Há exatos dez anos, o mundo parou diante da imagem do corpo do menino sírio Alan Kurdi, de apenas três anos, encontrado sem vida em uma praia da Turquia. Aquela foto, registrada no dia 2 de setembro de 2015, expôs em toda a sua brutalidade a face mais cruel da crise migratória que continua ceifando vidas até hoje.
Como ComCausa – Defesa da Vida, não podemos deixar que essa memória se perca. Alan não foi um caso isolado: ele foi uma das 3.771 pessoas que morreram naquele ano tentando atravessar o Mediterrâneo. Desde então, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), já são quase 29 mil migrantes mortos ou desaparecidos entre 2015 e 2025. Cada número desses é uma história interrompida, uma família destruída, um sonho que não chegou ao destino.
A foto de Alan comoveu governos e populações, levou a União Europeia a rever suas políticas, mas também abriu caminho para retrocessos. Em vez de fortalecer o acolhimento, muitos países apostaram na securitização e na externalização das fronteiras, transferindo responsabilidades para países como Turquia e Líbia, enquanto traficantes de pessoas continuaram lucrando com o desespero de milhares. O Mediterrâneo transformou-se, definitivamente, no maior cemitério de migrantes do planeta.
Uma década de tragédias: os números da morte no Mediterrâneo
O impacto da foto de Alan Kurdi gerou comoção mundial, mas não conseguiu reverter o cenário. Ao contrário: a travessia continuou sendo feita, e os números de mortos seguiram alarmantes. Dados do projeto Missing Migrants, vinculado à OIM, indicam que entre 2015 e 2025 mais de 28,9 mil migrantes morreram ou desapareceram no Mediterrâneo.
Evolução anual de mortos e desaparecidos:
- 2015: 3.771
- 2016: 5.096
- 2017: 3.139
- 2018: 2.337
- 2019: 1.885
- 2020: 1.449 (queda relativa, influenciada pela pandemia de Covid-19, mas ainda trágica)
- 2021: 2.062
- 2022: 2.411
- 2023: 3.041 (um dos anos mais letais desde 2016)
- 2024: 2.926
- 2025 (até agosto): cerca de 1.200
Total estimado 2015-2025: 28.900 mortes e desaparecimentos
Esses números revelam que, apesar do choque inicial provocado pela imagem de Alan Kurdi, as políticas adotadas ao longo da última década não foram capazes de reduzir de forma estrutural a mortalidade nas rotas migratórias.
Políticas migratórias: da comoção à securitização
A morte de Alan ocorreu no auge da chegada de refugiados às costas gregas, italianas e espanholas. Naquele momento, a chanceler alemã Angela Merkel anunciou que o país acolheria centenas de milhares de refugiados — gesto que marcou sua carreira política e gerou reações em toda a União Europeia.
No entanto, a solidariedade inicial deu lugar a um endurecimento progressivo. A UE passou a firmar acordos bilaterais com países como a Turquia (2016) e a Líbia, transferindo a responsabilidade pela contenção de migrantes em troca de bilhões de euros. O resultado prático foi o fortalecimento de patrulhas marítimas, a criação de centros de detenção em solo africano e a externalização das fronteiras europeias.
As medidas reduziram o fluxo em determinados momentos, mas também empurraram migrantes para rotas mais longas e perigosas, aumentando a letalidade das travessias.
Alan Kurdi: a história por trás da foto
A família Kurdi vivia na cidade síria de Kobane, uma das mais devastadas pela guerra civil que já dura mais de uma década. Após anos em campos de refugiados na Turquia, os pais de Alan tentaram visto humanitário para o Canadá, mas o pedido foi negado. Restou-lhes o caminho das rotas marítimas clandestinas operadas por redes de traficantes de pessoas.
Na madrugada de 2 de setembro de 2015, Alan, seu irmão Galip (5 anos) e seus pais embarcaram em um bote inflável superlotado rumo à ilha grega de Kos, a menos de 20 km da costa turca. A viagem, que deveria durar cerca de uma hora, terminou em tragédia quando uma onda virou a embarcação. Apenas o pai, Abdullah Kurdi, sobreviveu.
Desde então, Abdullah tornou-se porta-voz involuntário do drama dos refugiados, afirmando em diversas entrevistas que sua vida foi marcada pela missão de dar sentido à memória da esposa e dos filhos.
A permanência do símbolo
A foto de Alan Kurdi continua sendo exibida em exposições, reportagens e estudos acadêmicos como um dos marcos visuais do século XXI. Ela é comparada, em impacto, a imagens históricas como a menina vietnamita queimada por napalm nos anos 1970 ou os corpos dos meninos da Chacina da Candelária, no Brasil.
Mas, dez anos depois, a pergunta permanece: até quando o Mediterrâneo continuará sendo um cemitério de migrantes?
Entre a comoção e a indiferença, o corpo de Alan segue lembrando que cada uma das quase 29 mil mortes registradas desde então tem nome, rosto, família e sonhos interrompidos.
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