A semana de julgamento do caso Henry Borel, um dos crimes de maior repercussão no país nos últimos anos, foi marcada por tensão no plenário, longos depoimentos, disputas jurídicas entre defesa e acusação e momentos de forte impacto emocional. No banco dos réus estão Monique Medeiros, mãe do menino, e o ex-vereador Jairo Souza Santos Junior, conhecido como Jairinho, padrasto da criança.

Henry Borel Medeiros morreu em março de 2021, aos 4 anos, após ser levado a um hospital na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Desde então, o caso se tornou símbolo nacional no debate sobre violência contra crianças, omissão de responsáveis e proteção da infância.

Segundo a acusação, Henry foi vítima de agressões cometidas por Jairinho. O Ministério Público sustenta que Monique tinha conhecimento das violências sofridas pelo filho, mas teria se omitido. As defesas dos réus negam as acusações. Jairinho nega ter agredido a criança, enquanto a defesa de Monique busca afastar a tese de participação ou omissão deliberada na morte do menino.

Julgamento recomeça com tentativa de adiamento

A semana começou com a retomada do julgamento no 2º Tribunal do Júri da Capital, no Rio de Janeiro. Logo no primeiro dia, a sessão foi marcada por discussões processuais e tentativas da defesa de Jairinho de adiar novamente o julgamento.

A defesa do ex-vereador alegou problemas relacionados à equipe jurídica, incluindo o estado de saúde de um dos advogados, que havia sofrido um infarto. A movimentação gerou tensão no plenário, porque poderia levar a mais uma suspensão do júri, que já havia sido adiado anteriormente.

Apesar das discussões, o julgamento teve continuidade. O primeiro dia terminou sem a oitiva das testemunhas previstas, depois de horas dedicadas a debates técnicos e pedidos apresentados pelas partes. A retomada dos depoimentos ficou para os dias seguintes.

Depoimento de delegado reforça papel das mensagens da babá

Um dos momentos centrais da semana foi o depoimento do delegado Edson Henrique Damasceno, responsável pela investigação da morte de Henry. Em plenário, ele afirmou que mensagens extraídas do celular da babá da criança foram fundamentais para a polícia reconstruir os acontecimentos anteriores à morte do menino.

Segundo a investigação, os prints de conversas indicavam que Henry já teria sofrido episódios anteriores de violência. As mensagens teriam revelado relatos de situações em que a criança ficou sozinha com Jairinho e depois apareceu com dores, mancando ou demonstrando medo.

Para a acusação, esse material foi importante para contestar a versão inicial de que a morte de Henry poderia ter relação com um acidente doméstico. A linha sustentada pelo Ministério Público é a de que havia um histórico de agressões e que Monique teria sido alertada sobre situações envolvendo o filho e o então companheiro.

O depoimento do delegado foi longo e acompanhado de atenção pelas partes. A defesa, por sua vez, questionou pontos da investigação e buscou fragilizar a interpretação dada às mensagens e aos demais elementos apresentados pela acusação.

Testemunhas relatam episódios envolvendo Jairinho

Ao longo da semana, o júri também ouviu testemunhas relacionadas ao histórico de comportamento atribuído a Jairinho. Entre os depoimentos de maior repercussão esteve o de uma jovem, filha de uma ex-namorada do ex-vereador, que relatou supostas agressões cometidas por ele no passado.

Esse tipo de depoimento foi usado pela acusação para reforçar a tese de que Jairinho teria comportamento violento, especialmente em ambiente doméstico. A defesa, no entanto, contesta a utilização desses relatos como prova direta sobre a morte de Henry e argumenta que o julgamento deve se concentrar nos fatos relacionados especificamente ao menino.

A presença de testemunhas com relatos sensíveis contribuiu para o clima de tensão no plenário. O caso, além de envolver a morte de uma criança, reúne elementos familiares, políticos e jurídicos que aumentam a repercussão pública do julgamento.

Perícia médica se torna ponto decisivo

A perícia médica ocupou papel central durante a semana. Um dos depoimentos mais importantes foi o do médico legista aposentado e perito Luiz Carlos Leal Prestes, que analisou as lesões encontradas no corpo de Henry.

Durante a sessão, o perito afirmou que as lesões apresentadas pela criança eram incompatíveis com a tese de acidente doméstico. Ele também descartou a hipótese de que a laceração no fígado de Henry tivesse sido provocada por manobras de massagem cardíaca realizadas no hospital.

Segundo o perito, a lesão ocorreu enquanto a criança ainda estava viva. Essa afirmação atingiu diretamente uma das principais linhas da defesa, que tenta relacionar parte dos ferimentos ao atendimento médico recebido por Henry.

O médico também destacou a existência de múltiplas lesões em diferentes partes do corpo da criança. Para ele, o conjunto dos ferimentos apontava para agressão. A morte foi descrita como lenta, agônica e progressiva, expressão que marcou um dos momentos mais fortes do julgamento.

