No Complexo de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o Espaço Casulo se afirma como um território de acolhimento, fortalecimento e construção de autonomia para mulheres pretas e faveladas. A iniciativa atua com foco em saúde, autogestão e coletividade, a partir das demandas reais do território e da vivência das próprias mulheres.

O coletivo foi contemplado pela Chamada Pública de Apoio a Ações Emergenciais de Enfrentamento à Covid-19 nas Favelas, realizada pela Fiocruz, reconhecimento que evidenciou a importância do trabalho comunitário no enfrentamento das desigualdades agravadas pela pandemia.

Um projeto que nasce da favela

O Espaço Casulo foi criado por Priscila Monteiro, psicóloga formada pela PUC-Rio e moradora da Maré desde o nascimento. A proposta surgiu do desejo de colocar sua formação acadêmica a serviço da comunidade e de criar um espaço seguro para mulheres em um período marcado por altos índices de violência no território.

Inicialmente idealizado apenas para mulheres, o Casulo nasceu em um contexto em que muitas tinham medo até de acionar o telefone 180, receosas da entrada policial na favela. O objetivo era garantir um ambiente onde elas pudessem se sentir seguras, acolhidas e livres para compartilhar experiências, participar de palestras, cursos e rodas de conversa.

“Um espaço de fortalecimento e acolhimento. Um espaço onde a gente consiga ser aquilo que desejamos ser”, resume Priscila.

Com o tempo, algumas atividades passaram a contar também com a participação de homens, especialmente companheiros que acompanham as mulheres em rodas de gestantes e encontros formativos.

Autogestão e pertencimento

A coordenação do espaço é compartilhada com Edineide da Silva Pereira, pedagoga e também formada como bolsista da PUC-Rio. Ela explica que o Casulo funciona a partir da lógica da autogestão, sem patrocínios fixos, por decisão política do coletivo.

Algumas atividades contam com contribuição financeira das próprias participantes para custear despesas como aluguel e contas básicas. Segundo Edineide, esse modelo fortalece o sentimento de pertencimento e faz com que as mulheres se reconheçam como parte ativa do espaço.

O Casulo funciona na Rua Maxwell, 79, segundo andar, na Baixa do Sapateiro, e tem como meta ampliar o local para acolher um número cada vez maior de mulheres da Maré.

Saúde integral e cuidado coletivo

Entre as atividades desenvolvidas estão rodas de conversa, palestras, atendimentos em psicologia, debates sobre direitos e ações voltadas à saúde menstrual. O coletivo também promove feiras culturais com foco no protagonismo feminino, reunindo gastronomia, oficinas de xaropes artesanais, bazar e atividades abertas à participação masculina.

Essas ações fortalecem vínculos comunitários, ampliam o acesso à informação e reafirmam a favela como espaço de produção de cuidado, conhecimento e defesa da vida.

Gestar em Roda: cuidado desde a gestação

Uma das iniciativas de destaque é o projeto Gestar em Roda, realizado em parceria com a Roda de Gestantes da Maré e a Unidade de Saúde C.F. Augusto Boal. A proposta desenvolve ações de educação perinatal com suporte social e psicológico, feitas por e para mulheres da Maré.

O projeto atua no enfrentamento da violência obstétrica e na promoção do cuidado humanizado, fortalecendo redes de apoio entre gestantes e mães do território.

Visibilidade e reconhecimento

O trabalho do Espaço Casulo já foi destaque em diferentes reportagens e eventos culturais, abordando temas como saúde da mulher, combate à violência obstétrica e sustentabilidade na favela. A visibilidade contribui para romper estigmas e reafirmar o protagonismo das mulheres mareenses na construção de soluções coletivas.

Comunicação e presença digital

Sobre o Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro

rede Saúde da Favela, atualmente denominada 146x Favela, representa uma construção inédita que une o saber científico das universidades à vivência concreta das comunidades. Nela, instituições de referência como FiocruzIFFUENFUFRJUERJPUCRJSBPC, Alerj e Abrasco  atuam em cooperação direta com coletivos de base, movimentos populares e organizações locais, formando uma estrutura de colaboração sem precedentes em escala e profundidade.

Hoje, a rede articula 146 iniciativas comunitárias, cada uma com sua história, identidade e base territorial. Essa capilaridade é um de seus maiores diferenciais, permitindo que o debate sobre o direito à saúde chegue a espaços onde o Estado historicamente se ausenta — nas vielas, becos, ocupações, periferias urbanas e áreas rurais marginalizadas.

Outro pilar essencial é a diversidade dos parceiros: associações de moradores, coletivos de juventude, grupos de comunicação comunitária, instituições de educação popular, terreiros de matriz africana, articulações indígenas, movimentos de mulheres, LGBTQIAPN+ e tantos outros. É essa pluralidade de experiências e saberes que dá vida à iniciativa, transformando-a em um verdadeiro instrumento de democratização da saúde.

Ao integrar-se à rede, a ComCausa Defesa da Vida busca fortalecer esse potencial coletivo, contribuindo para consolidar uma política de saúde fundada na escuta, na ciência e na dignidade humana — pilares de um futuro em que a favela não seja vista como espaço de carência, mas como território de potência, conhecimento e esperança.

ComuniSaúde ComCausa Fiocruz

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