Por: Richarlls Martins, Coordenador-Executivo, Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro

Março é um mês que nos convoca a olhar com mais atenção para as mulheres e para as desigualdades que atravessam suas vidas nos territórios populares do Rio de Janeiro. Entre elas, o cuidado ocupa lugar central. Embora sustente o cotidiano das famílias, das comunidades e da própria organização social, o trabalho de cuidado segue sendo distribuído de forma profundamente desigual. No Brasil, são as mulheres as principais responsáveis pelas atividades domésticas e de assistência não remuneradas, e, nesse cenário, as mulheres negras concentram a maior sobrecarga.

Nas favelas do Rio, essa realidade se expressa de forma ainda mais intensa. Levantamento realizado em 17 comunidades do Rio de Janeiro, em parceria entre o Governo do Estado e a UERJ, apontou que 72% das casas em favelas são chefiadas por mulheres. Ao mesmo tempo, são elas que seguem na linha de frente das redes de apoio, das iniciativas de geração de renda, das associações locais e das estratégias comunitárias de proteção e cuidado.

Mas esse protagonismo não pode ser romantizado. Ele é atravessado por sobrecarga, insegurança, pobreza e diferentes formas de violência. No município do Rio, o Mapa da Mulher Carioca registrou, apenas em 2024, 67.090 notificações de ameaça contra mulheres, o equivalente a 65,5% das vítimas desse tipo de ocorrência. Em paralelo, pesquisa recente do Data Favela mostrou que a violência doméstica e o feminicídio aparecem entre os principais desafios enfrentados pelas mulheres moradoras de favela. Falar de cuidado, portanto, é também falar de proteção, autonomia e garantia de direitos. Não há promoção da saúde sem enfrentamento das múltiplas violências que atingem as mulheres em seus corpos, em suas casas e em seus territórios.

Neste artigo, reafirmamos que o cuidado precisa deixar de ser tratado como responsabilidade naturalizada e invisível das mulheres para ser reconhecido como tema central das políticas públicas, da justiça social e da saúde coletiva. No Rio, cuidar das mulheres, enfrentar a violência e fortalecer seu protagonismo nas favelas são dimensões inseparáveis da construção de territórios mais justos, saudáveis e comprometidos com a vida.

principais aspectos da vida das mulheres nas favelas

Liderança e Resistência: As mulheres estão à frente de associações de moradores e projetos sociais, lutando contra o machismo e o subemprego para garantir dignidade e serviços básicos à comunidade.

Empreendedorismo e Economia: Empreendedoras negras periféricas são fundamentais para o desenvolvimento econômico local, garantindo renda familiar em um contexto de alta informalidade.

Desafios Violentos: A violência doméstica e o feminicídio são vistos como maiores ameaças, com baixa confiança em instituições públicas de proteção.

“Feminismo Favelado”: Movimentos liderados por mulheres negras e jovens na favela criam um feminismo pautado no território, na resistência à opressão e na intersecção de raça, gênero e classe.

O protagonismo feminino nas favelas não apenas garante a sobrevivência familiar, mas transforma o território, consolidando-as como sujeitos políticos essenciais para a transformação social.

Por que esta publicação existe

Esta publicação integra o ComuniSaude da ComCausa, uma linha de comunicação pública que transforma a saúde — especialmente a saúde coletiva e o cuidado territorial — em informação clara, útil e acessível, com linguagem direta e compromisso com a vida real das pessoas.

O ComuniSaúde amplia o acesso da população das periferias do estado e das favelas do Rio a conteúdos que ajudam a compreender direitos, serviços, políticas públicas, prevenção e caminhos de cuidado, reafirmando a valorização do SUS como patrimônio coletivo.

Além de informar, o ComuniSaúde também contribui para articular o acesso a equipamentos públicos e redes de atendimento — como unidades básicas de saúde, clínicas da família, CAPS, UPAs, hospitais, vigilância em saúde, conselhos e serviços parceiros — ajudando pessoas e territórios a se orientarem e a buscarem cuidado com mais segurança.

Rede 146x Favelas: articulação comunitária em saúde

A participação do ComuniSaúde também dialoga com a Rede 146x Favelas, uma articulação de projetos e iniciativas comunitárias de saúde integral nas favelas do estado do Rio de Janeiro, construída a partir dos próprios territórios e conectada ao ecossistema do Plano Integrado de Saúde nas Saúde nas Favelas – Programa Saúde das Favelas.

.Em vez de ações isoladas, a rede funciona como uma malha de resposta territorial, reunindo cuidado, prevenção, comunicação e mobilização com base em vínculos comunitários e evidências técnicas. Entre os parceiros e instituições que sustentam e fortalecem essa articulação estão Fiocruz e Fiotec, com apoio e financiamento da Alerj, universidades e centros de pesquisa como UFRJ, UERJ, PUC-Rio, IFF e UENF, entidades científicas como Abrasco e SBPC, além de instâncias do SUS como o CONASEMS-RJ

No centro de tudo estão coletivos e organizações comunitárias, que executam ações no cotidiano dos territórios e garantem capilaridade, troca de metodologias e maior capacidade de resposta diante de emergências e vulnerabilidades históricas.

ComCausa ComuniSaude, acesse: comunisaude.org.br

Parceiros:

ComuniSaúde ComCausa Fiocruz

Imagem de capa ilustrativa.

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