Monique passa mal ao ver imagens do corpo do filho

O episódio de maior impacto emocional da semana ocorreu durante o depoimento do perito. Enquanto ele explicava as lesões encontradas em Henry, imagens do corpo da criança foram exibidas no plenário.

Monique Medeiros passou mal ao ver as imagens do filho e precisou receber atendimento médico no Tribunal de Justiça do Rio. A sessão não chegou a ser interrompida, mas ela foi dispensada de acompanhar o restante dos trabalhos naquele dia.

O episódio reforçou o clima emocionalmente pesado do julgamento. A exibição de imagens periciais, embora comum em julgamentos que envolvem mortes violentas, costuma provocar forte reação entre familiares, jurados e pessoas presentes no plenário.

Mesmo após a saída de Monique, o julgamento continuou. A previsão era que ela retornasse ao plenário no dia seguinte para acompanhar a sequência da sessão.

Jairinho também alega mal-estar

Ainda durante a semana, Jairinho também alegou mal-estar e deixou o tribunal em determinado momento. O episódio ocorreu após a saída de Monique e acrescentou mais tensão ao andamento do júri.

A sucessão de intercorrências médicas e emocionais marcou a semana e evidenciou a pressão sobre os réus durante a exposição de provas, depoimentos e imagens relacionadas à morte de Henry.

Acusação e defesa mantêm versões opostas

O julgamento expôs, mais uma vez, a distância entre as versões apresentadas pela acusação e pelas defesas.

O Ministério Público afirma que Henry foi morto após sofrer agressões e que Jairinho foi o responsável direto pelas violências. Em relação a Monique, a acusação sustenta que ela sabia do que acontecia com o filho e deixou de agir para protegê-lo.

A defesa de Jairinho nega que ele tenha agredido Henry. Os advogados tentam sustentar que os ferimentos podem ter outra origem, incluindo procedimentos realizados durante o atendimento médico. Também questionam pontos da investigação e a forma como determinadas provas foram interpretadas.

Já a defesa de Monique busca demonstrar que ela não participou da morte do filho e que não teria se omitido de forma consciente diante das supostas agressões. A estratégia tenta separar a conduta da mãe da acusação feita contra Jairinho.

Júri deve continuar por vários dias

Mesmo após uma semana intensa de sessões, o julgamento ainda não chegou à fase final. Antes do veredicto, ainda estão previstas novas oitivas de testemunhas, interrogatórios dos réus e os debates entre acusação e defesa.

Somente depois dessa etapa os jurados se reúnem para responder aos quesitos formulados pela Justiça. Caberá ao Conselho de Sentença decidir se Jairinho e Monique serão condenados ou absolvidos das acusações.

A expectativa é que o julgamento seja longo, justamente pela quantidade de testemunhas, pela complexidade das provas e pela grande repercussão do caso.

Babá relata dores e mudanças de comportamento de Henry durante julgamento do caso no Rio

Considerada uma das testemunhas centrais do caso, Thayná relatou que viu o menino mancando e reclamando de dores após permanecer em um quarto fechado com Jairinho em diferentes ocasiões. Segundo seu depoimento, os episódios ocorreram enquanto Monique não estava na residência.

A testemunha afirmou que, em três momentos distintos, Jairinho levou Henry para um quarto, fechou a porta e permaneceu sozinho com a criança. Em uma dessas ocasiões, relatou que o menino saiu mancando e posteriormente reclamou de dores na cabeça. A babá disse ainda que comunicou os fatos à mãe da criança por mensagens e pessoalmente quando ela retornava para casa.

Durante o depoimento, Thayná declarou que Henry costumava ficar calado após os episódios e afirmava apenas que havia caído da cama ou levado uma “banda”, sem fornecer mais detalhes sobre o que havia acontecido.

Outro ponto relevante do depoimento envolveu os dias seguintes à morte da criança. A babá afirmou que participou de uma reunião em um escritório de advocacia, onde estavam Monique, advogados e assessores ligados a Jairinho. Segundo ela, naquele encontro recebeu orientações sobre o que deveria declarar à imprensa e às autoridades. Também relatou que Monique teria pedido que apagasse mensagens trocadas entre as duas.

O depoimento ocorre em meio à disputa entre as teses apresentadas pelas defesas dos réus. Os advogados de Monique sustentam que ela não tinha conhecimento das agressões sofridas pelo filho e que vivia uma relação marcada por controle e violência psicológica. Já a defesa de Jairinho busca questionar a credibilidade de testemunhas e contestar as provas produzidas durante a investigação.

A advogada de Thayná afirmou que a babá decidiu esclarecer definitivamente as diferentes versões apresentadas ao longo do processo. Segundo a defesa, ela teria sofrido pressão para ocultar informações durante a fase inicial das investigações.

O julgamento já ouviu dezenas de testemunhas e entra agora em uma fase considerada decisiva. Além dos depoimentos de familiares, ex-companheiras de Jairinho, profissionais que conviveram com o casal e especialistas que atuaram na investigação, os jurados ainda deverão acompanhar os interrogatórios dos réus e os debates finais entre acusação e defesa.

