A presença da ComCausa Defesa da Vida na agenda da campanha Cidades Sem Risco representa mais do que a participação de uma organização social em uma mobilização nacional. Representa a entrada de uma experiência territorial da Baixada Fluminense em um debate estratégico para o futuro das cidades brasileiras: como prevenir desastres, proteger comunidades vulneráveis e construir justiça climática a partir das periferias.
Em 2026, a ComCausa realizou, no contexto da campanha nacional #AprenderParaPrevenir: Cidades Sem Risco, a ação “A Chuva Não Mata Sozinha: Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro”. A iniciativa conectou educação popular, comunicação comunitária, memória das tragédias, escuta territorial e mobilização social. O foco foi demonstrar que enchentes, deslizamentos e alagamentos não podem ser compreendidos apenas como consequências de eventos naturais, mas como resultado de uma combinação entre mudanças climáticas, desigualdade urbana, racismo ambiental e ausência de políticas públicas permanentes.
A campanha realizada pela ComCausa teve forte relação com o histórico de tragédias no Rio de Janeiro. Ao relembrar episódios como a Região Serrana, o Morro do Bumba, Xerém, Petrópolis e as chuvas que atingiram Nova Iguaçu e Tinguá, a organização construiu uma linha de memória que denuncia a repetição de desastres anunciados. O objetivo foi mostrar que essas tragédias não são acidentes sem causa social. Elas acontecem em territórios onde o risco já é conhecido, onde a precariedade é antiga e onde a prevenção muitas vezes chega tarde.
Segundo o material reunido na proposta da campanha, a ComCausa trabalhou a ideia de que o alerta técnico só alcança plenamente sua função social quando a informação chega aos territórios, dialoga com a realidade local e fortalece a organização comunitária. A campanha incluiu ações de comunicação comunitária, educação popular, mobilização social, cartilha eletrônica, cards, vídeos, matérias jornalísticas e atividade presencial em Tinguá.
Tinguá como território simbólico
A escolha de Tinguá, distrito de Nova Iguaçu, foi estratégica e simbólica. Tinguá é um território de grande relevância ambiental, marcado pela presença da Mata Atlântica, de rios, comunidades, memória local e desafios de infraestrutura. Ao mesmo tempo, está inserido em uma região que sofre com impactos recorrentes das chuvas, alagamentos, dificuldades de drenagem, vulnerabilidades habitacionais e ausência de políticas públicas estruturantes.
Ao realizar a campanha em Tinguá, a ComCausa afirmou que a Baixada Fluminense não pode ser tratada como periferia da política climática. Pelo contrário: a Baixada está no centro da crise climática urbana. Seus municípios concentram populações vulnerabilizadas, áreas de risco, problemas históricos de saneamento, ocupações precárias, impactos de enchentes e desafios ambientais que exigem respostas permanentes.
A campanha propôs uma abordagem baseada na escuta. Um dos instrumentos centrais foi a ideia do Mapa Falado dos Riscos de Tinguá, em que moradores poderiam apontar ruas que alagam primeiro, pontos de transbordamento, áreas de barreira, caminhos interrompidos, locais de maior perigo e famílias que precisam de atenção em momentos de emergência. Essa metodologia valoriza o conhecimento comunitário e reconhece que os moradores são especialistas de seus próprios territórios.
Essa é uma das maiores forças da ComCausa: não falar apenas sobre a comunidade, mas construir com a comunidade. Não transformar moradores em números, mas reconhecer suas memórias, seus saberes, suas perdas e suas propostas.
A campanha como ponte de interlocução
Após a realização da campanha Cidades Sem Risco em 2026, a ComCausa passou a estar em interlocução com a agenda de prevenção de riscos, buscando aproximar sua experiência territorial de instituições como o Cemaden, o Cemaden Educação, o Ministério das Cidades e a Secretaria Nacional de Periferias.
Essa interlocução é importante porque cria uma ponte entre dois mundos que precisam caminhar juntos: o mundo da ciência, do monitoramento e da política pública; e o mundo da vida cotidiana, da memória, da comunicação popular e da organização comunitária.
