Crianças, adolescentes e jovens negros são as principais vítimas; vulnerabilidade social e desigualdade estrutural ampliam riscos

O desaparecimento de pessoas no Brasil apresenta um perfil estatístico que, longe de ser fruto do acaso, reflete de forma quase matemática as desigualdades históricas e estruturais do país. De acordo com os dados consolidados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, a vítima típica é um jovem negro, do sexo masculino, com menos de 29 anos, residente em territórios marcados por vulnerabilidade social, com baixa presença de serviços públicos e forte presença de dinâmicas criminais e violência armada.

O levantamento mostra que, somente em 2024, foram registrados oficialmente 73.370 desaparecimentos em todo o território nacional — o equivalente a mais de 200 pessoas sumindo por dia, ou um desaparecimento a cada sete minutos. No estado do Rio de Janeiro, os números chegam a 12.005, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP/RJ). A distribuição geográfica dos casos no estado é reveladora: mais de 40% ocorreram na Baixada Fluminense, região que, somada à capital, responde por quase metade das mortes violentas intencionais registradas no período.

Esses dados, por si só alarmantes, são ainda agravados pelo fator da subnotificação. Pesquisadores apontam que o número real de desaparecimentos é significativamente maior, pois uma parcela expressiva dos casos não chega a ser formalizada nas delegacias. Entre os motivos estão a desconfiança das famílias em relação à resposta das autoridades, a demora na aceitação do registro — ainda existente em algumas unidades policiais — e o estigma associado a determinadas populações, que leva a um tratamento discriminatório por parte de instituições estatais.

Perfis predominantes e recortes específicos

Embora mulheres também estejam entre as vítimas — especialmente em contextos de violência doméstica, feminicídio e exploração sexual —, os homens concentram a maior parte dos registros. Entre as crianças e adolescentes, os desaparecimentos frequentemente estão relacionados a conflitos familiares, negligência, fuga motivada por abuso, abandono, exploração sexual e, em alguns casos, aliciamento por facções criminosas.

O recorte racial evidencia o caráter estrutural do fenômeno: negros estão sobrerrepresentados nas estatísticas de desaparecimento, reproduzindo um padrão já observado nos índices de homicídios, abordagens policiais letais e encarceramento. O Atlas da Violência e o Anuário convergem na constatação de que jovens negros, pobres e moradores de periferias têm probabilidade muito superior de serem vitimados por violência ou desaparecimento.

Além desses grupos, existem perfis ainda mais invisibilizados. Pessoas com deficiência intelectual ou mental, idosos com doenças neurodegenerativas, indivíduos em situação de rua e migrantes indocumentados enfrentam riscos elevados, mas suas ocorrências são frequentemente subnotificadas ou registradas de forma precária. Nesses casos, a ausência de redes familiares estruturadas e o preconceito institucional agravam a invisibilidade e dificultam a busca.

Padrões temporais e tendências emergentes

A análise histórica dos dados indica um padrão que oscila menos por sazonalidade e mais por conjunturas locais — operações policiais de grande porte, deslocamento de conflitos armados entre facções, crises econômicas e até mesmo alterações em políticas públicas impactam diretamente a curva dos desaparecimentos. Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, houve uma redução pontual dos registros em alguns estados, possivelmente associada à redução da circulação de pessoas, seguida de uma retomada acelerada a partir de 2021.

Outro ponto de atenção é o crescimento das denúncias ligadas a crimes cibernéticos, aliciamento digital e exploração sexual online, sobretudo envolvendo crianças e adolescentes. Esses casos frequentemente desdobram-se em desaparecimentos temporários ou permanentes e ainda carecem de protocolos nacionais claros de resposta rápida.

As consequências da ausência e o papel do Estado

O desaparecimento de uma pessoa provoca não apenas um trauma familiar profundo, mas também uma ruptura no tecido social. As famílias, majoritariamente compostas por mulheres — mães, avós e irmãs —, tornam-se responsáveis por conduzir buscas, articular redes de apoio e enfrentar a burocracia institucional. Em muitos casos, acabam assumindo funções que seriam de competência do Estado, como a divulgação de informações, a pressão sobre autoridades e até a investigação paralela.

O Brasil ainda carece de uma política nacional plenamente estruturada de prevenção e resposta ao desaparecimento, apesar de avanços pontuais, como a criação de cadastros estaduais, a implementação de campanhas de coleta de DNA e a instalação de comitês intersetoriais. Essas iniciativas, entretanto, enfrentam problemas de integração, financiamento e continuidade administrativa, o que limita seu impacto efetivo.

Um problema estrutural e não episódico

Para pesquisadores e organizações de direitos humanos, o desaparecimento de pessoas no Brasil precisa ser compreendido como um fenômeno multifatorial, com raízes profundas na desigualdade social, no racismo estrutural e na precariedade das políticas públicas. É uma violação de direitos humanos que, por sua dimensão e recorrência, exige tratamento prioritário e abordagem intersetorial.

Enquanto o perfil predominante das vítimas continuar sendo o de jovens negros, pobres e moradores de periferia — e enquanto não houver políticas efetivas que atuem sobre as causas estruturais dessa vulnerabilidade —, as estatísticas seguirão crescendo. Mais do que números, cada registro representa uma história interrompida, uma vida arrancada de seu convívio, um vazio que nenhuma estatística é capaz de traduzir integralmente.

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