O assassinato de Melissa de Melo e Campos, de apenas 14 anos, ocorrido no último dia 8 de maio de 2025, dentro de uma sala de aula no Colégio Livre Aprender, em Uberaba (MG), escancarou de forma brutal a presença da misoginia letal no ambiente escolar e impôs ao país uma urgente reflexão sobre os limites da justiça juvenil. O crime, cometido por dois colegas da mesma idade, ganhou nova dimensão após a publicação, neste sábado (21), de um vídeo gravado por Chaene da Gama, músico da banda Black Pantera e pai de uma das testemunhas oculares da tragédia.
Melissa foi morta com golpes de tesoura por um dos adolescentes, enquanto o outro observava a cena com frieza. O ataque aconteceu diante de 19 colegas de turma e, segundo as investigações, havia sido previamente planejado por meio de trocas de mensagens entre os dois agressores. Os depoimentos coletados revelam uma motivação estarrecedora: a menina teria sido assassinada por “ser feliz demais”. Descrita por professores e colegas como carismática, inteligente, afetuosa e dedicada, Melissa era uma jovem que, segundo o próprio pai de um dos assassinos, “tinha um brilho que incomodava”.
O crime foi cometido em plena luz do dia, dentro de uma instituição privada de ensino, com premeditação evidente. A tentativa desesperada de socorro foi feita pelo próprio pai da vítima, que também trabalhava na escola como coordenador pedagógico. Melissa morreu em seus braços, ainda na sala de aula.
O apelo público de Chaene da Gama
No vídeo publicado em seu Instagram pessoal, Chaene da Gama revela a dor vivida por sua filha, que presenciou o assassinato da amiga, e denuncia o sentimento de impunidade que tomou conta após a divulgação da sentença: três anos de internação em unidade socioeducativa, conforme o limite máximo previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo 112, parágrafo 3º.
“Dois garotos de 14 anos acordaram, tomaram café da manhã, foram para a escola e decidiram matar uma menina só porque ela era feliz demais. Eles planejaram isso, trocaram mensagens, e um deles riu enquanto a golpeava. A minha filha viu tudo. Viu a amiga morrer nos braços do pai. E agora esses meninos vão cumprir, no máximo, três anos. Depois disso, a ficha deles será limpa. E a Melissa? Quem vai trazê-la de volta?”, desabafou o músico.
Chaene também fez um apelo direto às famílias brasileiras: “A primeira educação vem de casa. Olhem os celulares dos seus filhos. Saibam com quem eles falam. Esses meninos estavam planejando isso há dias. Ninguém viu.”
Escalada da violência nas escolas brasileiras
O caso evidenciou, mais uma vez, o avanço de uma cultura de ódio que se infiltra nas redes sociais, nas escolas e no cotidiano da juventude. Desde 2019, o Brasil vem registrando uma escalada inédita de violência juvenil, com o ambiente escolar se tornando palco de ataques letais, quase sempre motivados por discursos de ódio — especialmente misoginia, racismo e ideologias extremistas propagadas virtualmente. Levantamento nacional aponta que entre 2019 e 2025 ocorreram 41 ataques consumados em escolas, sendo 64% desses a partir de março de 2022. O ano de 2023 foi o mais letal da série histórica: 12 ataques, 13 mortos e 43 feridos. De 2022 a 2024, foram 27 episódios entre massacres e tentativas, com vítimas predominantemente femininas ou negras.
Crimes de ódio em crescimento nas redes e na sociedade
Esses números coincidem com o crescimento alarmante de crimes de ódio na internet. De acordo com a SaferNet Brasil, denúncias de misoginia online cresceram 2.875% entre 2017 e 2022, saltando de 961 para 28.642 registros. Apenas no primeiro semestre de 2022, foram 7.096 denúncias, um aumento de mais de 650% em relação ao mesmo período do ano anterior. As denúncias de racismo também ultrapassaram 45 mil registros no mesmo intervalo, com crescimento contínuo desde 2019.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os feminicídios atingiram recorde em 2023, com 1.463 mulheres assassinadas, principalmente por companheiros ou ex-companheiros. A maioria das vítimas era negra, pobre e moradora de regiões periféricas — um perfil que se repete nas escolas, onde meninas negras são alvos constantes de agressões físicas, simbólicas e psicológicas.
