Na manhã do dia 28 de abril de 2025, um episódio ocorrido nas imediações da Rua Ana Neri, entre os bairros de Benfica, Tuiuti e Olaria, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, transformou-se em um caso emblemático que hoje mobiliza familiares, juristas, coletivos populares e organizações da sociedade civil, como a ComCausa. O caso envolve os jovens irmãos Nuno Alexandre, Carlos Daniel e Carlos Gabriel, que foram presos após uma confusão com um taxista e, desde então, se encontram em prisão preventiva, mesmo sem apresentação de provas materiais, sem escuta formal e sem garantia dos direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal.
A prisão ocorreu após denúncia de um suposto assalto feita pelo próprio motorista de táxi, que alegou ter sido vítima de violência e roubo por parte dos jovens. Contudo, a família afirma com veemência que se tratou de uma briga iniciada pelo taxista, que teria quase atropelado um dos irmãos, retornado pela contramão, agredido fisicamente os rapazes e fugido do local. Desde então, os jovens permanecem detidos no Presídio Ari Franco, no bairro da Água Santa, aguardando audiência de instrução marcada apenas para o mês de setembro — mais de quatro meses após a prisão. A situação, considerada abusiva por especialistas e movimentos sociais, expõe profundas falhas no sistema penal brasileiro, especialmente quando se trata de jovens negros, pobres e moradores de periferias.
Versão do taxista e da Polícia
De acordo com o boletim de ocorrência registrado na 21ª Delegacia de Polícia (Bonsucesso), agentes do 4º BPM (São Cristóvão) estavam em patrulhamento de rotina pela região quando foram abordados por um taxista aparentemente em estado de nervosismo. O homem relatou ter sido atacado por três indivíduos armados, que teriam tentado roubá-lo, agredindo-o fisicamente e tomando seus pertences, entre eles um relógio. Alegou ainda que os supostos assaltantes tentaram assumir o controle do veículo, mas que ele conseguiu escapar e, posteriormente, visualizou três jovens que, segundo ele, seriam os autores do crime.
A partir de tal apontamento, os policiais abordaram Nuno Alexandre, que segundo os relatos da corporação apresentava nervosismo e usava uma camisa rasgada — circunstância que, por si só, foi interpretada como indício de envolvimento. Os outros dois irmãos foram localizados nas redondezas e, mesmo sem a posse de objetos da vítima, sem qualquer arma ou outro elemento probatório, foram conduzidos à delegacia, onde o taxista os reconheceu visualmente. Ainda assim, não foram apresentadas testemunhas independentes, nem imagens de câmeras de segurança, tampouco realizada perícia técnica que sustentasse a acusação. Mesmo diante dessas fragilidades, a prisão em flagrante foi convertida em preventiva pela Justiça.
A versão da família: “Foram vítimas de agressão, e não agressores”
Em contraste com a versão policial, a família dos irmãos apresenta uma narrativa absolutamente distinta e profundamente preocupante. Em declaração feita à, o pai dos jovens relatou que eles haviam passado a noite na Feira de São Cristóvão, ponto tradicional de cultura e lazer na zona norte da cidade, e retornavam para casa a pé, após deixarem amigas em segurança. Ao atravessarem a Rua Ana Neri, Carlos Daniel quase foi atropelado por um táxi que trafegava em alta velocidade. Diante do susto, reagiu com uma reclamação verbal. O que se seguiu, no entanto, fugiu de qualquer lógica racional: o motorista do táxi retornou na contramão da via, invadiu a calçada de um posto de gasolina e desceu do carro já agredindo fisicamente os jovens, acertando um soco em Nuno Alexandre.
Diante da agressão, os três irmãos teriam reagido em legítima defesa, iniciando uma briga que durou poucos minutos. Ainda segundo o pai, após o conflito, o motorista retornou ao veículo e tentou atropelar os jovens antes de deixar o local. Poucos minutos depois, a família soube que o mesmo motorista havia procurado uma viatura da Polícia Militar, denunciando o trio por roubo à mão armada — acusação que a família considera absolutamente infundada. “O taxista foi quem os atacou. Meus filhos apenas se defenderam. Não havia qualquer arma, não houve roubo, não existia ameaça. Foi uma confusão causada pelo próprio motorista, e agora meus filhos estão pagando por algo que não fizeram”, desabafou o pai.
