Em 22 de setembro de 2025, a comunidade de Taipu, em São João de Meriti, se despediu de Maria José Raimundo da Silva, a Dona Maria José, cuja trajetória se confunde com a própria história da Capela de Santa Rita de Lisieux, o pequeno castelinho, espaço que se tornou referência espiritual por décadas.

Nascida em 3 de agosto de 1935, Maria José foi convidada aos 30 anos de idade por João da Santa, fundador da capela, para assumir o trabalho de rezas e atendimentos que já atraíam multidões de devotos. O chamado que aceitou não foi apenas um convite, mas um destino que a transformou em guardiã de saberes ancestrais.

A vida dedicada ao castelinho

Todos os domingos, religiosamente, das 7h30 às 12h, as portas do castelinho se abriam, e lá estava Dona Maria José para acolher. Na tigela com água lia os impasses da vida de cada consulente; com ervas simples, iniciava cuidados básicos de saúde; e, com sua palavra firme e cheia de ternura, oferecia conselhos que iam além do alívio imediato, tornando-se fonte de equilíbrio espiritual para muitos.

O conhecimento que carregava não nasceu apenas de sua experiência pessoal, mas de uma herança de sangue e de fé: sua mãe e sua avó também eram rezadeiras. Essa linhagem feminina fez de Maria José a continuidade de uma tradição popular que atravessa gerações, guardando a memória de saberes que unem religiosidade, medicina natural e acolhimento humano.

Encastelada em sua missão

Relatos colhidos pela pesquisadora e estudante Andrea da Luz destacam que Maria José entendia sua presença no castelinho como missão. Para aceitar esse chamado, deixou para trás um filho em sua cidade natal — filho que nunca mais reencontrou. Ainda assim, nunca se permitiu abandonar o posto que acreditava ter sido escolhido para ocupar.

No conto “O castelinho e a velha princesa”, escrito por Andréa Gonçalves da Luz, essa fusão entre a rezadeira e o espaço sagrado ganha um tom poético: a autora descreve que já não era possível distinguir onde terminava Maria José e onde começava o castelinho, tamanha era a simbiose entre a velha senhora e as paredes de oração e milagres. O texto narra também a forma como ela mesma dizia ter chegado: “O senhor João me convidou pra eu vim aqui, mas pra quando ele voltasse, eu ía com ele, ele voltou mas me deixou foi aqui”

Assim viveu por seis décadas: encastelada, renunciando a sonhos simples como conhecer a praia — convite que chegou a recusar para não se afastar de sua missão.

Fragilidade e continuidade

Mesmo com o avançar da idade, manteve o compromisso até os 90 anos, quando uma queda a deixou acamada. Foi então que entregou simbolicamente a chave do castelinho à filha Luciana, pedindo-lhe que mantivesse as portas sempre abertas. Esse gesto representou mais que uma passagem de responsabilidade: foi o reconhecimento de que o legado da reza e do acolhimento deveria permanecer vivo, como parte inseparável da comunidade.

A despedida de uma princesa

No dia 22 de setembro de 2025, Maria José partiu, mas deixou gravada na memória coletiva a imagem de uma mulher que transformou sua vida em ofício espiritual. Sua história é um testemunho da força das rezadeiras no Brasil, mulheres que, longe dos espaços institucionais, são guardiãs de uma espiritualidade popular que cura, acolhe e aconselha.

Mais que uma rezadeira, Maria José foi uma velha princesa encastelada, como descreve o conto que eternizou sua memória, cuja vida se entrelaçou às paredes do castelinho até que ambas se tornassem uma só narrativa. Seu legado permanece vivo não apenas nos ritos que deixou à filha, mas também nas lembranças, nas histórias e nos símbolos que seguem inspirando gerações.

E como lembram os relatos de Andréa Gonçalves da Luz, Maria José não foi apenas uma mulher que rezava: “foi uma presença que encarnou uma tradição, uma guardiã de saberes que fez da sua vida um céu aberto, um canto sagrado em que tantos encontraram fé, cuidado e acolhida”.

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