O Cemaden possui a função técnica de monitorar riscos, produzir alertas e apoiar a Defesa Civil. Já a ComCausa tem a força de comunicar, mobilizar, traduzir, sensibilizar e articular a população. Quando esses campos se aproximam, a prevenção deixa de ser apenas um protocolo institucional e passa a se tornar cultura comunitária.
Para a ComCausa, prevenir não é apenas avisar que vai chover. Prevenir é garantir que as pessoas saibam o que fazer, para onde ir, quem chamar, como proteger crianças, idosos, pessoas com deficiência, animais domésticos e famílias em situação de vulnerabilidade. Prevenir é também cobrar obras, saneamento, drenagem, contenção de encostas, limpeza de rios, planos municipais, planos comunitários e políticas de moradia.
A campanha de Tinguá mostrou que a comunicação é parte essencial da prevenção. Um alerta que não é compreendido não protege. Uma informação que não chega ao território não salva. Um mapa que não escuta a comunidade fica incompleto. Uma política pública que não considera a memória das vítimas corre o risco de repetir os mesmos erros.
Secretaria Nacional de Periferias e reconhecimento da potência territorial
A atuação da ComCausa também dialoga com a proposta da Secretaria Nacional de Periferias, do Ministério das Cidades. A secretaria foi criada para dar centralidade às periferias na formulação de políticas públicas urbanas. No caso da estratégia Periferia Sem Risco, o objetivo é articular infraestrutura, planejamento, comunicação e participação social para enfrentar riscos de deslizamentos e inundações nas periferias brasileiras.
Essa abordagem reconhece que não há redução de riscos sem participação dos territórios. Obras são fundamentais, mas precisam estar articuladas com planejamento, educação, comunicação e controle social. Planos técnicos são necessários, mas devem dialogar com os saberes comunitários. A prevenção precisa ser construída com o poder público, universidades, organizações sociais, comunidades, escolas e lideranças locais.
A ComCausa se encaixa nesse campo como uma organização que já demonstrou sua potência territorial. A organização recebeu o Prêmio Periferia Viva, reconhecimento do Ministério das Cidades a iniciativas desenvolvidas em territórios periféricos. Esse prêmio fortalece a legitimidade da ComCausa como experiência de comunicação, direitos humanos e incidência pública construída a partir da realidade das periferias.
A ida da ComCausa à cerimônia da campanha nacional, em São Bernardo do Campo, carrega esse histórico. A organização não comparece apenas como observadora. Comparece como uma experiência reconhecida, premiada e atuante, que tem algo a aprender, mas também muito a contribuir.
A força política da frase: “A chuva não mata sozinha”
A frase “A chuva não mata sozinha” sintetiza a força política da campanha. Ela desloca o debate da fatalidade para a responsabilidade. Ao afirmar isso, a ComCausa denuncia que muitas mortes poderiam ser evitadas se houvesse investimento, planejamento, alerta, obras, fiscalização e respeito aos direitos das comunidades.
A chuva é natural. A enchente pode ser intensificada por rios assoreados, impermeabilização do solo, falta de drenagem e ocupação desordenada. O deslizamento pode ser provocado por encostas fragilizadas, ausência de contenção, cortes irregulares, falta de vegetação e moradias construídas sem apoio técnico. O alagamento pode se tornar tragédia quando não há rota segura, comunicação, abrigo, transporte, saúde e assistência social.
Por isso, a campanha da ComCausa não culpabiliza as vítimas. Pelo contrário, denuncia as condições que colocam determinadas populações em maior risco. A organização defende que justiça climática é reconhecer que quem menos contribuiu para a crise ambiental muitas vezes é quem mais sofre seus impactos.
Tinguá, Nova Iguaçu, a Baixada Fluminense e tantas outras periferias brasileiras precisam ser vistas como territórios de direitos. Não são apenas áreas vulneráveis; são comunidades com história, memória, cultura, liderança, conhecimento e capacidade de participação.
A força da ComCausa está em afirmar isso com clareza: prevenir desastres é proteger vidas, mas também é garantir dignidade, memória, escuta e justiça.
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