Segundo seu relato à ComCausa, ao tomar conhecimento da prisão, ele foi até o local onde os filhos estavam detidos por policiais militares. Lá, foi informado de que seriam conduzidos à delegacia. Na unidade policial, os três jovens foram colocados em uma pequena cela improvisada, popularmente conhecida como “porquinho”, e havia a expectativa de que fossem ouvidos pelo delegado de plantão. No entanto, ainda conforme o pai, não houve qualquer escuta formal ou chance de apresentar suas versões dos fatos. Em seguida, foram transferidos para a Casa de Custódia de Benfica, e na audiência de custódia — momento fundamental para avaliação da legalidade da prisão — tampouco foram garantidos seus direitos ao contraditório e à ampla defesa. “Foi tudo muito rápido, sem defesa, sem escuta. Eles simplesmente sumiram com meus filhos para o sistema carcerário”, afirma.
Quem são os irmãos: jovens sem antecedentes, alvos da seletividade penal
- Nuno Alexandre, que completa 23 anos no próximo sábado, 7 de junho;
- Carlos Daniel, de 22 anos;
- Carlos Gabriel, o mais novo, com apenas 21 anos.
Segundo os relatos dos pais, os três irmãos são jovens trabalhadores e estudantes, sem histórico de envolvimento com atividades ilícitas, sem qualquer passagem anterior pela polícia. “Eles têm o perfil da juventude que o Estado prefere encarcerar: são negros, pobres e vivem em áreas periféricas. São vítimas do preconceito institucionalizado”, afirmou uma militante que acompanha o caso junto à ComCausa.
Mobilização social: o grito por justiça toma as ruas
O caso teve repercussão nas redes sociais, sendo compartilhado por movimentos populares, organizações de direitos humanos e internautas indignados com a injustiça. Vídeos de câmeras de segurança do posto de gasolina onde ocorreu a briga — e não o alegado roubo — foram divulgados e reforçam a versão da família, mostrando a confusão sem qualquer sinal de tentativa de assalto ou uso de arma de fogo.
Diante da morosidade processual e da ausência de elementos concretos que justifiquem a prisão, foi convocada uma manifestação pública para esta quinta-feira, 5 de junho, a partir das 14h, em frente ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, no Centro da cidade. O ato contará com a presença de familiares, apoiadores, representantes da ComCausa – Defesa da Vida, juristas e diversos coletivos. As pautas principais da mobilização são:
- A imediata revogação da prisão preventiva;
- A escuta formal e garantida dos três irmãos;
- A antecipação da audiência de instrução;
- A análise técnica das imagens de segurança;
- A responsabilização por eventuais ilegalidades ocorridas no trâmite do caso.
Conclusão: apelo por dignidade, justiça e escuta
Para os pais dos três jovens, o sentimento é de desespero diante da inércia institucional. “A gente quer só o básico: que escutem nossos filhos. Eles estão presos sem prova, sem defesa, sem voz. É uma dor que não passa, um pesadelo que se arrasta. Não é justo, não é humano. Nossos filhos merecem a chance de serem ouvidos, de se defenderem”, desabafa a mãe.
A ComCausa se posicionou publicamente, afirmando que acompanhará o caso de perto, por se tratar de uma grave violação de direitos e um retrato das estruturas racistas e seletivas do sistema penal brasileiro. A organização reforça que esse episódio reforça a urgência de um olhar mais crítico sobre o uso indiscriminado da prisão preventiva e sobre as falhas processuais que atingem, de forma desproporcional, a juventude negra e periférica.
A mobilização da proxima quinta-feira 5 de maio é, acima de tudo, um apelo coletivo por justiça, um clamor por escuta, e um chamado ao Estado para que restabeleça os pilares do Estado Democrático de Direito: legalidade, presunção de inocência, contraditório e ampla defesa.
Colaboru no texto João Oscar.
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