Todos os agressores identificados em ataques escolares desde 2019 eram homens, com idade média de 16 anos, geralmente alunos ou ex-alunos da instituição. O uso de armas de fogo aumenta em até três vezes a letalidade dos atentados. Além disso, o discurso de ódio se espalha em ritmo alarmante: somente em 2023, foram rastreadas 105 mil postagens ameaçando escolas. Até maio de 2025, já haviam sido detectadas 88 mil novas menções, em fóruns e redes sociais utilizadas para propagar misoginia, racismo, neonazismo e incitação à violência juvenil. Entre 2022 e 2023, observou-se ainda o crescimento expressivo de outros vetores de ódio: xenofobia (+874%), intolerância religiosa (principalmente contra religiões afro-brasileiras, +456%) e neonazismo (+120%).
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Proposta da Lei Melissa Campos
Diante da comoção pública e do sentimento generalizado de injustiça, a família de Melissa lançou um abaixo-assinado nacional em apoio ao Projeto de Lei 2.325/2024, que propõe alterar o ECA e ampliar de três para até oito anos o tempo máximo de internação para adolescentes que cometam atos infracionais com dolo e violência. Entre os crimes contemplados pela proposta estão: grave ameaça à pessoa, porte ilegal de armas de fogo ou explosivos, tortura, tráfico de drogas (excetuando-se as hipóteses do §4º do art. 33 da Lei 11.343/2006), terrorismo e associação criminosa.
A intenção é que a nova legislação receba o nome de Lei Melissa Campos, como forma de perpetuar a memória da jovem e transformar sua dor em luta contra a impunidade. O abaixo-assinado já conta com centenas de milhares de adesões e pode ser acessado por meio do link.:
ComCausa: é preciso mais do que punição — é preciso prevenção e compromisso com a vida
A organização ComCausa, com décadas de atuação em territórios periféricos do Rio de Janeiro, manifestou solidariedade à família de Melissa e apoio à tramitação da proposta legislativa. No entanto, a entidade também alerta para os riscos de mudanças legais apressadas que, em vez de combater as raízes da violência, possam ampliar o encarceramento da juventude negra e periférica, perpetuando a seletividade penal do sistema de justiça.
Para a ComCausa, a resposta à tragédia que vitimou Melissa Campos não pode se limitar ao endurecimento genérico da legislação. É indispensável que qualquer mudança legal seja precedida por um debate profundo, responsável e comprometido com a justiça social, considerando os efeitos que alterações no Estatuto da Criança e do Adolescente podem ter sobre populações historicamente vulnerabilizadas — em especial os jovens negros e periféricos, frequentemente atingidos de forma desproporcional pelas políticas punitivas. A organização defende que o enfrentamento à crescente onda de ódio que invade as escolas deve estar vinculado a investimentos estruturantes em saúde mental, políticas efetivas de prevenção à violência de gênero, programas permanentes de mediação de conflitos e ao fortalecimento de uma educação ética e humanista, tanto no ambiente familiar quanto nas instituições de ensino.
Além disso, a ComCausa alerta que qualquer proposta de mudança na legislação deve enfatizar o reconhecimento da motivação por ódio como qualificadora dos crimes cometidos, responsabilizando também as plataformas e redes digitais que, em muitos casos, servem como espaços de articulação e incitação desses atos violentos. A responsabilização institucional e coletiva, inclusive das empresas que operam esses ambientes digitais, é fundamental para conter a propagação dessa cultura letal.
