Até a tarde desta quarta-feira (29), o governo estadual havia divulgado oficialmente 119 mortos, dos quais quatro eram policiais e os demais, segundo as autoridades, integrantes ou suspeitos de facção. Entretanto, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro estima que o número real pode chegar ou ultrapassar 132 mortos, com base em um levantamento próprio nas comunidades e em corpos que ainda não constavam no balanço oficial. Além das mortes, foram registradas ao menos 113 prisões e a apreensão de 118 armas, de acordo com dados preliminares.
Moradores relataram que, em muitos casos, corpos foram recolhidos por vizinhos e levados para a praça pública — em especial à Praça São Lucas, no Complexo da Penha — antes de qualquer registro oficial. Essa situação levanta sérios questionamentos sobre o protocolo de preservação de local do crime, identificação forense e a presença de agentes de segurança ou peritos. Ativistas de direitos humanos e moradores afirmam haver indícios de execuções sumárias, como disparos na nuca ou nas costas, pessoas amarradas, e falha no socorro ou evacuação em áreas de risco — acusações que ainda precisam ser investigadas.
Os relatos dos moradores também incluíram bloqueios de vias, impedimento à circulação, fechamento de escolas e unidades de saúde e um clima de “guerra urbana” nas comunidades atingidas.
Reação institucional e debate público
O governador Cláudio Castro qualificou a ação como um “sucesso” e afirmou que estava enfrentando não mais o “crime comum”, mas o “narcoterrorismo”. Por outro lado, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, considerou a operação “extremamente violenta” e manifestou preocupação com a perda de vidas — inclusive de civis.
A operação ocorre em meio à vigência da ADPF 635 — plano aprovado pelo Supremo Tribunal Federal para redução da letalidade policial no Rio —, o que reacende críticas de que as ações operacionais estariam desrespeitando os protocolos exigidos pela ação civil pública de controle externo.
A operação
Na manhã de terça-feira, 28 de outubro de 2025, uma vasta operação policial, mobilizando cerca de 2.500 agentes apoiados por helicópteros, blindados e drones, foi deflagrada nos complexos do Alemão e da Penha, zona norte do Rio de Janeiro. O objetivo declarado era cumprir mandados contra integrantes da facção Comando Vermelho, desarticular células armadas, apreender arsenais e conter a expansão territorial do crime organizado. Contudo, as consequências da operação — em especial o elevado número de mortes — desencadearam forte repercussão e denúncias de violações de direitos.
Para além dos números: uma reflexão com ComCausa
Se a segurança pública existe para proteger, este episódio levanta uma pergunta urgente: que tipo de proteção a sociedade está recebendo? Quando mais de cem mortes ocorrem em uma única operação, a vida humana — de moradores, policiais e agentes — torna-se estatística, quando deveria ser o princípio fundamental. A ComCausa reafirma:
- Transparência radical: é imprescindível a divulgação de listas nominais das vítimas, com laudos, data e local, para que as famílias possam buscar justiça.
- Preservação do local do crime e do direito à investigação: os corpos não podem ser removidos por moradores ou agentes sem perícia, tampouco a comunidade pode ser relegada a espectadora de sua própria tragédia.
- Participação social em segurança: moradores, coletivos, defensoria e ONGs precisam ser parte ativa da auditoria pública de operações, para evitar que o “controle de território” se sobreponha ao controle de vidas.
- Repensar o modelo da letalidade: uma política de segurança deve priorizar inteligência, investigação eficaz e interrupção de redes criminosas com a mínima letalidade possível, e não com um espetáculo de força.
- Memória, Justiça e Acolhimento: as vítimas, muitas vezes invisibilizadas pela mídia ou pelas estatísticas, merecem nome, comunidade e lembrança — não apenas o vazio dos números.
O que vem pela frente
Nas próximas horas e dias, haverá perícias, identificação de corpos e investigação por parte da Defensoria Pública e de órgãos de controle. As famílias buscam reconhecimento, reparação e, sobretudo, respostas. Também será essencial monitorar se esta operação inaugura um novo padrão de letalidade; se o Estado assumirá a responsabilidade por eventuais excessos; e se haverá mudanças reais no protocolo de segurança pública para evitar a repetição deste tipo de episódio.
Enquanto isso, o Rio de Janeiro — e o Brasil — observam com apreensão: que a “guerra contra o crime” não se transforme numa guerra contra as comunidades. Este é o momento para reafirmarmos: a vida não é contingência de operação, e a segurança não é sinônimo de letalidade. A ComCausa – Defesa da Vida permanece firme no compromisso de tornar visível o invisível, dar voz ao inaudível e proporcionar dignidade onde há dor.
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