Chuvas fortes, enchentes, secas, ondas de calor e deslizamentos podem ter origem natural ou climática, mas o desastre social é produzido por desigualdades. No Brasil, a exposição aos riscos ambientais atinge de forma mais intensa populações negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, periféricas e moradoras de favelas.
A frase “desastre não é natural” resume essa diferença. Uma tempestade não afeta todos da mesma forma. Quem vive em áreas com drenagem, saneamento, moradia segura e acesso rápido a serviços públicos tem mais proteção. Já quem mora em encostas, margens de rios, bairros sem infraestrutura e casas precárias enfrenta maior risco de perder bens, adoecer ou morrer.
Essa desigualdade tem cor, território e classe. O racismo ambiental aparece quando grupos historicamente excluídos são empurrados para áreas mais vulneráveis, com menor presença do Estado e maior exposição a riscos climáticos. O problema resulta de urbanização excludente, especulação imobiliária, ausência de política habitacional, segregação racial e abandono público.
Os números mostram a dimensão do problema. Em 2022, 3% da área urbana brasileira estava em regiões de risco. Nas favelas, o índice chegava a 18%, seis vezes mais. Outro levantamento aponta que cerca de 66% das pessoas que vivem em áreas urbanas de risco no país são negras.
Nas favelas, o risco climático aparece em enchentes causadas pela falta de drenagem, deslizamentos em encostas sem contenção, doenças após alagamentos, perda de móveis e documentos, interrupção de aulas e trabalho, calor extremo em casas mal ventiladas, pouca arborização e dificuldade de acesso à água.
No Rio de Janeiro, comunidades também enfrentam ilhas de calor agravadas por excesso de concreto, ausência de áreas verdes e moradias sem conforto térmico. Em alguns territórios, a sensação térmica pode ultrapassar 60 °C, ampliando riscos à saúde, especialmente para crianças, idosos, pessoas com deficiência e trabalhadores expostos ao sol.
Responsabilizar o modelo de cidade é parte central desse debate. A chuva cai sobre todos, mas o alagamento permanente, a casa que desaba, o alerta que não chega, a falta de abrigo e a reconstrução que nunca vem são consequências políticas. O desastre começa antes do evento climático, quando o poder público falha em garantir moradia digna, saneamento, contenção de encostas, drenagem e planejamento urbano.
A prevenção exige justiça climática. Isso inclui urbanização de favelas, saneamento básico, obras de drenagem, reflorestamento urbano, moradia segura, sistemas de alerta acessíveis, participação comunitária e políticas de reparação racial. Também exige abandonar a lógica que culpa moradores por viverem em áreas de risco, quando muitos foram excluídos do mercado formal de moradia.
O racismo ambiental revela que a crise climática aprofunda desigualdades antigas. Enfrentar desastres no Brasil não depende apenas de obras emergenciais ou alertas meteorológicos. Exige garantir direito à cidade, à moradia, à saúde, à vida e ao futuro para populações historicamente colocadas nas zonas de maior perigo.
Campanha “A Chuva Não Mata Sozinha: Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro”
Esta matéria faz parte da campanha “A Chuva Não Mata Sozinha: Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro” é uma iniciativa da organização ComCausa Defesa da Vida, realizada entre 18 e 25 de maio de 2026, com ações de mobilização social, educação comunitária e comunicação digital voltadas à prevenção de desastres climáticos em periferias e áreas de risco.
A proposta integra a 9ª Campanha Nacional #AprenderParaPrevenir — Cidades Sem Risco, ligada ao debate sobre adaptação climática, redução de riscos e proteção da vida, em articulação com instituições como o Ministério das Cidades, Cemaden Educação/MCTI e MEC. A campanha defende que tragédias causadas pelas chuvas estão relacionadas à desigualdade urbana, à falta de saneamento, drenagem, moradia segura e políticas públicas de prevenção.
A campanha também vai lançar a cartilha eletrônica “A Chuva Não Mata Sozinha: Guia Popular de Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro”, além de cards educativos, vídeos, linha do tempo das tragédias climáticas.


