nome, assim como Berlim abriga uma escola técnica Paulo Freire. Em 2024, a Universidade de Hamburgo sediou o Congresso Internacional Paulo Freire, reunindo educadores e pesquisadores de todo o mundo.
Na Finlândia, considerada referência mundial em educação, as influências freireanas aparecem na valorização da escuta ativa, na centralidade da experiência do aluno e na pedagogia do diálogo — marcas estruturantes de seu modelo educacional.
Uma vida dedicada à libertação
Paulo Freire escreveu mais de 30 livros, sendo Pedagogia do Oprimido o mais célebre, publicado originalmente em 1968, no exílio chileno. Outras obras fundamentais incluem Educação como Prática da Liberdade, Ação Cultural para a Liberdade, Pedagogia da Esperança, Pedagogia da Autonomia e Cartas à Guiné-Bissau.
Sua concepção de educação está baseada na crença de que todo ser humano é capaz de refletir criticamente sobre sua realidade e transformá-la. Para Freire, não existe neutralidade na educação: ensinar é um ato político e deve ser exercido com amor, compromisso e respeito ao saber do outro.
“Eles passarão; Paulo Freire é eterno”
Mais de 350 instituições educacionais em diferentes continentes levam o nome de Paulo Freire. Seus livros seguem sendo publicados em dezenas de idiomas, seus pensamentos continuam alimentando políticas públicas, movimentos sociais, currículos escolares e universitários.
Não é raro ouvir que “Paulo Freire não estudou em Harvard; Harvard é que estudou Paulo Freire”. Seu pensamento não apenas sobrevive — ele floresce.
Por isso, afirmar seu legado é defender o direito de aprender com dignidade, com diálogo e com consciência crítica. É manter viva a esperança de que a educação pode ser uma ferramenta de emancipação — e não de dominação. Paulo Freire vive, ensina e inspira.
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