Por fim, a ComCausa propõe que o debate em torno da chamada Lei Melissa Campos seja conduzido de forma ampla e plural, envolvendo juristas, educadores, psicólogos, familiares de vítimas, representantes da juventude periférica e especialistas em direitos humanos. Essa construção deve estar articulada a políticas públicas de escuta qualificada, acolhimento e enfrentamento da cultura de ódio que se espalha, cada vez mais, tanto nas redes sociais quanto nas salas de aula. Porque mais do que apenas punir, é preciso prevenir. Mais do que endurecer leis, é necessário assumir um compromisso real com a vida.
Ataques em escolas: o cenário nacional
- 42 ataques violentos em escolas foram registrados entre 2001 e 2024, segundo levantamento do CPP — com 27 ocorridos entre 2022 e 2024 (64%) noticias.uol.com.br+13www1.folha.uol.com.br+13forumseguranca.org.br+13.
- Em 2022, foram 10 ataques; em 2023, 12; e em 2024, pelo menos 5, muitos frustrados antes da execução www1.folha.uol.com.br.
- Dados da Unicamp somam 36 ataques cometidos por estudantes ou ex-alunos entre 2002 e 2023, resultando em cerca de 40 mortes e 102 feridos en.wikipedia.org+7jornal.unicamp.br+7noticias.uol.com.br+7.
- Entre 2022 e 2023, 49 pessoas morreram em ataques em instituições de ensino www12.senado.leg.br+1pt.wikipedia.org+1.
- No já chocante ano de 2023, foram 9 mortes em ataques escolares, aumento significativo gov.br+15cnnbrasil.com.br+15www12.senado.leg.br+15.
- Segundo dados da Wikipédia (atualizados até maio de 2025), houve 12 ataques em 2022, com 7 mortes, 33 feridos, sendo 9 perpetrados por menores; e 11 em 2023, com 9 mortes e 32 feridos, incluindo 9 por menores pt.wikipedia.org.
Crimes de ódio: a expansão nas redes
- Denúncias de misoginia na internet cresceram quase 30 vezes entre 2017 (961) e 2022 (28.642) gov.br+3www1.folha.uol.com.br+3diplomatique.org.br+3.
- Em 2022, apenas esse tipo de crime teve 7.096 casos no primeiro semestre — um aumento de 650% sobre 2021 new.safernet.org.br+1agenciagov.ebc.com.br+1.
- Todos os crimes de ódio somaram 23.947 denúncias na primeira metade de 2022 — alta de 67,5% ano a ano diplomatique.org.br+9new.safernet.org.br+9new.safernet.org.br+9.
- Entre 1º de janeiro e 31 de outubro de 2022, a SaferNet registrou 54.888 denúncias de ódio online (+39,3% vs. 2021). Misoginia, xenofobia e intolerância religiosa foram os crimes que mais cresceram — misoginia subiu 184% em 2021–22 agenciagov.ebc.com.br+5new.safernet.org.br+5piaui.folha.uol.com.br+5.
Feminicídios: o ódio que mata
- Em 2023, o Brasil registrou 1.463 feminicídios, o maior número da história — média de uma mulher vítima a cada seis horas .
A motivação por trás dos ataques
O caso de Melissa se insere em um contexto de radicalização e misoginia: redes como Discord e Telegram hospedam grupos que conspiram e incentivam violência contra mulheres e vulneráveis, como mostram casos recentes com influência externa .
Reflexão
Os números mostram que a violência letal em escolas está crescendo — básica e provocada por adrenalina, misoginia e preconceito. Crimes virtuais de ódio proliferam e inspiram ações extremas. A pergunta é: quando vamos reagir com políticas que priorizem a prevenção, o acolhimento e a responsabilização verdadeira dos jovens — e não com punição parcial? O debate sobre o ECA, sobre a Lei Melissa Campos e a proteção às meninas não pode mais esperar.
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