Caso segue como símbolo de alerta sobre violência infantil

A morte de Henry Borel ultrapassou os limites do processo criminal. Desde 2021, o caso mobiliza debates sobre a responsabilidade de familiares, escolas, cuidadores, vizinhos e instituições diante de sinais de violência contra crianças.

O julgamento reacende discussões sobre a importância de denúncias rápidas, escuta qualificada de crianças, atuação de conselhos tutelares, investigação especializada e proteção integral da infância.

Para além da disputa jurídica entre acusação e defesa, o caso permanece como um alerta social: sinais de violência contra crianças não podem ser ignorados. A responsabilização dos envolvidos, seja qual for a decisão dos jurados, será acompanhada de perto por uma sociedade ainda impactada pela morte de Henry.

Linha do tempo da semana

Segunda-feira: o julgamento foi retomado no 2º Tribunal do Júri da Capital, no Rio de Janeiro. A sessão foi marcada por pedidos da defesa e discussões técnicas. Nenhuma testemunha foi ouvida no primeiro dia.

Terça-feira: o delegado Edson Henrique Damasceno prestou depoimento e afirmou que mensagens do celular da babá foram decisivas para a investigação apontar agressões anteriores contra Henry.

Quarta-feira: a defesa de Jairinho conseguiu decisão para que ele fosse interrogado depois de Monique, alterando a ordem de fala dos réus.

Quinta-feira: testemunhas relataram episódios envolvendo Jairinho, incluindo depoimentos sobre supostas agressões anteriores atribuídas ao ex-vereador.

Sexta-feira: Monique Medeiros passou mal ao ver imagens do corpo do filho durante o depoimento do perito Luiz Carlos Leal Prestes. O perito descartou a tese de acidente doméstico e afirmou que as lesões apontavam para agressão.

O que ainda falta no julgamento

O júri ainda precisa ouvir todas as testemunhas previstas, concluir os depoimentos técnicos, realizar os interrogatórios dos réus e abrir espaço para os debates finais entre acusação e defesa.

Depois disso, os jurados deverão decidir se Jairinho e Monique são culpados ou inocentes. A decisão será uma das mais aguardadas do Judiciário fluminense nos últimos anos, tanto pela comoção em torno da morte de Henry quanto pelo impacto público do caso.

Linha do tempo – Caso Henry Borel

8 de março de 2021 – Henry Borel Medeiros, de 4 anos, morre no Rio de Janeiro. Laudos apontaram lesões incompatíveis com acidente, incluindo hemorragia interna e laceração hepática.

2021 – O caso gera comoção nacional. Monique Medeiros e Dr. Jairinho passam a responder por homicídio triplamente qualificado e tortura.

2021 – No Rio de Janeiro, é sancionada a Lei Estadual 9.286/21, que dá prioridade à investigação de mortes violentas de crianças e adolescentes.

24 de maio de 2022 – É sancionada a Lei Federal Henry Borel, Lei nº 14.344/2022, criando mecanismos de proteção contra violência doméstica e familiar contra crianças e adolescentes e tornando hediondo o homicídio de menores de 14 anos.

24 de setembro de 2023 – Aplicação da Lei Henry Borel pelo Conselho Tutelar de Niterói em caso de maus-tratos contra criança.

3 de agosto de 2024 – Novo depoimento da babá Thayna de Oliveira, afirmando que a avó materna teria sido informada sobre agressões de Dr. Jairinho.

8 de março de 2025 – Quatro anos após a morte: justiça e a dor da família diante da demora no julgamento.

10 de setembro de 2025 – Justiça aceita testemunhas do Ministério Público e garante o depoimento de Leniel Borel, pai de Henry, no júri.

22 de janeiro de 2026 – Novo laudo pericial em 3D descarta queda acidental e reforça a tese de agressões físicas como causa da morte.

23 de março de 2026 – Começa o julgamento de Monique Medeiros e Dr. Jairinho no II Tribunal do Júri da Capital.

26 de março de 2026 – Leniel Borel recorre contra decisão que concedeu liberdade provisória a Monique Medeiros.

10 de abril de 2026 – Ministério Público do Rio recorre da soltura de Monique Medeiros.

Abril de 2026 – Ministro Gilmar Mendes restabelece a prisão preventiva de Monique Medeiros, recolocando o caso no centro do debate público.

25 de maio de 2026 – Retomada do julgamento do Caso Henry Borel

26 de maio de 2026 – Primeiro dia do julgamento do caso Henry Borel termina sem ouvir testemunhas

27 de mai de 2026 – Julgamento do caso Henry Borel avança com depoimento sobre mensagens da babá

27 de mai de 2026 – Médica afirma em júri que Henry Borel chegou morto ao hospital

27 de mai de 2026 – Psiquiatra aponta perfil manipulador de Jairinho no julgamento do caso Henry Borel

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