Familiares de vítimas e movimentos sociais participarão de mobilização nesta quarta-feira (28), na Praça São Lucas, com caminhada, manifestações culturais e ações de acolhimento. O ACOLHER ComCausa também estará presente na atividade em defesa da vida e dos direitos humanos.
Familiares de vítimas, moradores de favelas, organizações de direitos humanos e movimentos sociais se reunirão nesta quarta-feira, 28 de outubro de 2026, na Praça São Lucas, na Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, para marcar um ano da Operação Contenção. Organizada pela Frente Penha, a mobilização lembrará as 122 pessoas mortas durante a ação policial realizada em 2025 nos Complexos da Penha e do Alemão. O encontro reunirá homenagens, manifestações culturais, acolhimento comunitário e reivindicações por memória, justiça, reparação e políticas públicas que garantam a proteção da vida.
A manifestação ocorre exatamente um ano após a operação policial mais letal da história do Brasil. Realizada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro em 28 de outubro de 2025, a ação mobilizou cerca de 2.500 agentes das polícias Civil e Militar e resultou em 122 mortes, entre elas cinco policiais. A dimensão da violência e as imagens de corpos reunidos por moradores provocaram repercussão nacional e internacional, levantando questionamentos sobre os limites da atuação das forças de segurança, a proteção dos moradores e a necessidade de investigações independentes.
Memória das vítimas e mobilização das comunidades
A programação começará com um almoço comunitário, seguido de uma caminhada pelas principais vias do bairro, prevista para as 14h. Também haverá distribuição de cestas básicas, atividades culturais, homenagens e espaços de acolhimento às famílias atingidas pela violência. A mobilização contará com a participação de coletivos de familiares, entre eles Mães de Maio, Mães de Manguinhos e Projeto Fênix. Essas organizações desenvolvem trajetórias de mobilização pela memória de pessoas mortas em ações violentas, pelo acesso à justiça e pelo reconhecimento dos direitos de familiares. Artistas locais participarão com apresentações de música, dança e poesia, além de atividades de capoeira e jongo. A programação também prevê a leitura de uma carta de repúdio à violência de Estado.
A Praça São Lucas possui um significado especial para a memória coletiva da Penha. Foi naquela região que moradores reuniram corpos encontrados após a operação, em uma das imagens mais marcantes da violência registrada em outubro de 2025. Um ano depois, o mesmo território será ocupado por famílias e movimentos sociais para transformar o espaço de luto em lugar de memória, solidariedade e reivindicação de direitos.
Organismos de direitos humanos questionaram a operação
A gravidade das mortes também mobilizou organismos internacionais. Em março de 2026, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) divulgou um relatório com críticas à Operação Contenção e aos impactos da intervenção policial sobre as comunidades. Segundo o documento, a operação aprofundou o sofrimento das famílias, agravou a desconfiança nas instituições e não demonstrou resultados capazes de enfraquecer estruturalmente o crime organizado. A manifestação da CIDH reforçou o debate sobre a responsabilidade do Estado na proteção da população civil e sobre a necessidade de políticas de segurança compatíveis com os direitos humanos. No Brasil, a atuação policial em favelas também está relacionada às determinações do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que estabelece medidas voltadas à redução da letalidade policial, à transparência das operações e à proteção dos moradores.
Investigações e responsabilização permanecem em debate
Um ano após a operação, as circunstâncias das 122 mortes continuam sob investigação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Em atualização divulgada nesta terça-feira, 27 de outubro de 2026, o Ministério Público informou que já havia apresentado 12 denúncias contra 28 policiais militares por possíveis crimes e irregularidades cometidos durante a Operação Contenção. As acusações envolvem, entre outras condutas, furtos, violações de domicílio, constrangimento ilegal de moradores, roubo e irregularidades no uso de câmeras corporais. As denúncias não significam condenações e não estabelecem, por si só, a responsabilidade pelas mortes.
A investigação reúne mais de quatro mil horas de gravações, 122 laudos médico-legais e 262 depoimentos de agentes públicos, conforme o balanço divulgado pelo Ministério Público. A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro também acompanhou os desdobramentos da operação, prestando assistência jurídica e acolhimento aos familiares. Somente no primeiro dia após a ação, a instituição informou ter atendido 106 famílias no Instituto Médico-Legal e em outros pontos de atendimento. Para os movimentos sociais, o aniversário da Operação Contenção representa mais uma oportunidade de reivindicar esclarecimentos sobre as mortes, responsabilização por eventuais violações e medidas que impeçam a repetição de episódios semelhantes.
ACOLHER ComCausa participa em defesa da vida
Entre as organizações presentes estará o ACOLHER ComCausa, por meio do CAIS ComCausa, fortalecendo a articulação entre organizações comunitárias, movimentos de familiares e redes de proteção social. O ACOLHER desenvolve ações relacionadas à memória, ao acolhimento, à orientação e à defesa de direitos de pessoas e famílias atingidas pela violência e por diferentes situações de vulnerabilidade. A participação na mobilização reafirma o compromisso da ComCausa – Defesa da Vida com a valorização da memória, o cuidado com os familiares, a promoção dos direitos humanos e a construção de caminhos de proteção nos territórios populares.
O CAIS ComCausa é uma iniciativa desenvolvida em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (SENAD), com atuação voltada ao acolhimento, à redução de danos, ao acesso a direitos e à articulação das redes de cuidado. A presença da organização na Penha também destaca a importância de reconhecer os impactos humanos e sociais da violência, especialmente sobre mulheres, crianças, jovens e familiares que convivem com o luto e com as dificuldades de acesso à justiça.
Cuidado e acolhimento também integram a programação
Além das manifestações públicas, o encontro oferecerá espaços de cuidado, orientação e atenção à saúde. Para as crianças, está prevista uma área recreativa com brinquedos infláveis e outras atividades. A proposta da Frente Penha é reunir diferentes formas de participação comunitária, reconhecendo que a defesa dos direitos humanos também envolve solidariedade, escuta e fortalecimento dos vínculos sociais. O encerramento terá apresentações culturais, manifestações de familiares e homenagens às pessoas que perderam a vida.
Serviço
Atividade: Ato de memória de um ano da Operação Contenção
Data: Quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Local: Praça São Lucas, Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro
Programação: Almoço comunitário, caminhada, atividades culturais, homenagens, orientações e acolhimento
Caminhada: A partir das 14h
Organização: Frente Penha
Participação: ACOLHER ComCausa, por meio do CAIS ComCausa
Entrada: Gratuita

